Um corte viral (informação em vídeo cortado) no âmbito digital não precisa inventar uma fala falsa para enganar, basta suprimir o contexto. Essa escolha não é neutra, pois reflete as intenções, os valores e até os interesses comerciais de quem produz o conteúdo. Devido à passividade crítica do espectador (consumo rápido) e à apropriação indevida do conhecimento, as pessoas ficam mais vulneráveis, e isso enfraquece a tão almejada emancipação popular. Essa realidade se reflete nas redes sociais.
Para compreender esse fenômeno tendo em vista a teoria crítica, recorre-se ao artigo de Carneiro, Moraes e Cabral (2024), no qual as autoras exploram os conceitos de indústria cultural, apropriação da informação e ação cultural. Na definição da indústria cultural, entende-se que um sistema de produção em série (produzidos em massa) prioriza o engajamento emocional (a comoção, a curiosidade, a ideologia). Os cortes de vídeos descontextualizados operam exatamente sob essa lógica, o que acarreta o bloqueio do que as autoras chamam de apropriação da informação. Consumir informações parciais torna o indivíduo passivo (um produto na sociedade). Já que um espectador sem ferramentas críticas pode se perder nesse fluxo de desinformação. Neste ensaio, adota-se uma abordagem qualitativa, com uma metodologia exploratória e documental, analisando o caso Clarice Lispector de uma entrevista em 1977 (confrontando o corte viral (atuais em redes sociais diversas) com o vídeo original) e mais dois exemplos distintos, para enfatizar a problemática: um sobre o engrandecimento do Enéas Carneiro por meio dos cortes (candidato à presidência do Brasil em 1989, 1994 e 1998, pelo PRONA) e um corte viral do cantor Caetano Veloso, que aconteceu em 1978, o corte virou meme, mas o vídeo completo desqualifica um jornalista conceituado de forma equivocada. Mas antes, uma contextualização de quando e como isso pode ter começado. Sendo assim, defendo que os cortes de vídeos descontextualizados são uma ferramenta da indústria cultural que, ao suprimir o contexto e impor uma mensagem distorcida, acaba produzindo uma realidade alienada que enfraquece a capacidade crítica das pessoas (Freire, 1987). O objetivo é mostrar o que esse mecanismo pode causar. O método empregado para essa análise é o comparativo entre os cortes virais e os vídeos originais. Por fim, inspirado no pensamento do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, sugere-se que a ação cultural e a educação para a emancipação popular podem ser um caminho para combater a desinformação e restaurar o pensamento crítico.
Antes do nome TikTok ficar conhecido, foi em 2014 que lançaram o Musical.ly (o primeiro nome do TikTok, nessa época os vídeos eram mais curtos); em 2018, ele foi oficialmente desativado, e todos os seus usuários, contas e dados foram migrados para o TikTok. Mas a era dos vídeos curtos começou com o aplicativo Snapchat (2011), que permitia fotos e vídeos que sumiam em segundos após abertos, e depois lançou o formato de “stories”, que durava 24 horas. Houve também outro aplicativo, o Vine (2013), que popularizou clipes em looping de 6 segundos. Com isso tudo, a ascensão do TikTok, consolidou-se a navegação infinita, e essa edição dinâmica se expandiu para toda a indústria nas redes sociais, como por exemplo, Reels do Instagram, Shorts no YouTube (Techtudo, 2016; G1, 2016; Canalteck, 2018). Ou seja, chegamos à era digital onde vídeos são feitos para prender a atenção e gerar visualizações, um cenário de compartilhamento efêmero, transformando expressões culturais e a própria estética humana em objetos de comércio, convertendo o indivíduo em mercadoria (Adorno; Horkheimer, 1985; Adorno, 1996, sobre a teoria da semiformação). Devido a isso, quem assiste ao corte acaba entendendo o vídeo de acordo com a bagagem cognitiva que tem – sem o contexto, o sentido da fala/texto muda completamente (Freire, 1987).
Nesse sentido, um vídeo cortado de uma entrevista (Programa Panorâmico da TV Cultura, 1977) mostra a escritora Clarice Lispector. Ela deu uma entrevista e estava muito cansada nesse dia (no corte, isso foi interpretado como depressão). Logo em seguida, em um novo corte brusco, aparece a escritora falando: “Seria muito engraçado se um táxi me pegasse, me atropelasse, e eu morresse.” Nessa fala, ela usou essa expressão para explicar um de seus livros (A Hora da Estrela, de 1977). Devido a isso, muitas pessoas interpretaram como um sinal de que a escritora era uma pessoa triste, melancólica ou até depressiva. Porém, quem assiste à entrevista completa descobre que Clarice não estava falando de si mesma. Por isso, a estetização do sofrimento psíquico pela mídia massificada pode acarretar em estereótipos (Adorno e Horkheimer, 2006), como, por exemplo, o pensamento de que pessoas depressivas são gênios incompreendidos (no caso da escritora) como acontece em vários comentários nesses post’s. Já que a falta de criticidade acaba induzindo ao erro, na falta de levar em consideração como realmente é a vida da maioria das pessoas depressivas, gerando uma conscientização errônea.
Além disso, o padrão se repete com Enéias Carneiro, que ficou amplamente conhecido por suas falas rebuscadas e totalmente associada ao seu jargão de campanha para presidente do Brasil “Meu nome é Enéias”, ele falava de forma rápida e peculiar. E, com o caso do cantor Caetano Veloso, ainda que de forma distinta, frequentemente a figura dele aparece nas redes sociais em forma de corte, principalmente a fala dele sobre “Brasil, bombas atômicas”, o que comicamente o fez ser tachado de “maluco” quando se candidatou à presidência da República. Mas, hoje, o veem como uma figura que engrandeceria o Brasil. Esses cortes escondem o integralismo e a vinculação ao integralismo (movimento fascista brasileiro) e suas propostas autoritárias (fechamento do Congresso). Em virtude disso, o historiador Ian Neves (YouTube, 2023) produziu um vídeo inteiro para restaurar o contexto perdido em um quadro de séries que se chama “Por que odiamos?” – o episódio referido é o de número três, onde ele desmitifica a ideia de que o Dr. Enéas Carneiro foi uma figura grandiosa. Onde o historiador aponta que Enéias é também frequentemente reabilitado por pessoas ligadas à ideologia de direita como um herói incompreendido.
Já o recorte do cantor Caetano Veloso é exemplificado e detalhado em um podcast “Rádio Novelo”, no episódio “Fora de contexto” , de novembro de 2022. O corte que viralizou mostra o cantor respondendo de forma seca, com expressão fechada, de forma equivocada, a um jornalista bem conceituado por causa de uma pergunta mal formulada. O podcast resgatou a entrevista completa de 1978 onde mostra que o corte foi o menos ofensivo. Caetano chamou o jornalista de “burro” e o restante da fala foi muito pior do que isso, ele responde com rispidez ao jornalista Geraldo Mairink no programa Vox Populi. Em razão disso, a eliminação do contexto e a eternização daquele momento como meme torna o caso uma expressão da lógica da Indústria Cultural, transformando um ato falho (do qual Caetano disse que se arrepende, em uma entrevista para o Roda Viva no dia 20 de dezembro de 2021), em uma imagem fixa. O trecho do meme caiu na internet em 2012 (“Como você é burro, cara”). Nesse caso, não se trata de mentira, mas da paralisação da imagem. Isso é parte da Indústria Cultural digital: capturar o ato e esvaziar sua historicidade. O ser fica aprisionado na versão recortada, uma “rolagem infinita”, sem buscar pelo contexto. Na situação do Caetano Veloso, o meme, não é visto como um erro humano, mas sim como algo engraçado, por isso se torna mais ainda trivial. Em todos esses casos (Clarice, Enéias, Caetano e em tantos outros) a lógica é a mesma, porque um recorte de alguns segundos substitui a totalidade da fala (tanto quanto para manchar a imagem de alguém, para o engrandecimento, para estereotipar, entre outros). Portanto, os problemas tanto de um quanto do outro produzem uma falta de criticidade na população brasileira, pois o engrandecimento de um integralista, a banalização de uma fala complicada e os estereótipos demonstram uma falha na conjuntura educacional no Brasil. Por fim, levo em consideração o estereótipo construído através dos cortes da imagem de Clarice, pois a escritora não teve depressão, e entender o que é a depressão e o que ela faz, é fundamental para um país cada vez mais empático. Nesse caso, estereótipos não ajudam de verdade. Sendo que, a verdadeira empatia é sufocada pelas redes sociais, já que os cortes e estereótipos agem como o fetiche descrito por Marx (2013), transformam pessoas em produtos de entretenimento rápido, mascarando a realidade como ela realmente é, impedindo a construção de laços sociais verdadeiramente autênticos.
