- A Teoria Crítica aplicada no mundo de One Piece - 15 de junho de 2026
A Teoria Crítica trata-se de uma das seis correntes teóricas da Ciência da Informação, e diferencia-se das demais pois é a única que não se fundamenta nas ciências da natureza, mas sim nas humanidades, com um foco especial na filosofia e história. Tal teoria busca observar o mundo com olhos céticos, suspeitando da própria realidade e duvidando de tudo ao seu redor, pois assim poderá enxergar o que está oculto ou camuflado. Sua aplicação mais evidente se dá através da perspectiva marxista, que utiliza do método dialético para a compreensão dos fatos sociais e humanos.
Outra característica marcante dessa Teoria é o foco no conflito, na desigualdade e o jogo de interesses a que a informação é submetida, usando da historicidade para explicar tais fenômenos. Tendo isso em vista, a informação deixa de ser estudada por uma eficácia técnica do seu transporte e processamento e torna-se então um recurso fundamental para a condição humana que é caracterizada por uma distribuição desigual. Isso concede a informação um status de poder, sendo apropriada por determinados grupos e causando a exclusão de outros.
Os parágrafos a seguir contêm spoilers da obra japonesa, One Piece, de Eichiro Oda.
No mangá japonês One Piece, de Eichiro Oda, a narrativa é construída com base em um sistema que usa da Teoria Crítica. Nele existe o Governo Mundial, controlado, à primeira vista, por nobres chamados de Tenryuubito, ou Dragões Celestiais, e por ser um mundo majoritariamente coberto por água, o poder militar concentra-se inteiramente na marinha, que também responde a esses nobres. Esses aristocratas são aqueles que detêm o poder para definir qual informação é verdadeira ou não.
Um caso muito evidente desse jogo de interesses é o de Portgas D. Ace, um pirata, filho do homem que alcançou o título de Rei dos Piratas, por dar a volta no mundo inteiro. O Ace nasceu cerca de 15 meses após a execução do seu pai, isto é, ele nunca o conheceu pessoalmente e só ouviu falar dele pela perspectiva de terceiros. Mediante isso, Ace desenvolveu uma aversão ao seu pai, porque todo o Governo Mundial o anunciava como um homem sem escrúpulos e odioso, um demônio sem amor. Tão perigoso que quando descobriram que ele tinha um filho, realizaram uma execução para ele apenas pelo grau de parentesco. Mas quando avançamos mais na história e ouvimos o que outras pessoas que conheceram o Roger têm a dizer, ele se mostra como um homem bom, justo e alto astral, que não era um monstro sanguinário como o descreviam, mas que por ter irritado os nobres mundiais e ter se oposto à sua autoridade, teve sua imagem manchada e distorcida para que ninguém tentasse seguir seus passos, nem mesmo o seu próprio filho.
Há inúmeros outros exemplos: One Piece é cercado por alegorias e metáforas que se aplicam muito bem a situação atual. Como a história de Nico Robin, uma arqueóloga que morava numa ilha de estudiosos, os habitantes tentavam desvendar o mistério do Século Perdido, algo que o governo desaprovava veementemente, até que depois de tantos avisos, a marinha atacou a ilha e matou quase todos os residentes, exceto Robin. O Governo em retaliação, moldou a informação mais uma vez, contando que Nico foi a responsável pela destruição de Ohara, sua terra natal, e que ela era uma assassina sem remorso e assim incitando o ódio sobre ela, com esperança de que ela morresse e a última pessoa que estudava o Século Perdido seria eliminada.
Uma característica marcante da Teoria Crítica presente no mangá é o uso da contrainformação como forma de resistência a regimes hegemônicos: Luffy, o protagonista, ao longo de toda a história desmantela governos que ele considera injustos, usando da verdade e de informações, ele liberta Alabasta das garras de Crocodile que manipulava o povo pra causar uma guerra civil entre si; ele ajuda Skypiea a destronar um falso deus que liderava com punho de ferro; e mais recentemente, ele ajudou Wano que vivia sob um governo tirano e escravagista.
A Teoria Marxista também possui grande influência na trama. Tal teoria afirma que a informação é apropriada por grupos específicos que garantem o acesso para si, e acarretam a exclusão dela para a maioria da sociedade. Àqueles que detém o poder e os meios de produção, têm também o domínio sobre a disseminação da informação e, consequentemente, moldam a narrativa como bem entenderem. Isso se mostra em quase toda a história do mangá: todos os feitos de heroísmo e bravura de Luffy são distorcidos ou apagados, não só dele, mas também de qualquer um que o Governo Mundial desgoste. Dragon, o líder do Exército Revolucionário, que busca libertar escravos e lutar contra a tirania dos nobres, foi intitulado o maior criminoso do mundo, justamente por essa rebeldia.
One Piece é uma obra muito rica e interessante, que usa do lúdico e da fantasia para mostrar realidade, usa da subversão para nos mostrar que pessoas más habitam em todo lugar, afinal, teoricamente, aqueles que deveriam proteger e servir são a própria Marinha, que é conivente com os absurdos que o Governo Mundial comete e até os protege, enquanto piratas, que deveriam ser os vilões, são aqueles que trazem a liberdade e a alegria por onde passam.
