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por LEONARDO SILVA
A morte acompanha a humanidade desde seus primórdios. Tão antiga quanto a própria existência humana é a necessidade de lidar com a ausência daqueles que partiram. O luto, compreendido como o conjunto de reações emocionais, psicológicas, sociais, culturais e espirituais decorrentes da perda de alguém significativo, constitui uma das experiências mais universais da condição humana. Entretanto, embora a dor da perda seja comum a todos os povos, as formas de vivenciá-la e expressá-la variam significativamente entre culturas, épocas e religiões.
A história do luto revela não apenas como os seres humanos enfrentam a morte, mas também como cada sociedade compreende a vida, a memória, a espiritualidade e os vínculos afetivos.

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A origem do luto: uma experiência anterior à própria civilização
Os primeiros indícios de práticas relacionadas ao luto remontam à Pré-História. Escavações arqueológicas demonstram que grupos humanos do período Paleolítico já realizavam sepultamentos ritualizados há mais de 100 mil anos. Corpos eram enterrados com objetos pessoais, flores, alimentos e utensílios, sugerindo a crença em alguma forma de continuidade da existência após a morte.
Pesquisadores identificaram vestígios de pólen de flores em túmulos de neandertais encontrados na região do atual Iraque, indicando que já havia um tratamento diferenciado aos mortos. Esses achados sugerem que o sofrimento pela perda e a necessidade de homenagear os falecidos antecedem o surgimento das grandes civilizações.
Mesmo entre animais sociais, comportamentos semelhantes ao luto já foram observados. Elefantes permanecem próximos aos restos mortais de membros do grupo; chimpanzés demonstram alterações comportamentais após a morte de companheiros; baleias carregam filhotes mortos por longos períodos. Embora não se possa afirmar que esses comportamentos equivalham ao luto humano, eles indicam que a resposta emocional à perda possui raízes profundas na evolução das espécies sociais.
O luto é uma experiência humana natural diante de perdas significativas e envolve muito mais do que a ausência de uma pessoa querida. Ele representa um processo de adaptação a uma nova realidade, mobilizando emoções como tristeza, saudade, raiva, culpa e até mesmo momentos de alívio. No Brasil, o luto costuma ser vivenciado de forma coletiva, com forte participação da família, dos amigos e da espiritualidade, mas cada indivíduo o experimenta de maneira única, sem que exista um tempo ou uma forma correta para viver esse processo.
A Psicologia busca compreender que o luto não é um adoecimento, mas um processo que permite à pessoa ressignificar sua relação com a perda e reconstruir sua vida diante da ausência. Muitas pessoas conseguem elaborar o luto por meio do apoio social, da atividade física, da religiosidade, da arte ou de outras formas de cuidado, sem necessidade de psicoterapia. No entanto, quando o sofrimento se torna intenso e interfere significativamente na vida cotidiana, o acompanhamento psicológico pode ser um importante recurso. O objetivo não é esquecer quem partiu, mas aprender a seguir em frente preservando os vínculos afetivos e as memórias construídas ao longo da vida.
Mirelly Conceição do Carmo, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás, CRP 09/10238

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O luto nas civilizações antigas
Nas sociedades antigas, a morte raramente era vista apenas como um evento biológico. Ela possuía forte dimensão religiosa e comunitária.
Egito Antigo
Entre os egípcios, a morte representava uma passagem para outra forma de existência. O processo de mumificação, desenvolvido ao longo de milênios, tinha como objetivo preservar o corpo para a vida após a morte.
O luto envolvia rituais complexos, procissões e manifestações públicas de sofrimento. Mulheres contratadas como carpideiras choravam e lamentavam em cerimônias fúnebres, simbolizando a dor coletiva da comunidade.
Grécia Antiga
Os gregos atribuíam grande importância aos ritos funerários. A ausência de sepultamento adequado era considerada uma das maiores desonras possíveis.
Nas tragédias gregas, o luto aparece como tema recorrente. Personagens como Antígona enfrentam conflitos morais relacionados ao direito de honrar seus mortos. O sofrimento pela perda era entendido como parte inevitável da condição humana.
Roma Antiga
Os romanos possuíam normas específicas para o período de luto. Familiares usavam vestimentas escuras, suspendiam festividades e participavam de cerimônias em memória dos falecidos.
A duração do luto variava conforme o grau de parentesco e a posição social da pessoa falecida. O respeito aos ancestrais constituía elemento central da identidade familiar romana.
O luto na Idade Média
Durante a Idade Média europeia, profundamente influenciada pelo cristianismo, a morte era presença constante na vida cotidiana. Epidemias, guerras e condições precárias de saúde faziam com que a expectativa de vida fosse relativamente baixa.
Nesse contexto, o luto possuía forte dimensão religiosa. Missas, orações e cerimônias eram consideradas fundamentais para auxiliar a alma do falecido em sua jornada espiritual.
A ideia do “bem morrer” ganhou destaque. Preparar-se para a morte era visto como uma obrigação moral e religiosa. O sofrimento dos enlutados coexistia com a crença de que a vida terrena era apenas uma etapa passageira rumo à eternidade.
A transformação do luto na modernidade
A partir dos séculos XVIII e XIX, profundas mudanças sociais alteraram a forma de lidar com a morte.
O crescimento das cidades, a secularização da sociedade e os avanços da medicina deslocaram gradualmente a morte do ambiente doméstico para hospitais e instituições especializadas.
No século XIX, especialmente durante a Era Vitoriana na Inglaterra, o luto tornou-se altamente regulamentado. Existiam regras rigorosas sobre:
- Tempo de duração do luto;
- Vestimentas adequadas;
- Participação em eventos sociais;
- Correspondências;
- Ornamentação das residências.
Viúvas podiam permanecer anos vestindo exclusivamente roupas pretas. A rainha Vitória, após a morte do príncipe Albert em 1861, permaneceu de luto até o final de sua vida, influenciando costumes em diversos países.

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O surgimento dos estudos científicos sobre o luto
No século XX, psicólogos, psiquiatras e sociólogos passaram a estudar o luto de maneira sistemática.
O psiquiatra austríaco Sigmund Freud publicou, em 1917, o ensaio “Luto e Melancolia”, considerado um marco na compreensão psicológica da perda.
Décadas depois, a psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross propôs o famoso modelo dos cinco estágios:
- Negação;
- Raiva;
- Barganha;
- Depressão;
- Aceitação.
Embora amplamente difundido, atualmente os especialistas ressaltam que o luto não segue necessariamente uma sequência linear. Cada indivíduo vivencia a perda de forma singular.
Hoje, o luto é compreendido como um processo complexo, influenciado por fatores emocionais, culturais, familiares, religiosos e sociais.

Como diferentes culturas vivem o luto
Embora a dor da perda seja universal, sua expressão varia enormemente ao redor do mundo.
México: a celebração dos mortos
Día de los Muertos é uma das manifestações culturais mais conhecidas relacionadas ao luto.
Realizada entre os dias 1º e 2 de novembro, a celebração combina elementos indígenas e cristãos. As famílias montam altares com fotografias, flores, velas e alimentos preferidos pelos falecidos.
Em vez de enfatizar apenas a tristeza, a festividade valoriza a memória e a continuidade dos vínculos afetivos.

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Japão: respeito aos ancestrais
No Japão, a tradição budista e xintoísta influencia profundamente as práticas de luto.
Durante o festival Obon, acredita-se que os espíritos dos antepassados retornam temporariamente ao mundo dos vivos.
As famílias visitam túmulos, realizam oferendas e participam de cerimônias religiosas. O culto aos ancestrais é parte importante da identidade familiar japonesa.
Índia: a libertação da alma
Na tradição hindu, a morte é entendida como uma etapa do ciclo de renascimentos.
A cremação possui papel central nos rituais funerários. As cinzas frequentemente são lançadas em rios sagrados, especialmente no Rio Ganges.
O luto envolve cerimônias que podem se estender por dias ou semanas, buscando favorecer a transição espiritual da alma.
China: continuidade familiar
Na cultura chinesa, fortemente influenciada pelo confucionismo, o respeito aos ancestrais ocupa posição fundamental.
Datas específicas são dedicadas à visita de túmulos e à realização de oferendas. O falecido continua sendo considerado parte integrante da família, mesmo após sua morte.
Povos africanos
Em diversas sociedades africanas, a morte é concebida como uma passagem para o mundo dos ancestrais.
Os funerais frequentemente incluem música, dança, cantos e grandes reuniões comunitárias. O objetivo não é apenas lamentar a perda, mas celebrar a vida daquele que partiu.

