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Goiânia, capital de Goiás, tem 641 bairros e abriga cerca de 1,5 milhão de pessoas — mais de 1,1 milhão delas com mais de 16 anos. Quantos jeitos de viver, fazer cultura e se divertir cabem nessa cidade? Esta reportagem, por si só, jamais conseguiria dimensionar isso, mas, ao longo de duas semanas de apuração, buscou entender como está o acesso à cultura na capital, começando pela distribuição dos espaços culturais, a escuta de desafios enfrentados por artistas independentes e a importância do fomento via editais.

Uma pesquisa realizada pelo instituto brasileiro Cultura nas Capitais, que estuda os hábitos culturais nas grandes cidades do país, mostrou que Goiânia ficou acima da média nacional em três áreas: livros, shows de música e circo. Entre elas, “livros” foi a única com mais de 50% de participação. E ficaram abaixo da média os jogos eletrônicos, cinema, museus, bibliotecas, teatro, feiras de livros e saraus. Os resultados completos podem ser conferidos no site do projeto. Ao todo, 600 goianienses responderam sobre seus hábitos culturais no último ano e sobre as atividades que nunca experimentaram. A plataforma da pesquisa permite cruzar dados por 12 categorias — como gênero, escolaridade, cor/raça e classe social — mostrando como desigualdades estruturais ainda influenciam o acesso a essas atividades.

Quando falamos de cultura, às vezes parece que estamos falando de algo que está longe da gente — só lazer, luxo ou um privilégio. Mas, para mim, a cultura deveria estar tão presente quanto educação, segurança, assistência social e saneamento básico. Ela é básica, deveria ser parte do nosso arroz e feijão de cada dia.” Enuncia a importância do acesso à cultura Munyque Ribeiro – socióloga, professora, pesquisadora na Universidade Federal de Goiás e produtora cultural.

Nos últimos anos, Goiânia tem ampliado a oferta de atividades culturais, além de centros culturais, escolas, museus e galerias, no Centro estão concentrados espaços como o Basileu França — a maior escola pública de artes da América Latina, totalmente gratuita e aberta à população por meio de editais semestrais. Também se destacam os Centros Culturais Octo Marques e Cora Coralina, além de galerias como a Galeria Cerrado. Fora do centro, pontos culturais como a Casa Valenta (Parque Atheneu), a Casa de Vidro (Jardim Novo Mundo) e a Catedral das Artes (Santa Genoveva) realizam festivais de poesia, música e mostras audiovisuais. Nas periferias, a Veracult (Vera Cruz) e a Norocity (Jardim Curitiba), além de promoverem festivais e encontros culturais semanais, realizam ações contínuas de formação cultural e esportiva em suas comunidades – assunto que terá sua própria reportagem.

V Festival de Poesia Goiânia Clandestina na Casa Valenta – 25 de Outubro de 2025. Foto: Jade Assunção

Porém, a efervescência cultural ainda está concentrada no Centro, e Munyque lembra que ainda existem desafios importantes no acesso à cultura: a distância para quem vive nas periferias, os horários das programações culturais, a pouca divulgação dos eventos e as dinâmicas de trabalho da cidade.

“Quando eu morava no Garavelo, por exemplo, nem sempre conseguia ir ao Centro para ver um filme de graça no Cine Cultura. Não era só ter o ingresso: para quem já pega ônibus todo dia para ir e voltar do trabalho, ter que pegar também no dia de lazer pode ser bem desanimador. E são justamente os trabalhadores a classe que mais precisa de acesso ao lazer.”

Localizados no Centro, o Cine Cultura e o Cine Ritz são as únicas salas de cinema de rua em Goiânia. As demais estão em shoppings, e nenhuma em periferias.

Durante a apuração, ficou evidente que acessibilidade cultural também é sobre o incentivo a quem faz e produz cultura na cidade. Goiânia é berço de cantores e compositores de diversos gêneros musicais, além do reconhecido e fomentado sertanejo — gênero importante para a identidade goiana, mas não único ou dominante entre a população. E mesmo o sertanejo é plural na cultura goiana, estando presente nas populações tradicionais da catira, e na música caipira.

Existe também o sertanejo atrelado aos produtores agrícolas e pecuaristas, que realizam, entre outros eventos, anualmente a Pecuária de Goiânia, onde em 2025 a Prefeitura investiu 7,7 milhões de reais em cachês para artistas. Isso é 1 milhão a mais do que foi disponibilizado em 2025 pelo Fundo de Arte e Cultura de Goiás (FAC-GO), que divide esse valor entre 40 a 50 projetos culturais para todo o estado.

Saiba mais sobre o Fundo de Arte e Cultura de Goiás

É o principal mecanismo continuado de fomento direto do estado de Goiás, mantido pela Secretaria Estadual de Cultura. O fundo abre anualmente editais para diferentes segmentos culturais e cidades, distribuindo recursos para projetos de todo o estado. Em 2025, o FAC investiu R$ 6,7 milhões em diversas linhas, incluindo festas tradicionais, difusão de eventos, bandas e prêmios de literatura.

Os editais costumam prever cotas regionais (interior x capital), além de cotas para segmentos sociais específicos a depender do edital (negros, indígenas, pessoas com deficiência e mulheres)​

Sobre o papel do Estado na realização das manifestações culturais, Munyque pontua:

“Você pode escrever uma poesia num papel de pão, mas para publicar essa poesia, vai precisar mobilizar toda uma cadeia de produção. E mobilizar essa cadeia é caro. Só o Estado tem a envergadura e a quantidade de recursos e até mesmo instituições próprias que viabilizam essas produções. O Estado é autossustentável, o artista não. Embora muitas vezes seja forçado a ser. É o poder público, em todas as suas esferas, quem tem condições materiais, estruturais, políticas e institucionais de fomentar a cultura.

