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Nesta entrevista, o apresentador esportivo Cláudio Silvério Teixeira compartilha um pouco de sua trajetória e vivências no jornalismo esportivo. Formado em Comunicação Social, Radio e Televisão pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ele soma aproximadamente 33 anos de profissão.

Aos 55 anos, Cláudio é reconhecido por sua dedicação e versatilidade no meio esportivo. Atua há quase 19 anos na Record TV Goiás, onde apresenta programas que acompanham de perto o universo do esporte. Ao longo da conversa, ele fala sobre sua rotina, os desafios da carreira, momentos marcantes e ainda dá conselhos para futuros jornalistas que desejam seguir nessa área. Confira a entrevista a seguir:

Foto: redes sociais do entrevistado

Layslla: O que despertou o interesse do senhor pelo jornalismo e especificamente pelo jornalismo esportivo?

Cláudio Silvério: Eu sempre gostei de esporte, sempre fui um apaixonado por todos os esportes, é claro, principalmente o futebol. Acompanhava tudo: basquete, vôlei, Fórmula 1, boxe, engraçado que não gostava muito de tênis e hoje sou um praticante de tênis, que coisa! E como todo menino, queria ser jogador de futebol, e eu era bom de bola, não é papo não, às vezes o povo acha: “Ah, você tá conversando demais”, eu falei: “Não, eu era bom de bola mesmo”. Acho que se eu tivesse forçado um pouco, até teria sido jogador.

Mas aí não deu certo e eu falei: “Eu quero continuar nesse ramo. Se não vai dar para ser jogador, se não vai dar para dar entrevista, eu vou entrevistar”. E desde quando desisti do futebol e pensando em faculdade, queria fazer o jornalismo esportivo, sempre mirei também na apresentação de um programa esportivo. Deu certo, graças a Deus. É um sonho realizado ser um apresentador esportivo de televisão.

Layslla: como é a rotina do senhor como apresentador esportivo?

Cláudio Silvério: Ah, é rotina é cansativa, porque nesse mundo do esporte, o negócio muda muito rápido, a todo momento tem uma notícia nova. Aquilo que você preparou para o jornal, daqui um minuto desmoronou porque teve uma reviravolta, aconteceu alguma coisa, é aí que é cansativo. Você tem que estar sempre bem informado, é internet, site, rádio, jornal, televisão, eu vivo isso o tempo inteiro. Aí tem hora que cansa, mas não pode parar de procurar notícia. Eu aqui antes de ir para o ar, eu dou uma repassada final até uns 10 minutos antes, vejo todos os sites, ouço todos os programas de rádio, que agora está até mais fácil, né? Que eles fazem via internet, a gente consegue acompanhar em outro horário que é só puxar da internet que está lá para ficar sabendo das informações. E além de tudo isso, você tem que acompanhar os jogos, “Ah, tem jogo à noite”, você tem que assistir, “tem jogo à tarde”, você tem que dar um jeito de ver os melhores momentos, é acordar cedo e dormir tarde. Aqui a minha jornada também é cansativa, porque a equipe nossa de esporte da Record, eu chamo de “Euquipe”: só tem eu, tem que fazer a produção, redigir, escrever tudo lá no programa, editar, além de ter que procurar os vídeos da internet. Então não é fácil, acaba que você é um multifuncional.

Layslla: já teve algum momento marcante na sua carreira?

Cláudio Silvério: Ah, Tem muitos, teve muitos momentos bons. A primeira vez que eu transmiti o jogo do Maracanã ao vivo aqui para a TV goiana, foi marcante e emocionante. Depois fomos uma segunda vez, a gente fez Anapolina e Fluminense pela série C, depois Goiânia e Fluminense também pela série C lá no Maracanã, o técnico do Fluminense era o Carlos Alberto Parreira, tirei muitas fotos com ele lá embaixo, lá no gramado do Maracanã. A gente fez uma final da Copa Centro-Oeste entre Cruzeiro e Vila Nova também lá no Mineirão ao vivo aqui para Goiânia. Também foi emocionante.

Layslla: Quais são as maiores dificuldades que o senhor enfrentou para se consolidar como apresentador esportivo?

Cláudio Silvério: Para entrar na área não é fácil, quando você forma, até alguém te dar uma oportunidade não é fácil não. E no jornalismo esportivo, pelo menos na minha época, era mais complicado, mais difícil ainda, que ninguém se importava se você tinha um curso superior ou não. E agradeço demais por ter feito esse curso superior, porque foi graças a ele que eu consegui entrar no meio esportivo, onde eu queria. Eu comecei na Rádio Clube de 1992 para 1993, mas rapidinho, três meses a equipe quebrou, o chefe não deu conta de manter e aí foi todo mundo demitido. Eu também fiz telecomunicações na escola técnica, aí nesse período de entressafra [intervalo, uma fase de transição] eu trabalhei como técnico em telecomunicações, até conseguir uma nova oportunidade em 1995 na difusora com o Mané de Oliveira.

Lá eu fui três dias seguidos para pedir emprego, fui num dia, ele não me deu nem moral “volta amanhã”, no outro dia eu fui de novo ele: “Rapaz, já falei que eu não tenho tempo para conversar com você, volta amanhã”. Aí no terceiro dia eu fui, ele subindo nas escadas, eu subindo atrás dele, ele: “Pelo amor de Deus, você tá aqui de novo? Você é jornalista, você tem pelo menos um curso superior?” eu falei assim: “Tenho”, aí no que eu falei que tenho, ele já deu uma parada e olhou diferente para mim. Porque ninguém tinha curso superior, ninguém tinha nessa época, 1992, 1995, ninguém que trabalhava na imprensa tinha. Graças ao curso, eu entrei, só que assim, fiquei trabalhando de graça um mês, dois meses, sem receber.

Fiquei fazendo rádio escuta, nem sei se você sabe o que é. Rádio escuta é o seguinte: eles davam aqueles radinhos AM e botava você para escutar um jogo lá do Paraná, hoje está fácil, todo mundo vê jogo na televisão, mas antes não tinha isso. Eu ficava escutando um jogo lá, “Cláudio, você vai fazer Coritiba e Atlético Paranaense”, o plantonista falava para mim: “Se sair o gol, você me fala”. Eu falava: “Ó, gol do Atlético Paranaense” aí ele já danava comigo: “Quem que fez o gol? Que minuto que fez o gol? Você tem que me passar tudo certo”. Já no segundo domingo eu: “Gol do Coritiba, Lela, 45 minutos do primeiro tempo”, aí o plantonista é que falava: “Olha o gol, gol em Coritiba, Lela, 45 minutos, Coritiba 1 a 0”. Ali eu já ficava feliz, assim, eu que passei essa informação! E aí começou.

Layslla: O jornalismo esportivo historicamente foi um espaço dominado por homens. Como que o senhor enxerga a presença cada vez maior de mulheres nessa área, tanto como torcedoras como no jornalismo em si?

Cláudio Silvério: É, eu presenciei praticamente isso daí também, que na época que eu comecei eu lembro de uma que trabalhava em rádio. Depois os anos foram passando, aí eu fui para a televisão, em 1996 já comecei a fazer televisão, na equipe que eu trabalhei por 9 anos lá na TBC, com uma, no final é que tinha uma, eu lembro uma vez, não vou citar o nome dela, uma colega que estava fazendo estágio lá, ela até saía comigo para acompanhar as reportagens, e ele falou que mulher não dava conta de fazer o jornalismo esportivo que não entendia.

Aí você pensa: “Pô, moço, o cara não pode falar isso”, ele perguntou para essa pessoa qual era o goleiro reserva do Goiás, ela na reunião, eu achei constrangedor, ela não soube, ele perguntou quem era o goleiro titular, ela também não soube. Aí ele disse: “né? Tá vendo? Você vai ser um excelente jornalista”, e nisso ele acertou, que ela é uma excelente jornalista, “mas para o esporte não é a sua praia”. E isso ficou marcado, falei assim: “Poxa, tão legal a menina, minha amiga e tal”, mas ela não ficou. Mas com o passar do tempo outras vieram e assumiram o posto e eu acho que isso acabou, não tem esse negócio de ser homem, de ser mulher.

Antes era aquele negócio, tinha que ser homem, tinha que ser bonito e ter vozerão, depois poderia ser mulher bonita. Sendo bonito, feio, homem, mulher, gordo, magro, acabou isso. Antes a gente não podia usar branco na televisão, acabou isso, todo mundo usa branco e tal. Então, tudo pode, desde que tenha competência, desde que goste do que tá fazendo. Eu brinco muito, eu falo igual no futebol, eu não quero saber se o cara ele é rápido, ele é lento, ele é gordo, ele é magro, ele é alto, ele é baixo, ele é bom de bola? Tem que jogar bola, não é? E aí ele vira jogador. E jornalista do mesmo jeito, ele é bom, ele gosta, ele sabe, ele entende, faz direitinho, que seja homem, que seja mulher, não importa.

Layslla: Para finalizar, eu só queria que o senhor desse alguns conselhos para os futuros jornalistas que querem atuar nessa área esportiva.

Cláudio Silvério: Ah, dar conselho é complicado, né? Uma coisa que eu falo assim, faça porque gosta, tem que gostar, e na maioria das vezes, quem faz o jornalismo esportivo é porque gosta e gosta muito. Já foi muito mais, marginalizado dentro da hierarquia, assim “ah, eu faço o jornalismo político, eu faço o jornalismo do dia a dia, economia e esporte não é jornalismo”. Diminuiu muito mas ainda existe um certo preconceito para quem faz ou quem trabalha com o jornalismo esportivo. E na maioria das vezes o jornalista que não é do ramo do jornalismo esportivo, ele sente dificuldade quando ele tem que fazer uma reportagem nessa área.

Já o jornalista esportivo, ele consegue entrar em qualquer área sem muita dificuldade, porque é muito improviso no jornalismo esportivo, é muito desenvolto, então acontecem muitas coisas rapidamente e você tem que se virar nos 30. O jornalista esportivo, eu acho que ele leva uma vantagem nisso daí, ele consegue mapear nos outros, e o jornalista que não é o esportivo, ele sente mais dificuldade. Mas o conselho é esse: primeiro de tudo gostar, não desistir e você vai enfrentar de repente uma certa da resistência, de repente no início você vai ganhar até um pouco menos, mas se você tá fazendo com prazer, você vai voar, vai deslanchar e vai ser feliz também. Eu venho para cá [para emissora] para trabalhar, venho feliz, assisto o jogo que eu gosto, faço tudo que eu gosto e tal. É diferente, é melhor do que você fazer aquele negócio porque eu tenho que fazer, “nossa, eu tô indo para a empresa hoje, meu Deus do céu, vou chegar lá que pauta que vai ter para mim? Deus, tomara que seja uma pauta boa, pauta suave”, jornalista esportivo não, ele tá pronto para o que der e vier.

Cláudio Silvério nos estúdios da Record TV Goiás foto: Layslla Lorrayne

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