Tempo de leitura: 4 min
Maria Eduarda Pereira Lopes

O projeto de lei “Livros que Empoderam”, apresentado na Assembleia Legislativa do Piauí, propõe que no mínimo 20% do acervo das bibliotecas públicas e privadas sejam compostos por obras sobre igualdade de gênero e empoderamento feminino. A iniciativa, defendida pelo deputado estadual Dr. Marcus Vinícius Kalume, busca fortalecer a educação ao promover o debate sobre direitos das mulheres, liderança feminina e combate à violência de gênero. Ao propor essa cota, o projeto demonstra como políticas públicas podem oferecer à biblioteca escolar a chance de atuar como espaço de resistência e emancipação.

Para entender por que essa mudança é tão relevante, recorremos à Teoria Crítica, surgida na Escola de Frankfurt. Ela ensina que cultura, educação e comunicação não são neutras, mas carregam os interesses de quem detém o poder. Cada livro que chega à prateleira reflete escolhas políticas podendo reforçar desigualdades ou abrir caminho para vozes historicamente silenciadas. Identificar formas de dominação, seja o racismo, o sexismo ou a desigualdade econômica e apontar caminhos para a mudança social são tarefas centrais dessa abordagem.

É justamente a partir dessa visão crítica que a biblioteca escolar assume um papel transformador. Ao abrir espaço para todos, com atenção especial às mulheres que até hoje carregam marcas de submissão, ela pode se tornar um local de liberdade e formação de pensamento crítico. Cada escolha de livro, cada oficina e cada conversa passam a ser oportunidades para dar voz a quem por muito tempo ficou à margem, mudando a função da biblioteca de mero depósito de livros para terreno de luta e emancipação.

Mais do que apoiar o estudo formal, a biblioteca escolar é essencial na formação de cada ser humano em sociedade. É nela que estudantes aprendem a conviver, a respeitar diferentes opiniões e a exercer a cidadania. Clubes de leitura, rodas de conversa e oficinas ajudam a desenvolver empatia, confiança e senso de pertencimento. Esses encontros mostram que aprender vai além dos livros didáticos e faz parte de construir relações mais justas e solidárias.

Oferecer acesso gratuito ao conhecimento já desafia a lógica que transforma cultura em produto para poucos, mas precisamos ir além do empréstimo de livros. É fundamental perguntar se o acervo contempla diferentes saberes ou se permanece dominado por obras eurocêntricas, coloniais e distantes da realidade de tantas jovens e mulheres. Se as estantes continuam vazias de autoras que falam de experiências femininas reais, histórias de resistência à submissão social, cultural e econômica, então a biblioteca ainda não cumpriu seu papel de emancipação social.

Dentro da luta feminista na biblioteca não basta reunir títulos assinados por mulheres. É preciso reconhecer os silenciamentos e as hierarquias que ainda hoje mantêm muitas mulheres presas a papéis de domesticação mental. Quantas autoras negras, indígenas ou periféricas aparecem nas prateleiras? Onde estão as narrativas de mulheres que questionam normas heterossexuais, rompem estereótipos e afirmam o direito de falar, de protestar e de lutar por seus direitos? Quando projetos de leitura e atividades pedagógicas destacam essas trajetórias, a biblioteca se torna um ponto de encontro e fortalecimento para meninas e jovens que precisam ver refletida em páginas a possibilidade de liberdade.

As práticas de inclusão devem abranger ainda o combate ao racismo, ao classismo e ao capacitismo em cada etapa do trabalho. Desde a seleção de obras até a organização de rodas de conversa, todas ações devem valorizar minorias, principalmente mulheres, negras, indígenas e com deficiência. Questionar quem está ausente em cada evento ou vitrine ajuda a revelar as razões históricas desse silêncio e a abrir caminho para uma inclusão real.

Quando a biblioteca assume esse compromisso ético, ela deixa de ser apenas um depósito de livros e se transforma em um território político de liberdade. A leitura se torna ponte que conecta experiências diversas e a solidariedade se fortalece por meio das histórias compartilhadas. Cada vez que uma jovem encontra na estante um livro escrito por uma mulher parecida com ela, a biblioteca cumpre seu papel maior de libertar mentes, mostrando que falar, questionar e lutar pelos próprios direitos é parte essencial de ser humano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *