Tempo de leitura: 5 min

39 anos após o maior acidente radioativo fora de uma usina nuclear, as regiões marcadas pelo Césio seguem abandonadas

Em setembro de 1987 Goiânia se tornou palco de um dos maiores acidentes radioativos da história após Chernobyl. Localizada na Avenida Paranaíba, uma clínica abandonada, o Instituto Goiano de Radioterapia, IGR, possuía, sucateada, uma máquina de radioterapia, em seu interior havia um cilindro que continha 19 gramas de césio-137, uma substância altamente radioativa. Dois catadores de lixo, Wagner Pereira e Roberto Alves, retiraram parte da máquina e a levaram para o ferro velho, propriedade de Devair Ferreira.

Césio 137 – Antigo Ferro Velho, Setor Aeroporto. Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

Após o contato de diferentes indivíduos com o Césio, 12 adoecidos foram transferidos para os melhores hospitais de Goiânia, os sintomas eram os mesmos: diarreia, vômitos, febre alta e queda de cabelo. Após 15 dias desde o início da contaminação, o físico Walter Mendes Ferreira, ao entrar em contato com a história, faz alertas às autoridades e instâncias públicas como a Comissão Brasileira de Energia Nuclear (CNEN). Sua intenção era deter a contaminação e, ao mesmo tempo, evitar o pânico. 

No total, mais de 110 mil pessoas foram examinadas. Verificou-se que 249 delas tinham níveis significativos de material radioativo em seus corpos. Destes, três pessoas morreram, uma delas Leide das Neves, criança de 8 anos que ingeriu parte do material radioativo. As outras duas vítimas fatais foram homens que trabalhavam no ferro-velho. O desastre em Goiânia produziu cerca de 6.000 toneladas de resíduos, recolhidos e enterrados em um centro especialmente preparado, a 20 quilômetros da cidade, que é hoje o Centro Regional de Ciências Nucleares (CRCN-CO). 

O CRNC-CO reúne um depósito definitivo de rejeitos, um centro de pesquisa científica e um parque de conservação ambiental. O Centro possui laboratórios de pesquisa, monitoramento constante e também uma importante área voltada para a comunicação sobre o ocorrido. A discente do curso de física médica da UFG e bolsista de iniciação científica no CRNC-CO, Laísa Vieira, comenta sobre a atenção à história do Césio, que aumentou com a recente série produzida pela Netflix, Acidente radioativo, “Acredito que a história do Césio-137 está bem difundida atualmente, especialmente com o “hype” gerado pela série. Ela serviu como um motor para atrair um público diferente. No entanto, o trabalho de disseminação de conhecimento é realizado desde 1997 pelo CRCN-CO recebendo anualmente mais de 5.000 visitantes em suas visitas guiadas. Durante as visitas, os participantes conhecem o maior acervo sobre o acidente, assistem a palestras sobre ciência nuclear e fazem uma caminhada até a área do depósito final, onde estão as 6 mil toneladas de rejeitos radioativos”, pontua.

Césio 137 – Casa do Roberto – Rua 57, Setor Central. Vídeo: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG

Apesar de o CRCN-CO realizar a função de conscientização, espaços marcantes para a história da tragédia estão hoje completamente abandonados. No Setor Central, o loteamento onde antes foi a casa de Roberto, um dos homens que encontrou o Césio, está desabitado. O local estava sendo utilizado como estacionamento, até que autoridades colocaram vasos para impedir a entrada de carros em um espaço vazio. O antigo ferro velho, no Setor Aeroporto, também é hoje mais um loteamento sucateado. Laísa assume esse abandono, “ A maior parte desse trabalho de conscientização, informação e lembrança acaba concentrada no CRCN-CO. Nos pontos onde ocorreram os principais eventos da tragédia, restaram apenas lotes vazios e concretados, sem elementos que comuniquem diretamente a história vivida naquele espaço”. 

A estudante pontua seus desejos de conhecimento para população, como graduanda de física médica, “Eu gostaria que as pessoas enxergassem que a história do Césio-137 também pode servir como um ponto de partida para conhecer melhor a física nuclear e entender que a radiação é utilizada para o bem em áreas como medicina, diagnóstico, tratamento de câncer, pesquisa e diversas aplicações que salvam vidas diariamente”, “Acho importante que as pessoas reflitam sobre como a desinformação pode gerar medo, enquanto o conhecimento gera consciência e responsabilidade. Conhecer essa história é também entender a importância da segurança radiológica, da conscientização pública e do papel da ciência na proteção da sociedade”, conclui Laísa. 

Após a repercussão da série, parte da população passou a refletir sobre a ausência de um espaço de memória nos locais marcados pelo acidente. O perfil no instagram, @goianiafuturelab, que une urbanismo e história através de projetos arquitetônicos gerados por inteligência artificial, realizou uma projeção do que poderia ser feito no antigo ferro velho. Partindo da seguinte reflexão “E se esse vazio virasse memória”, o autor afirma que a proposta “imagina a transformação de um espaço de silêncio, reflexão e memória coletiva, onde a cidade não apaga suas histórias, mas escolhe enfrentá-la com dignidade.”. O local imaginário conta com luzes azuis em referência a coloração do Césio, e possui uma parede com os nomes das vítimas e uma explicação sobre o que foi o acidente. 

Vídeo: @goianiafuturelab

Letícia Romani e Sofia Pimentel

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *