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Entre novos prédios e assessorias de corrida, Setor Marista desafia o planejamento urbano da capital

Alameda Ricardo Paranhos, Setor Marista, 16 de junho de 2026. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

Antes uma via de passagem comum do Setor Marista, a Alameda Ricardo Paranhos tornou-se o endereço mais disputado da corrida de rua em Goiânia. Todos os dias, ainda no escuro da manhã, os primeiros atletas já ocupam o canteiro central da alameda. O fluxo só cresce até o fim da tarde, quando o trecho se transforma em uma maratona a céu aberto, com tendas de assessorias esportivas, cronômetros e garrafinhas de água espalhados pelo passeio.

A escolha pela alameda não é casual. O traçado plano da pista central, a arborização densa e a sensação de segurança proporcionada pela iluminação e pelo policiamento do setor tornaram o local referência para corredores de todos os níveis. Aos finais de semana, a demanda supera a infraestrutura viária: a Secretaria Municipal de Mobilidade (SMM) isola uma das faixas de rolamento com cones, devolvendo aos pés o espaço antes reservado aos carros.

Ricardo Paranhos – Google Earth

A concentração de atletas não passou despercebida pelo mercado. Assessorias esportivas instalaram tendas de apoio ao longo do canteiro, oferecendo hidratação, avaliação física e orientação técnica e, ao mesmo tempo, expondo suas marcas a um público cativo e crescente. Para os profissionais do setor, a presença na Ricardo Paranhos equivale a um ponto comercial estratégico.

“A Ricardo Paranhos é a nossa loja, só que sem aluguel. A gente monta a tenda, coloca o banner e, em dois sábados, já recebo mais contatos do que em um mês nas redes sociais. O corredor que passa ali está em modo de compra: ele quer resultado, ele quer equipe, ele quer pertencer a algo. É muito mais fácil converter ali do que em qualquer outra plataforma.”

— Pedro Ribeiro, personal trainer e fundador de assessoria esportiva no Setor Marista há seis anos

Alameda Ricardo Paranhos, Setor Marista, 16 de junho de 2026. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

A popularidade da alameda, porém, impõe custos ao entorno. Os cruzamentos com as ruas transversais acumulam tensão entre pedestres em velocidade e motoristas que avançam sem atenção à pista de corrida. O pavimento do canteiro central ressente-se do alto tráfego de pessoas e exige manutenção constante por parte da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg). E a disputa por vagas de estacionamento nas proximidades é crônica, consumindo paciência de moradores e clientes do comércio local.

Especialistas em mobilidade urbana alertam que o crescimento do uso esportivo da via precisa ser acompanhado de investimentos proporcionais em sinalização, manutenção e gestão do estacionamento caso contrário, o conflito entre usos tende a se agravar à medida que o Setor Marista continua a se adensar.

Alameda Ricardo Paranhos, Setor Marista, 16 de junho de 2026. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

O mercado imobiliário foi rápido em perceber o valor simbólico da alameda. Construtoras que lançaram empreendimentos residenciais de alto padrão na região passaram a incorporar a proximidade com a Ricardo Paranhos como argumento central de vendas — ao lado da segurança do setor e das escolas particulares do entorno. O resultado é uma valorização consistente do metro quadrado que, segundo corretores, supera a média de outros setores nobres da capital.

O fenômeno não se restringe ao residencial. Academias premium, lojas de suplementos, cafeterias com cardápio voltado ao público saudável e clínicas de fisioterapia esportiva multiplicaram-se ao longo da via, capitalizando sobre a demanda gerada pelos frequentadores. A alameda, que já era um ativo urbanístico pelo paisagismo e pela arborização, tornou-se também um ativo econômico, cujo valor depende da manutenção de uma vocação que a prefeitura ainda regula de forma improvisada, a cada fim de semana, com um conjunto de cones.

Alameda Ricardo Paranhos, Setor Marista, 16 de junho de 2026. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

Letícia Romani

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