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Sabryna Moreno é formada em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás. Escreveu para o seu TCC, o livro-reportagem: Vidas Transbordantes. Trabalhou como repórter da Rádio Universitária, redatora e repórter do Minuto Indie e voluntária em outros projetos. Atualmente trabalha como sócia, repórter e produtora da Cabana da Música.
- De onde saiu a ideia para a produção do TCC?
Então, a ideia para produzir o TCC, esse interesse pelo tema né? Que é ouvir e contar histórias de pessoas, histórias reais de pessoas com deficiência, surgiu de um questionamento pessoal, não somente como jornalista, mas como um indivíduo em sociedade, enquanto eu comecei a consumir conteúdos produzidos por pessoas com deficiência nas redes sociais. Nesse mundo em que todo mundo pode criar os seus conteúdos pelas redes sociais, muitas pessoas com deficiência viram [nisso] uma oportunidade para elas expressarem seus sentimentos, suas angústias, suas individualidades. E aí eu comecei a me questionar, enquanto indivíduo: “Por que eu não consumi esse conteúdo”? Mas também como jornalista: “Por que que a gente ainda tem tanta dificuldade em ouvir pessoas com deficiência enquanto protagonistas das suas histórias, enquanto profissionais, enquanto produtores culturais, enquanto pessoas mesmo. Da mesma forma que a gente ouve pessoas sem deficiência”? E foi aí que eu pensei em sugerir porque, dentro da área da comunicação, dentro da área do jornalismo, a gente – há muito tempo já – pensa sobre pautas sociais e sobre a inclusão de pluralidades e diversidades raciais e de gênero. Mas essas autoridades de pessoas com deficiência, diversidade de corpos e de mentes ainda é [um tema] muito pouco questionado e pouco refletido na nossa área e foi aí que surgiu a ideia.
- Como foi o processo de escrita?
O processo de escrita foi muito inspirador, porque durante todo o processo, como eu estava narrando histórias reais, de pessoas com as quais eu tive contato, eu tinha toda uma vontade de que as pessoas que lessem o livro, tivessem também essas boas sensações de conhecer novas histórias. Então, o processo de escrita foi muito agradável. Durante todo esse processo de escrita, foram essenciais todas as orientações que eu tive da professora Luana Borges, que, para mim, é uma referência como professora e também dentro do jornalismo literário. Ela foi a minha coorientadora, ela e a minha orientadora, Angelita, são duas referências no jornalismo literário dentro da FIC (Faculdade de Informação e Comunicação da UFG) e fora.
Enfim, são mulheres muito inspiradoras que me ajudaram muito no processo de escrita. A gente tem que ter um equilíbrio e pensar que jornalismo literário não é trazer uma ficção em cima de uma realidade, mas trazer elementos da ficção para a realidade, digamos assim. A gente acaba romantizando um pouco dessa vida cotidiana, para a gente ver o que há de extraordinário no simples, no cotidiano. Então, ter esse contato com as professoras me ajudou muito no processo de escrita e foi muito legal.
- Quais os principais desafios, na sua concepção, para autores independentes no país?
A gente sabe que, no Brasil, a arte, a cultura, inclusive a leitura, ainda são muito pouco incentivados, são áreas que não têm valorização, que não têm investimento do poder público. Principalmente nos últimos quatro anos em que a gente viu a cultura e várias outras áreas serem desvalorizadas. Então os autores independentes, nesse sentido, acabam perdendo apoio, né? Enfim, eu não tenho essa vivência, essa experiência ainda. ‘Tô’ começando né, depois do TCC.
O TCC é minha primeira oportunidade de me colocar enquanto autora independente, enquanto escritora independente, mas é importantíssimo a gente pensar que, da mesma forma que a gente tem interesse em consumir conteúdos de artistas independentes da música, da arte, nós temos que, cada vez mais, valorizar as pessoas que estão na nossa região, autores Independentes da nossa região, artistas Independentes. Como eu falei, há muitos desafios, mas eu tenho muita esperança de que nos próximos anos a gente construa coisas muito promissoras.
- Houve incentivo, principalmente por parte dos professores do curso, para que você escrevesse o livro ou sua inovação no TCC foi vista com certa resistência pelos docentes?
Então, eu fui muito acolhida pela professora Angelita, que apesar de ter vivido toda a correria enquanto reitora né? Enfim, que, durante o meu processo de produção do TCC, ela foi nomeada como reitora foi uma loucura, mas eu fui muito incentivada por ela e pela professora Luana a escrever esse livro, eu não senti, pelo menos, nenhuma resistência, meu trabalho foi muito bem recebido pelo corpo docente da FIC, do curso de jornalismo. Não fui super incentivada porque eu fiz o meu trabalho assim, tendo contato com as minhas orientadoras e não expondo tanto isso durante o processo de produção.
Mas eu acredito que os projetos experimentais no curso de jornalismo, eles têm um valor muito importantíssimo, muito importante, não que as monografias não sejam importantes. Enfim, mas ao fazer um projeto experimental, você acaba tendo contato com o que, talvez no futuro você queira viver enquanto profissional, a monografia tem um foco maior de academicismo, né? E os projetos experimentais para mim, eles são muito inspiradores. Enfim fazer livro, documentário e eu acho que, cada vez mais, o curso jornalismo precisa receber recursos e investimentos. Para que assim, consequentemente, os professores também incentivem mais os alunos a produzirem produtos experimentais, tanto no TCC, quanto em outras disciplinas também. E na próxima pergunta eu já falo um pouco sobre a minha vivência de incentivo.
- Você pretende publicar o livro? Pensa em escrever mais ou pretende se dedicar exclusivamente à carreira de jornalista?
Se eu pretendo publicar o livro? Com certeza. Inclusive quando eu respondi a pergunta sobre os desafios para os autores Independentes do país, eu falei que eu ia falar sobre mais sobre isso. A minha vivência, né? Enquanto uma futura autora independente com um livro publicado é relativamente boa até o momento porque eu tive a chance de me inscrever para um edital de apoio a Escritores da região de Rio Verde, que é a minha cidade natal interior de Goiás. Eu me inscrevi, passei e recebi uma bolsa de R$ 4.000. Passei recentemente. Então nem recebi a bolsa ainda. Mas, futuramente eu vou, por causa dessa bolsa, vou poder publicar o meu livro, vou poder vender o meu livro e vou poder disseminar esse trabalho.
Eu considero muito importante e que eu espero que vários outras pessoas possam ter acesso e se inspirar nas histórias relatadas no livro, especialmente pelo fato de que é dentro da nossa área. Infelizmente o jornalismo ainda objetifica e simboliza pessoas com deficiência como símbolos de superação e já passou da hora da gente ver as pessoas com deficiência como pessoas com suas individualidades, com seus talentos artísticos e coisas assim. Se fosse para me estender aqui, eu me estenderia falando de cada personagem, são seis personagens, cada um tem suas histórias, mas o objetivo do trabalho é justamente esse, de combater o capacitismo e fazer com que as pessoas tenham contato com a diversidade cada vez mais. Então, por isso que eu fico muito feliz em poder publicar o meu livro futuramente com esse apoio da fundação Municipal de Cultura de Rio Verde com edital que eu passei.
Eu tenho muita vontade de poder escrever uma segunda edição do livro porque eu até falo no livro, se eu não me engano é no posfácio, que eu queria muito poder abraçar todas as adversidades dentro da diversidade da deficiência, mas as pessoas são muito plurais, então, em um livro, em seis personagens, eu não consigo falar sobre todas as adversidades. Eu não consigo falar sobre porque eu tento diversificar, né? Eu tento ouvir mulheres, ouvir pessoas trans, ouvir pessoas negras e tal e dentro de um livro só, a gente não consegue falar sobre tudo. É por isso que eu pretendo muito continuar escrevendo, escrever é a minha paixão, eu gosto muito, é claro que a vida, a rotina produtiva do jornalista no dia a dia, acaba não permitindo tanto isso, mas eu espero que eu possa ter tempo para me dedicar ao jornalismo literário.
- De que forma você diria que se beneficiou da sua inovação no trabalho de conclusão de curso?
Então, eu tenho muito orgulho desse trabalho. Eu digo por aí que é o trabalho mais importante da minha vida, até então. Ter a sensação de que eu pude contribuir com as reflexões dentro do campo jornalístico e que futuramente eu possa contribuir ainda mais, que as pessoas passem a saber ainda mais sobre ele mas, para além disso, que as histórias relatadas, as histórias contadas no livro possam reverberar por aí, então é nesse tipo de benefício sabe? Eu me sinto muito privilegiada por poder produzir esse livro, por poder futuramente lança-lo. E especialmente pelo apoio que eu recebi das professoras orientadoras. Com certeza foi incrível para mim e eu recomendo muito para quem queira fazer projeto experimental de TCC, que faça, em alguns sentidos é mais difícil, exige mais sensibilidade, porque enfim, é uma coisa mais livre, né? Não assim tão regrada a somente ABNT e escrita acadêmica. Você tem que ir a campo, você tem que inovar mesmo, de verdade. Então eu recomendo muito.
- Para você, qual a importância de trabalhos experimentais no TCC?
A última pergunta eu acabei falando sobre isso, né? Qual a importância dos trabalhos experimentais no TCC? Eu acho que é muito sobre o que eu falei. Não é tirando o mérito, claro, de monografias, mas os trabalhos experimentais, os projetos experimentais, os produtos de TCC, eles, na minha opinião ,falando aqui sobre, por exemplo, o documentário, série documental, livro, história em quadrinhos, podcast, são tantas possibilidades.
E você acaba saindo daquela caixinha, né? Da monografia escrita em normas ABNT, então, eu acredito que os projetos experimentais estimulam a criatividade dos alunos e, inclusive, ao ir ao mercado de trabalho, você pode citar o seu produto, por exemplo, uma pessoa faz um podcast como produto experimental do seu TCC e ela quer tentar oportunidades em rádio, tentar oportunidades em agências que produzem podcasts, ela pode muito bem usar como exemplo de que ela fez um bom trabalho. Eu acho que é isso sabe? A gente tem que pensar fazendo, tanto monografia, quanto projeto experimental em ir além sair da caixinha de TCC. A gente vê TCC como uma coisa tão medonha. Parece um bicho de sete cabeças, mas pode ser legal, pode ser agradável, pode ser inspirador. Você pode finalmente reconhecer porque que você escolheu esse curso e o que você quer fazer depois que se formar, isso é muito prazeroso.
