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ALESSANDRA GABRIELY ALVES SILVA

A introdução da inteligência artificial (IA) nas bibliotecas universitárias tem transformado profundamente os modos de acesso, organização e mediação da informação. Tais mudanças não são apenas tecnológicas, mas também comunicacionais e sociais, uma vez que impactam diretamente o papel do bibliotecário e as relações entre usuários e sistemas informacionais. A partir da Teoria Crítica, este ensaio propõe uma análise reflexiva sobre os usos e implicações da IA nos ambientes bibliotecários, com base no trabalho de Ricardo (2024), que discute os desafios éticos, técnicos e profissionais envolvidos na aplicação de tecnologias inteligentes em bibliotecas universitárias brasileiras.

Originada na Escola de Frankfurt, a Teoria Crítica propõe uma análise que ultrapassa a função instrumental da tecnologia e da mídia, examinando seus efeitos sobre a cultura, a subjetividade e as relações de poder. Pensadores como Adorno, Horkheimer e Habermas alertaram para os perigos da racionalidade técnica, que tende a transformar os sujeitos em meros receptores passivos de sistemas automatizados. No contexto da biblioteconomia, a teoria crítica convida à reflexão sobre como os sistemas de IA afetam a autonomia dos usuários, os processos de mediação informacional e a ética da comunicação.

O artigo de Ricardo (2024) apresenta uma revisão de literatura atual que identifica o uso crescente de ferramentas baseadas em IA em bibliotecas universitárias, como assistentes virtuais, sistemas de recomendação e plataformas automatizadas de tratamento da informação. Embora esses recursos prometam ganhos em eficiência, personalização de serviços e ampliação do atendimento, uma análise crítica revela riscos importantes: a diminuição do papel do mediador humano, a reprodução de preconceitos nos algoritmos, a dependência excessiva de tecnologias e a restrição da autonomia informacional dos usuários.

Conforme destaca a autora, ainda que as tecnologias de IA tragam benefícios operacionais, o bibliotecário continua desempenhando uma função indispensável na mediação do saber. Essa visão converge com os pressupostos da teoria crítica, que alerta para os perigos de um processo de automação acrítica das práticas informacionais. A utilização de chatbots, por exemplo, embora eficiente em atendimentos básicos, não substitui a capacidade humana de interpretar contextos culturais e sociais, o que pode levar a experiências limitadas e pouco significativas para os usuários.

Além disso, Ricardo (2024) ressalta questões éticas importantes, como a necessidade de garantir transparência nos mecanismos de IA, proteger a privacidade dos dados pessoais e evitar a propagação de desinformação. Essas preocupações ecoam os alertas da teoria crítica sobre a racionalidade técnica como forma de dominação simbólica, especialmente quando os processos decisórios se tornam opacos e escapam ao controle do usuário e do profissional da informação.

A inteligência artificial, quando aplicada às bibliotecas universitárias, representa um avanço relevante na modernização dos serviços informacionais. No entanto, conforme revela a análise crítica aqui proposta, baseada no artigo de Ricardo (2024) e na Teoria Crítica, a adoção dessas tecnologias exige vigilância ética, responsabilidade profissional e consciência crítica. O bibliotecário contemporâneo deve ir além da operação de sistemas inteligentes, assumindo o papel de agente reflexivo e ético diante das transformações tecnológicas e comunicacionais. Preservar o espaço da mediação humana e promover uma biblioteconomia crítica são atitudes fundamentais para garantir o acesso livre, ético e consciente à informação.

Referências:

RICARDO, Mariana Magalhães. O uso da inteligência artificial em bibliotecas universitárias. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biblioteconomia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/290598. Acesso em: 18 jun. 2025.

HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

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