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Nesta entrevista, o professor doutor Anselmo Guerra de Almeida conta sobre sua carreira na música e como entrou para o ramo acadêmico. O docente tem experiência na área de Artes, com ênfase em Música Computacional, atuando em ramos como música eletroacústica e contemporânea. É vice-presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica-SBME e atua como professor titular na Universidade Federal de Goiás.
Com sua vasta carreira, estudando a parte de tecnologia musical, discorre acerca do papel das mídias sociais e da Inteligência Artificial na música e das dificuldades enfrentadas para a ascensão da música brasileira e os obstáculos enfrentados por novos artistas para engatarem nesse ramo. Mostra, com uma visão profissional, como a indústria comanda os gostos da população e instiga o consumo de determinados produtos acima de outros, além de refletir que há uma perda da riqueza cultural no meio musical atual, por conta da demanda comercial.
Como você decidiu que seguir na carreira da música era o que queria fazer para ganhar a vida?
Bom, era uma tradição de família estudar piano, e por influência familiar, eu fui fazendo conservatório de música. Foram nove anos estudando piano até me formar nesse curso de nível técnico. Nesse trajeto eu fui pegando o apego à música, mas ainda não cogitava como atividade profissional, porque se você imagina que o músico popular tem dificuldade, para quem toca música erudita, essa dificuldade é maior ainda. Ao mesmo tempo, eu tinha uma fascinação por tecnologia, por um tempo até estudei engenharia.
Nesse trajeto, eu tive contato com um festival de música em Campos de Jordão. Ali eu conheci pessoas muito influentes na música, que se tornaram referência para mim. E eu fui direcionando para essa área tecnológica, fazendo cursos, vendo a parte de eletrônica. Inclusive, no festival eu conheci o diretor da escola em que eu fui fazer a graduação, um francês, chamado Michel Philippot. O qual tinha vindo justamente da França com toda uma equipe de professores para inaugurar o Instituto de Artes. E foi quando eu entrei na faculdade e fui fazendo o shift da engenharia para a música. Não fiz imediatamente, fui convencendo a família, porque para eles era um suicídio econômico.
Outra coisa que me influenciou, foi o festival de música contemporânea que ocorre na minha cidade de Santos, O Festival Música Nova. A parte da composição era o que me atraía, o que me direcionou para o Instituto de Artes da Unesp, onde fiz um curso de composição e regência. Até que eu cheguei no limite, em que eu não podia mais fazer dois cursos ao mesmo tempo. Assim, decidi largar a engenharia.
Então, fui procurando complementos da graduação para atingir o meu foco. A composição de música eletroacústica, no Instituto de Artes, já tinha um laboratório de eletroacústica em que eu poderia fazer peças experimentais. E me dediquei bastante, tive excelentes professores nessa área, como o Conrado Silva. Nessa interação com ele, eu entrei para um grupo de trabalho do próprio Festival Música Nova. Aí fui fazer parte dessa equipe, cujo nome era Núcleo Música Nova.
Nesse contexto, em 1988, organizamos um simpósio internacional de música informática. Ali eu conheci o meu futuro orientador de mestrado, o qual veio falar que estava abrindo um curso de pós-graduação e montando uma equipe multidisciplinar dentro de um programa de computação da UNB. Aquilo se encaixava com o meu perfil, porque eu já tinha um histórico de engenharia, só não tinha experiência em programação.
Depois de um tempo, voltei para São Paulo para fazer doutorado na PUC. E vi que vários colegas meus, estavam fluindo para esse programa de pós-graduação de comunicação semiótica. Ali eu desenvolvi a minha tese, mas tive que fazer parte dela nos Estados Unidos. Então, foi quando eu já tinha terminado o doutorado que eu fiz concurso para ingressar na UFG. Eu já cheguei pronto, fiz o concurso e comecei a dar aula de composição. No ano seguinte fui coordenador de pós-graduação, formando algumas pessoas no mestrado.
Minha trajetória foi muito particular, não tenho como generalizar a partir da minha experiência pessoal, porque ela foi construída passo a passo e às vezes sem saber o que ia acontecer no dia seguinte. Então, foi graças à carreira acadêmica que minha colocação profissional me deu uma certa tranquilidade. Para poder inclusive ter os recursos, ter o laboratório, ter um estúdio. Então, foram projetos que eu fui desenvolvendo ao longo da carreira aqui como professor.
Você falou que passou por experiências nas duas áreas, tanto na mais artística quanto na acadêmica. Como você decidiu escolher a carreira de professor para seguir na área da música?
Bom, a decisão foi orgânica. Foi de acordo com o que eu estava acostumado. Então, antes de eu entrar numa universidade e de fazer mestrado, eu regia o coral e dava aula particular. Eu tinha vários alunos particulares em casa e também dei algumas aulas, trabalhos temporários em faculdades de música. Ainda não queria me apegar a determinado lugar antes de fazer pós-graduação. E eu vi que o meu caminho era a carreira acadêmica. Em que eu poderia fazer o espelhamento das pessoas com que eu acompanhava e as minhas referências profissionais iam nessa direção.
