- Guarda Reborn: A batalha por um bebê que não respira, mas gera lucro - 23 de junho de 2025
O caso curioso e revelador de um casal em Goiânia, que levou à Justiça a disputa pela guarda de uma boneca reborn (com aparência hiper-realista de bebê), gerou diversas reações nas redes sociais e na mídia (G1, 2025). Após o fim do relacionamento, a mulher afirmou considerar a boneca parte da família. Por isso, pediu a guarda compartilhada, a divisão dos custos do enxoval e o acesso ao perfil da “criança” no Instagram que já gerava renda. O episódio, que parece absurdo à primeira vista, revela camadas profundas sobre como o mercado e as mídias moldam, capturam e transformam nossas relações afetivas e interpessoais.
Para entender esse fenômeno, é necessário analisá-lo com base em duas abordagens: a Teoria Crítica da Comunicação e a Teoria da Economia Política da Comunicação. A Teoria Crítica, desenvolvida por autores da Escola de Frankfurt como Horkheimer e Adorno, investiga como os meios de comunicação e a cultura de massa reforçam ideologias dominantes. Ela mostra como esses meios produzem alienação e naturalizam relações de poder, muitas vezes disfarçadas de entretenimento ou normalidade.
Já a Teoria da Economia Política da Comunicação analisa as estruturas de poder econômico que controlam a produção e circulação das mensagens. Ela se concentra na lógica do lucro, na propriedade dos meios e na transformação da comunicação em mercadoria. Essa teoria mostra como o mercado impõe suas regras até sobre o conteúdo emocional.
O caso da bebê reborn reflete essas duas perspectivas. A mulher tratou o objeto como parte da família. Esse comportamento se alinha com uma cultura de massa que cria laços afetivos com mercadorias. A Teoria Crítica descreve esse tipo de vínculo como alienação moderna. Os sentimentos passam a depender de objetos e narrativas vendáveis. As redes sociais intensificam essa lógica.
Quando o casal monetizou o perfil da boneca no Instagram, a Economia Política da Comunicação entrou em cena. O afeto virou capital simbólico e financeiro. O que começou como fantasia ou hobby passou a ser um ativo digital. Isso justificou a disputa legal, como se o perfil fosse um bem patrimonial.
A judicialização desse vínculo artificial revela um traço crescente da sociedade contemporânea. As pessoas recorrem às mídias para validar emoções. O consumo não se limita ao lar; ele invade os laços afetivos. A exposição vira um critério de autenticidade. A boneca reborn, assim, deixa de ser brinquedo. Ela se torna mercadoria valiosa. Gera engajamento, visualizações e lucro. A crítica da Escola de Frankfurt se confirma: o capitalismo moderno transforma até os sentimentos em produtos. O afeto se esvazia e cede lugar à sua representação espetacular.
Esse caso nos força a pensar sobre os limites entre o real e o representado. Ele desafia a fronteira entre o humano e o mercantil. A mídia e a lógica financeira ocupam até os espaços íntimos. Criam novas formas de convivência, onde o afeto precisa aparecer e render. A reborn disputada em tribunal simboliza uma sociedade que empacota até o amor para exibir e negociar.
Por isso, torna-se essencial uma análise crítica da comunicação e das estruturas econômicas que a sustentam. O caso não é apenas um exagero emocional. Nem se trata de uma excentricidade judicial. É um sintoma profundo. Mostra como a comunicação, o consumo e a economia estão moldando nossas formas de amar, cuidar e existir. Quando o afeto entra na lógica do mercado, ele perde sua espontaneidade. Passa a seguir roteiros prontos. Vira espetáculo. Vira produto.