Nesse cenário, a Organização de Compositores, Letristas e Artistas da Música (OCLAM) tem se organizado para fortalecer a cena autoral e compartilhar experiências entre os artistas.

“O coletivo tem pessoas de diferentes lugares, entre artistas consolidados (seja via esforço, reconhecimento, por serem brancos, indicações políticas e familiares) que possuem portas abertas em editais e espaços desejados, e artistas com menos tempo de carreira e sem apoios ‘herdados’, que ainda estão tateando e descobrindo como acessar os recursos.” disse Bruna Miguel, diretora da organização, ao contextualizar as realidades de acesso às leis de fomento.

Ainda sobre o acesso aos recursos públicos, há relatos de conchavos e panelinhas nas bancas de aprovação, e ausência de fomento específico para compositores, a menos que também sejam intérpretes. Bruna também traz a reflexão de que “o maior valor agregado ainda é para artistas que venham de fora para cá” e que “não existe projeto de valorização das criações musicais aqui no cerrado: infelizmente não existe uma cultura de apreciação artística real em Goiás, o que dificulta a formação de público e adesão por parte de empresários e representantes de espaços culturais em geral.” Essa fala foi repetida entre os artistas entrevistados. Apesar dos desafios, Bruna conta que a Oclam não é o único grupo de compositores da cidade.

“O coletivo surgiu em abril de 2023. Temos resultados tímidos, mas palpáveis até o momento. Pessoas montaram suas bandas, acharam seus parceiros, se sentiram confiantes para defender seus trabalhos e afirmar a composição como ofício. Talentos foram revelados e encorajados pela convivência e trocas com seus pares. Gostamos de dizer que a Oclam funciona como uma impulsionadora discreta de carreiras, seja pelo contato que oportuniza entre compositores que antes não se ouviam nem se conheciam, seja pelo aspecto educacional e profissionalizante para os jovens.” disse Bruna Miguel. O coletivo se encontra presencialmente todas as segundas-feiras no ateliê Rafael Vaz – Fábrica de Poesia.

Encontro da Oclam no Prosperidade Cultural em Março de 2025 – fonte: Instagram da Oclam

A burocratização e a necessidade de democratizar o acesso aos editais também foi apontada por Munyque: “Hoje, muitos editais têm uma linguagem difícil e burocrática, excluindo boa parte dos artistas. O desafio cresce para quem é independente: precisa compor, se autoproduzir, cuidar do marketing e ainda entender os editais. Democratizar o acesso envolve simplificar a linguagem dos editais e oferecer formação que ajude o artista a navegar esse universo.”

Sobre isso, o gerente de Editais de Arte e Cultura Sacha Eduardo Witkowski Ribeiro de Mello, da Secretaria de Cultura de Goiás, reconhece que a linguagem e a burocracia dos editais ainda são desafios para parte dos artistas, mas que ela “cumpre uma função de garantir a adequada aplicação dos recursos públicos e a execução responsável das propostas.” Ele aponta que há editais com maior rigor técnico porque “atendem proponentes com trajetória consolidada e inseridos em camadas mais profissionalizadas da cadeia produtiva da cultura.” E que ainda assim, existem editais simplificados para ampliar o alcance e a participação de artistas e produtores de diferentes perfis.

“O Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás (FAC), por exemplo, tem adotado, nos últimos três anos, procedimentos mais desburocratizados, simplificando a etapa de inscrição e a execução financeira. Já a Lei Goyazes de Incentivo à Cultura, por sua natureza de renúncia fiscal, requer maior rigor técnico e documental — o que inclui a comprovação de contrapartidas, captação de patrocínio junto à iniciativa privada e relatórios mais detalhados de execução — sendo, portanto, um instrumento voltado a agentes com maior capacidade técnica e de gestão.” disse Sacha.

Saiba mais sobre a Lei Goyazes

O Programa Goyazes é um mecanismo estadual de incentivo fiscal, em que empresas podem destinar parte de seu ICMS a projetos culturais aprovados pelo Estado. Após recente regulamentação (Instrução Normativa n° 001/2025), há categorias específicas: Ações Culturais nos Municípios, Festivais, Projetos Excepcionais e demais segmentos. No mínimo, 30% do valor dos cachês deve ir para artistas residentes em Goiás, e 80% dos postos de trabalho dos projetos apoiados precisam ser ocupados por trabalhadores residentes no estado. Os projetos culturais municipais podem receber até R$ 1 milhão cada. Não há referência explícita a cotas nos textos mais recentes, mas editais anteriores já trouxeram percentuais para segmentos específicos como mulheres, população negra e indígenas, a depender do edital anual.​

Ele também destaca que, nos últimos anos, foram produzidos vídeos explicativos sobre os editais do Fundo de Arte e Cultura (FAC) e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), disponíveis no canal da Secretaria no YouTube, além da realização de visitas técnicas e encontros presenciais em 24 cidades do interior de Goiás.

E reforçou que a compreensão dos editais e o aprimoramento na escrita de projetos fazem parte de um processo de formação contínua no campo cultural, e que, apesar da Secretaria ter o dever de promover esse conhecimento, a autonomia dos proponentes é igualmente essencial — seja buscando cursos oferecidos por outras instituições, participando de redes, grupos de mentoria ou trocando experiências entre pares.

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