Crematórios de Varanasi – Índia. Os crematórios hindus de Manikarnika, às margens do sagrado Rio Ganges (Ganga), na cidade sagrada de Varanasi (Benares), na região de Uttar Pradesh, no norte da Índia. (Imagem em: DreamsTime)
O luto na sociedade contemporânea
Nas últimas décadas, o luto passou por novas transformações.
As redes sociais criaram espaços inéditos para homenagens, memoriais virtuais e manifestações públicas de pesar. Perfis digitais frequentemente permanecem ativos após a morte de seus proprietários, tornando-se locais de memória coletiva.
Ao mesmo tempo, muitos pesquisadores observam que as sociedades contemporâneas tendem a ocultar a morte do cotidiano. Hospitais, funerárias e cemitérios especializados afastaram a experiência da morte da vida doméstica.
Essa mudança gerou debates sobre a necessidade de criar espaços mais acolhedores para a expressão do sofrimento.
O impacto da pandemia de COVID-19
A pandemia de COVID-19 provocou uma das maiores experiências coletivas de luto da história recente.
Milhões de famílias enfrentaram perdas sem a possibilidade de despedidas presenciais, velórios tradicionais ou rituais comunitários.
Especialistas identificaram o surgimento de formas de luto marcadas pelo isolamento social, pela interrupção dos rituais tradicionais e pela necessidade de construir novas formas de homenagem e memória.
Um sentimento universal, múltiplas formas de expressão
O luto não é apenas uma reação à morte. Ele representa a expressão do valor que atribuímos aos vínculos humanos. Quanto mais significativo é o relacionamento perdido, maior tende a ser o impacto emocional da ausência.
Ao longo da história, povos de todos os continentes criaram cerimônias, símbolos, vestimentas, orações, cantos, festivais e monumentos para enfrentar essa experiência inevitável. Algumas culturas privilegiam o silêncio e a introspecção; outras transformam a despedida em celebração coletiva. Algumas enfatizam a dor; outras, a memória e a continuidade.
Apesar das diferenças culturais, permanece um elemento comum: a necessidade humana de atribuir significado à perda. O luto, em suas múltiplas formas, constitui uma das mais profundas manifestações da capacidade humana de amar, lembrar e preservar a memória daqueles que marcaram nossas vidas.
E HÁ COMO VIVER O LUTO DE UM BOM MODO E ANTECIPADAMENTE?
A despedida do “Bom Sujeito”: quando o adeus acontece em vida
Em uma sociedade acostumada a reservar as homenagens para depois da morte, a história de Tiago Martins Pitthan provocou uma profunda reflexão sobre a forma como lidamos com a finitude da vida. Advogado e turismólogo, Tiago transformou um dos momentos mais dolorosos da existência humana em uma oportunidade de encontro, afeto e gratidão.
Após receber o diagnóstico de um câncer em estágio avançado, ele decidiu realizar aquilo que chamou de “A Despedida do Bom Sujeito”, um evento inspirado na ideia de um velório, mas com um propósito completamente diferente. Em vez de lágrimas silenciosas diante de um caixão, a celebração reuniu familiares, amigos e pessoas que marcaram sua trajetória para compartilhar histórias, risadas, músicas e demonstrações de carinho enquanto ele ainda podia vivenciar cada homenagem.
A iniciativa surgiu de uma constatação simples e, ao mesmo tempo, poderosa: nos funerais tradicionais, a pessoa homenageada já não está presente para ouvir as palavras de afeto que inspirou ao longo da vida. Tiago decidiu inverter essa lógica. Queria estar ali, entre aqueles que amava, recebendo abraços, agradecendo amizades e celebrando as memórias construídas ao longo dos anos.
O encontro foi marcado por um clima de emoção e leveza. Não se tratava de negar a gravidade da doença nem de ignorar a proximidade da morte, mas de reconhecer o valor da vida e dos vínculos humanos. A despedida tornou-se, assim, um exercício de presença, em que a dor da perda futura coexistia com a alegria de compartilhar o tempo que ainda restava.
A repercussão do caso ultrapassou os limites de sua cidade e alcançou todo o país. A história despertou debates sobre o chamado luto antecipatório, fenômeno vivenciado por pessoas que enfrentam doenças graves e por seus familiares. Também trouxe à tona discussões sobre cuidados paliativos, qualidade de vida e a necessidade de falar mais abertamente sobre a morte, tema que frequentemente permanece cercado por tabus.
Mais do que uma despedida, a experiência de Tiago Pitthan tornou-se uma lição sobre a importância de expressar sentimentos enquanto há oportunidade. Sua escolha lembrou que palavras de admiração, reconhecimento e amor não precisam esperar o silêncio dos funerais para serem pronunciadas. Em um tempo marcado pela pressa e pelas distrações cotidianas, sua história convida à valorização dos encontros, dos afetos e da presença daqueles que caminham ao nosso lado.
Ao transformar o próprio velório em uma celebração da existência, Tiago deixou uma mensagem que transcende sua história pessoal: a de que a vida talvez seja mais significativa quando aprendemos a reconhecer, em tempo oportuno, o valor das pessoas que amamos.
Veja aqui a matéria transmitida recentemente no Fantástico:

