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O artigo “Decolonizando os acervos das bibliotecas públicas: formação de coleções de literatura afro-brasileira” aponta sobre as bibliotecas públicas brasileiras como ações falhas em relação a representação do censo populacional e a realidade brasileira, sendo uma falha articulada e pensada com o propósito de repressão sutil, que traz estragos permanentes, se enraizando nas lentes sociais da humanidade, dado apenas como uma das camadas que significam e incorporam o racismo estrutural ligados a sociedade e suas instituições presentes. 

A invalidação e repressão arquitetada contra os conhecimentos, saberes e existências da população negra é vista claramente nas estantes das bibliotecas: o vazio acerca de autores negros e a ciência do conhecimento sob uma ótica negra, entrando em discussão como um dos pontos principais do artigo:

Nesta sociedade ainda tem valido, sob novas demandas, como o fato de que a informação não é mais apenas produtora de valores, mas também se torna mercadoria principal, a valorização dos interesses sociais, políticos e econômicos dos grupos dominantes,  naturalizando  e  essencializando  suas  determinações,  cujo  efeito  é  a  manutenção  do  poder,  a perpetuação  de  visões  de  mundo  essenciais,  eurocêntricas,  coloniais.  Tais  relações  de  poder  e  de  controle se  manifestam  nas  bibliotecas,  nas  práticas  profissionais,  e,  nas  políticas  de  formação  e  desenvolvimento coleções (TANUS; SOUZA, 2022, p.5)

As coleções presentes em bibliotecas são mais uma parte da demonstração do espelho monocultural e eurocêntrico vigentes no mundo. A proposta do artigo é a discussão efetiva de como a ação técnica da formação de acervos regidos por temas e autores negros possam ser utilizados como ferramenta política de combate ativo a repressão e ao racismo estrutral, sendo colocado como um projeto ativo de decolonização e ressignificação do conhecimento:

Contudo,  não  se  pode  reduzir  a  biblioteca  ao  seu  acervo  (figura  estática),  devendo  haver  a  circulação dos  corpos  dos  sujeitos  autores  e  leitores  que  trazem  suas  próprias  vozes,  experiências,  conhecimentos  e pensamentos. A biblioteca enquanto um espaço múltiplo de conhecimento deveria contribuir para romper a lógica do imaginário do mundo moderno e colonial (TANUS; SOUZA, 2022, p.5)

A partir dessa perspectiva perspicaz, é notável o movimento bem pensado e efetivo do projeto de descolonização do conhecimento, saberes e corpos negros. O movimento  “teórico  e  prático,  político  e  epistemológico”  (BALLESTRIN,  2013,  p.  89)  de  resistência e luta à lógica do colonialismo,  acontece  em  uma  biblioteca  que  enfrenta  “as raízes de dominação vistas no saber do ser e no ser” (MIGNOLO, 2005). 

Os autores aplicam essa lente à biblioteconomia, expondo que as práticas e ferramentas da área, muitas vezes vistas como neutras e universais (como os sistemas de classificação e os critérios de “qualidade literária”), estão, na verdade, impregnadas pela lógica colonial. Sendo notável cada vez mais explícito o argumento de que a biblioteca é uma arena política, desconstruindo radicalmente o mito da neutralidade bibliotecária. A ausência de literatura afro-brasileira não é uma “neutralidade”, mas sim uma declaração política de exclusão que ensina aos usuários, de forma implícita, que a produção intelectual negra não existe ou não tem valor para agregação a literatura e saberes. A questão, para os autores, é a tomada de consciência e de uma posição concreta por parte dos profissionais da área de biblioteconomia de enfrentamento e resistência ativa em relação a colonização do conhecimento.

O desenvolvimento do artigo “Decolonizando os acervos das bibliotecas públicas: formação de coleções de literatura afro-brasileira” oferece uma demonstração prática e politicamente engajada dos conceitos fundamentais da Teoria da Representação, como estruturada por Stuart Hall, demonstrando que a luta política está presente nas estantes como a construção de identidades, a distribuição de poder simbólico e a luta por uma sociedade mais justa.

A Teoria da Representação orquestrada por Hall oferece uma poderosa “caixa de ferramentas” teórica para analisar criticamente a cultura, a mídia, a política e as identidades no mundo contemporâneo. A mídia, a linguagem e as imagens não são espelhos que refletem a realidade como ela realmente é (premissa da abordagem construtivista da Teoria da Representação por Stuart Hall). Em vez disso, elas são sistemas que constroem a realidade.

A representação é o ato de dar significado, sendo um processo que não permite neutralidade, exigindo uma ação social necessária para os grupos sociais afastados, reprimidos e modificados para uma outra natureza aos olhares da sociedade, visto que esse movimento predatório é realizado pelos sistemas que constroem a falsa realidade que nos cerca. Esse movimento é necessário para o controle em massa e modificação da realidade, por essa razão uma ação social é, em suma, uma forma prática de desabilitação da ótica construída acerca da realidade.   

