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As dificuldades da maternidade: um dilema ainda enfrentado por muitas mulheres
Cerca de 70% de mulheres pretendem adiar a maternidade, revelou o levantamento realizado pelo vagas.com onde 43% das mulheres entrevistadas afirmaram ser devido a dificuldade conseguir um emprego e de se manter no mercado de trabalho após a maternidade.
O fato de as mulheres ainda serem as maiores responsáveis pelo cuidado dos filhos e da casa é um dos fatores que favorecem a sua saída no mercado de trabalho. A pesquisa realizada por Amanda Resende em 2022, no Centro da Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à Faculdade de Economia, Administração, contabilidade e Atuária (FEA) da USP, revelou que 11,2 milhões de mulheres ficaram fora do mercado de trabalho para poder cuidar de filhos com deficiências ou afazeres domésticos, sendo 6,8 milhões de mulheres negras e 4,3 milhões de mulheres brancas.
Para a doutora em ciências políticas da UNICAMP, Katiuscia Galhera, existe uma expectativa social de cuidado que a sociedade cria para mulher e a questão salarial ligada ao homem. “Esse tipo de família tradicional do homem com a mulher coloca a maternidade de uma forma compulsória, como se a maternidade fosse o ultimato da experiência da mulher”, afirma a doutora.
A sobrecarga da dupla jornada do trabalho é uma das questões que afasta as mulheres do mundo do trabalho, mas o preconceito por parte das empresas contribui para esse afastamento. A mesma pesquisa do Vagas.com apontou que 52% das mulheres grávidas ou saíram de licença maternidade em seu último trabalho afirmaram ter passado por alguma situação ruim em sua empresa.
A licença maternidade padrão dura 120 dias, mas para quem trabalha em empresa cidadã é um programa do governo brasileiro que incentiva empresas a estenderem a licença-paternidade (para 20 dias) e a licença-maternidade (para 180 dias) de seus funcionários, oferecendo incentivos fiscais (dedução do IRPJ) às que aderem voluntariamente, visando fortalecer os vínculos familiares, apoiar a parentalidade e melhorar a qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores oferecendo incentivos fiscais (dedução do IRPJ) às que aderem voluntariamente, visando fortalecer os vínculos familiares, apoiar a parentalidade e melhorar a qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores. oferecendo incentivos fiscais (dedução do IRPJ) às que aderem voluntariamente, visando fortalecer os vínculos familiares, apoiar a parentalidade e melhorar a qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores. , o prazo máximo é de 180 dias, garantindo uma estabilidade provisória de que a mulher não será demitida sem justa causa até cinco meses após o parto. De acordo com o portal Empregos.com.br 56,4% das mulheres relatam que foram demitidas ou conhecem alguém que foi desligada após retornar da licença maternidade.
A administradora Maria Maynard, explica que ainda existe preconceito por parte das empresas em relação às mulheres que possuem filhos e isso ocorre porque a sociedade continua atribuindo às mulheres as funções de cuidado, tratando-as como principais cuidadoras dos filhos.
“Às vezes é preciso faltar ao trabalho porque minha filha precisa de mim. Isso acontece e gera choque, porque as empresas cobram compromisso, mas eu tenho o compromisso de sustentar e cuidar da minha filha”, relata Dmitrievna Marta, mãe de uma menina de 4 anos.
“Já houve vezes em que pensei em trancar a faculdade e deixar todos os trabalhos para poder cuidar da minha filha. As dificuldades são enormes e muitas vezes eu deixava de ir nas aulas para não atrapalhar na sala com uma criança. Para quem tem uma filha pequena, não tem como conciliar trabalho e a maternidade sem ajuda financeira”, afirma Isis Aparecida Lima, de 21 anos, mãe solo de uma menina de 1 ano.
A especialista em saúde mental e psiquiatria pela USP Karine Leite, chama atenção para um ponto importante em relação à sobrecarga mental que essas mães passam pela falta de rede de apoio dentro de casa enquanto seus filhos ainda são pequenos.
Entre sonho de ser mãe e o medo de perder emprego:um reflexo na queda da fertilidade
A queda de natalidade em vários países também é um reflexo do esgotamento mental que essas mulheres passam após a gravidez. “Isso tem a ver com esse lugar de intenso sofrimento, cansaço, perda de crescimento profissional ou de dinheiro”, complementa Karine. Para a psicóloga, a falta de rede de apoio impacta o desempenho das mulheres-mães no trabalho, porque para estarem trabalhando, elas têm que de alguma forma diminuir sua participação no cuidado das crianças.
Um estudo publicado pela revista The Lancet em 2024 mostra que até 2050 mais de três quartos dos países não terão taxas de fertilidade altas o suficiente para sustentar a população ao longo do tempo. A estimativa é que esse números cresçam 97% até 2100, dados como esse estão diretamente relacionados aos cuidados familiares serem diretamente ligados às mulheres, muitas vezes impedindo seu crescimento profissional.
“Esse é um lugar que faz as mulheres adoecerem, ao construir uma certa rede de apoio vem a culpa pela performance da maternidade ideal, de que a mãe se dedique integralmente ao cuidado das crianças. Então, mesmo aquelas que têm rede de apoio, se sentem culpadas por deixar seus filhos sob o cuidado de terceiros”, finaliza a psiquiatra.
Além disso, muitas empresas ainda vêem a maternidade como ônus financeiro ou logístico. A administradora Maria destacou também que essa visão é reforçada pela própria legislação, que diferencia entre os períodos de licença concedidos aos homens e as mulheres. Enquanto a licença-maternidade pode chegar a seis meses, a licença paterna, em geral, é de apenas cinco dias, podendo se estender para 20 dias em empresas que aderem ao programa Empresa Cidadã. “Ou seja, a própria lei acaba refletindo e perpetuando essa desigualdade na percepção do cuidado”, Maria conclui.
Para Katiuscia Galhera, a licença maternidade deve ser revezada com a licença paternidade — e isso como uma obrigação, e não uma opção. Essa poderia ser, para a cientista, uma das maneiras de desvincular o cuidado familiar à imagem das mulheres. “As políticas públicas podem mudar e são de fato um fator muito importante, mas se não mudar a noção de que não é só a mulher que é responsável com o cuidado com a criança, nada vai adiantar”, finaliza a doutora.

