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Campus Samambaia UFG — Uma história em concreto
Jornalismo de drone · Campus Samambaia · UFG
Uma história em concreto
O Campus Samambaia da UFG completa mais de seis décadas. Visto de cima, o crescimento é visível — e ainda não parou.
Por Sofia CostaGoiânia, 2026LabNotícias · FIC/UFG
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Em 1962, a Universidade Federal de Goiás recebeu, por decreto presidencial, uma fazenda de 250 hectares na periferia de Goiânia. No local funcionava uma escola agrotécnica que havia fechado por falta de recursos. Dali nasceu o Campus Samambaia.
Hoje, o campus ocupa mais de 1.700 hectares, concentra a reitoria e a maior parte dos cursos da UFG e abriga um parque tecnológico com laboratórios que têm equipamentos únicos na América Latina. Esta reportagem mostra, com imagens aéreas captadas por drone, como esse crescimento aconteceu, da fazenda ao polo de inovação.
Todas as imagens aéreas recentes são do Banco de Imagens Goiano de Drones. Registros históricos do campus, onde indicado, são do acervo do CIDARQ/UFG.
1960
ano de fundação da UFG
1.700
hectares de campus
60+
anos de história em concreto
196201
Escola de Agronomia — onde tudo começou
Em 1945, o governo estadual doou ao Ministério da Agricultura uma área de 250 hectares — a Fazenda Samambaia — para sediar a Escola Agrotécnica de Goiânia. A instituição fechou por falta de recursos. Em 24 de outubro de 1962, um decreto presidencial transferiu o terreno à UFG.
As condições eram precárias. Os primeiros alunos chegavam de carroceria de caminhão — quando chovia, faziam o resto a pé. Em 1964, uma greve garantiu o transporte por ônibus.
Fazenda Samambaia transferida para a UFG · 24/10/1962
Escola de Agronomia (EA/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
196302
Escola de Veterinária e Zootecnia
Em 30 de janeiro de 1963, o Conselho Universitário autorizou os cursos de Agronomia e Veterinária. Em 1966, o presidente Castello Branco assinou a Lei nº 5.139, criando a Escola de Agronomia e Veterinária (EAV) — uma escola unificada, não duas como queriam os idealizadores.
A separação veio em 1981, quando a EAV foi dividida em Escola de Agronomia (EA) e Escola de Veterinária (EV). As duas funcionam até hoje no mesmo terreno da fazenda original.
EAV · Lei nº 5.139, 14/10/1966 · dividida em 1981
Escola de Veterinária e Zootecnia (EVZ/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
Enquanto a EAV seguia sozinha na fazenda, a UFG crescia pelo centro de Goiânia de forma dispersa, improvisada, em prédios inadequados. Uma comissão de arquitetos e engenheiros concluiu o inevitável: a universidade precisava de um campus integrado. O professor Irineu Borges do Nascimento, da Escola de Engenharia, viajou por vários campi brasileiros em busca de referência e encontrou na Universidade de Brasília.
O período era de contradições intensas. Como descreveu a professora Célia Maria Ribeiro em artigo na Revista UFG Afirmativa, foram anos de “continuidade na descontinuidade”: o regime militar investiu pesado nas universidades, mas ao mesmo tempo silenciou vozes, fechou jornais estudantis, prendeu professores e extinguiu centros de debate político. Construir o novo campus era, ao mesmo tempo, uma conquista e uma estratégia de controle.
Arthur Moreira, técnico em arquivo do CIDARQ/UFG, guarda os registros que contam essa história. Segundo ele, a decisão de transferir a universidade para o Samambaia não foi só administrativa, ela tinha um componente político. “Desde a época final de 60 pra 70 começou a expansão da UFG pra cá, porque ele [o professor Colemar] queria tirar os alunos daquele centro de Goiânia onde tinha muitos policiais e trazer pra cá, não só porque ele queria, ele foi influenciado a fazer isso por causa da ditadura. Existia muita pressão da polícia porque a manifestação de estudantes era forte no centro.”
197103
Os primeiros blocos — Humanidades I e II
A pedra fundamental do Campus Samambaia foi lançada em 4 de maio de 1971, no km 12 da rodovia Goiânia-Nerópolis. As obras dos primeiros sete blocos começaram naquele ano. Em 1972, as estruturas foram inauguradas — eram os prédios que abrigariam o IMF, o IQG, o ICB, o ICHL e o Instituto de Artes. Os dois Prédios de Humanidades — I e II — fazem parte desse conjunto original e abrigam hoje a Faculdade de História, a Faculdade de Filosofia e a Biblioteca Seccional das Humanidades.
Pedra fundamental · 4 de maio de 1971
Prédio de Humanidades II, Campus Samambaia, Goiânia, 14 de setembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
197304
O primeiro instituto a chegar
Em maio de 1973, o Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) foi o primeiro a se instalar no campus. Logo vieram o IMF, o IQG e o ICB. A Biblioteca Central foi inaugurada no mesmo ano, mas provisoriamente — no prédio da Faculdade de Direito, no centro de Goiânia.
A transferência não foi simples. O professor Tiettre Couto Roza, do IQG, descreveu o processo como “um martírio”: equipamentos eram transportados sem proteção, expostos a sol e chuva. A imprensa local criticou as condições. A adaptação levou anos.
Primeiro instituto no campus · maio de 1973
Vista aérea dos institutos pioneiros do Campus Samambaia — IQ, ICB e Restaurante Universitário ao fundo, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Restaurante Universitário (RU/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
197705
A reitoria chega ao campus
Até 1977, a Reitoria da UFG funcionava na 5ª Avenida, no Setor Universitário. Naquele ano, ela se transferiu para o Samambaia, junto com uma extensão do Restaurante Universitário. O prédio atual da reitoria só foi inaugurado em 2002, durante o mandato da reitora Milca Severino Pereira.
Reitoria no campus · 1977 · prédio atual inaugurado em 2002
Dados · Campus Samambaia · UFG · 1962–2026
64 anos de construção
Cada marco representa uma estrutura ou conjunto de obras inaugurado no campus. Toque ou passe o mouse para ver o detalhe.
* Baseado em: Jornal UFG, Revista UFG Afirmativa nº 3, Reitoria Digital UFG, SIBI/UFG, Escola de Agronomia/UFG e Parque Tecnológico Samambaia/UFG.
Registro histórico · abril de 1988
O campus em 1988: os blocos originais de 1972 já estavam consolidados, a Reitoria e o Restaurante Universitário funcionavam no Samambaia desde 1977. A Biblioteca Central ainda ficava no centro de Goiânia — ganharia sede própria no campus só em setembro do ano seguinte.
Campus Samambaia, UFG, Goiânia, abril de 1988. Foto: Anatoly Kravchenko
198906
Biblioteca Central Prof. Alpheu da Veiga Jardim
A Biblioteca Central foi criada em 1973, mas funcionou por 16 anos num prédio provisório da Faculdade de Direito. Só em 13 de setembro de 1989 ganhou sede própria no Samambaia — 29 anos depois da criação da UFG. Hoje reúne quase 153 mil exemplares físicos e 7 mil e-books.
Biblioteca Central · sede no campus desde 13/09/1989
Biblioteca Central Prof. Alpheu da Veiga Jardim (BC/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 26 de novembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Registro histórico · 1990
Em 1990, a Biblioteca Central já havia se instalado no campus — inaugurada em setembro de 1989. O Samambaia tinha então sua estrutura acadêmica básica completa, mas ocupava uma fração do que seria décadas depois.
Nos anos 2000, o campus ganhou estruturas que deixaram de ser apenas acadêmicas. Prédio da reitoria, centro de eventos, centros de aulas equipados com projetores e ar-condicionado.
200207
Prédio da Reitoria
Inaugurado em 2002 durante o mandato da reitora Milca Severino Pereira, o prédio fica em frente à Escola de Música e Artes Cênicas. Concentra o Gabinete da Reitoria, as principais pró-reitorias e secretarias como a de Relações Internacionais e a de Comunicação.
Prédio da Reitoria · inaugurado em 2002
Prédio da Reitoria (UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
Registro histórico · 1992
O campus em 1992 — mesma estrutura do início dos anos 1990. Passaria ainda mais de uma década até a próxima grande onda de construções, impulsionada pelo REUNI a partir de 2008.
Centro de Cultura e Eventos Prof. Ricardo Freua Bufáiçal
Inaugurado em 12 de dezembro de 2008, o CCE é o espaço multiuso do campus. Sedia todas as colações de grau da Regional Goiânia, o Conpeex, o Espaço das Profissões e outros eventos de grande público.
CCE · inaugurado em 12/12/2008
Centro de Cultura e Eventos Prof. Ricardo Freua Bufáiçal (CCE/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Entrada do Parque Tecnológico Samambaia com ipê amarelo em flor, Campus Samambaia, Goiânia, 14 de setembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
201309
Parque Tecnológico Samambaia — o início
Em dezembro de 2013, foi inaugurado o CRTI — Centro Regional para o Desenvolvimento Tecnológico e Inovação —, primeiro prédio do Parque Tecnológico Samambaia. Com 1.704 m², o laboratório atende empresas, centros de pesquisa e o setor acadêmico. A área do Parque é de 179 mil m². Em 2017 viria o segundo prédio: a Agência UFG de Inovação.
CRTI · inaugurado em dezembro de 2013 · Parque Tecnológico Samambaia
2008–201310
A expansão do REUNI
O Programa REUNI, lançado pelo governo federal em 2007, viabilizou uma onda de obras no campus. Foram entregues quatro Centros de Aulas — Aroeira (2008), Baru, Caraíba e Pequi —, cada um com 29 salas e capacidade para 1.350 alunos. Novas sedes surgiram para o IME, INF, IESA, FAV, Labicom e Lapig. O Cercomp e o Ciar também ganharam prédios próprios.
Expansão REUNI · 2008–2013
Centro de Aulas Baru (CAB/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
2010s11
Oca Indígena, Centro de Saúde e moradia estudantil
O Núcleo Takinahakỹ de Formação Superior Indígena é a única graduação em Educação Intercultural para povos indígenas do país. O Centro de Saúde do Campus atende as 40 mil pessoas da região norte de Goiânia, entre servidores, alunos e moradores do entorno. A Casa do Estudante Universitário (CEU V) ampliou a moradia estudantil no campus.
Núcleo Takinahakỹ · Centro de Saúde · CEU V
Núcleo Takinahakỹ de Formação Superior Indígena (NTFSI/UFG), Campus Samambaia, Goiânia, 14 de setembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
A partir de 2017, o Parque Tecnológico entrou em ritmo acelerado. Em menos de dez anos, o complexo passou de um prédio para sete — financiados por Finep, Fapeg, Petrobras e outras parcerias. Cada inauguração trouxe mais empresas, pesquisadores e equipamentos para dentro do campus.
201712
Agência UFG de Inovação
Inaugurado em 18 de dezembro de 2017, o segundo prédio do Parque Tecnológico tem 1.555 m² e custou R$ 4,8 milhões. Sob o mesmo teto, funcionam a Pró-reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) — criada em 2013 para coordenar a política de pesquisa científica, propriedade intelectual e empreendedorismo da UFG —, o NIT/UFG, o CEI e o IPElab Unidade I. Também sedia empresas incubadas e residentes.
Agência UFG de Inovação · PRPI · 18/12/2017 · R$ 4,8 milhões
201813
IPElab — laboratório aberto de prototipagem
Inaugurado em dezembro de 2018 em parceria com o Sebrae Goiás e a Fapeg, o IPElab reúne impressoras 3D, fresadoras, tornos e outros equipamentos. O espaço é aberto a estudantes, inventores e empresários. Em 2019, o galpão de máquinas foi ampliado em 240 m².
IPElab · inaugurado em 20/12/2018 · UFG/Sebrae/Fapeg
202014
LIFE — Laboratórios Integrados para Inovação em Ciências Farmacêuticas
Inaugurado em dezembro de 2020, o edifício LIFE tem mais de 2.000 m² e custou R$ 9 milhões. Reúne quatro laboratórios voltados à pesquisa farmacêutica: Farmatec, iBIOM, ToxIn e cNanoMed, todos vinculados à Faculdade de Farmácia da UFG.
LIFE · dezembro de 2020 · R$ 9 milhões
Edifício LIFE, Parque Tecnológico Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
202014B
FUNAPE — sede própria no Parque
No mesmo mês de dezembro de 2020, a Fundação de Apoio à Pesquisa da UFG (Funape) inaugurou sua sede própria no Parque Tecnológico, com 1.772 m² e R$ 5,5 milhões investidos — encerrando décadas de funcionamento em espaços locados dentro do campus.
FUNAPE · dezembro de 2020 · R$ 5,5 milhões
Sede da FUNAPE, Parque Tecnológico Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
Os dois prédios mais recentes do campus, inaugurados entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, somam R$ 64,5 milhões em investimentos. O campus que começou com uma fazenda hoje tem equipamentos que não existem em mais nenhum lugar na América Latina.
nov. 202515
CEMEP — pesquisa em petróleo e energia
Inaugurado em 11 de novembro de 2025, o CEMEP recebeu R$ 45 milhões, a maior parte da Petrobras. O prédio abriga equipamentos únicos no Brasil — entre eles um espectrômetro de massas de 15 tesla, capaz de analisar a composição química de petróleo e biocombustíveis — e o primeiro laboratório da América Latina para análise de isótopos agrupados de metano.
CEMEP · inaugurado em 11/11/2025 · R$ 45 milhões · Petrobras
CEMEP — Centro de Excelência em Estudos Moleculares, Energia e Petróleo, Parque Tecnológico Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
jan. 202616
Colabora+ — o prédio mais novo do campus
Inaugurado em 9 de janeiro de 2026, o Colabora+ tem 1.772 m² e custou R$ 19,5 milhões, financiados por Finep e Fapeg. Foi construído em 18 meses e já nasceu completamente ocupado. Sedia o Centro de Inteligência Artificial (CEIA), o CIAP, o Centro de Empreendedorismo e Incubação (CEI) e o Centro de Competência Embrapii em Tecnologias Imersivas (Akcit).
Na inauguração, a reitora Angelita Pereira de Lima disse que o prédio “materializa quatro anos de trabalho e reafirma o papel da universidade pública no desenvolvimento social”.
Colabora+ · inaugurado em 9/1/2026 · R$ 19,5 milhões · Finep/Fapeg
Colabora+ — Centro de Inovação e Empreendimentos Tecnológicos, Parque Tecnológico Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
Campus Samambaia · Outras estruturas
O campus que o drone encontrou
Além dos prédios que marcaram a cronologia do campus, o Samambaia reúne faculdades, laboratórios, espaços esportivos e equipamentos de infraestrutura que formam o dia a dia de uma cidade universitária com mais de 40 mil pessoas.
EMAC — Escola de Música e Artes Cênicas
Surgiu em 1996 com o desmembramento do Instituto de Artes, que funcionava desde 1972. Abriga a Escola de Música — uma das fundadoras da UFG, criada em 1956 como Conservatório Goiano de Música.
Campus Samambaia, Goiânia, 26 de novembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
IAC — Instituto de Artes da Cena
Criado em 2025 após 17 anos de propostas. A primeira proposta de criação foi apresentada em 2008, mas só em 2025 as condições foram consolidadas. O curso de Dança, que era da FEFD, passou a integrar o IAC.
Campus Samambaia, Goiânia, 26 de novembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
FIC — Faculdade de Informação e Comunicação
Instalada como Facomb em 20 de agosto de 1997, após desmembramento do ICHL. Em 2013, com o REUNI, tornou-se FIC. Abriga os cursos de Jornalismo (o mais antigo, criado em 1966), Publicidade, Relações Públicas, Biblioteconomia e Gestão da Informação.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Labicom — Laboratórios de Comunicação e Informação
Inaugurado em 28 de agosto de 2013, o Labicom é o maior projeto laboratorial da FIC. Reúne agências-escola dos cursos de comunicação e estruturas de produção audiovisual, pesquisa e redação.
Campus Samambaia, Goiânia, 14 de setembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
FH — Faculdade de História
Originada do desmembramento do ICHL, um dos institutos pioneiros instalados no campus em 1973. Hoje ocupa prédio próprio no Samambaia.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
FL — Faculdade de Letras
Também originada do ICHL, instalado no campus em 1973. Ocupa prédio próprio no Samambaia ao lado da FH e do CAA.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
FACE — Faculdade de Administração e Ciências Econômicas
Prédio próprio no Samambaia. Fica próxima ao CAB e ao INF, na área da expansão do REUNI.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
IME — Instituto de Matemática e Estatística
Herdeiro do Instituto de Matemática e Física (IMF), um dos primeiros a se instalar no campus em 1973. Ganhou sede própria com a expansão do REUNI a partir de 2008.
Campus Samambaia, Goiânia, 14 de setembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
IESA — Instituto de Estudos Socioambientais
Criado a partir do desmembramento de unidades ligadas à Geografia e ao meio ambiente. Abriga o Lapig — Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento, referência nacional em monitoramento do Cerrado.
Campus Samambaia, Goiânia, 14 de setembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
INF — Instituto de Informática
Prédio inaugurado com o REUNI. Fica ao lado do CAB e do FACE. Em 2012, transferiu o curso de Gestão da Informação para a FIC.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
CAA — Centro de Aulas Aroeira
Primeiro dos quatro centros de aulas entregues pelo REUNI, em 2008. Cada centro tem 29 salas e capacidade para 1.350 alunos simultâneos. O nome homenageia espécies nativas do Cerrado.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
CAC — Centro de Aulas Caraíbas
Um dos quatro centros de aulas do REUNI. Fica próximo ao IME e ao IESA, na área de expansão do campus.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
FEF — Faculdade de Educação Física
Criada como Coordenação de Educação Física em 1978, tornou-se faculdade em 1996. O prédio foi inaugurado em 1994. A área é de aproximadamente 100 mil m² e inclui campo de futebol, ginásio, duas piscinas, pista de atletismo e quadras. Em março de 2026, voltou à denominação Faculdade de Educação Física após o curso de Dança migrar para o novo IAC.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Piscinas da FEF
A FEF mantém duas piscinas — uma olímpica e uma infantil — abertas à comunidade por meio de projetos de extensão. Natação e hidroginástica estão entre as atividades oferecidas à população do entorno do campus.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Centro de Esportes da UFG
Gerido pela PRAE — Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis —, atende prioritariamente estudantes de baixa renda. Conta com academia e quadra poliesportiva, com horários disponíveis também para atléticas e eventos estudantis.
Campus Samambaia, Goiânia, 15 de abril de 2026. Foto: Raniê Solarevisky
TV UFG
A Rádio Universitária UFG foi inaugurada em 1965, na Alameda Botafogo. O prédio atual no Campus Samambaia abriga três estúdios com isolamento acústico, auditório para 110 pessoas e departamentos de jornalismo e produção. A TV UFG funciona sob a mesma estrutura da Fundação RTVE.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Árvore Solar
Instalada em 5 de junho de 2018, Dia Mundial do Meio Ambiente, como símbolo do projeto UFG Sustentável em parceria com a Enel. É uma palmeira metálica de 11 metros com dez painéis fotovoltaicos, localizada entre o Centro de Convivência e a EMAC. O campus também conta com 2.440 placas solares instaladas nos telhados, inauguradas em junho de 2019.
Campus Samambaia, Goiânia, 26 de novembro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
DEI — Departamento de Educação Infantil
Creche universitária que atende filhos de servidores e estudantes da UFG. Fica no Campus Samambaia, próximo à FIC, FH e CAC.
Campus Samambaia, Goiânia, 7 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
LAMES — Lab. de Métodos de Extração e Separação
Criado em 2003 com recursos da FINEP (CTPetro), o LAMES é vinculado ao Instituto de Química e atua em pesquisa, ensino e prestação de serviços em Química e Ciências Ambientais. Coordena projetos financiados por FINEP e CNPq com empresas dos ramos petroquímico, farmacêutico e alimentício, e captou cerca de R$ 40 milhões em 20 anos de atuação.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
Lapig — Lab. de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento
Vinculado ao IESA, é referência nacional no monitoramento do Cerrado e de pastagens brasileiras por imagens de satélite. Produz dados usados por pesquisadores, órgãos públicos e imprensa.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
LabTIME — Lab. de Tecnologia da Informação e Mídias Educacionais
Desenvolve soluções digitais para o ensino e produziu as plataformas AvaMEC e AvaCAPES, usadas pelo Ministério da Educação em todo o país. Já produziu cerca de 3 a 4 mil horas de programação educacional para o MEC e oferece cursos de extensão gratuitos abertos ao público.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
NUPEC — Núcleo de Pesquisa em Ensino de Ciências
Nasceu em 2002 como um grupo informal de alunos e professores do Instituto de Química e foi oficializado em 2004. Reúne professores do IQ, IF e ICB, além de docentes da rede básica estadual e municipal. Realiza encontros quinzenais para discutir ensino de ciências, formação docente e questões ambientais.
Campus Samambaia, Goiânia, 21 de outubro de 2025. Foto: Raniê Solarevisky
CRTI — Centro Regional para o Desenvolvimento Tecnológico e Inovação
Inaugurado em 9 de dezembro de 2013, o CRTI foi o primeiro prédio do Parque Tecnológico Samambaia. Com investimento de R$ 20 milhões de Finep, Fapeg, Sectec, UFG e emendas parlamentares, oferece dez técnicas instrumentais organizadas em quatro divisões — de microscopia eletrônica de varredura a cromatografia líquida de alta resolução. Atende instituições de ensino e pesquisa de todo o país.
Parque Tecnológico Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
Espaço Intercultural Indígena
Em 10 de fevereiro de 2025, a UFG lançou a pedra fundamental do novo Espaço Intercultural Indígena. Com 3.723 m² e R$ 17,8 milhões do PAC, o complexo prevê auditório para 340 pessoas, alojamento, refeitório, redário e área infantil — com conclusão prevista para julho de 2026. É complementar ao Núcleo Takinahakỹ, que desde 2006 oferece a única licenciatura em Educação Intercultural para povos indígenas do país e, em 2025, contava com 270 alunos de 27 povos.
Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
NDH — Núcleo de Direitos Humanos
O Programa de Direitos Humanos da UFG existe desde 10 de dezembro de 1999. Em 2010, formalizou-se como Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa, Ensino e Extensão. Em dezembro de 2018, inaugurou sede própria no Campus Samambaia em parceria com o Ministério Público do Trabalho. Mantém o Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos (PPGIDH), com mestrado desde 2012 e doutorado aprovado em 2018.
Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
CIDARQ — Centro de Informação, Documentação e Arquivo
Criado pela Resolução CONSUNI n.º 002/2010, o CIDARQ guarda a memória institucional da UFG. A sede no Campus Samambaia gerencia o Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e o acervo arquivístico digital da universidade. Mantém também a Casa da Memória — um prédio de 1930, tombado como patrimônio histórico em 1982, no centro de Goiânia — onde pesquisadores e jornalistas encontram os registros mais antigos do campus.
Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
FAV — Faculdade de Artes Visuais
Herdeira do Instituto de Belas Artes de Goiás, criado em 1960, a FAV nasceu em 1996 com o desmembramento do Instituto de Artes da UFG. Em 25 de março de 2013, inaugurou prédio exclusivo no Campus Samambaia: 4.400 m² com ateliês, laboratórios e auditório. Oferece sete cursos — entre eles Arquitetura e Urbanismo, Design Gráfico e Design de Moda — e dois programas de pós-graduação stricto sensu.
Campus Samambaia, Goiânia, 15 de maio de 2026. Foto: Sofia Costa
Em 62 anos, o Campus Samambaia passou de uma fazenda com uma escola fechada a um dos maiores polos de inovação do Centro-Oeste. O Parque Tecnológico, que começou com um prédio em 2013, tem hoje sete estruturas e não parou de crescer. O campus que o drone vê hoje não é o mesmo de dez anos atrás, e esperamos que não seja o mesmo daqui a dez anos.
Imagens históricas do campus podem ser solicitadas ao CIDARQ — Centro de Informação, Documentação e Arquivo da UFG (cidarq@ufg.br). Imagens atuais: Banco de Imagens Goiano de Drone – BIGOD.
Neste entrevista, Ana Canavarro Beneti, pesquisadora e historiadora, professora titular do Instituto da Química da Universidade Federal de Goiás, ressalta que a abolição da escravidão no Brasil não significou, de fato, a liberdade para a população negra, mas atendeu sobretudo a pressões externas. A docente também fala sobre como os fatos históricos demonstram que o racismo foi traçado para apagar a existência das pessoas negras na sociedade Brasileira.
Pode falar seu nome e sua profissão?
Então vamos lá: meu nome é Ana Canavarro Benite, pesquisadora negra e professora titular do Instituto de Química na Universidade de Federal de Goiás.
Como podemos entender a origem da desigualdade racial no Brasil? E quais foram os principais marcos históricos que contribuíram para construção da desigualdade racial?
Ana: O Brasil firma a origem da desigualdade social a partir do processo de colonização da sociedade né, então nós temos uma colonização autorizada pela modernidade que impacta sobretudo as Américas do sul e a África. Temos um país que nasce da exploração de corpos, da invisibilidade, da inteligência desses corpos negros — dentre esses fatores, como que a gente vai imaginar uma igualdade entre raças?
Onde o branco tem mais privilégio da dominação do negro, é assim que a nossa sociedade se instaura de fato, porque o Estado brasileiro, quando legisla, a sua constituição deixou pessoas negras fora das escolas proibindo escravizados de comprar suas terras, então somos um país que constrói a desigualdade racial a partir desses marcadores.
De que forma Abolição da escravidão impactou a inclusão da população negra na sociedade?
Ana: Abolição de escravidão não aconteceu de fato, ela é uma pressão, podemos dizer assim, atendimento a uma pressão política externa de acordos entre Brasil, Inglaterra e a França, os grandes comerciantes de pessoas. E essa abolição larga as pessoas negras principalmente no meu país, sobretudo as escravizadas, jogadas à própria sorte, sem amparo nenhum na legislação brasileira, sem trabalho nenhum e sem formação. Essas pessoas são abandonadas à própria sorte e isso impacta diretamente na trajetória dessas pessoas na sociedade, que estão até hoje lutando para sair da subalternidade por uma estratégia traçada de apagamento das nossas existências.
O que é racismo estrutural e como ele se diferencia de outras formas de racismo? E como esse racismo se manifesta nas instituições, como educação, saúde, mercado de trabalho e sistema de justiça?
Ana: Agora falando do racismo estrutural, o racismo ele transcende o âmbito individual, ele traz o poder como constitutivo das próprias relações raciais. Essa noção faz com que a gente perceba que as formas de racismo nascem dessas estruturas, porque todas as instituições reproduzem essa maneira de se organizar, porque de modo geral a nossa sociedade é racista. Então a nossa sociedade é racista. O que quero dizer com isso é que o racismo é uma estrutura impregnada nas nossas relações , então não é um comportamento.
Então se hoje seu colega de trabalho te trata mal ou faz uma observação, “servicinho de preto”, por exemplo, então a gente não pode reduzir isso a uma dimensão do comportamento, dizendo “hoje foi um dia ruim, por isso a pessoa se comportou dessa forma”, porque não se trata do âmbito do indivíduo, trata-se do projeto do poder para manter o sujeito universal sempre à frente nas estruturas de poder. Então a manifestação desse racismo está na violência enfrentada por pessoas negras pelas estruturas, seja pela polícia, seja no mercado de trabalho, seja nos próprios processos enraizados da historicidade, nas normas e padrões culturais que são frequentemente desvalorizados e também falta de liderança nos espaços de poder. Isso também se reflete no acesso do espaço de serviço às mulheres negras: são as que recebem dose menor de anestesia na hora do parto, se repetem dentro do sistema de justiça, onde as pessoas negras dão maior número de representatividade dentro dos presídios no Brasil, mesmo que essas pessoas não tenham cometido esses crimes. Esse é o sistema do racismo estrutural no nosso país.
Há avanços significativos nas ultimas décadas ou ainda estamos muito distantes de uma sociedade mais justa?
Ana: Sem dúvida nenhuma existem avanços: as políticas de ações afirmativas são avanços significativos, a existência de legislação para a criminalização do racismo, mas é difícil a gente ver um racista na cadeia. A própria constituição Brasileira já dizia no seu artigo 206 que, quando se ensina a história do Brasil, é para falar dos grupos que compõem essa população. Existem motivos de comemoração, mas ainda estão muitos distantes de a gente avançar de fato sobre a erradicação do racismo.
A região central da cidade de Goiânia foi o primeiro bairro a ser planejado na capital. Sendo o arquiteto Atílio Correira Lima a executar o projeto, suas obras deram início no ano de 1933 com as Avenidas Araguaia, Goiás e Tocantins. Mesmo com os principais pontos turísticos e históricos contruídos no estilo Art déco pertecentes a essa área, ela foi abandonada pelo poder público, ficando à mercê dos estragos e apagamentos que o tempo gera.
Com o acúmulo de projetos de revitalização até hoje não efetivados, se torna difícil acreditar que as metas apresentadas pelo prefeito Rogério Cruz na Estação Ferroviária sejam cumpridas. O objetivo central é tornar a região mais atrativa para novos moradores, bem como os já existentes. Para além, cabe ressaltar que é estimada a fomentação do comércio e da indústria local, desenvolvendo o empreendedorismo, arte, cultura, lazer e turismo, requalificando espaços mobiliários e combatendo a criminalidade urbana. Todas essas ambições irão permear pela preservação do meio ambiente e a valorização do patrimônio histórico-cultural do Centro.
Para entender melhor como irá funcionar esse projeto tão amplo, Ênio Pazini Figueiredo, engenheiro especialista em patologia e terapia das construções, que trabalha com avaliação, reparo e recuperação de estruturas de concreto, concedeu uma entrevista analisando alguns pontos apresentados. Com o histórico de reparação e avaliação de obras tombadas como o Trampolim e Mureta do Lago das Rosas, Palácio Pedro Ludovico Teixeira e obras não tombadas como o Estádio Serra Dourada, Ênio se mostra especialista em uma área tão cara para a história goianiense.
Para início, Ênio fala sobre o estilo arquitetônico Art déco e sua significação em Goiânia:
A nossa cidade tem, talvez, uma das maiores concentrações de edifícios Art decó do nosso país. […] Como Goiânia é uma cidade nova, em relação a outras capitais, ocorreu a decisão de utilizar este estilo lá no início de sua criação, porque é um estilo que representa modernidade e é um estilo progressista né? Então isso se adequou bastante a uma cidade ou uma capital que estava nascendo num local novo. E isso cresceu, acredito eu que cresceu com a cidade né? De ser uma cidade pujante, uma cidade progressista, uma cidade que atrai pessoas de todos os locais. E este estilo arquitetônico, que é um estilo francês né? Ele se adequou bastante a esta caracterização da nossa cidade. Então nós temos vários edifícios que vem desde o início da cidade.[…] Ali nessa região nós temos a Casa de Pedro Ludovico Teixeira toda em estilo Art déco, o Coreto, a Delegacia Fiscal, as Fontes Luminosas, o Fórum, o Museu Zoroastra Artiaga, o Obelisco, o Palácio do Governo, a Procuradoria-Geral do Estado, a Secretaria Geral, o Centro Cultural Marieta Teles Machado, o Tribunal Regional Eleitoral. Isso só naquela região da Praça Cívica. Um pouquinho mais afastado tem o Teatro Goiânia, o Liceu de Goiânia, a Estação Ferroviária, o Trampolim, que eu tive participação na revitalização, a Mureta do Lago das Rosas também. Eu vejo que é um conjunto de edifícios bem importante, que é tão importante que existe um tombamento nacional em relação a esse nosso acervo arquitetônico, no qual a gente deve se orgulhar. Entretanto, ao longo dos anos não vêm sendo mantido da forma como deveria.
O engenheiro também cita que deve ter a adequação da escolha de materiais contrutivos para com a cultura local. Em novos locais que estejam sendo construídos e formados agora, é cabível a utilização de estruturas modernas com vidros e linhas retas, aos moldes de Brasília, mas segundo ele, ambientes históricos devem favorecer e ter orgulho da estrutura que já apresentam.
Quando perguntado sobre a importância da revitalização do Setor Central, o engenheiro fala:
O Centro de Goiânia ainda apresenta muitas necessidades, mas o diferencial desse projeto talvez tenha sido o de chamar os moradores, as entidades que representam os moradores, os comerciantes, as indústrias locais para participarem. Ouvindo as pessoas mais interessadas, ali naquela região, acabaram que chegaram a esse Projeto Centraliza, que certamente trará melhor qualidade para os comerciantes, melhor qualidade para os moradores, melhor qualidade para as pequenas indústrias que existem, atraindo assim o turismo para aquela região que é tão carente né? Carente de soluções técnicas que tragam segurança para os transeuntes, as pessoas que vão ali fazer compras, pessoas que residem lá.[…] não é só manter os que estão ali, é fomentar, é atrair, dar atrativos para novos moradores, novos comerciantes, novas indústrias. Atrair o turismo, atrair as pessoas para o centro da cidade. E para isso tem que ter ações ações de curto prazo, ações de médio prazo e ações de longo prazo, que é o que o projeto contempla.
Algumas dessas ações de curto prazo é a realização de 80 novos pontos de ônibus, reestruturação das calçadas, meios fios, iluminação e a colocação de câmeras de segurança nessa região.
O Projeto Centraliza fala muito sobre atrair novos residentes para o Setor Central, mas não apresenta nenhuma meta a respeito das pessoas em situação de rua que o abrigam. Sobre isso, Ênio dá sua opinião:
[…] obviamente esse problema social é do nosso país né? Eu diria que não é só do nosso país, mas sim do mundo. Espera-se que esse projeto, pelo menos no que se refere àquela localidade, traga mais empregos, como aqueles que foram perdidos durante a pandemia. Também é esperado que se traga mais atividades sociais, culturais, e o projeto contempla isso com a preservação do meio ambiente. Então, o resultado é que pessoas e famílias tenham atividades culturais e sociais ali naquele local.[…] Agora o impacto que isso vai ter para as pessoas em situação de rua ou a pobreza da nossa cidade e da nossa região a gente só vai ver ao longo do tempo. Porque não é assim né? “Vamos retirar isso e jogar embaixo do tapete para ninguém ver” Não, isso tem que ser uma coisa sustentável. Tem que ter ações que gerem a melhora da qualidade de vida e que chegue até essas pessoas e isso é bem mais complexo.
O professor Rafael Saddi Teixeira é docente na Universidade Federal de Goiás, integrando o corpo docente da Faculdade de História. Sua trajetória acadêmica é marcada pela dedicação à área de história, com formação em história na graduação e doutorado na mesma área. Ele se especializou na história social e na didática da história, focando sua pesquisa no campo da história dos trabalhadores no Brasil, com um interesse particular na história dos catadores de materiais recicláveis no país. Desde a adolescência, o anarquismo desperta seu interesse, influenciando seu pensamento político ao longo dos anos.
O professor Rafael ministra regularmente uma disciplina chamada “História do Anarquismo” no Núcleo Livre para alunos de diversas áreas na UFG, uma atividade que ele realiza por pura paixão pelo tema, indo além do seu compromisso acadêmico. O Lab Notícias discutiu com o professor Rafael Saddi os motivos do declínio do anarquismo moderno e a influência anarquista nas manifestações de 2013. O professor destacou vários fatores que contribuíram para a diminuição da influência do anarquismo, incluindo mudanças políticas, sociais e econômicas ao longo do tempo.
NOTADE REDAÇÃO: As manifestações de 2013 foram diversas mobilizações de massa que ocorreram em mais de quinhentas cidades do Brasil. Estas manifestações, que contaram com amplo apoio da população, criticaram o aumento das tarifas de transporte público, a violência policial, a falta de investimentos em serviços públicos, os gastos excessivos em megaeventos esportivos, além do poder dos oligopólios de comunicação e a dominação de partidos políticos sobre os movimentos populares. As reivindicações incluíram a tarifa zero nos transportes públicos, o fim da violência policial, maior investimento em serviços públicos, além de demandas trabalhistas e classistas. O movimento adotou uma variedade de métodos, como protestos de massa, assembleias populares, mídia alternativa, greves, ocupações e até mesmo táticas mais radicais como o Black Bloc. As mobilizações resultaram no cancelamento do aumento das tarifas de transporte público em várias cidades e na aprovação de uma lei que destinava royalties do petróleo para a saúde e educação públicas. No entanto, os participantes enfrentaram repressão violenta por parte do governo, incluindo prisões arbitrárias, uso de balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e até mesmo prisões políticas. Os anarquistas, autonomistas e marxistas não-institucionais foram especialmente atacados pelo Estado durante esse período.
Foto: Mídia NINJA
Fernando Dias: Para iniciar, poderia fornecer uma definição do anarquismo para leitores que talvez não estejam familiarizados com o termo? Quais os princípios fundamentais do anarquismo?
Rafael Saddi: O anarquismo é uma corrente política-ideológica do movimento dos trabalhadores, que entende que os trabalhadores continuam sendo massacrados e escravizados na sociedade atual. Essa corrente surgiu no século XIX, quando estavam surgindo as primeiras associações internacionais de trabalhadores, e o anarquismo surgiu no seio dessas organizações visando uma revolução social que emancipasse os trabalhadores da sua exploração e dominação. Esse é o objetivo dos anarquistas, e eles acreditam que ninguém pode dar a liberdade para o outro, então a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores, todos os explorados devem lutar pela sua libertação através da sua organização e luta.
O anarquismo se distingue de todas as outras correntes, porque o anarquismo busca uma transformação radical enquanto a maioria delas busca a manutenção do sistema ou a transformação através do poder. Seja através das eleições para ganhar um cargo no poder para mudar de cima, ou seja pela tomada do poder à força, com um golpe ou uma revolução que tome o poder do Estado. O anarquismo rejeita todas essas alternativas porque defende que quem tomar o poder se tornará dominador e desejará manter-se no poder, pois o poder corrompe. Basicamente esses são os princípios fundamentais da análise do anarquismo. Então é deve se destruir esse poder de dominação criar uma sociedade todos sejam de fato iguais e diversos e diferentes portanto iguais, né?
Fernando Dias: Por que os estudantes brasileiros parecem estar mais inclinados a aderir ao comunismo em vez do anarquismo dentro do ambiente universitário? Quais fatores podem estar influenciando essa preferência ideológica?
Rafael Saddi: Em geral é interessante essa pergunta porque a pouco tempo atrás, entre 2016 e 2017, quando eu comecei a ministrar a disciplina de História do Anarquismo, nas ciências humanas havia mais estudantes anarquistas na UFG do que comunistas. Houve um momento de ascensão das ideias anarquistas no meio universitário, isso durou de 2013 até 2019. Mas de repente, isso mudou de novo, e voltou que era, sempre o comunismo teve mais representação. Quando eu falo sempre, falo pelo menos da segunda metade do século XX em diante. A partir desse período, existem mais comunistas do que anarquistas no Brasil. Com algumas pequenas interrupções, como de 2013 a 2019. Por que isso acontece? Para começar, o anarquismo nunca esteve no poder, pois ele rejeita o poder, não quer estar no poder. Já o comunismo esteve no poder e a partir disso as ideias comunistas começaram a penetrar em várias instituições de poder. Por exemplo, a vitória da Revolução Russa trouxe a consolidação e a hegemonização dessa corrente também ajudou a divulgar um certo tipo de concepção de socialismo para o resto do mundo.
Mas não só a Revolução Russa, mas a Revolução Cubana, a Revolução Chinesa. Por isso, acredito que o fato das revoluções vitoriosas terem se institucionalizado em uma concepção de socialismo que teria vindo do Marx, embora, ele seja muito diferente da teoria original. Por isso, no Brasil e na América Latina, percebe-se que alguns anos após a Revolução Russa, os comunistas assumem uma hegemonia que antes pertencia aos anarquistas. As pessoas passam a acreditar que o comunismo dá certo. Apesar de não ser possível chamar esses regimes de comunismo, é um capitalismo de Estado. Todas as relações são capitalistas, o trabalhador continua afastado no meio de produção sendo explorado por um patrão, mas o patrão agora é um só, o patrão é o Estado.
Fernando Dias: É interessante notar que, de 2013 a 2016, observamos um aumento significativo do anarquismo nas universidades, como o senhor mencionou. Você acredita que essa tendência está relacionada aos protestos de 2013, nos quais vários grupos anarquistas, incluindo ganharam visibilidade com os Black Bloc? Apesar de serem poucos numericamente, esses grupos foram considerados pelas autoridades como os mais perigosos, como indicado em declarações do próprio Estado. Você poderia discutir se esses eventos podem ter influenciado o ressurgimento do anarquismo nas instituições de ensino superior?
NOTA DE REDAÇÃO: O Black Bloc é uma tática de ação direta de cunho anarquista, onde grupos de se reúnem mascarados e vestidos de preto para protestar em manifestações de rua, atacando diretamente a propriedade privada, destacando sua oposição às corporações multinacionais e aos governos que as apoiam.
Rafael Saddi: Sim, com certeza esse destaque que o anarquismo recebeu durante os protestos de 2013 influenciaram. Mas o que é interessante é que esse destaque se dá até antes mesmo dos Black Block surgirem, por meio das manifestações pelo transporte foram impulsionadas por grupos que tinham uma linha de atuação anarquista ou autonomista, como no caso do MPL (Movimento Passe Livre). Então era uma frente de luta aqui com uma hegemonia dos anarquistas, autonomistas e maoístas também. Em 2013, por alguma razão os anarquistas impulsionaram manifestações. Esses foram os protagonistas das ações de 2013, do início do movimento quando ele era uma luta pelo transporte. Isso tem várias razões, uma delas ocorre porque os anarquistas de fato sempre tiveram vínculo no Brasil recente com as lutas pelo transporte público, contra o aumento da passagem. Isso é histórico, desde o início do século XXI, em 2005 acontecem as Revoltas da Catraca em vários locais do Brasil, impulsionadas por movimentos anarquistas e autonomistas.
Em segundo lugar, porque no tempo do governo PT, desde o primeiro governo Lula até o governo Dilma, o que o PT fez? A partir do poder ele engessou os movimentos porque como a maioria dos sindicatos eram vinculados ao PT como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), toda a Central Sindical e outros movimentos deixaram de fazer lutas. Pois foram para o governo, tornaram-se parte do poder. Então se criou um vazio de lutas que precisava ser ocupado, e foi ocupado inicialmente pelos anarquistas, depois eles perdem esse espaço para uma direita que passa dominar as ruas. E nós estamos vivendo esse problema até hoje porque o vazio que foi ocupado pra direita ainda é ocupado por essa mesma direita.
Fernando Dias: Por que o governo e o sistema adotaram medidas tão severas contra os Black Blocs em 2013, considerando que o anarquismo é um movimento relativamente pequeno no Brasil em comparação com outras ideologias? Essa reação extrema se deve ao medo de propagação das ideias anarquistas ou ao receio de que os anarquistas possam instigar mudanças significativas? Ou é uma resposta à percepção de que os anarquistas são propensos a causar tumultos e destruição durante as manifestações?
Rafael Saddi: A repressão se dá na medida em que a luta de fato incomoda, quando a luta começa a barrar interesses, a repressão vem com tudo, e o que acontece com o método anarquista de luta é que ele acaba causando prejuízos para para essa classe dominante.
Em 2013 eu fui às manifestações e tinha uma juventude da periferia que nunca tinha ido participar de nenhum ato e começaram a participar nos atos de 2013, na luta pelo transporte e eles falavam claramente o motivo: porque aquilo não era passeata, não era mentira, era de verdade. Não é uma passeata onde os chefões dos sindicatos ficam só falando no carro de som e você fica passeando feito bobo, não adianta. Aquilo era de verdade, era para valer isso aqui é a gente foi para manifestar, para mostrar a nossa revolta, e quando a gente ocupa a rua, ela é nossa.
Então esse método incomoda, ele gera atenção e esse é o grande problema. Ele toma a rua para si, ou seja naquele momento aquela rua não era do Estado, era do povo e o sistema não aceita isso. E o Estado busca normatizar como o povo vai se manifestar, então do que adianta protestar sem incomodar, sem atingir aquele que está me oprimindo e humilhando? No caso em 2013, se tratava da máfia dos transportes que ganhava milhões do povo. É toda uma lógica para normatizar os protestos até a revolta ser pacificada, regulada e estatizada. Por isso que o anarquismo sempre vai gerar tensões e está sempre na iminência da repressão.
Fernando Dias: O anarquismo muitas vezes enfatiza a autonomia e a descentralização. Isso pode ter contribuído para essa fragmentação dos grupos anarquistas no Brasil? Como essa abordagem influenciou a coesão do movimento?
Rafael Saddi: Eu não atribuo isso à ideia de descentralização e autonomia. O anarquismo é a corrente mais radical que já surgiu na história da humanidade, e nega qualquer tipo de poder, estando sempre do lado do oprimido, é uma corrente que não quer ser o oprimido e nem o opressor. Por esses motivos, o anarquismo foi a corrente combatida de forma mais radical, ocorreu um massacre do anarquismo muito repressivamente. Como pode ser visto a partir da década de 30, no governo Vargas e até um pouco antes, o Estado Brasileiro e as elites decidiram massacrar porque a grande hegemonia do movimento operário era anarquista, faziam diversas greves gerais, como a Grande Greve Geral de 1917. O combate ao anarquismo foi tão pesado que houveram campos de concentração de anarquistas no Brasil. Por conta dessa perseguição, as próximas gerações não tiveram conhecimento sobre, fizeram de tudo para apagar essa história.
Então, o que acontece é que, como as próximas gerações não ficaram sabendo o que é o anarquismo, elas acabam recriando ele de outras formas, de diversas maneiras diferentes. Essa talvez seja até a potência do anarquismo, ele consegue penetrar em todas as áreas, existe uma diversidade muito grande sobre o nome da anarquia. Isso impossibilita a unidade porque às vezes os grupos anarquistas podem entender o anarquismo de formas totalmente diferentes. Eu atribuo um pouco a isso assim a ausência hoje de uma de uma organização nacional anarquista, e além disso, é muito difícil você manter algo sem estrutura.
Por exemplo, é muito fácil manter as estruturas desses partidos reformistas que ganham milhões nas eleições, esses partidos vivem no sistema capitalista com as armas do capitalismo. Já o anarquismo está sempre contra a corrente. Tem que se organizar sem essa estrutura e essa estrutura indo contra ele, então é muito mais difícil manter alguma coisa constante e por mais tempo quando o sistema vai contra isso, a nossa vida vai contra isso. O anarquista tem que se sacrificar para poder se organizar, para poder lutar. Ele está fazendo uma ação que não vai ganhar nada com isso, não vai ganhar poder, pelo contrário, ele vai perder: vai ser preso, vai receber ameaças, vai perder dinheiro, perder emprego, entrar pra lista negra. Então é muito mais difícil manter uma organização assim.
Fernando Dias: Por que observamos a presença de parlamentares assumidamente comunistas em diversos sistemas políticos, enquanto a representação parlamentar anarquista é escassa? Existem obstáculos específicos que impedem a entrada de políticos anarquistas no cenário político tradicional? Seria possível conciliar os princípios anarquistas com a participação ativa e eficaz em cargos parlamentares?
Rafael Saddi: O anarquismo nega a transformação via política institucional. Então um parlamentar anarquista não faz sentido, é contraditório ao anarquismo. Essa corrente nega essas vias indiretas de transformação. Por exemplo, você é um funcionário público, você vende sua força de trabalho,você é um empregado do Estado, isso não é uma contradição, mas agora se você faz da política a sua vida, você entra em contradição total com o anarquismo. Em primeiro lugar, o parlamentar precisaria estar ligado a um partido, e o partido não é anarquista, em segundo lugar, a tendência desse parlamentar no poder seria virar um burocrata, se corromper dentro do sistema e deixar de atuar para uma transformação radical e sim para manutenção do sistema, inclusive pensando nas próximas eleições.
Eu particularmente não consideraria um vereador ou um deputado anarquista. Já os comunistas, não tem problema com isso, alguns acham que é uma estratégia de luta buscar a mudança de dentro do sistema, então eles investem nessas vias. Como resultado, os comunistas vão ter mais recursos e poder, mas estarão mais comprometidos com o sistema. No Brasil existem partidos anarquistas, mas eles não são institucionais, não são partidos para concorrer às eleições, são partidos inclusive secretos que atuam visando impulsionar os movimentos populares.
Fernando Dias: A CAB (Coordenação Anarquista Brasileira), principal organização que articula os grupos anarquistas no Brasil adota uma política de qualidade sobre quantidade, com critérios rigorosos para filiação e sem propagandas de filiação. Você acredita que essa estratégia pode ser eficaz para fortalecer o movimento anarquista a longo prazo? Como ela pode influenciar a sustentabilidade do anarquismo no Brasil? Não é uma política contraditória com um movimento de massas como o anarquismo?
Rafael Saddi: Podemos dizer que a concepção histórica surgida no século XIX naquilo que ficou conhecido como a minoria ativa que é o seguinte, o Bakunin, ele pensava em termos de uma dualidade organizacional; existia um movimento de massa que era a associação dos trabalhadores que busca unificar todos trabalhadores. E dentro desse movimento massivo existe uma organização de minorias ativas de anarquistas que precisam ter unidade teórica, de ação e que precisa ser muito confiável.
Por exemplo, como é que você vai discutir a repressão ou planejar uma ação do Black Bloc em uma organização de massa em que qualquer um entra. Então, o CAB e a UNIPA (União Popular Anarquista) fazem parte dessa corrente que remonta a origem histórica do anarquismo na dualidade organizacional, então essas organizações estão pensando igual ao Bakunin, que organizava insurreições no século XIX. E para isso é preciso ter um nível secreto de atuação, algo que ainda não acontece hoje no nível que os anarquistas acreditavam ser necessário.
É nesse sentido que se entende na ideia de minoria ativa que existem critérios rígidos e fechados no nível organizacional, mas no meio popular eles são opostos a isso eles são mais abertos, o mais amplo possível. Pois quem vai fazer a revolução não é a organização, ela vai dar o suporte para a revolução, quem vai fazer a evolução é o povo, e esse povo é que é massivo.
Fernando Dias: Para concluir, diante das complexidades e desafios enfrentados pelo anarquismo no Brasil, qual você acredita ser o caminho mais promissor para revitalizar e fortalecer o movimento anarquista no país? Existem lições do passado ou exemplos de outros contextos globais que poderiam inspirar estratégias eficazes para o anarquismo brasileiro nos tempos atuais?
Rafael Saddi: Eu acredito que nós temos dois caminhos. O primeiro é os anarquistas estarem dispostos a abrirem mãos de todos os seus laços com o meio burguês e seus privilégios e ir até o povo de fato. Mas não como superiores ou professores, mas viver junto ao povo, partilhar do sofrimento do povo, pois isso iria fazê-los entender que coisas tocam o povo, entender que a vida do povo é completamente diferente do eles vivem nos meios intelectuais onde o anarquismo é mais presente, a exemplo da universidade. Mas pouquíssimos estão dispostos a fazer isso ou se fizerem vão sair profundamente traumatizados.
Para aqueles que não estão dispostos a tomar essa rota, acredito que a melhor abordagem seria desconfiar de tudo que compreendem como burguês e não como trabalhador. Portanto, é fundamental ter humildade ao se aproximar do povo com essa consciência de que não se é o próprio povo. É necessário reconhecer que existe um mundo, um universo, que muitas vezes é invisibilizado. Quando se fala em nome do povo, é preciso ter essa clareza e se aproximar do povo com a intenção de aprender e trocar conhecimentos. Utilizar os privilégios para contribuir com a luta popular é uma forma de serviço ao povo. Se essa contribuição for genuína, o povo pode reconhecê-la, pois será algo feito para e com eles, não algo imposto.
Além disso, o povo tem sua própria sabedoria. Ele encontra seus próprios caminhos para a libertação e aprende na luta. A participação direta dos trabalhadores de forma horizontal é crucial, pois o povo aprende durante esse processo. O anarquismo nos ensina que é pela autonomia do povo que ele trilhará seu caminho. Não há espaço para táticas que buscam impor ideias ao povo; é o povo quem melhor compreende suas necessidades e encontra as soluções. Geralmente, o anarquismo se mostra correto nesse aspecto, pois o povo compreende que não há negociação possível com o sistema.
Cada luta tem suas próprias estratégias, e o povo aprende ao longo do caminho. A contribuição para a luta popular pode ser valiosa, mesmo que o resultado não seja imediatamente aparente. O importante é que, de alguma forma, o povo está criando seu próprio caminho em direção à libertação. E se o anarquismo vai ter um retorno ou não, isso não importa. Talvez, no mínimo, a nossa presença não atrapalhe esse processo.
A Olimpíada Nacional em História do Brasil Aberta para Todos (ONHB-A), realizada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), está em sua 3ª edição. Com o intuito de promover o conhecimento da história do Brasil não somente a estudantes e professores, mas também àqueles que não estejam vinculados ao meio acadêmico. Podem participar da Olimpíada, pessoas acima de 12 anos, inclusive de outras nacionalidades, brasileiros que estejam em outros países. A edição acontece de forma totalmente virtual e gratuita, as inscrições podem ser feitas no site www.onhb.com.br até o dia 21 de outubro.
A versão original ONHB, voltada a estudantes dos ensinos fundamental (8º e 9º anos) e médio, acontece desde 2009, mas, segundo conta a coordenadora da Olimpíada e professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH), Cristina Meneguello, em matéria publicada no site da Olímpiada, a versão aberta para todos ONHB-A tem o intuito de divulgar e promover o conhecimento em História do Brasil a um público mais amplo.
“Em 15 anos realizando a Olimpíada, percebemos o interesse das pessoas, que não estão necessariamente vinculadas a um ambiente escolar, de entender mais a História do Brasil. Isso nos motivou a elaborar esse projeto voltado ao grande público, que começou de forma despretensiosa na pandemia e ganhou muita força”, conta Cristina.
A Olimpíada oferece quatro modalidades, nas quais podem se inscrever qualquer pessoa acima de 12 anos, sendo elas: Individual e Grupos, que podem ser formados por até seis pessoas. Já nas modalidades Escolar privada e Escolar pública, podem se inscrever grupos formados por um professor e três estudantes dos ensinos fundamental (7º, 8º e 9º anos) ou médio, além de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A prova apresenta questões de assuntos interdisciplinares. São 4 fases, todas elas de forma online. Os participantes terão 1 semana para resolver as questões, ao final os que obtiveram as melhores notas nas modalidades “Individual e Grupo”, receberão medalhas virtuais de ouro, prata ou bronze.
Na modalidade Escolar pública, bolsas de iniciação científica júnior serão oferecidas aos estudantes que obtiveram as melhores notas, disponibilizadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e com duração de 1 ano.
A versão original ONHB teve sua 15ª edição realizada este ano. A grande final aconteceu nos dias 26 e 27 de agosto: mais de 1,1 mil estudantes dos ensinos fundamental e médio de todo o país participaram, a edição somou recorde de inscritos, segundo publicação no site da Olímpiada.
Experiência de docente na Olimpíada
Para a professora Thaisa Gracielle, formada em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), sua primeira participação foi gratificante. Ela participou na 13ª edição que aconteceu em 2021, como orientadora de um grupo de 3 estudantes, “a Olimpíada causou um impacto em minha vida e na vida dos estudantes. Não parei mais de fazer, acabou que foi instigando não só os alunos, mas a mim também a continuar pesquisando, a fazer uma busca de conhecimento constante, fora também as amizades que vamos fazendo, a ONHB estimula principalmente esse trabalho em equipe, parceria, união, companheirismo”, conta ela.
Para a professora Thaisa, a versão “Aberta para todos” é muito didática, qualquer pessoa que queira aprender sobre a História do Brasil e não esteja vinculado ao meio acadêmico, pode fazer. “O ponto principal da Olímpiada é ter acesso a um conhecimento que não conseguimos aprender na escola por falta de tempo. Temas constantes, do dia a dia da sociedade, e que deveria ser discutido na escola e não é, acabada incentivando o instinto de estudo, de pesquisa, aprimora o seu conhecimento sobre História do Brasil. A Olimpíada tem como meta possibilitar que o indivíduo possa construir sozinho esse processo de conhecimento sobre a História do Brasil, além de estimular um pensamento mais crítico, uma reflexão, uma elaboração melhor de argumentação, vai ajudar também na escrita e interpretação de textos”, explica ela.
Ainda para a professora, o sentimento que resume a participação na Olimpíada é de realização: “me sinto muito realizada no meu trabalho, no que me propus a fazer quando me formei, você vê o crescimento dos alunos, das equipes, inclusive uma maturidade muito grande deles, uma responsabilidade, que eles vão criando ao longo dos meses e dos anos, além de um sentimento de união”. Outro fator importante é o reconhecimento dos professores. “A Olimpíada coloca os professores em evidência, faz a sociedade enxergar os professores como um ponto muito importante na educação brasileira, une os professores em prol da educação”, conclui ela.
Alunos premiados na Olimpíada
Foto: Thaisa Gracielle/arquivo pessoal . Estudantes do Colégio Militar Pedro Xavier Teixeira
Para muitos professores, a versão “Aberta para todos” é usada como preparação para a ONHB do próximo ano, como se fosse uma pré-olimpíada, mas também, para muitos alunos de escolas públicas é a oportunidade de ganhar uma bolsa de iniciação científica. Foi o que aconteceu com estudantes do Colégio Militar Pedro Xavier Teixeira de Senador Canedo-GO. A estudante do ensino médio, Sijane Domingues Machado Amaral, 17 anos, orientada pela professora Thaisa Graciele, participou da 2ª edição da ONHB-A, que aconteceu em 2022, juntamente com mais 3 colegas eles foram contemplados com medalhas de ouro e bolsas de iniciação científica fornecidas pelo CNPq, pelo excelente desempenho que obtiveram na Olimpíada.
Sijane relata: “participar dessa Olimpíada foi sem dúvidas, a minha melhor experiência escolar. Foram momentos muito intensos e marcantes para mim de aprendizados, dedicação e união entre equipe. Foi muito importante para o meu desenvolvimento pessoal e fiz amizades que levarei com muito amor para a vida inteira. Passei a compreender tanto os contextos passados quanto atuais de forma mais ampla, aprofundada e com um pensamento mais crítico”. O aprendizado mais importante que a Olimpíada deixou, foi “o valor insubstituível que as relações afetivas tem em meio a qualquer situação, seja em momentos de sorrisos incessantes ou os mais difíceis de lidar”, continua Sijane. Ainda para ela, “a História em si é transformadora”. Sijane resume em uma palavra a Olimpíada: “resistência”.
Algumas informações importantes da ONHB-A
Inscrições: até 21/10; Primeira fase: 23/10 a 28/10; Segunda fase: 30/10 a 04/11; Terceira fase: 06/11 a 11/11; Quarta fase: 13/11 a 18/11;
A praça foi construída para marcar o nascimento da nova capital do estado, título que antes pertencia à Cidade de Goiás. O plano urbanístico foi feito por Atílio Corrêa Lima, que planejou o local para ficar na parte mais alta da cidade, de forma que ela inteira pudesse ser vista da praça (claro que, atualmente, o crescimento urbano e a quantidade de estruturas impede essa visualização), representando ponto estratégico para o Palácio das Esmeraldas, que viria a ser a residência do governador do estado. Entretanto, Corrêa Lima pensou além: planejou a cidade de forma que as principais avenidas (Goiás, Araguaia e Tocantins) levassem à praça.
Plano Urbanístico de Goiânia, por Atílio Corrêa Lima. Foto: Reprodução/Câmara Municipal de Goiânia
Em entrevista ao Lab Notícias, a arquiteta Marília Mota Rezende afirma que, apesar das ideias iniciais serem de Atílio, a construção de fato da praça contou com o planejamento de outros profissionais.
O formato arredondado que vemos hoje na praça é, na verdade, influência de Armando Augusto de Godoy, o mesmo responsável pela projeção do Setor Sul. Então, no meio do processo de construção, houveram mudanças que fizeram a praça ser como é atualmente.
diz Marília.
Ainda sobre o formato da praça, existem especulações sobre possíveis significados da silhueta formada por ela em conjunto ao resto da cidade: enquanto alguns afirmam ser Nossa Senhora Aparecida, outros acreditam ser um compasso, símbolo da Maçonaria, organização da qual Pedro Ludovico Teixeira, responsável pela mudança de capital, fazia parte. Entretanto, não há confirmação concreta de nenhuma das hipóteses.
Montagem comparando o formato da praça com o símbolo maçônico. Foto: Reprodução/Jornal Opção
As obras do local foram finalizadas em 1933, ano do lançamento da Pedra Fundamental da cidade. Por isso, a Praça Cívica é considerada o marco inicial da cidade de Goiânia.
A história
Após a Revolução de 30, Getúlio Vargas assumiu a presidência do Brasil e responsabilizou-se em indicar alguém para governar cada estado. Para Goiás, optou pelo médico Pedro Ludovico Teixeira, que lutou no evento histórico anteriormente citado. A capital era o que hoje chamamos de Cidade de Goiás, e o local se destacava pela quantidade de ouro. Entretanto, uma hora o ouro acabou, e cidades que investiram na agropecuária passaram a ser mais relevante. Pensando nisso, e no vazio demográfico que havia na Região Centro-Oeste do país, Pedro Ludovico adotou o objetivo de transferência da capital assim que assumiu o poder.
De acordo com o site da Prefeitura de Goiânia, o então governador instituiu uma comissão, liderada por Dom Emanuel Gomes de Oliveira, que escolheu o melhor local para construção da nova capital. 5 meses depois, foi lançada a pedra fundamental, no local onde é a Praça Cívica, planejada para ser o centro administrativo de Goiânia.
Prédios importantes para o administrativo foram os primeiros a serem construídos. Em 1967, no entanto, a praça recebeu sua primeira escultura de livre expressão: o Monumento às Três Raças, oficialmente Monumento à Goiânia, foi criado por Neusa Moraes, com o objetivo de homenagear os trabalhadores responsáveis pela construção da capital e evidenciar sua diversidade. A escultura é, até hoje, considerada a obra mais icônica da praça.
Modelo que inspirou o monumento. Foto: Reprodução/Goiânia do Passado
Por sua ligação direta com o nascimento de Goiânia e por abrigar diversos outros “pedaços” da história goiana, como o primeiro museu, em 2003 a Praça Cívica foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional(IPHAN), tornando-se oficialmente um patrimônio histórico.
Para mais informações acerca do processo de tombamento, leia aqui a matéria da repórter Rafaela Nogueira.
A história da praça também foi marcada, entre outras coisas, por luta e resistência. Um dos marcos é o assassinato do jornalista Haroldo Gurgel: Haroldo publicava críticas sobre o governo da cidade e do estado de Goiás, o que causou insatisfação entre os mais poderosos, que ordenaram sua morte. O jornalista foi assassinado em plena luz do dia, nas proximidades da Praça Cívica, e o ocorrido causou revolta nos cidadãos. Sobre o caso, o professor e historiador Rildo Bento afirma, em entrevista ao Lab Notícias:
Esse crime comoveu a cidade. Foi um absurdo que acabou ligando, mais uma vez, ao passado coronelístico que o estado tem, de calar as vozes discordantes.
Os protestantes carregaram o corpo de Haroldo para a frente do Palácio das Esmeraldas, local onde os assassinos buscaram abrigo e de onde saiu a ordem para matar Haroldo.
Manchete do jornal Voz Operária sobre o acontecimento. Foto: Reprodução/DocPro
A Praça hoje
A Praça Cívica oferece ao cidadão goiano muito mais do que apenas lembranças históricas. O marco inicial da construção de Goiânia também é um forte centro cultural e afetivo, pois lá se localizam o Museu da Imagem e do Som (MIS), o Cine Cultura e o Museu Zoroastro Artiaga, o primeiríssimo museu da cidade.
Além disso, por sua localização centralizada e grandes áreas abertas, a Praça Cívica sedia diversos eventos políticos, como protestos, e de entretenimento, como feiras e blocos de carnaval. O estudante universitário Carlos Eduardo afirma, em entrevista para a reportagem, que o local remete à sua infância, quando visitava anualmente as luzes de natal acompanhado de sua vó.
Por outro lado, o local permanece fiel a sua criação como centro administrativo e se faz útil atualmente para o cotidiano de muitas pessoas: para questões de documentação, a unidade central do Vapt Vupt está ao dispor. Já para assuntos de dinheiro, há uma sede da Caixa Econômica Federal. Esses e outros órgãos presentes facilitam diversos processos burocráticos da vida na atualidade.
Jair Bolsonaro na posse presidencial. Fonte: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fernando Henrique Cardoso, Luíz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Desde que a reeleição foi instituída em 1997, todos os presidentes que tentaram reeleição foram reconduzidos ao cargo. Porém, dia 30 de outubro de 2022, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro entrou para a história do país como o primeiro presidente que não conseguiu se reeleger.
Com a disputa para o cargo de Chefe de Estado do Brasil mais “apertada” da história do país, Lula venceu a corrida presidencial com 50,9% dos votos, ante os 49,1% de Bolsonaro. Ainda, Bolsonaro ficou atrás do atual presidente até mesmo nas pesquisas de intenção de voto durante a campanha e pré-campanha.
Apesar das eleições presidenciais de 2022 terem algumas peculiaridades, como a diminuição de votos nulos e brancos e diminuição da taxa de abstenção no segundo turno, esses fatores por si só estão longe de serem determinantes para o feito histórico de Jair Bolsonaro. O Lab Notícias conversou com especialistas para tentar entender alguns dos possíveis motivos responsáveis pela derrocada do ex-presidente.
Perda de força dentro do Congresso Nacional
Além do cenário negativo que se encontrou o país no segundo semestre de 2021 e primeiro de 2022, no que se refere a economia, Jair Bolsonaro possuiu um baixo desempenho no Congresso Nacional. Já no primeiro ano de governo, Bolsonaro não se comprometeu com uma agenda política e, assim, fracassou na aprovação de leis. Das 39 Medidas Provisórias enviadas pelo governo Bolsonaro, apenas 9 passaram no Congresso Nacional até o dia 3 de dezembro de 2019. Em comparação com governos anteriores, durante o mesmo período, Bolsonaro teve uma taxa de aprovação historicamente baixa.
Banco de Dados Legislativo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)
Assim, o governo do ex-presidente é marcado por reformas travadas, na qual ele cria inconsistências legislativas e irresponsabilidades políticas, incapaz de obter maioria parlamentar para aprovação de suas MPs, mas sem hesitar em editá-las, pretensiosamente a seu favor. De acordo com o Observatório Legislativo Brasileiro (OLB), em 2021 Bolsonaro obteve um baixo número de projetos aprovados no Congresso Nacional, tendo aprovação em apenas 27,7% das propostas do governo.
Além disso, Bolsonaro prometia a apoiadores que iria governar para combater o establishment, abandonando a “velha política”, e assim, consequentemente, o presidencialismo de coalizão. Para Patrícia Cunha, recém formada em administração pública na Escola de Direito e Administração de Brasília – EDAP, Bolsonaro não conseguiu propor e muito menos exercer uma nova forma de governar:
O atual presidente, por mais que tenha se elegido criticando a formação de coalizões e indicações de cargos somente para ter uma base, teve que ceder a esse sistema para que conseguisse aprovar, por exemplo, a Reforma da Previdência.
A ruptura desse tipo de presidencialismo de coalizão é praticamente impossível devido ao sistema brasileiro ser multipartidário. Além disso, o Presidente tem que ter uma boa relação com o poder legislativo, para colocar sua agenda em funcionamento e para atender à necessidade daqueles que o elegeram.
Muitos cientistas políticos apontam que a falta de governabilidade de Jair, advinha da sua incapacidade de seguir, ou até mesmo formular, uma agenda política. Para a administradora pública, a falta de coalizões foi determinante para o fracasso:
O governo de Bolsonaro por não ter o apoio dos parlamentares, não conseguiu formar coalizões para conseguir colocar sua agenda política em prática: uma das explicações para o baixo índice de sucesso. Tudo indica, então, que a estratégia inicial de apostar na nova política e rechaçar os mecanismos do Presidencialismo de Coalizão não possibilitou que o Presidente obtivesse desempenho equivalente ao de seus predecessores.
Governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19:
O Brasil teve o primeiro caso confirmado de covid-19 no dia 25 de fevereiro e o primeiro falecimento, três semanas depois. As primeiras atitudes politicas tomadas nos primeiros dias de março determinaram o rumo da pandemia no país, que se consolidaram com o pronunciamento do até então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em 24 de março, com conteúdos negacionistas sobre a pandemia que assolava o território.
As primeiras medidas para conter o vírus foram anunciadas no dia 13 de março, quando o país registrava ainda apenas 151 casos da doença, número esse que possibilitava a implantação de um plano de contenção mais efetiva. Porém, as medidas até o momento eram o cancelamento de cruzeiros turísticos no país e a obrigatoriedade de quinze dias de isolamento a todos os passageiros que ingressassem no país vindos do exterior, medida essa que foi revogada pelo ex-ministro da saúde, Henrique Mandetta.
Oito meses depois de registrado o primeiro caso de covid-19 no Brasil, o país entra na lista de países com os piores indicadores relativos a óbitos e contaminações. Com a ocorrência da situação, assegura-se que seria resultado da falta de estratégia por parte do governo.
Pedro Santos Mundim, professor de Ciência Política da Faculdade de Ciências Sociais da UFG e coordenador do Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública (UnB), avalia que um dos motivos que ajudaram Bolsonaro a não ser reeleito, em parte, foi o mau enfrentamento da pandemia:
O país passou por um trauma muito grande, morreram mais de 700 mil pessoas, o governo foi completamente errático, né? Isso de fato, assim os dados mostram né? Abalou a popularidade governamental em 2020 e principalmente em 2021, mas quando a gente entra em 2022 o governo consegue recuperar uma boa parte dessa popularidade que ele havia perdido nos anos anteriores em função da péssima condução do combate à pandemia, e aí ele conseguiu reverter um pouco esse cenário da forma como a gente sabe…
Mandetta, Teich, Pazuello e Queiroga foram os quatro ministros da saúde na pandemia no governo Bolsonaro nos intervalos dos anos de 2019, 2020 e 2021. A troca constante de ministros na época levantou dúvidas se seriam motivações técnicas ou políticas. Para Mundim, não há dúvidas de que se tratava de politicagem:
Claramente era questão política, porque o governo a gente pode especular o porquê que eles fizeram isso, porquê que eles foram negacionistas, porquê que eles afastaram os ministros que em tese seriam mais técnicos do ponto de vista da saúde e como acabaram colocando generaleco [Eduardo Pazuello] lá que não sabia nem o que era o SUS né? Que chega a ser meio absurdo, mas enfim, foi uma decisão política.
Além disso, em resposta à decisão do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia, foi criado um consórcio de veículos de imprensa formado por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha de São Paulo e UOL. Os veículos decidiram formar uma parceria e trabalhar de forma colaborativa para buscar as informações necessárias sobre os casos e as mortes pela doença por todo Brasil.
O cientista político comenta:
Foi um papel bem importante que a imprensa teve, entre outras razões, porque uma das coisas que eles precisavam era que as pessoas ficassem sabendo [sobre os dados], inclusive para balizar o seu comportamento em relação a pandemia. Era o que estava acontecendo, que se deixassem simplesmente em função daquilo que o governo queria repassar ou transmitir, a gente ia ficar meio que no escuro em relação a série de indicadores e dados relativos ao combate à pandemia ou a evolução dos casos. Então esse consórcio de veículos acabou sendo fundamental no sentido de prestação de contas mesmo, né?
Bolsonaro VS Sistema Eleitoral Brasileiro
Ao radicalizar os ataques ao Poder Judiciário, com um enfoque nos ministros Alexandre de Morais e Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), Jair Messias Bolsonaro colocou em xeque as instituições democráticas, mas principalmente o sistema eleitoral brasileiro. Nesse sentido, à medida que Bolsonaro atacava essas instituições públicas, os parlamentares governistas mais moderados, sobretudo aqueles dos partidos do Centrão, começaram a dificultar a tramitação dos projetos do governo.
Bolsonaro não conseguir a reeleição é bastante curioso, pois possuía as vantagens de um presidente no exercício da disputa pela reeleição. Por controlar a máquina pública, o presidente de um país pode usar isso a seu favor para conseguir apoio político e popular. O Executivo elabora e executa parte do orçamento e pode direcionar os recursos de acordo com seus interesses eleitorais, de forma legal, e tomar medidas que conquistem a simpatia dos eleitores.
Além disso, o fato do Brasil adotar o Sistema Proporcional de eleições foi uma das grandes vantagens para o ex-presidente. Uma delas é de ordem mais simbólica. Em uma política tão personalista quanto a brasileira, em que a maioria da população diz não se identificar com um partido, a Presidência dá uma enorme visibilidade a um político. É o que diz a cientista política Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista à BBC Brasil: “A pessoa já ganhou uma eleição, e isso se amplia porque se cria uma memória política, gera vínculos com o eleitor. Isso é um fator importante que desequilibra a disputa”.
Apesar disso, Bolsonaro preferiu tentar desmoralizar as urnas eletrônicas, deslegitimando o voto popular com ataques infundados, como por exemplo, usando um inquérito da Polícia Federal que investigou uma invasão hacker ao sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2018. O ataque, no entanto, ocorreu meses antes do pleito e não teve qualquer consequência sobre as eleições daquele ano.
Site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Em contraponto, a historiadora e professora da Universidade Federal de Goiás, Luciane Munhoz de Omena, especialista em análise institucional e conflitos e coalizões políticas, afirma que os ataques ao sistema eleitoral brasileiro possuíam intuitos específicos:
Ele estava fazendo barulho, ou seja, criou uma cortina de fumaça para tirar a atenção das questões ligadas ao processo inflacionário, ao alto custo dos combustíveis, às crises educacional, do meio ambiente e sistema de saúde. Acredito que o sistema de votação está consolidado e criticá-lo significava também questionar o processo eleitoral para os outros cargos institucionais.
A historiadora ainda ressalta que o distanciamento dos congressistas de Bolsonaro e seus aliados se deu pelo perigo da ascensão da extrema-direita e não pelos ataques às urnas. Além disso, ela pontua outros fatores que já eram sinalizadores de que o enfraquecimento do ex-presidente era visível:
A CPI da Covid escancarou a ausência do Estado e a promoção de medicamentos ineficazes. Penso que isto acabou o enfraquecendo politicamente. Ademais, o ano passado, quando tivemos as cartas – Faculdade de Direito e a FIESP – em defesa à democracia, já era um sinal de que o mercado financeiro e as indústrias não mais o apoiariam.
(Imagem: Sean Gallup/Getty Images)
Breve história
Ligado diretamente com a crise do liberalismo, o nazifascismo surge como uma resposta à esse problema e principalmente contra o triunfo e existência da Revolução Soviética, ainda no final da Primeira Guerra Mundia (1GM). Como uma das principais expressões do fascismo europeu, o nazismo surgiu na Alemanha, no início da década de 1920. Sua principal liderança foi Adolf Hitler, ex-cabo do exército alemão na 1GM. De acordo com o Historiador e cientista político Paulo Fagundes Vizentini, no seu livro Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político, o regime retomava tradições conservadoras que vinham desde a queda do Absolutismo, se opondo à noção de progresso, crescimento industrial, razão e à noção iluminista.
O neonazismo, por sua vez, resgata os ideais nazistas e procura trazê-los para a atualidade. Esses ideais estão fundamentados no nacionalismo, racismo, homofobia, xenofobia e antissemitismo. As células formadas por essa ideologia promovem a exaltação de Adolf Hitler e de diversos símbolos do nazismo, utilizando-os, como diz Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga, Mestre e Doutora em Antropologia Social, para balizar um discurso de ódio com fins políticos de hegemonia.
A pesquisadora, que dedicou pelo menos vinte anos da sua vida ao tema, afirma na sua dissertação de mestrado Os anacronautas do teutonismo virtual: Uma etnografia do neonazismo na Internet, que o ideal neonazista está intrinsecamente ligado com o revisionismo:
Em minha opinião, é esta associação que detêm o racismo em sua radicalidade máxima: a associada ao que Michael Foucault denominou de “racismo de Estado”, ou seja, a uma forma extremada de pensar raça: ela deve determinar uma decisão política de reunir e proteger sua “raça”, e manter distante, inclusive por meios de exterminação, se necessário, os “inimigos desta raça”.
Atualmente, o crescente número de células que tentam perpetuar esse ideal criminoso tem crescido exponencialmente. No Brasil, de acordo com dados da CNN Brasil, em 2021 houve o crescimento em 900% de denúncias relacionadas ao nazismo.
Imagem: CNN Brasil
O LabNotícias procurou saber quais são os principais pontos que estão em debate acerca do assunto, com um enfoque maior no Brasil: qual meio esses extremistas estão utilizando para se organizarem e como se dá a aplicação de leis sobre esse ideal supremacista.
Meio digital: culpado?
Para entender sobre a ascensão do neonazismo, precisa-se saber primeiro por qual canal esse crescimento está acontecendo. Apesar do meio digital ser um amplificador da disseminação desse movimento criminoso, não existe uma relação direta entre as duas ocorrências, e sim entre identidade e meio digital. É o que afirma Luíz Signates, Doutor em Comunicação na linha Mídia e Cidadania. Para ele, as afirmações, criações e transformações identidárias passam pela internet e assim, também, podem dar margem para criminosos se aproveitarem das disponibilidades para alcançar seus objetivos.
Muito se falava sobre as expectativas entre a ampliação das relações proporcionadas pela internet e a condição democrática. Para o especialista, tudo não passou de ilusão, ou até mesmo exagero:
Descobrimos que a internet pode, sim, constituir-se num ambiente altamente democrático, se o regime político for regido por regras democráticas, mas, num regime totalitário, a internet pode ser um instrumento de opressão inaudito, na medida em que permite que as relações interpessoais possam ser severamente vigiadas e os movimentos de resistência reprimidos antes que se organizem minimamente. Em síntese, a virtualização da vida não a torna mais ou menos ética. A ética e a civilização continuam a exigir luta e trabalho para sua construção.
