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Entre legislação ignorada, terceirização controversa e cobrança direta da população, capital enfrenta um modelo considerado ultrapassado

A gestão de resíduos sólidos em Goiânia atravessa um dos momentos mais críticos das últimas décadas. Apesar da existência de uma Política Nacional de Resíduos Sólidos e de um plano instituído desde 2011, a capital goiana ainda não conseguiu consolidar práticas básicas e estruturantes, como a coleta seletiva efetiva, o fortalecimento de cooperativas de reciclagem e a adoção de um modelo ambientalmente controlado de destinação final do lixo. O cenário atual é marcado por atrasos históricos, decisões políticas controversas e crescente insatisfação popular.

A crise é perceptível no cotidiano urbano. Reclamações sobre acúmulo de lixo, interrupções na coleta, greves e falhas operacionais tornaram-se recorrentes ao longo dos anos. Gestões anteriores abandonaram contratos considerados essenciais, contribuindo para a instabilidade do serviço. A administração vigente tenta reorganizar o sistema, mas enfrenta um passivo estrutural que mantém Goiânia distante das exigências ambientais e urbanas contemporâneas.

Ausência de planejamento e fragilidade administrativa

A avaliação técnica do cenário aponta a má gestão e a ausência de planejamento como os principais fatores que sustentam a crise. Não há informações claras sobre a aprovação ou execução de um plano municipal específico que contemple de forma integrada a destinação correta dos resíduos, o apoio contínuo às cooperativas de reciclagem e o tratamento adequado de resíduos hospitalares e especiais.

O aterro sanitário é frequentemente citado como um dos maiores símbolos desse atraso. Na prática, o espaço opera em condições próximas às de um lixão, sem controle ambiental rigoroso, sem sistemas consistentes de reciclagem e sem aproveitamento do gás gerado pela decomposição dos resíduos. A resistência em debater a mudança de localização do aterro ou a adoção de soluções técnicas mais avançadas evidencia entraves administrativos e políticos que dificultam qualquer avanço estrutural.

Foto: Reprodução // Jornal O Popular

Expansão urbana desordenada e impactos ambientais

O crescimento territorial descontrolado de Goiânia agrava ainda mais o problema. A expansão urbana ocorre, em grande parte, sem planejamento adequado, priorizando interesses políticos e econômicos em detrimento das questões ambientais. Esse modelo de crescimento amplia distâncias, encarece a coleta de lixo e torna a gestão dos resíduos mais complexa e ineficiente.

O aumento populacional, aliado à ausência de políticas permanentes de educação ambiental, resulta em maior geração de resíduos sem que haja uma contrapartida em infraestrutura ou conscientização. A falta de incentivo à reciclagem e à redução do consumo contribui para o agravamento do problema, sobrecarregando um sistema já fragilizado.

Terceirização: solução administrativa ou agravamento da crise?

A terceirização da coleta de resíduos, atualmente realizada pelo Consórcio Limpa Gyn, tornou-se um dos pontos mais polêmicos da política de limpeza urbana. Após cerca de um ano de operação, o serviço apresenta avaliações contraditórias. O consórcio contabiliza a coleta de mais de 1,2 milhão de toneladas de resíduos e a instalação de contêineres e caçambas em pontos críticos da cidade, com reforço em regiões como o Setor Norte Ferroviário e o Setor Central.

Entretanto, em bairros como o Setor Jaó e o Bairro Feliz, moradores relatam períodos de acúmulo de lixo, conhecidos como “demanda represada”, além da ausência de um cronograma fixo e transparente de coleta. As falhas operacionais alimentam a desconfiança da população quanto à eficiência do modelo terceirizado.

Para Maria Ester de Souza, arquiteta e urbanista, professora universitária e pesquisadora na área de urbanismo e planejamento urbano, a terceirização não representa uma alternativa administrativa, mas um grave equívoco na condução de um serviço essencial.

“A terceirização, para mim, é um crime, porque esse é um serviço básico essencial. Assim como a saúde e a educação, o meio ambiente que inclui o tratamento do resíduo urbano é um serviço básico.”

Segundo a especialista, a responsabilidade pela coleta e destinação dos resíduos deve ser do próprio poder público.

“Isso tem que ser obrigação da gestão do serviço público. Quem tem que fazer a gestão do resíduo é o poder executivo. A gente paga imposto para isso.”

Maria Ester alerta ainda que a terceirização tende a aumentar a precarização do serviço e transferir os prejuízos diretamente para a população.

“Se o prestador resolve que não quer mais o contrato, ele vai embora. E de quem é o problema? O problema é da população.”

Colapso da coleta seletiva e impacto social

O ponto de maior crítica negativa em 2025 é a coleta seletiva. Cooperativas de reciclagem denunciam uma queda drástica no volume de material recebido, variando entre 50% e 80% após a terceirização. A redução compromete a renda de trabalhadores que dependem diretamente da reciclagem e enfraquece uma cadeia fundamental para a sustentabilidade urbana.

A população, por sua vez, demonstra descrença no sistema. A ausência de campanhas de conscientização, aliada à falta de fiscalização sobre o destino do material reciclável, desestimula a separação do lixo doméstico. A percepção predominante é de falha de gestão, o que compromete a participação social, elemento essencial para o sucesso da política de resíduos sólidos.

A taxa do lixo e a cobrança por retorno

A implementação da taxa de coleta de lixo, com início das cobranças em abril de 2025, intensificou o conflito entre população e poder público. Moradores relatam dificuldades para obter ressarcimento de cobranças indevidas e questionam valores que podem chegar a R$ 1.600,00 anuais para determinados imóveis.

A cobrança direta pelo serviço elevou a expectativa por eficiência. O entendimento de parte significativa da população é que, ao pagar pela coleta, o serviço deveria apresentar funcionamento regular, transparente e de alta qualidade. Diante das falhas percebidas, a cobrança social tornou-se mais rigorosa, ampliando o desgaste político da gestão.

Aterro sanitário e insegurança ambiental

A situação do aterro sanitário também alimenta o temor de um colapso ambiental. Em 2025, Goiânia enfrentou disputas judiciais para manter o funcionamento do espaço sob licenças corretivas. O pedido de apoio da Prefeitura ao Estado para capacitação técnica expôs fragilidades institucionais e reforçou a sensação de insegurança quanto ao futuro ambiental da cidade.

Foto e crédito: Reprodução // Jornal O popular

Futuro condicionado à política

Ao avaliar as perspectivas futuras da gestão de resíduos em Goiânia, a professora universitária, arquiteta e urbanista Maria Ester aponta que o cenário é profundamente condicionado por decisões políticas, o que dificulta previsões otimistas.

“O futuro da gestão eu não tenho como prever, porque depende desses fatores políticos. Mas, se nada for feito, a gente vai ter uma cidade com problemas de uma cidade do século XIX.”

A especialista projeta um agravamento dos impactos ambientais e sociais caso o modelo atual seja mantido.

“É uma cidade com doenças transmitidas pela água e pelo ar, com áreas de muita propensão a deslizamentos, mais incêndios na época da seca e mais alagamentos na época da cheia.”

Segundo Maria Ester, a raiz do problema está no predomínio da política sobre a técnica nas decisões administrativas.

“A gestão é muito complexa porque ela é de base política. Mesmo quando se tenta trazer a técnica para a frente de trabalho, o que domina é a política.”

Para ela, enquanto o conhecimento técnico não ocupar o centro da gestão pública, a tendência é a repetição dos mesmos problemas.

“Então, para o futuro, a gente tem mais do mesmo.”

Sem planejamento urbano integrado, educação ambiental contínua e valorização do conhecimento técnico, a crise da gestão de resíduos em Goiânia permanece como um reflexo de decisões adiadas e de um modelo urbano que insiste em ignorar seus próprios limites.

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