[…] uma ação social é significativo tanto para aqueles que um praticam quanto para sistema operacional que a observam: não em si mesma, mas em razão de muitos e variados sistemas de significado que os seres humanos utilizam para definir o que significam como coisas para codificador, organização e regular sua conduta uns em relação aos outros. (HALL,1997, pág. 16)

O artigo aplica este princípio da Teoria da Representação de forma direta ao acervo da biblioteca, considerando uma das argumentações principais dos autores que define o funcionamento do acervo da biblioteca pública como uma arena política, uma linguagem/discurso estando longe de ser um espelho neutro do mundo:

A  biblioteca  pública  tem  como  missão  mais  importante  atender  a  comunidade  em  que  está  inserida  e, por isso, deve estar atenta à diversidade cultural, aos desejos, necessidades e demandas de informação dessa comunidade. Como cada leitor da biblioteca tem suas experiências e trajetórias de vida, cabe a ela fugir das generalizações (pretensos universalismos) contidas no pensamento hegemônico, este que gesta um modelo de  usuário  ideal,  e  desconsidera,  silencia,  rasura  todos  aqueles  que  se  afastam  desse  modelo.  Tal  afirmação é comprovada pela literatura da área da biblioteconomia nas declarações de que a trajetória das bibliotecas conduziu ao alargamento das desigualdades entre os que têm acesso à informação, de um lado, e os que, por outro lado, continuam sendo excluídos da “sociedade da informação”, não acessando as bibliotecas.. (TANUS; SOUZA, 2022, p.5)

Aesmagadora ausência de autores negros não “reflete” uma suposta falta de produção intelectual; ela constrói ativamente uma realidade simbólica e alterada para o leitor. Nessa realidade construída, o conhecimento, a arte e a filosofia são implicitamente representados como brancos e eurocêntricos. O artigo mostra que o “vazio” na estante é, na verdade, uma representação carregada do significado que a definição da ausência possui, direcionando o usuário ao conceito sobre quem tem valor e quem é invisibilizado no mundo do saber. 

Stuart analisa como a representação é usada para exercer poder, especialmente através da criação de estereótipos e da marginalização do “Outro”. Ao sistematicamente excluir a literatura afro-brasileira, o sistema da biblioteca não está apenas omitindo livros, está participando de um processo que representa todo um sistema de conhecimento (uma epistemologia) como inválido ou inexistente; caracterizando-se como epistemicídio (o apagamento da construção do conhecimento), é resultado dessa prática de representação que estereotipa o “outro” e nega sua capacidade de produção de conhecimento digno de registro. Nesse caso, a biblioteca torna-se um agente que solidifica uma representação hegemônica que marginaliza e silencia, alinhando-se à análise de Hall sobre como o poder simbólico mantém as hierarquias sociais. 

O significado não é fixo para Hall, logo a representação será sinônimo de disputa. A formação de coleções intencional e politicamente orientada é a simbolização de disputa e contra-representação presente no artigo, propondo que os bibliotecários contribuam na ressignificação da literatura brasileira e bibliotecas públicas. A autonomia de construir e controlar as próprias representações é um destaque na Teoria da Representação de Hall, destacando entre ter a representação pelos outros e o poder da representação realizadas pelo eu. A decolonização do acervo, sob a ótica da Teoria da Representação, é a afirmação do direito de uma comunidade de narrar a si mesma, de construir suas próprias imagens e da definição dos seus próprios termos sem a influência esmagadora do racismo construído na sociedade. 

REFERÊNCIAS

Ballestrin, L. América Latina e o Giro Decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, 11, 89-117, 2013.

HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Porto Alegre: Educação & Realidade, v. 22, nº2, p. 15-46, 1997.

MIGNOLO, W. (2005). A colonialidade de Cabo a Rabo: o Hemisfério Ocidental no Horizonte Conceitual da Modernidade. In E. Lander (Org.), A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Ciudad Autónoma de Buenos Aires:CLACSO. Disponível em: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624094657/6_Mignolo.pdf. Acesso em: 17 jun. 2025.

MORAES, Maria. Stuart Hall: Cultura, Identidade e Representação. Revista Educar Mais. 3. 167-172. 10.15536/reducarmais.3.2019.167-172.1482, 2019. Acesso em: 21 jun. 2025.

TANUS, G. F. de S. C.; SOUZA, G. T. C. de. Decolonizando os Acervos das Bibliotecas Públicas: Formação de Coleções de Literatura Afro-Brasileira. Palabra Clave (La Plata), [S. l.], v. 12, n. 1, p. e170, 2022. DOI: 10.24215/18539912e170. Disponível em: https://www.palabraclave.fahce.unlp.edu.ar/article/view/pce170. Acesso em: 17 jun. 2025.

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