Atualmente, se vive uma experiência do avanço da extrema-direita internacionalmente. A globalização e a organização de grupos nazifascistas nas redes sociais facilitou com que os simpatizantes se encontrassem. Luiz conta que a regulamentação da internet pode ser uma importante aliada na luta contra o ideal criminoso, mas que outras medidas precisam ser levadas a rigor:
Considero fundamental que existam ações preventivas, de natureza comunicacional, pelo forte uso das instituições de poder simbólico (mídias, escolas, igrejas e movimentos sociais, além de outras com menor impacto), para a promoção da educação política orientada à cidadania, ao combate à discriminação e ao preconceito e ao fortalecimento de uma cultura da paz.
Internet: terra sem dono
Um argumento erroneamente utilizado, se não desonesto e consequentemente conivente, para se defender a apologia à esse crime, é a liberdade de expressão. Acontece que a liberdade de expressão é totalmente divergente a esse assunto, como explica a Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás, Edwiges Conceição Carvalho Corrêa:
Argumentar com a liberdade de expressão é uma forma de tentar justificar a prática que possuem de defesa de uma ideologia racista, excludente, que prega o supremacismo, entretanto, pela experiência da história da humanidade, esse tipo de pensamento e de política, são criminosos porque não admite o diferente, ao contrário, a ideia é eliminar politicamente e fisicamente.
Tira didática sobre O Paradoxo da Tolerância pelo filósofo Karl Popper Imagem: Divulgação
Em uníssono, quase todos os especialistas e pesquisadores citados nessa reportagem defendem a regulamentação da internet como um importante caminho a ser seguido. Buscando a tentativa de parar essa máquina extremista e desumana nas redes sociais, a responsabilização daqueles que facilitam o convite de pessoas para essas células nazistas, por meio de algoritmos é necessária. Mas para além disso, é necessário ações preventivas, como comenta Luiz, também especialista em políticas públicas:
É preciso compreender que a criminalização do neonazismo e dos demais extremismos de direita não é suficiente para extingui-los, da mesma forma que os medicamentos não bastam para conter epidemias: é preciso vacinar toda a população contra essas ameaças, desenvolvendo uma cultura política forte na qual esses pensamentos e os comportamentos decorrentes se tornem inaceitáveis.
Brasil e o flerte com o nazismo
A impressão que se tem com o “Brasil receptivo com estrangeiros” não encontra algum concreto que a consolide. A história violenta e constantemente silenciada por muitos, não permite o país mentir: o Brasil foi o país com mais adeptos ao Partido Nazista fora da Alemanha, berço do regime totalitário, entre 1928 e 1938: foram pelo menos 2.900 integrantes.
No contexto histórico da época, assim como a maior parte do mundo, o Brasil não ficou imune aos reflexos que emanaram da Segunda Guerra Mundial (2GM). No período histórico correspondente ao Estado Novo, o estadista Getúlio Vargas instituiu a “Campanha de Nacionalização”. É o que ressalta Edwiges:
O Brasil não ficou imune [aos reflexos da 2GM] e Vargas era simpático ao nazismo. Pretendia construir um país patriota que valorizasse a cultura brasileira, fez reforma no ensino, as aulas só poderiam ser em português, não podia ter professores/as estrangeiros, a não que fosse nacionalizados/as, havia disciplinas obrigatórias, como “educação moral e cívica” e “educação física”, sendo ambas ministradas por militares.
Nos dias atuais, no que tange à especificidade sobre o ideal nazista, se tem a Lei Nº 7.716/1989, que define os crimes resultantes de raça ou de cor, constando a tipificação do crime relativo a prática nazista. Porém, a antropóloga Adriana Dias, em estudos de 2019, contabilizou 334 células em atividade no país.
A historiadora e advogada Edwiges Conceição, comenta sobre a insuficiência legal no que diz respeito à aplicação dessa lei:
O problema não é só a insuficiência legal, que é uma lei importante, porém, as políticas de aplicação da legislação tem sido falhas, isso tem criado dificuldades de combate a esse tipo de crime no Brasil.
Para Luiz, nem mesmo o trâmite do projeto de lei no Congresso Nacional, PL 175/22, seria competente para a efetividade à legislação já existente:
O problema do Brasil é de execução da legislação existente e, como afirmei antes, de construção de uma cultura política que torne explícita e insofismável a gravidade desses crimes e a ameaça dessa ideologia. Como o Brasil jamais sofreu um incidente da proporção do holocausto nazista, a preocupação aqui tem pouca força – que levou, recentemente, inclusive, a que o youtuber Monark defendesse levianamente num podcast na internet a legalização de um partido nazista no país. Apesar da forte reação que, inclusive, o excluiu desse programa, não houve a criminalização exemplar, em todas as suas consequências, de sua atitude, até porque, à época, estávamos sob o mandato de Bolsonaro, cujo prestígio junto a essas células não é segredo para quem quer que estude ou acompanhe o assunto.
A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata é um drama romântico baseado no livro homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows. Produzido e lançado na Netflix há quatro anos, em 2018. A adaptação literária (segmento da plataforma que vem ganhando força) continua com o título de um dos mais curtidos, de acordo com a avaliação dos usuários do streaming.
Dirigido pelo cineasta inglês e diretor Mike Newell, que possui 32 anos de carreira e 21 filmes e séries construídas, faz criar expectativas inevitáveis. Mike é responsável por grandes sucessos como Quatro casamentos e um funeral (1994) e o campeão de bilheterias mundial que dispensa apresentações Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005).
A primeira impressão não é a que fica, pois ao assistir “Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata” por mais que o nome possa gerar indagações ou até certa estranheza, nos três minutos iniciais do filme, os espectadores (do latim spectator, faz referência à pessoa que presencia, observa ou assiste a algo) entendem o por quê. Um grupo de amigos são abordados e ameaçados de prisão por soldados alemães por desrespeitarem o toque de recolher durante a Segunda Guerra Mundial. Para escapar das consequências e em um momento de medo e desespero, eles criam um álibi perfeito: o clube de leitura cujo nome é o mesmo do título do filme. Pronto, mistério revelado.
A trama se passa um ano após o término da Segunda Guerra Mundial e conta as aventuras da escritora e jornalista Juliet Ashton, moradora de Londres, e de Dawsey, um cuidador de porcos e morador da ilha de Guernsey, situada no Canal da Mancha. Tudo começa quando Juliet recebe uma carta do desconhecido Dawsey, na qual ele diz que achou o endereço da moça escrito em uma das páginas do livro que leu e pede ajuda para encontrar outros, já que na ilha não existem mais livrarias e bibliotecas.
A partir desse dia, tudo mudou. Os dois começam a se comunicar através de cartas e, aos poucos e de forma espontânea, Dawsey conta para ela sobre a sociedade literária que ele e seus amigos formaram durante o período de ocupação alemã na região. O que antes era uma falsa justificativa para não serem presos, aos poucos torna-se genuinamente prazeroso, fazendo surgir entre os membros uma rede de amizade e refúgio frente ao holocausto e à tristeza da época. Os encontros eram sempre às sextas-feiras à noite e a torta de casca de batata era o elemento-chave, pois com a carência de alimentos na ilha, era o que conseguiam cozinhar.
Imagem:
Apaixonada por histórias e encantada pelos ideais da Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, Juliet viu nessa história a oportunidade para escrever um novo livro. Assim, a jornalista resolve viajar até Guernsey para conhecer mais de perto, e não somente por meio de cartas e de sua imaginação aguçada, os moradores da ilha e também o clube de leitura. Ao chegar lá, ela descobre muito mais do que imaginava, passando a ouvir relatos feitos pelas vítimas da guerra e que mesmo com o passar do tempo não se apagou.
Durante os acontecimentos no longa, Juliet participa do clube de leitura, cria laços com todos os membros e pouco a pouco vai descobrindo a história e os mistérios que cada um esconde. Antes mesmo de embarcar na viagem, a jovem escritora é pedida em casamento pelo namorado norte-americano Mark Reynolds, mas sem saber, algo dentro dela muda para sempre durante a viagem e o retorno para Londres. Eis que ao chegar na Inglaterra, a jovem faz uma escolha fiel e movida por seus sentimentos. (Observação: não contém spoiler.)
Uma das sensações provocadas pelo filme é fazer com que retornemos no passado para relembrar as atrocidades vividas durante o nazismo. O que chama atenção na narrativa é que ela é feita de forma ousada e ao mesmo tempo sensível. Uma cena mostra que nem todos os soldados alemães eram monstros, mas sim seres humanos, capazes de sentir compaixão pelo próximo.
É um filme emocionante que contém drama, romance, reflexões, história, guerra, e acima de tudo é uma obra que incentiva o amor pela leitura e conhecimentos, que mesmo diante do ódio é possível encontrar amor. Portanto, cinéfilos, além do filme, vale a pena aprofundar na leitura do livro. Depois gostaria muito de saber o que acharam.
A obra do sociólogo buscou explicar a formação identitária do Brasil
“Por que o Brasil ainda não deu certo?”, esta pergunta permeia o estudo de Darcy Ribeiro para uma das obras mais importantes da Sociologia nacional, O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Partindo deste questionamento o sociólogo e antropólogo busca elaborar um tratado da identidade de nossa nação, a partir de uma linguagem acessível que dialoga com a academia e com leigos, sem perder a qualidade ou profundidade no conteúdo abordado.
Começando por nossas matrizes étnicas, Darcy perpassa por diversos temas como o processo civilizatório (exploração, escravidão, mestiçagem) e a origem de um povo que culmina no Brasil de hoje. O Povo Brasileiro é uma das análises mais completas de um tema que já foi abordado outras vezes por autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Freyre discorre sobre o assunto no clássico Casa-Grande e Senzala, no entanto, existem críticas pontuais ao discurso de miscigenação do escritor, principalmente ao que se refere à relação entre senhores e escravos, suavizando a escravidão no país.
Sérgio Buarque de Holanda e o seu livro Raízes do Brasil são contemporâneos, entretanto o historiador perscruta um caminho diverso com foco no colonialismo e escravidão atrelados à parca economia e uma elite exploradora. Ambas as obras, tanto a de Holanda quanto a de Freyre são da década de 1930, enquanto a de Darcy Ribeiro foi publicada pela primeira vez em 1995. O antropólogo resgata esses temas e os aprofunda, em uma atualização sistemática e necessária.
A partir do que ele chama de “gestação étnica”, o texto também lança luz na nossa formação política, apagamento cultural dos povos originários e africanos escravizados e traça o processo sociocultural que apresenta a raiz de diversos problemas que estão intrínsecos à sociedade brasileira, como a divisão de classes e concentração de poder que culminam em uma reflexão muito atual e necessária a respeito do Brasil que temos. Isso ocorre quando o estudo aponta as heranças de nossa estrutura de poder que segue sendo patriarcal, racista e excludente de determinados grupos minoritários.
Compreender nossa origem desperta um olhar especial às ameaças que os indígenas têm sofrido dentro de seus territórios, principalmente nas terras invadidas por garimpeiros ou grileiros. Essa compreensão abrange também a estruturalização do racismo e as violências cotidianas ora verbalizadas, ora materializadas na força policial que, segundo pesquisa, têm como alvo, em 63% das abordagens, às pessoas negras.
Com a proximidade do centenário de Darcy Ribeiro, o escritor completaria 100 anos no dia 26 de outubro, a Global Editora lançou uma edição especial de O Povo Brasileiro em comemoração à data. A qualidade material do livro é digna da riqueza do conteúdo, com uma diagramação confortável e belo caderno iconográfico com fotos do autor. Um presente à memória de Darcy Ribeiro que todos nós leitores e pesquisadores saímos ganhando.
Título: O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil