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Desde o dia 1° outubro de 2025, o sistema Defesa Civil Alerta passou a operar oficialmente em todo território nacional. A ferramenta usa um modelo Cell Broadcast para enviar, diretamente para os celulares da população, alertas sonoros e visuais sobre áreas de risco de desastres naturais, com o objetivo de proteger a sociedade perto dessas catástrofes.

A seguir, a reportagem explica o funcionamento do sistema, sua origem, seus objetivos e as perspectivas de especialistas sobre o futuro da ferramenta.

Foto: Valcir Rosa Junior

Como acontece o monitoramento

Esse sistema é monitorado 24 horas, durante todo o ano, pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A instituição conta com uma equipe multidisciplinar formada por especialistas na área de desastres e vulnerabilidades como geólogos e meteorologistas. E é essa equipe que toma a decisão de quais alertas serão emitidos e o nível de gravidade de cada um (moderado, alto ou muito alto).

O Cemaden envia seus alertas ao Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres), que é uma estrutura da Defesa Civil Nacional. A partir desse momento, são eles que se encarregam da comunicação com outras instituições.

Segundo a assessoria de imprensa do Cemaden, o monitoramento é voltado para desastres geo-hidrológicos, como deslizamentos de terra, inundações, enxurradas, alagamentos e secas. O órgão não emite alertas de incêndios ou tempestades, concentrando-se no impacto desses eventos, ou seja, os alertas são sobre riscos efetivos de desastres.

Além disso, os critérios para que um alerta seja disparado variam conforme o tipo de risco geológico ou hidrológico, as características da região afetada, o números de habitantes que vivem na área e outras variáveis analisadas pelos especialistas.

Funcionamento do Defesa Civil Alerta

O Defesa Civil Alerta usa um sistema de transmissão via telefonia celular, conhecido como alerta de emergência sem fio ou Cell Broadcast, esse sistema envia mensagem de texto para os celulares das pessoas que estão perto de localidades de risco, afirma Tiago Molina Schnorr, coordenador-geral de Monitoramento e Alerta do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional.

Há dois tipos de alertas conforme sua severidade ou finalidade: o extremo e o severo. O primeiro, é o nível máximo de alerta, caracterizado por ameaças extremas à vida ou à propriedade, necessitando que a população adote medidas de proteção imediata. Já o segundo, a urgência não é imediata e a população tem mais tempo para se proteger. Além disso, durante a fase de implantação também serão encaminhados alertas de demonstração, que têm por objetivo dar ciência do novo alerta à população dos municípios que contarão com a tecnologia.

Tiago Schnorr, explica o que é Cell Broadcast e como essa tecnologia é utilizada na ferrameneta Defesa Civil Alerta:

Cell Broadcast é um sistema de envio de alertas de emergência para todos os celulares em uma área geográfica específica, mesmo sem cadastro prévio, acompanhado de um sinal sonoro e notificação na tela. A tecnologia é usada para avisar sobre desastres naturais ou outras situações de perigo, como alagamentos, enchentes e deslizamentos, e sobrepõe temporariamente outras mensagens na tela do aparelho, mesmo que esteja no modo silencioso.

Tiago Schnorr destaque que o Defesa Civil Alerta difere dos antigos SMS de emergência justamente por sua capacidade de interromper o uso do dispositivo com a mensagem, e só se fecha com o comando do usuário, além de emitir um som de alta intensidade ainda que o aparelho esteja no silencioso, garantindo que a mensagem chame a atenção de quem está em área de perigo.

Os alertas são enviados para todos os celulares que estejam localizados em regiões mapeadas pela Defesa Civil como áreas de risco.