O corte viral funciona como uma mercadoria informacional, já que a sua capacidade de gerar visualizações e engajamento e, por consequência, lucro para as plataformas em uma versão editada que rende likes e comentários. Isso é definido pelas autoras: Carneiro, Moraes e Cabral (2024) como o objeto de circulação de dados em prol da acumulação de bens (o capital). Já a apropriação da informação exige tempo, mediação e contexto, onde as autoras chamam atenção para o fato de que a ação cultural restaura a capacidade reflexiva, e isso é o oposto do que a rolagem de “tela infinita” oferece. Pois, sem apropriação, o espectador não processa criticamente a informação. Ainda, em Adorno (1996), sobre a semiformação, mostra que o saber fragmentado e superficial dá a ilusão de conhecimento, mas não emancipa. E, pior, essa versão começa a circular como verdade. E é assim que a Indústria Cultural digital funciona, se produz consensos falsos, ideológicos, partidários, a partir de recortes com vieses tendenciosos e fora de contexto.
Considerações Finais
Este ensaio abordou fenômenos no âmbito das redes sociais. Nesse contexto, a indústria cultural digital mercantiliza o usuário: ao rolar a tela de uma rede social, há uma força despendida a favor das Big Techs, gerando os dados (matéria-prima) que alimentam o sistema, ou seja, o usuário treina a máquina de graça. Para Adorno e Horkheimer (1985), isso não é uma distração inocente, mas sim uma indústria que padroniza os desejos das pessoas, modificando o comportamento e a subjetividade de forma invisível. Isso acontece porque os algoritmos monitoram, preveem e moldam as escolhas dos usuários a cada segundo (dica de leitura: Capitalismo de vigilância, de Shoshana Zuboff, 2021). Visto que esse processo enfraquece o pensamento crítico, este ensaio demonstra que os recortes, ao sufocar o contexto, não só desinformam, como também podem petrificar estereótipos rentáveis.
Portanto, o enfrentamento desse problema exige soluções educacionais, pois aperfeiçoar o algoritmo ou punir a desinformação não diminuiria o controle vertical. Nessa situação, a solução reside na educação popular (Freire, 1987). No caso dos cortes virais, os usuários perdem sua capacidade de desenvolver uma leitura crítica, já que o que falta nos espaços institucionais é o aprofundamento da realidade e o confronto com evidências transformadas em hábito na sociedade – seja no âmbito político, nas escolas, nas bibliotecas ou em todos os espaços públicos no geral. Por isso, na educação pública (educação bancária), os educadores depositam informações na mente dos educandos, isto é, não há um reforço do diálogo e da conscientização transformadora. Isso porque o sujeito, na educação bancária, torna-se passivo de sua própria história, anulando a criatividade e estimulando a memorização de conteúdo (Freire, 1987, Pedagogia do oprimido). Ao incentivar o pensamento crítico, o meio educacional deixa de domesticar as pessoas e passa a formar cidadãos conscientes, capazes de transformar a realidade de forma emancipardora, Freire (1987) defende que ninguém educa ninguém, mas as pessoas se educam em comunhão, mediadas pelo mundo (bagagem cognitiva).
Nessa perspectiva, a biblioteca, como espaço de comunhão, consolida-se como um lugar de encontros, pesquisa autônoma e confronto de narrativas (oficinas, rodas de leitura, análise crítica da alienação, palestras com convidados renomados) a partir das vivências da própria comunidade. Para que essa transformação aconteça, é necessária uma educação popular em que o bibliotecário deixa de ser um fiscal de livros para atuar como mediador pedagógico, capacitando o cidadão a realizar buscas, localizar fontes verídicas e comparar o que está vendo com a realidade, levando à real apropriação da informação (Carneiro, Moraes e Cabral, 2024) e rompendo essa ilusão, devolvendo ao sujeito o controle sobre o próprio consumo (Marx, 2013).
A filosofia de Hannah Arendt (1997) mostra que atividades de encontro e diálogo transformam bibliotecas em espaços de ação e pertencimento, pois o ser humano é um iniciador próprio, que age e pensa – e vice-versa. O artifício humano tem lugar para ação e discurso, sendo determinante para a reflexão, onde a pluralidade humana tem dupla dimensão: a igualdade e a diferença. Por isso, a resposta à desinformação não deve partir de cima, por meio de cartilhas oficiais ou algoritmos de checagem compulsórios. A biblioteca deve emergir das comunidades, das bibliotecas territoriais, das rodas de leitura e da análise crítica das mídias rápidas.
Em suma, conclui-se que o enfrentamento à desinformação não é um desafio técnico, legal ou moral, mas sim uma luta pedagógica e popular contra a indústria cultural digital, contra o recorte que petrifica, contra a rolagem infinita. Que defende o contexto que liberta, uma pausa que questiona e a dúvida como crítica rotineira.
Referências
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CARNEIRO, Júlia Carolina Rodrigues Braga; MORAES, Rosana Portugal Tavares de; CABRAL, Rosimere Mendes. A ação cultural e a apropriação da informação sob a perspectiva da teoria crítica. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 20, p. 1-21, 2024.
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