Este texto propõe uma análise das representações de bibliotecas em jogos eletrônicos com temática neomedieval, tomando como base os conceitos da teoria crítica apresentados por Carneiro et al. (2024). A partir do estudo de Kussler (2020), que investiga como as bibliotecas são representadas em games como Dragon Age: Origins e Skyrim, o objetivo aqui é refletir sobre o que essas representações revelam em termos simbólicos, sociais e culturais — e como podem dialogar com uma perspectiva crítica de conhecimento.
A teoria crítica, desenvolvida por pensadores da Escola de Frankfurt como Horkheimer, Adorno e Marcuse, questiona o modo como a ciência e a cultura foram se tornando instrumentos de dominação, ao invés de servirem à liberdade e à emancipação. Aplicando esse pensamento ao campo da informação, Carneiro et al. (2024) defendem que as bibliotecas devem ir além de oferecer acesso a livros e dados: elas devem ser espaços de transformação, onde os sujeitos possam refletir, questionar e produzir novos saberes.
Nos jogos analisados por Kussler (2020), as bibliotecas aparecem com diferentes significados. Em alguns momentos, elas são vistas como locais de conhecimento, mistério e pesquisa. Em outros, surgem como ruínas, espaços abandonados ou de difícil acesso. Isso mostra que, mesmo em ambientes ficcionais, como os mundos dos games, as bibliotecas continuam sendo carregadas de sentidos importantes.
A teoria crítica ajuda a entender que essas representações não são neutras. Quando uma biblioteca é mostrada como um espaço fechado, acessível apenas a personagens com poder ou status, isso reforça ideias excludentes sobre o conhecimento — algo que a própria teoria crítica busca combater. Por outro lado, quando o jogo apresenta a biblioteca como um local de estudo, ensino ou troca de saberes, ele se aproxima de uma visão mais democrática e transformadora do saber, mesmo que isso aconteça de forma simbólica.
Kussler (2020) também destaca que, apesar da estética medieval desses jogos, muitas das ideias presentes nas bibliotecas são heranças do Iluminismo, como o ideal de acúmulo e preservação do conhecimento. A teoria crítica reconhece o valor desses ideais, mas propõe ir além: questionar para quem esse conhecimento serve e como ele pode ser transformador na prática.
Nesse contexto, Carneiro et al. (2024) apontam que o trabalho das bibliotecas deve ser guiado por ações culturais que levem à apropriação da informação — ou seja, que ajudem as pessoas a interpretar, ressignificar e usar os conteúdos de forma autônoma. Ao olhar para as bibliotecas nos jogos digitais, podemos aplicar esse raciocínio: será que essas representações ajudam o jogador a pensar sobre o papel do conhecimento e da memória? Ou apenas reforçam uma imagem elitista e distante da biblioteca?
A partir dessa leitura, é possível afirmar que os jogos analisados carregam contradições — como a própria teoria crítica propõe investigar. Eles podem tanto reforçar estereótipos quanto abrir espaço para reflexões. Cabe à área da Biblioteconomia, especialmente em sua vertente crítica, assumir o papel de mediadora dessas leituras e ajudar a transformar esses espaços simbólicos em ferramentas para a construção de uma sociedade mais consciente e justa.
Em resumo, aproximar os estudos de representações em jogos com os conceitos da teoria crítica contribui para entender como o imaginário coletivo sobre as bibliotecas é formado — e como ele pode ser transformado a partir de práticas culturais mais conscientes e comprometidas com a autonomia e o pensamento crítico.
REFERÊNCIAS
CARNEIRO, Júlia Carolina Rodrigues Braga; MORAES, Rosana Portugal Tavares de; CABRAL, Rosimere Mendes. A ação cultural e apropriação da informação sob a perspectiva da teoria crítica. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, [s. l], p. 1-20, 09 mar. 2024. Disponível em: https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/1983. Acesso em: 21 jun. 2025.
KUSSLER, Natan Fritscher. Representações sobre bibliotecas em games neomedievais. 2020. 145 f. Dissertação (Doutorado) – Curso de Biblioteconomia, Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/211263. Acesso em: 21 jun. 2025.