Murilo Noli da Fonseca, doutor em Gestão Urbana pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e especialista em gestão de risco de desastres fala sobre como avalia a implementação da ferramenta:

A implementação do Defesa Civil Alerta representa uma mudança estrutural na forma como o Estado brasileiro comunica situações de risco à população. Até poucos anos atrás, os sistemas de aviso dependiam majoritariamente de meios convencionais – sirenes, rádio e SMS baseados em cadastro. A adoção da tecnologia de Cell Broadcast, coordenada pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e pela Anatel, possibilita um alcance massivo e imediato, sem necessidade de inscrição prévia. Entretanto, a simples disponibilidade tecnológica não se traduz automaticamente em eficácia social. O Brasil possui profundas assimetrias institucionais: muitas defesas civis municipais operam com equipes reduzidas, carência de recursos humanos, ausência de infraestrutura tecnológica e limitações orçamentárias que dificultam tanto a integração ao sistema nacional quanto o uso estratégico dos alertas. Em diversos municípios, ainda não há planos de contingência ou protocolos padronizados para transformar uma notificação técnica em resposta prática – como evacuação, abertura de abrigos ou mobilização de equipes locais. Por isso, avalio o Defesa Civil Alerta como um avanço decisivo, mas ainda em processo de consolidação. O seu pleno potencial depende de um fortalecimento institucional e operacional das defesas civis locais, de modo que o alerta emitido pelo celular se converta em ação no território.

Desafios do Defesa Civil Alerta

Embora o Defesa Civil Alerta represente um marco na comunicação de risco no Brasil, o sistema ainda depende de alguns ajustes. O coodenador-geral Tiago Schnorr e o especialista Murilo Noli apontam desafios que precisam ser superados para que o sistema alcance todo o seu potencial.

Tiago Schnorr: Como o sistema está vinculado às coberturas de telefonia 4 ou 5G, a cobertura de telefonia interfere diretamente na efetividade do mecanismo de alerta. Áreas rurais, com menor cobertura ou, ainda, áreas que possuam cobertura de telefonia 3G, o recebimento dos alertas por parte da população fica comprometido. Por isso, destaca-se que o mecanismo é complementar às demais tecnologias já utilizadas pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.

O professor e especialista Murilo Noli comenta sobre as principais limitações:

As limitações do sistema de alertas no Brasil são complexas e interdependentes, abrangendo desde a infraestrutura tecnológica até a governança federativa e a comunicação pública. Do ponto de vista técnico, a dependência da cobertura de rede e da compatibilidade dos dispositivos representa um gargalo importante – especialmente em regiões rurais, áreas montanhosas ou periferias urbanas, onde o sinal é instável ou inexistente. Isso cria uma desigualdade estrutural: justamente as populações mais vulneráveis ao desastre são, muitas vezes, as menos alcançadas pelo alerta.

O professor também destaca que, embora o modelo Cell Broadcast seja eficiente, ele impõe algumas restrições, como mensagens curta, sem possibilidade de resposta ou do cidadão confirmação de que o cidadão leu e entendeu o alerta. Além disso, mensagens são enviadas apenas uma vez.

Murilo Noli ainda comentam sobre os riscos de falsos alertas, que podem gerar preocupação e desconfiança na população:

O risco de falsos alertas também é significativo. Eles podem surgir por erros humanos, falhas técnicas ou testes de rotina mal comunicados. Experiências internacionais demonstram que alertas imprecisos ou repetidos sem contexto geram desconfiança generalizada e podem levar ao pânico ou à banalização do sistema – a chamada “fadiga de alerta”. Uma única falha pode comprometer anos de trabalho de construção de confiança com a população.

Perspectivas para o futuro do Defesa Civil Alerta

Tiago Schnorr destaca duas propostas de aprimoramento. A primeira delas é o aumento do tamanho do texto da mensagem de alerta com a disponibilidade 600 caracteres, já que o atual sistema tem o limite de apenas 160 caracteres, o que permitiria incluir informaçoes mais completas sobre o risco e as orientações para a população.

A segunda proposta, seria implementar alertas com envio continuado, ou seja, mensagens que sejam enviadas mais de uma vez em um curto espaço de tempo. O objetivo é garantir que pessoas que estejam com o celular descarregado ou sem sinal no momento em que o alerta é disparado inicialmente, recebam a notificação quando o aparelho voltar à rede ou quando ele estiver ligado novamente.

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