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Felipe Vieira é um dos fundadores do OnTheClock, o maior portal brasileiro de informação sobre jogadores do futebol americano universitário. Ele também atua nas transmissões do NFL League Pass na DAZN e é considerado um dos maiores analistas de futebol americano no Brasil.

Nessa entrevista, Felipe conta um pouco de como se apaixonou pelo futebol americano e de sua trajetória como analista. Além disso, fala sobre as críticas recebidas pelo crescimento da NFL no Brasil e a tendência de evolução da liga nacionalmente.

Gostaria que você contasse como começou a sua história com o futebol americano.

Um jogo que estava passando, um compacto, não era nem ao vivo. E aí, “zapiando” a TV assim, quando tive a condição de ter TV a cabo pela primeira vez em casa, e eu falei: “Cara, que esporte é esse? Que maluquice”. E fiquei assistindo ali, tentando entender, sem um grande suporte, porque era um jogo de playoffs, então, obviamente que narrador e comentarista não está muito preocupado nesse momento em explicar as regras. O jogo está pegando fogo, então não dá para ficar parando muito para isso. E aí fiquei tentando entender ali que estava acontecendo, mas de certa forma tinha entendido ali que era uma conquista de território e fui procurando saber um pouquinho mais sobre aquilo. Terminei de assistir aquele playoffs [período de duelos eliminatórios da NFL] e durante a offseason [período sem jogos, onde ocorrem as mudanças de elenco] fui assistir mais conteúdo sobre o esporte, ainda para entender um pouquinho mais. E aí foi o ponto do não retorno. O momento que você aprende um pouquinho mais, que não é um esporte apenas agressivo e de fisicalidade, é claro que isso é uma parte muito grande do jogo, mas não é só isso. E eu diria que não é o principal fator do jogo, que é um jogo muito estratégico. Eu acabei me apaixonando pelo esporte e cada vez mais fui consumindo mais conteúdo e aí consumindo conteúdo externo também, conteúdo que vinha de fora e foi um momento que eu realmente me apaixonei tanto pelo esporte, que tornei aquilo como o esporte que eu tinha mais prazer em assistir, deixando um pouco o futebol de lado.

Hoje, então, você considera que tem mais prazer em assistir futebol americano em relação ao futebol?

Com certeza. Eu costumo dizer que eu não gosto de futebol, eu gosto do Palmeiras. Então eu não tenho prazer em assistir Premier League, em assistir Champions League, esse tipo de campeonato, esse futebol teoricamente é o de alto nível, o de elite. Porque eu assisto o apenas o Palmeiras que é o que que me dá prazer ainda, apesar dos problemas com o time, mas é o único que eu tenho um real interesse de acompanhar. O futebol americano não, o futebol americano eu assisto todos os times, independente de quem está passando ali.

Gostaria de saber também como que você começou a trabalhar na área, no OnTheClock, como que começou esse processo?

O OnTheClock, ele vem de um processo. Na NFL diferente do futebol, se tem um recrutamento que é feito dos jogadores que vêm do futebol americano universitário. Esse recrutamento ele traz um equilíbrio muito grande para liga, porque o pior time da temporada, ele tem direito a escolher quem teoricamente foi o melhor jogador do futebol americano universitário. E esse ponto, do draft [o recrutamento citado], ele me fez me apaixonar por isso também. E consumindo muito conteúdo de como fazer essa análise dos jogadores que vinham do futebol americano universitário, eu até fiz um curso lá fora de scouting [observação de jogadores] nos Estados Unidos à distância, mas ministrado por gente que que foi scout, foi diretor de scout em times profissionais e dentro do curso, eu acabei tendo um contato mais próximo com o Pedro Pinto, que era o comentarista na época do Esporte Interativo [hoje, TNT Sports], também estava fazendo o mesmo curso que eu.

E a gente nessa conversa, falando sobre o draft, a gente teve a ideia de abrir um site e nisso chamamos uma terceira pessoa, que era um amigo do Pedro, que foi o Deivis Chiodini, que hoje é comentarista da ESPN também. Isso lá em meados de 2017. Então, em 2017 a gente abre o OnTheClock, um site que era visado exclusivamente para análise do draft, e isso era algo que não tinha no Brasil em 2017. Era pouquíssimo falado em relação a tudo o que se pode falar do draft, o mercado cresceu muito nos últimos anos. Então, foi aí, 2017, a gente abre o primeiro podcast comigo, Pedro Pinto, que hoje é comentarista da Globo também e com o Deivis Chiodini, comentarista da ESPN.

Foi quanto tempo de distância entre você começar a assistir e você sentir o interesse em pesquisar mais do scouting?

Pro scouting, de verdade, porque antes de eu fazer esse curso também, eu já me interessava muito, já consumia muito esse tipo de conteúdo. Então, de eu conhecer o esporte, até ter uma análise um pouquinho já mais fundamentada no draft, foi algo em torno de uns 3 anos. Mas isso vai crescendo cada ano que passa, os estudos continuam obviamente e vai aumentando a capacidade de análise e o conhecimento sobre o draft em geral, então, vamos colocar aqui que o primeiro draft que eu faço realmente um pouco mais profissional, eu diria, é por volta de 2015 e em 2018 a gente já tem o primeiro draft já com o OnTheClock, esse foi o primeiro ano que eu tive já vendendo o meu trabalho como analista de draft. Fazendo o primeiro guia do draft do Brasil no ano de 2018.

Agora partindo para o lado mais falando da NFL no Brasil, no crescimento do mercado. Todos os esportes historicamente, principalmente lá nos anos 90 tinha NBA na TV aberta. Agora a NFL chegando na TV aberta, também chegando no YouTube. Como você acha que a TV aberta pode impactar nessa expansão da NFL aqui no Brasil?

Eu acho que esse vai ser um trabalho que vai precisar ser feito muito calculado pela Globo. Acredito que eles têm pessoas muito mais capazes do que eu para dizer como que será feito isso, mas a Globo, ela não pode colocar um jogo aleatoriamente num domingo e falar: “Seja bem-vindo a NFL” e vamos explicar as regras aqui conforme o jogo vai passando. Acho que não é isso que a Globo tem que fazer e nem é isso que ela pretende, pelo menos, pelo que eu entendi da estratégia dela. Você precisa trazer aos poucos o contato do brasileiro com o futebol americano numa pílula. No programa de esportes do almoço, falando: “No jogo de ontem o placar foi tanto”, mostram os melhores momentos, de repente num fantástico você exibe alguma coisa, do que aconteceu na rodada, muito rápido. Você não vai dar o mesmo espaço que você dá para o futebol, obviamente. Mas você vai começar a plantar essa semente ali para o público da TV aberta. E aí, é óbvio que plantando essa semente, você já vai ter pessoas que vão olhar aquilo e vão naturalmente pesquisar isso, por conta própria.

Você consegue preparar para um possível jogo, por exemplo, de um Super Bowl (partida que define o campeão da temporada da NFL) e não sabemos se a Globo vai exibir ainda, porque ela tem os direitos de exibir na TV aberta apenas a partir dos playoffs. Então temporada regular não vai exibir nada. Mas de repente em um jogo de playoffs, uma final de conferência, (partida que define os times que irão ao Super Bowl) no Super Bowl e você consegue exibir esse jogo com um pouquinho mais de ganho do público já conhecendo um pouquinho mais daquele esporte. Obviamente vai ter muita gente que não vai saber nada ainda, mas você tenta adaptar um pouquinho a sua transmissão para isso e eu acho que a Globo está fazendo um bom trabalho com o YouTube, com essas pílulas, de repente, nos programas esportivos. Eu acho que o caminho deve ser mais ou menos por aí, mas obviamente que para o esporte, você ter o alcance de uma Rede Globo é muito, muito impactante.

E você acha que dando essa pílula, como você definiu, a NFL tem uma possibilidade de em médio ou longo prazo competir em audiência com os esportes já mais consolidados no Brasil (futebol, vôlei) ou você acha que esse processo seria muito difícil?

Esse processo do futebol, eu acho que é um ponto impossível, assim, impossível de você ter uma competição de audiência com um esporte que ele está mais de 100 anos na cabeça do brasileiro. Então, para mim não é esse o ponto que que devemos mirar. Acho que dá para você mirar numa audiência parecida com que, por exemplo, o vôlei tem. O vôlei é um esporte também que tem uma audiência hoje bem maior do que futebol americano, mas obviamente que para os anunciantes, eles veem um valor maior no público do futebol americano, porque hoje ele é considerado um público A e B para os anunciantes. Então, se não tem tanta audiência assim, por que a Globo está dando tanto valor assim para a NFL, para o futebol americano? Porque nesse momento é mais vantajoso, financeiramente falando, a NFL do que o Vôlei. Então, acho que o ponto ideal seria chegar em um ponto de audiência parecida com a do vôlei.

Qual a sua opinião sobre as críticas que apareceram na internet também. Chamando de “crescimento forçado” ao colocar, por exemplo, a explicação no Jornal Nacional.

Eu acho uma tremenda baboseira, sinceramente. As pessoas que falam isso, elas não tiveram, pelo menos, a mínima condição de fazer uma pesquisa antes. Eu vou pegar por base a minha experiência própria e outras também, mas que acabam casando muito bem, o meu próprio site, OnTheClock e o canal no YouTube meu e do Deivis Chiodini também, são canais que a cada ano que passa, a gente tem um aumento orgânico de audiência. E esse crescimento orgânico, ele condiz muito com todas as pesquisas que são feitas. Então, quando eu olho lá a pesquisa e fala: “Olha, o futebol americano de um ano para o outro cresceu 15, 20% em relação ao ano anterior”. É basicamente o mesmo número que acontece nos meus canais, nos canais dos meus amigos que também trabalham com isso. Então, o futebol americano ele tem crescido de uma forma orgânica e muito saudável.

Não é um crescimento desenfreado, como, por exemplo, na época que o UFC aqui teve um boom, mas se devia muito pelo fato de ter muitos brasileiros, então, se torcia muito pelos brasileiros e pouco pelo esporte em si, eu acho que o crescimento do futebol americano aqui no Brasil, ele tá crescendo para ficar preparado para se não tiver nenhum brasileiro, hoje ainda temos um kicker, mas que não é relevante para a liga a ponto de audiência, por jogar numa posição menos impactante, mas não tendo nenhum brasileiro, vai continuar crescendo. Não é um ponto importante para o crescimento da liga hoje, óbvio que se em algum momento tivermos esse brasileiro, jogando em posições mais importantes, isso vai ter o crescimento que é natural, mas acho que estará mais preparado para receber esse aumento de audiência e de interesse no esporte.

Você acredita que essa possível chegada de um brasileiro, por exemplo, o Davi Belfort, é o caso mais palpável hoje em dia, que isso poderia ser talvez aquele passinho que falta para encostar de vez no vôlei, que é o esporte que você citou?

Acredito que sim. Obviamente, trazendo uma expectativa que ele seria um quarterback (posição mais midiática do jogo) titular em um dos 32 times. Eu acho que você realmente estoura a bolha em um ponto de todo mundo começar a falar sobre isso. Porque acho que é o que falta, porque o brasileiro, ele gosta muito de torcer para os seus, a Fórmula 1, enquanto teve brasileiro, sempre foi um esporte tradicional do domingo do brasileiro, mas quando não tem, não se teve o mesmo impacto. Óbvio que o esporte, ele continua sendo importante para muitos, mas o impacto ele diminui. E eu acho que isso está muito conectado com ter alguém para torcer.

O que você tem a dizer para aqueles que tem vontade de acompanhar o futebol americano mas acham difícil, de entender?

Eu peço que as pessoas tenham um pouco de paciência e deem uma segunda chance, caso a primeira impressão não tenha agradado, não tenha entendido. Porque o esporte para você conseguir acompanhar ele a ponto do entretenimento, você precisa, obviamente, parar e dar atenção para ele para você conseguir entender as regras. Parecem muitas coisas de começo e muitas faltas diferentes, mas isso aos poucos você vai naturalmente aprendendo conforme você vai assistindo mais. É um esporte que a parte estratégica me encanta muito e eu acho que as pessoas que gostam um pouquinho mais, desse tipo de coisa ou que gostam só da pancadaria ali também, da movimentação, da dinâmica do jogo, vão gostar. Então, se você ainda não acompanhou, não deu essa oportunidade, sugiro que faça, que não vai se arrepender.

One thought on “‘Acho uma tremenda baboseira’: Felipe Vieira, analista de futebol americano, opina sobre críticas de crescimento forçado da NFL”

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