
O número cada vez menor de estudantes em áreas relacionadas à docência vem preocupando especialistas e estudiosos da Educação há alguns anos. O último Censo da Educação Superior, realizado pelo INEP e distribuído no final de 2022, tornou a situação ainda mais alarmante com os dados obtidos: em apenas dois anos, foi registrada uma queda de mais de 125 mil alunos em cursos de licenciatura e Pedagogia, e apesar de um aumento geral no número de ingressantes nos últimos 11 anos (cerca de 34% calouros a mais), o número de concluintes desses cursos se mostrou quase estagnado.
Disparidade entre cursos de formação de docentes
Entre os cursos de formação de professores, o que apresenta melhores resultados é Pedagogia. Embora o estudo releve que a taxa de desistência acumulada do curso é de 50%, esse número ainda está abaixo da média de todos os do Brasil, que marcam 59%. Mesmo que esse resultado aparente ser otimista, é preciso analisá-lo dentro de todo o contexto.

Em 2021, o curso de Pedagogia recebeu 3.195.148 ingressante. O segundo curso na área de ensino a receber mais calouros é Educação Física – Licenciatura, com mais de 700 mil calouros. Em sequência, aparecem Matemática, História e Biologia, os três com menos de 450 mil alunos. Entretanto, quando evidenciados os números de concluintes de cada um desses cursos, algumas posições mudam: Biologia aparece primeiro, com 48% de taxa de conclusão de curso. Depois, Pedagogia, com 45%. Os demais se mostram abaixo de 40%.

Kailany Vieira, de 20 anos, está finalizando o Ensino Médio e pensa em cursar Pedagogia. “Decidi por achar que me identifico mais com essa área do que com outros cursos que pesquisei”, explica a estudante. “Quero começar a atuar, se possível, como professora dos primeiros anos, ou até mesmo com crianças menores“. Kailany conta que um dos motivos que a levaram a considerar o curso é o fato de preferir lecionar para crianças, ao invés de alunos mais velhos.
O curso de Pedagogia é indicado para a Educação Básica, anos iniciais, da 1ª à 5ª série. Um mesmo professor pode lecionar as disciplinas de Português, Matemática e Ciências, por exemplo, tornando a área de atuação mais abrangente e menos especializada.
Um dos motivos por essa preferência pode ser as dificuldades que docentes têm em encarar um público mais velho. No Relatório de Políticas Eficientes para Professores, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontou que, no Brasil, 12,5% dos professores já relataram agressões verbais ou intimidações por parte dos alunos, principalmente nos anos mais avançados do ensino educacional, quando a média mundial é de 3,4%. É apenas outro fator que fala sobre a desvalorização da profissão no país.
Dentre os demais cursos da área de ensino, as licenciaturas no campo de Ciências Exatas, que envolvem Matemática, Física e Química, são as mais afetadas. Em 2021, Matemática recebeu 435.828 calouros, mas apenas 133.100 pessoas concluíram o curso — cerca 30% dos ingressantes. Santhiago Magalhães Nery, de 21 anos, faz parte dos alunos que deixaram a área nos últimos anos.

“O que me motivou a entrar no curso de Matemática foi a facilidade com o conteúdo e a falta de identificação com outras áreas. De início, durante o ensino presencial, a experiência foi de descobrimento, fascínio e interesse constante. A chegada do insatisfatório ensino remoto acabou tendo como consequências dificuldades em aprender, desinteresse e falta de motivação, resultando na decisão de cancelar a matrícula e buscar uma nova área de interesse para a formação superior.” Atualmente, Santhiago cursa licenciatura em Educação Física.
O curso de formação de professores em Física recebeu, em 2021, 9.348 calouros em todo o Brasil. Desses, 6.994 abandonaram o curso — mais de 70% do alunos. “Eu realmente não via outra coisa que eu queria fazer, daí, quando eu fiz o Enem, a minha ideia era bacharelado, fazer pesquisas e tal, só que eu acabei mudando no último dia do Sisu para licenciatura porque ficou como um plano B: ‘Se não der certo de fazer pesquisa — porque a gente sabe que no Brasil não é muito valorizada essa área —, eu posso dar aula porque, querendo ou não, sempre tem vaga para professor, principalmente na área de exatas, de Física, Matemática, que é uma área que forma pouca gente'”*, conta Weigler Soares, que cursava Licenciatura em Física.
Além do alto número de evasão, há ainda uma certa rejeição entre os estudantes de licenciatura de Ciências Exatas em lecionar em salas de aula. Os resultados do ENADE 2021, também realizado pelo INEP, mostram que cerca de 19% dos alunos desses cursos não têm vontade de atuar como professores. Outros 18% afirmam ainda não terem decidido que caminho seguir na profissão.

A pesquisa também mostrou que 58% dos ingressantes em licenciatura já haviam estado em salas de aula, ou seja, não são jovens, mas pessoas já inseridas na docência, o que apenas reforça estudos anteriores: entre 2006 e 2015, no Brasil, o interesse de jovens de 15 anos em docência caiu de 7,5% para 2,4%.**
As causas do desinteresse pela docência
Limitada perspectiva de crescimento na profissão, pouco reconhecimento, baixa remuneração, dificuldades relacionadas à infraestrutura de escolas e centros educacionais, sobrecarga, estresse acumulado, falta de aumento nos investimentos para a Educação; problemas que persistem há décadas no sistema de ensino brasileiro — e mesmo a ausência de resolução afasta novos profissionais.
Em estudo realizado pelo Movimento Profissão Docente, com dados das secretarias estaduais da Educação, em 2022, foi constatado que a média de aumento salarial de um professor é de 50%, desde o início até o final de sua carreira. Isso quer dizer que se um professor inicia sua carreira com salário de R$4.420 (atual valor do piso salarial), é muito provável que o máximo que venha a ganhar é R$6.630, mesmo após anos na profissão.
No Brasil, 12,5% dos professores já relataram ter experienciado algum tipo de agressão ou intimidação por parte dos alunos. Essa taxa é mais que o triplo da média mundial, de 3,4%.*** O Censo Escolar de 2022 revelou que 67% dos profissionais da educação, entre docentes, coordenadores, diretores, etc., consideram insuficientes os recursos financeiros que as escolas recebem. Isso reforça o que que o censo do ano anterior expôs: das 138 mil escolas públicas de Educação Básica em atividade no Brasil, 21,6% não tinham acesso à internet, 39,9% não possuíam sala de professores, e quase 70% não possuíam uma quadra poliesportiva, coberta ou descoberta, para atividades físicas.

“Já fui professor substituto durante um período num colégio em Morrinhos, e eu participei do Pibid, que é o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência. Nesse programa, a gente ia para as escolas e via como era, e a realidade é muito triste no nosso país”, Weigler conta.
“A gente sempre fala que a educação não ‘tá lá essas coisas no país, mas a gente não tem a real dimensão disso. Eu fui para um colégio, estadual ou Municipal, não lembro, e os alunos não tinham os livros, apostilas para estudarem em casa, porque vinha poucos livros do governo. Cada turma recebia um livro específico, por exemplo, os livros de humanidades da turma, da área de ciências natureza, outra de matemática. É bem triste essa situação.”
O envelhecimento do corpo docente
O desinteresse dos jovens revela mais um fator: o envelhecimento do corpo docente. Pela ausência de pessoas mais novas na área de atuação e a decrescente quantidade de novos profissionais, a idade dos professores avança sem que haja substitutos. Em pesquisa de 2021, 72% dos profissionais entrevistados revelaram não ter acesso a apoio psicológico para cuidar da saúde mental.**** Além disso, o Censo aponta que um terço dos professores de escolas públicas dão aulas para mais de 300 por ano, quando esse é o número limite sugerido pelo Conselho Nacional de Educação.
Há professores cansados, desgastados, alguns já sem motivação. Esses professores já não propõem novas metodologias ou novidades, e vão para as salas sem paciência, o que por vezes dificulta a aprendizagem dos discentes e não inspiram uma nova geração de educadores.
Gabriel, que cursa Licenciatura em Geografia, entrou no curso por identificação com a área, mas só começou a considerar a docência a partir do contato com alguns educadores: “Eu não tinha a menor vontade de atuar como docente, mas aí tive professores tão bons e depois que eu dei algumas aulas para crianças eu comecei a achar a ideia mais interessante“, explica. “Eu entrei no curso meio sem perspectiva, mas quanto mais tempo eu passo nele, mais me identifico e mais me vejo atuando na área, seja como docente ou em outra área.”
O que será do futuro da Educação?
Em junho deste ano, na Reunião de Ministros da Educação do G20, Camilo Santana, atual ministro da Educação, apresentou propostas para reverter a situação e resolver os problemas relacionados ao pouco reconhecimento do magistério e a falta de interesse dos jovens. Os temas prioritários são o incentivo à comunicação entre escola e comunidade e a valorização dos professores.

Também foi proposto o Prêmio G20 Educacional, “um prêmio do G20 Educacional que reconheça experiências locais exitosas e nos permita, por meio delas, aprofundar o debate sobre a implementação de medidas de engajamento comunitário”, explicou o ministro para a Agência Brasil.
Enquanto as transformações não acontecem, e na contramão das estatísticas, ainda há jovens interessados na docência, e é por eles e para eles que esse cenário precisa mudar.
“Quero começar a atuar, se possível, como professora dos primeiros anos, ou até mesmo das crianças menores. No momento não me imagino em outro cargo. […] Gostaria de lecionar”, diz Kailany, com um sorriso.
ㅤ
ㅤ
ㅤ
Esta publicação foi feita com o auxílio de uma ferramenta de inteligência artificial!
Lançada em 2020, Google Pinpoint é uma ferramenta online voltada, principalmente, para uso jornalístico. Através dela, é possível apurar fatos e organizar dados de maneira mais rápida e facilitada, pesquisar documentos, transcrever arquivos de áudio e outras funções. Conheça o sistema!
*Entrevista em áudio, com transcrição fornecida pela ferramenta Pinpoint
**Dados obtidos pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos.
*** Dados obtidos pelo Relatório Políticas Eficientes para Professores.
****Dados obtidos pela Associação Nova Escola.
- O centro da cidade - 26 de fevereiro de 2025
- Entre Montanhas é a escolha certa para quem gosta de um pouco de tudo - 24 de fevereiro de 2025
- ‘Alchemised’ mal chegou à Amazon e já lidera ranking de vendas do gênero - 20 de fevereiro de 2025
