Tempo de leitura: 5 min
Yuri Pires de Oliveira

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem no Brasil mais de 30 milhões de animais abandonados nas ruas do país, sendo 10 milhões, cães e os outros 20 milhões, gatos. O abandono e maus tratos de animais no Brasil é crime, mas, mesmo assim, o país continua ocupando a 4ª posição no ranking dos países que mais abandonam. 

Contra o abandono existem ONGs e pessoas que realizam resgates sem o auxílio do poder público. A falta de políticas públicas com a situação animal obriga que pessoas como a senhora Egilse, que luta pelos direitos dos animais de rua. Ela resgata cães e gatos abandonados na região noroeste de Goiânia.

LN: Egilse, me fale um pouco sobre você e como você se tornou ativista da causa animal?

Egilse: Eu me chamo Egilse de Fátima Carneiro, moro aqui em Goiânia há dez anos, sou diarista e sempre gostei de animais, sempre! Quando eu morava no sul, eu alimentava pouquíssimos animais de rua, um, dois ou três, no máximo. Sempre coloquei em frente à minha casa uma vasilha com ração e outra com água, mas nunca trouxe para dentro da minha casa nenhum desses animais e nem procurei “adotantes” para prosseguir com a missão de cuidar deles.

Quando cheguei aqui em Goiânia, a primeira pessoa a trazer um gato aqui para dentro da minha casa foi meu esposo, ele trouxe uma gata do trabalho dele, essa gata ficou aqui por um longo tempo. Quando a gente que não tem experiência em resgatar animal, devemos perguntar, procurar uma pessoa que tenha conhecimento para ver como deve prosseguir dando qualidade de vida ao animal. 

A gata trazida pelo meu marido veio sem ser castrada, ela cruzou e deu cria. Como a gata era do meu marido, ele teve que tomar os procedimentos para que isso não acontecesse mais. Eu não procurei conhecimento, eu cuidava dela, mas não tinha esse conhecimento de castrar para diminuir e tal. Aí ele foi e aplicou uma injeção, essa gata ficou mal e acabou morrendo. E eu fiquei desesperada, sem saber o que fazer, porque eu não tinha esse conhecimento. E ali comecei a pegar amor, por aquela gata. Machucou muito o meu coração da maneira que ela partiu, sabe?

LN: Como você realiza os resgates desses animais?

Egilse: Sobre os resgates, são complexos, porque nem todos são mansos, tanto cachorro como gatos. Os gatos são piores ainda. Os cachorros que resgatei, muitos, ficam mansos, pois quando eles estão muito debilitados, eles não conseguem mais ter força para atacar. E cachorros, quando estão no cio, as fêmeas, a gente tem que esperar passar o cio delas e resgatar. Todas que resgatei, mandei para a clínica, paguei a castração, segurei em algum lugar assim por 10 a 12 dias, tratando e dando medicamento. A maioria dos animais chega com a doença do carrapato e com vermes. Muitas delas chegam extremamente debilitadas, desnutridas e com uma magreza excessiva que mostra as costelas. Depois solto quando não consigo uma família para adotar, porque muitas vezes a gente não tem espaço para todos os animais que a gente resgata, a gente não tem espaço.

Geralmente, os animais soltos depois do resgate ficam por perto por conta da comida e água. O resgate de gatos geralmente é muito difícil, nem sempre eles chegam mansos em nossas mãos. Tive que comprar uma ‘gatoeira’, facilita o resgate dos gatos, geralmente eles são muito bravos. Eu já fui mordida, já fui arranhada, já tive que entrar com medicamento devido à mordida de gato. Costumo colocar sardinha, patê, carne de frango, para atrair esses gatos para a gaiola. Então, é amor mesmo que a gente tem por eles.

LN: Você recebe alguma ajuda do poder público para custear as despesas que você tem com esses bichos?

Egilse: O governo não dá um saco de ração, ele não dá nada. Não dá uma vacina, um vermífugo, ele não procura saber se o protetor precisa receber uma ajuda com os animais resgatados. Se recebêssemos, supomos assim, 20 quilos de ração de gato e 20 quilos de ração de cachorro por mês, ajudaria muito a nossa situação, muitas pequenas protetoras que trabalham para suprir a necessidade desses animais abandonados nas ruas de Goiânia.

LN: A lei de proteção aos animais funciona?

Egilse: Sobre a lei de proteção aos animais, estabelecida pela Constituição Federal, não ajuda tanto assim. Hoje em dia, muita gente diz assim: “não, eu não posso pegar gato porque onde eu moro não pode ter animais”. Isso aí hoje não existe. Por mais que a prefeitura não ajude, que os governantes não nos ajudem, não mandam verba para nós, porque eles podem até mandar para as prefeituras, mas esse dinheiro deve ser desviado para alguma outra coisa. Então, por mais que ele não nos ajude, a lei assegura que, em qualquer lugar que eu quiser, por uma vasilha com água e um pote de ração, ninguém pode tirar. E se a gente pegar alguém tirando, a gente pode filmar, pode fotografar e dará cadeia, terá uma pena para ele, ele não pode maltratar, cachorro amarrado jamais, gatos trancados jamais, lugar sujo também não pode, isso é lei federal. Ninguém pode proibir de alimentar animais em qualquer lugar que for, seja a faculdade, seja debaixo de árvore, seja em qualquer lugar. Hoje podemos deixar vasilha em qualquer lugar que tivermos animais, seja em praça, seja em qualquer lugar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *