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Em entrevista a Rádio Bandeirantes no ano de 2023, Adson Batista, presidente do Atlético Goianiense, apesar de dizer respeitar e apoiar, justificou o motivo de não investir e trabalhar com o mesmo esforço no time feminino, depois de citar que “não tem nem mulher direito pra fazer esses times” e criticar as estratégias de markenting da Rede Globo com a modalidade, já que não enxerga nelas “o jogo bonito”.
Mesmo com essa fala polêmica, o presidente do Atlético traz reflexões: o futebol vem crescendo de fato no estado? O time e os torcedores trabalham para que isso aconteça? Em Goiás, poucos são os times com uma estrutura digna para atender as jogadoras, o campeonato estadual ao menos é profissional, e só começou a ter premiações na edição de 2024, e a grande maioria das jogadoras nem tem a sua carteira assinada.
“Poucos são os estados que tratam o Futebol Feminino como ele deveria ser tratado”
Patrícia Menezes, Gestora do Aliança
EM QUE NÍVEL ESTÁ O FUTEBOL DO ESTADO?
“Eu acho que evoluiu, mas por conta que a Copa do Mundo Feminina será aqui em 2027(…) alguns torneios estão sendo feitos com incentivo da CBF e não das federações”.
Teresa Prado, Marias Futebol Goiano
De acordo com o Ibope, o interesse no esporte cresceu em 34% entre as mulheres nos últimos cinco anos, mas somente 6% das mulheres praticam o futebol, e esse número no Goiás é bem menor, ao ponto que nem há uma pesquisa sobre. Em comparação ao cenário nacional, o estado é superior a muitos estados do Norte e do Nordeste, e costuma receber jogadoras desses estados, mas por falta de incentivo e patrocínios, ainda existe um “abismo” do “Eixo Rio-São Paulo” e de alguns times do Nordeste e Sul com incentivos maiores.
Um exemplo disso é o Aliança, o time tem mais de 30 anos em atividade initerrupta na modalidade e já se destacou em alguns campeonatos, porém é um clube que trabalha sem patrocinadores e se sustenta com a renda da aposentadoria de seus dirigentes. Houve situações que o Aliança chegou a virar um “time patrocínio”, graças ao Goiás, quando o mesmo chegou a primeira divisão do masculino, e precisava ter um time feminino para aumentar seu engajamento, com a realização da fusão “Aliança Goiás”. Essa parceria já terminou, e o time do Goiás segue sem ter um time profissional feminino.
E fora da capital, como se encontra o esporte? Os times tem estruras dignas para treinar e jogar?
“No geral, não têm. Planalto e Anapolina, que chegaram nesta temporada, estão sim com um bom investimento e estrutura de treinos em campo, funcionais e academia. Com exceção deles, não.”
Lara Fabian, Marias Futebol Goiano
E como sempre, existem times que conseguem sobreviver nesse contexto.
“Cito como exemplo o Trindade. Em um podcast, uma das atletas do time comentou sobre as condições e a vontade do time em competir apesar das condições. Sem CT, possivelmente sem salários, com gastos ate para treinar, imagino eu, ainda assim enxergam a disputa do Goiano como uma oportunidade de serem vistas. Não sei de perto da realidade do clube, mas sei que fazem muito com o pouco.”
Lara Fabian, Marias Futebol Goiano
E na capital, temos três times profissionais, Aliança, Flugoiânia e Vila Nova, e como é possível perceber, falta a presença de outros dois times. Goiás e Atlético-GO atuam apenas nas divisões de base. Mas por que somente o Vila atua profissionalmente entre os time mais midiaticos do estado?
“Essa resposta passa pela exigência da CBF quanto a clubes da elite nacional terem uma equipe feminina (…) O Vila não esteve na série A, mas tem a modalidade com maior investimento hoje, em parceria com a Universo. A gestão é sob comando do departamento de esportes olímpicos, comandado pelo professor Willian Mendes. Não é a mesma gestão do futebol masculino e o centro de treinamento também não é o mesmo. Pela parceria com a Universo, o feminino treina no CT da Universidade.
O Goiás fez parceria com o Aliança enquanto estava na Série A do futebol masculino, mas acabou caindo de divisão e por cortes orçamentários, até onde sei, rompeu a parceria. Desde então, não tem o feminino em atividade.
Da mesma forma, o Atlético Goianiense. O time teve equipe feminina em 2024, até o começo deste ano, quando foi vice-campeão goiano feminino sub-20, inclusive com bom investimento e ações de divulgação nas redes do clube.
Aqui, falo sobre investimento sabendo que ele deve existir para que o time apresente o que é cobrado: resultado, títulos e desempenho. Ainda assim, pensando nas condições dos clubes masculinos, o investimento seria baixo em vista do patrimônio que têm.”
Lara Fabian, Marias Futebol Goiano
Foi perguntado ao Goiás Esporte Clube e ao Atlético Goianiense sobre a situação de seus times femininos. O Goiás não quis falar sobre assunto em resposta via Assessoria, já o Atlético não respondeu a nenhuma das mensagens e e-mails.
DESAFIOS QUE ELAS ENFRENTAM
É conhecimento geral sobre o baixo investimento do futebol feminino e das condições precárias das jogadoras, sobre: Salários, Transporte, Treinamento e Visibilidade, como ja foi citado o caso do time do Trindade. Para falar melhor sobre isso, entrei em contato com Amanda Gomes, mais conhecida como Carioca, atacante do Vila Nova, o único time de expressão do estado que tem um time profissional na modalidade.

Primeiramente, perguntei a ela sobre a estrutura dos treinos em comparação ao masculino.
“A estrutura ainda é muito abaixo(…) mas estamos alcançando nosso espaço com resultados nos campeonatos, mesmo com pouca valorização”
Também foi comentado sobre a relação do time com a torcida.
“A falta de divulgações dificulta bastante(…), isso deixa eles [torcedores] sem conhecimento do futebol feminino. Temos mais torcida de nossos familiares.
E as jogadoras conseguem viver do futebol, ou precisam ter outros empregos?
“Eu e algumas colegas exercemos funções extra campo para podermos aumentar nossa renda. Algumas fazem faculdade de educação física, então trabalhamos dando aulas em escolinhas”
Esse também é o caso de Samara Guimarães, a camisa 10 do Vila Nova. Além de ser um dos destaques do time, ela também é a professora das atletas do sub-14. Em entrevista, Samara citou que apesar da estrutura feminina do Vila ser menor, a cobrança e a pressão é a mesma, mas ela e as meninas não se deixam incomodar, e se mantém conquistando feitos, como a subida do Vila Nova para a Série A2.

O QUÃO PROFISSIONAL É O FUTEBOL AQUI?
Dos 16 times na primeira divisão do masculino goiano, somente Vila Nova e Anapolina possuem times profissionais femininos, mas ainda sim os salários dessas jogadoras se baseiam em ajudas de custo. Enquanto isso, o campeonato goiano feminino, que é o de maior prestígio no estado, não é profissional, e somente a partir de 2023 o campeonato começou a ter premiações.
“Vila Nova, Planalto e Anapolina são os únicos times que remuneram as atletas (por maneiras alternativas, como ajudas de custos maiores), mas somente em Goiás em junção com o Aliança assinou a carteira das atletas em 2019”
Patrícia Menezes, Gestora do Aliança
O Aliança irá participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior (Copinha), campeonato que gera muita visibilidade e que será transmitida em grandes veículos como a Cazé Tv. Porém, o time goiano não conseguiu patrocínios para custear a ida e volta das jogadoras, valor muito além do que Patrícia e seu marido, gestores do clube, conseguem pagar, já que administram o time do próprio bolso.
O QUE FALTA
“A Adriana Accorsi decretou uma lei exigindo um fomento para o futebol feminino, mas essa lei não é cumprida, ninguém fomenta ou ajuda de nenhuma forma(…) é preciso criar políticas públicas(…) uma emenda que entregasse uns 500 mil para cada time gerir o ano inteiro seria ótimo(…) assim as equipes virariam auto-sustentáveis em um espaço de 4 a 5 anos”
Patrícia Menezes, Gestora do Aliança
O esporte feminino em geral necessita de investimento, diversos times como o Aliança sobrevivem de maneiras alternativas, e muito disso também se deve da pouca visibilidade dada ao esporte. Essas questões foram trazidas a tonas por Karini Castro, do Doutores da Bola, Karini ja trabalhou cobrindo o Vila no programa “Fenomenal Sports”.
O Vila Nova atualmente é um dos clubes mais bem sucedidos do estado, e subiu de divisão no cenário nacional, mas suas jogadoras enfrentaram desafios, principalmente com transporte. Carioca ressaltou que é necessário um investimento tanto no desenvolvimento de novas jogadoras, junto do incentivo de competições nacionais entre essas mesmas jogadoras de base, o que aprimoraria o desenvolvimento delas.