Então, eu vi que para o trabalho dentro de um departamento de música, de computação, ter um laboratório é essencial. Eu, como iniciante, não ia construir um estúdio. Naquela época você precisava de uma infraestrutura e computadores mais potentes, que eram muito caros, não eram acessíveis para a pessoa física, mas sim para a instituição. Assim, o contexto em que eu cresci intelectualmente me chamava para o mundo acadêmico, foi o que eu me identifiquei. Não me via como concertista, principalmente como compositor, isso é muito impreciso. Hoje em dia depende muito de uma questão mercadológica.
De uns anos para cá, cresceu uma filosofia de vida muito voltada para o comercial, a música que você faz tem que ser comercial. E isso implica numa postura de você abrir mão de certas coisas pessoais, para você satisfazer o mercado. Então existe todo um domínio neoliberal, em que a música é muito utilitária, ela tem que distrair, tem que alegrar, tem que fazer isso, fazer aquilo, e você acaba fugindo da sua linha de composição para satisfazer um padrão comum em que as pessoas seguem. Por isso que a música feita por IA está fazendo tanto sucesso, ela faz isso com muita maestria. Esse tipo de música fácil, perde o seu valor enquanto arte. Então a gente deixa de pensar em mercadoria, o meu foco é arte, não essa competição que tem em termos comerciais. Então é isso que me puxa mais para a área acadêmica, que me torna mais independente e menos dependente da ditadura no mercado. Aqui eu faço o que eu tenho vontade.
A sua trajetória foi grande e com diversas experiências tanto nacional quanto internacionalmente. Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Olha, depende do que você está falando. Diversos momentos marcaram minha carreira, como o momento em que deu um clique lá atrás, quando fui para o festival de música e conheci pessoas do mundo inteiro, conviver com essas pessoas me deu um clique para entender que era aquilo que eu queria. Ou então quando conheci o meu orientador do mestrado.
Mas recentemente, aconteceu algo que me agradou muito, teve um congresso muito famoso em Massachusetts, da Sociedade de Computação Musical (Computer Music Association), inclusive o meu ex-orientador dos Estados Unidos participou, além de outras pessoas que são minhas referências bibliográficas. E eu mandei uma composição para apresentação, a qual foi uma das selecionadas, entre os 800 escritos. Então, me deu uma satisfação muito grande, de ter um trabalho apresentado em Berkeley, nos Estados Unidos. Foi muito compensador, para mim foi um highlight atual.
Você já comentou um pouco de algumas dificuldades que você passou. Qual você acha ser o maior obstáculo para ter um sucesso na carreira musical brasileira?
Isso é muito relativo, depende de cada um. Existem caminhos fáceis, que é você imitar os outros, trabalhando por mimetismo. Por exemplo, a música sertaneja, não quero criticar, mas normalmente são músicos que não tiveram a preparação adequada, que se contentaram com o básico e em imitar as suas referências. Não que não seja válido, mas leva a pessoa para um nicho muito estreito, em que ela não vai entender outro tipo de música, a não ser aquela que ela imita. E tem gente que imita muito bem, que fez sucesso.
Já tem gente que vai atrás de um estudo mais profundo. Hoje em dia nas universidades tem a área de música popular, em que você pode estudar a música popular como uma coisa mais séria. Hoje temos uma versatilidade de fazer vários estilos. Então isso depende de cada um, depende do talento da pessoa, do intelectual, da intuição. Eu tenho vários exemplos de alunos que se deram bem na música em função das suas próprias habilidades, não porque eu dei aula, mas porque eles tinham potencial.
A pessoa tem que descobrir qual é o potencial dela e entrar nesse caminho. E eu tive um aluno que já tinha uma certa formação musical, e quis fazer o TCC dele comigo, sobre trilha sonora de cinema. Atualmente está fazendo trilha sonora para a Netflix. Então, é um exemplo de uma pessoa que vem para a academia e desenvolve o seu potencial.
Atualmente, vemos que estilos musicais que predominam na sociedade são, em sua maioria, de origem internacional. Na sua opinião, por que a música brasileira, muitas vezes, não recebe o mesmo reconhecimento que estilos internacionais, como o pop?
Isso nem sempre foi assim. A música brasileira já teve uma penetração musical muito forte, por exemplo, a bossa nova tinha uma penetração no mundo muito forte, mas temos uma música popular que deixou de ser evidente, que deu espaço para um outro tipo de música mais popular no sentido de ser fácil de assimilação. Então nós tivemos uma época muito rica de uma música brasileira que tinha sua identidade, podemos citar Milton Nascimento, o Clube da Esquina, Wagner Tiso e Chico Buarque. Nós tivemos uma ditadura de 20 anos no Brasil, e esse tipo de música era uma resistência. As letras eram censuradas, e isso gerou uma movimentação contra a falta de liberdade, contra a ascensão da extrema direita, a música tinha um valor muito grande para isso. Depois começou uma época popularesca, em que as músicas se perderam.
