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Pedro Paulo Lemes

No Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, deslocar-se entre os prédios nem sempre é apenas uma questão de distância. Entre blocos acadêmicos, áreas abertas e vias internas, o que se observa no cotidiano é uma circulação marcada por descontinuidades, variações de piso e pontos onde a infraestrutura não acompanha o fluxo de quem atravessa o espaço diariamente.

A leitura desse percurso faz parte de um trabalho experimental da disciplina de Jornalismo de Drone, que combina imagens aéreas e a construção de um modelo físico/3D do campus para analisar três trajetos específicos: da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) ao LabCom, do Restaurante Universitário (RU) até a FIC e da FIC até o ponto de ônibus da Faculdade de Letras.

Do alto, o campus se apresenta como um conjunto amplo e organizado. No nível do chão, no entanto, a continuidade dos caminhos nem sempre se mantém. Em diferentes pontos dos trajetos analisados, calçadas apresentam desníveis, irregularidades ou interrupções, exigindo desvios que não estavam previstos na lógica inicial de circulação entre os prédios.

Em alguns trechos, a presença de vegetação avançando sobre áreas de passagem ou a ausência de manutenção regular do piso tátil interfere diretamente na orientação espacial. São elementos que, somados, transformam deslocamentos curtos em trajetos que exigem mais atenção do que o esperado dentro de um ambiente universitário.

O modelo tridimensional construído a partir das imagens de drone permite visualizar essas interrupções de forma integrada. Mais do que representar edifícios isolados, ele evidencia como os caminhos entre eles nem sempre formam uma rede contínua, mas sim uma sequência de adaptações ao longo do percurso.

Fotografia mostra modelo 3D de parte do campus da UFG, confeccionado a partir de vídeos de drone, indicando os caminhos com acessibilidade (em preto, rugoso) e sem acessibilidade e/ou com obstáculos (em vermelho, liso), como galhos de árvores, meio fio alto ou ausência de piso tátil. Autoria: Pedro Paulo Lemes e Raniê Solarevisky

A experiência no deslocamento

Ao percorrer esses trajetos durante a produção do trabalho, a sensação recorrente não está necessariamente ligada à distância, mas à necessidade constante de ajuste ao caminho. Pequenas irregularidades no piso, mudanças inesperadas de nível e trechos sem sinalização contínua tornam a circulação menos previsível do que o desenho geral do campus sugere.

Essa condição se torna mais sensível quando se considera a perspectiva de pessoas que dependem de maior previsibilidade para se deslocar.

O problema não se restringe a situações pontuais, mas aponta para um aspecto estrutural da circulação: a dependência de rotas que nem sempre oferecem continuidade suficiente para garantir segurança e independência ao longo de todo o trajeto.

A acessibilidade em instituições públicas é assegurada pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que determina o direito à mobilidade com autonomia. No entanto, na prática observada em diferentes pontos do campus, essa continuidade depende de fatores que vão além da existência de estruturas específicas, envolvendo também sua manutenção e conexão entre espaços.

Um campus construído em etapas

A própria configuração do Campus Samambaia ajuda a explicar parte dessa realidade. Instalado em uma antiga fazenda de 250 hectares, o espaço começou a ser ocupado a partir da década de 1960, com a criação da Escola de Agronomia e Veterinária.

O crescimento da universidade ao longo das décadas ocorreu de forma progressiva, acompanhando diferentes fases de expansão. Esse processo resultou em um campus extenso, mas construído em camadas, com padrões distintos de infraestrutura e períodos diferentes de planejamento.

Em resposta à reportagem, a Secretaria de Infraestrutura da UFG (Seinfra) afirma que a acessibilidade é uma preocupação permanente e que todos os projetos são elaborados com base nas normas técnicas vigentes. Segundo a pasta, o desafio principal está justamente na coexistência de edificações de épocas diferentes.

Grande parte das estruturas mais antigas, segundo a Seinfra, foi construída antes da consolidação das normas atuais de acessibilidade, o que faz com que a adaptação dessas áreas e das conexões entre blocos exija intervenções técnicas mais complexas.

A secretaria também aponta que há planejamento para ampliação das condições de acessibilidade no Campus Samambaia, incluindo levantamentos realizados em atendimento a órgãos de controle. No entanto, a execução dessas ações ocorre de forma gradual, condicionada à disponibilidade de recursos financeiros específicos, que ainda não foram integralmente destinados.

Outro ponto destacado pela Seinfra é a integração com a Secretaria de Inclusão da UFG. Segundo a resposta, há atuação conjunta no atendimento de demandas identificadas pela comunidade acadêmica, com análise de soluções técnicas viáveis dentro das condições orçamentárias disponíveis.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que algumas intervenções aparecem de forma pontual no campus, enquanto outras dependem de planejamento mais amplo para serem executadas.

Entre o planejamento e o percurso

O resultado dessa combinação entre crescimento histórico, limitações estruturais e intervenções graduais é um campus que, apesar de consolidado como um dos principais polos da universidade, ainda apresenta desafios na articulação entre seus espaços.

Para quem circula diariamente entre os blocos, a experiência de deslocamento revela que a relação entre arquitetura e uso cotidiano nem sempre é direta. O caminho previsto no mapa e o caminho percorrido no dia a dia nem sempre coincidem.

É nesse ponto que o uso do drone e do modelo 3D busca contribuir com a leitura do espaço. Ao reconstruir os trajetos em diferentes escalas, o projeto evidencia não apenas a distância entre os pontos, mas a qualidade da conexão entre eles.

Mais do que uma representação visual, o trabalho propõe uma pergunta sobre o próprio funcionamento do campus: até que ponto a infraestrutura acompanha a forma como ele é vivido?

A reportagem também procurou a Secretaria de Inclusão da UFG para comentar os pontos levantados. Até o fechamento deste texto, não houve retorno.

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