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CASO ANA PAULA RENAULT – Entre o luto e o sonho de 5 milhões de reais: a legitimidade da escolha de seguir em frente

Imagem: Reprodução TV Globo
A notícia da morte de um pai está entre as experiências mais dolorosas que uma pessoa pode enfrentar. Diante de uma perda dessa magnitude, não existe uma única forma correta de reagir. Cada indivíduo vivencia o luto de maneira particular, influenciado por sua história, seus valores, suas emoções e pelas circunstâncias do momento. Por isso, a decisão de Ana Paula Renault de permanecer na disputa do reality show após tomar conhecimento do falecimento de seu pai merece ser compreendida sob a perspectiva da autonomia, da coragem e do respeito à vontade individual.
Muitas pessoas tendem a associar o luto exclusivamente ao recolhimento, ao silêncio e ao afastamento das atividades cotidianas. Entretanto, a psicologia contemporânea reconhece que o processo de elaboração da perda pode assumir diferentes formas. Há quem necessite de isolamento para lidar com a dor, mas há também aqueles que encontram força justamente na continuidade de seus projetos, objetivos e compromissos.
Ao optar por permanecer na competição, Ana Paula não demonstrou falta de amor, insensibilidade ou desrespeito à memória do pai. Pelo contrário. Sua decisão pode ser interpretada como um ato de resiliência diante de uma circunstância extremamente difícil. Em vez de permitir que a tragédia interrompesse completamente sua trajetória, ela escolheu honrar o caminho que vinha construindo e seguir lutando por um objetivo que representava uma transformação significativa em sua vida.
Além disso, é importante reconhecer que a permanência no programa não significava ausência de sofrimento. A dor da perda não desaparece porque alguém continua trabalhando, estudando ou perseguindo um sonho. Muitas vezes, o luto acompanha silenciosamente as pessoas em suas atividades diárias, manifestando-se de formas que nem sempre são visíveis para quem observa de fora.
Outro aspecto relevante é o respeito à autonomia pessoal. Em situações de perda, não cabe à sociedade determinar qual deve ser a reação ideal de alguém. O luto não possui um manual de instruções nem uma fórmula universal. O que pode parecer adequado para uma pessoa pode ser completamente incompatível com a realidade emocional de outra. Julgar a decisão de permanecer na disputa significa, em certa medida, ignorar a complexidade dos sentimentos humanos diante da morte.
Sob essa perspectiva, a escolha de Ana Paula pode ser vista como um exemplo de força emocional. Ao continuar na competição, ela demonstrou que a dor e a esperança podem coexistir, que a tristeza não impede a busca por objetivos e que seguir em frente não significa esquecer quem partiu. Em muitos casos, continuar lutando pelos próprios sonhos é justamente uma forma de homenagear aqueles que sempre incentivaram nossa caminhada.
Sua atitude evidencia uma verdade frequentemente esquecida: o amor por quem morreu não se mede pelo sofrimento demonstrado publicamente, mas pela maneira como a memória dessa pessoa continua influenciando as escolhas, os valores e os projetos de quem permanece vivo.