Hoje em dia as pessoas ouvem músicas mais falando de bebida, de mulher, de traição, de encher a cara. Então isso se esvaziou bastante, e é uma coisa que não vai interessar o mundo. Existe uma riqueza cultural muito grande, só que as gravadoras e o mercado escolhem o que vai fazer sucesso, o tipo de música mais elaborada perdeu um espaço no mercado. Eu acho que na música popular é muito difícil você ter sucesso com o seu próprio talento. Depende de contexto, assessoria, empresário. Muitas dessas pessoas são escravas dos empresários. O que eu posso dizer é que a música brasileira, quando é feita na sua essência, é muito valorizada lá fora. Ela só não faz sucesso por causa desse mundo empresarial.
Você falou que é muito relativo quem consegue engatar na carreira musical ou não, pois depende de talento e esforço, e muitos artistas brasileiros têm essa dificuldade de ingressar nesse ramo. Você acredita que esses artistas precisam se adaptar a esses padrões dessa indústria, pra serem reconhecidos lá fora?
Pode ser ruim ou pode ser bom. Para se adaptar, às vezes tem que ser feitas concessões que vão descaracterizar a música brasileira. Aliás, essa noção de nacionalismo é um pouco defasada, acho que uma vez que você faz música no Brasil, está trabalhando no seu contexto e no seu ambiente, você está fazendo música brasileira. Você não precisa tocar samba para fazer música brasileira. A música brasileira é a música feita pelo brasileiro. Então, eu não vejo como um esforço de se adaptar.
Teve um período na história da música brasileira, em que teve um movimento nacionalista. Começou com Villa-Lobos, em que o princípio até era válido de você criar uma identidade. Mas os compositores dessa época pegavam as técnicas europeias, os temas folclóricos, roubavam e faziam apropriação cultural. Faziam contraponto, toda harmonia pega da tradição europeia e faziam um tipo de música que eu considero muito fraca em sua essência. A não ser o grande gênio como Villa-Lobos, que fez isso bem, que tem suas controvérsias, mas que era um gênio e fez coisas maravilhosas para o repertório da música brasileira. Então, penso que não tem um padrão definido.
Hoje em dia a nossa sociedade é muito rodeada pelas mídias. Como você enxerga o papel dessas redes sociais e do streaming na divulgação da música brasileira?
Eu vejo de uma forma muito positiva. Uma coisa que eu estranhei, foi ter que ouvir a música pelo vídeo. Na minha área, ouvir música é de olho fechado, e, de repente, começou a aparecer música no YouTube. Agora que o som está em uma qualidade melhor, eles sempre priorizavam a qualidade da imagem em detrimento do áudio que era comprimido. Mas isso foi legal, porque você faz a sua música e você mesmo cria seu canal e publica essa música, não depende de comprar um CD, isso é ótimo e democrático.
Nas minhas pesquisas, eu vejo o resultado dos colegas, a internet é fundamental para a conexão entre as pessoas. Atualmente tem os influenciadores, que influenciam dentro do limite dessa pessoa, de vender coisas, de fazer fofoca, de falar coisas polêmicas e chocantes, mas na música não tem muito isso, ou você faz música ou não faz. Então, existe essa comunicação que pode ser feita.
Tem aqui uma sociedade brasileira de música acústica, que, uma ou duas vezes por ano, lança um álbum com peças da nossa comunidade e divulga. Não precisa contratar uma empresa, você só paga a hospedagem das músicas, o espaço no HD e divulga. É uma coisa que vai contrariar toda aquela lógica de mercado. Eu vejo como bem positivo isso. O maior problema hoje em dia não é a informação, e sim você selecionar qual é a informação que é importante. Então, tem esse aspecto em que a gente precisa prestar muita atenção em entrar na rede.
Atualmente, vemos cada vez mais o avanço da tecnologia. Você acredita que ela funciona como um apoio para a música ou como um desafio para a carreira dos artistas? De que forma o avanço da tecnologia pode impulsionar ou, ao mesmo tempo, prejudicar a trajetória dos músicos?
Bom, como eu te falei, para mim, a IA na música não é novidade, convivi com isso à 35 anos, mas de alguns anos para cá, isso se intensificou. Antes, a minha vivência com inteligência artificial era uma parte criativa, mas agora ela tem vindo com uma roupa comercial. Antes, para você fazer inteligência artificial, você tinha que programar. E agora, você não faz IA, você usa o que os outros fizeram, temos que ter consciência disso. Mas assim, não vou deixar de usar a IA, ela, ultimamente, faz parte do que eu faço no dia a dia.
Acabei de fazer uma peça para apresentar em Curitiba no final do mês, escolhi como tema uma poesia de uma menina palestina que vi no YouTube, e eu queria fazer uma coisa sobre o benefício da causa palestina. No vídeo, não sabia o que ela estava falando direito, aí usei o chat GPT, coloquei o áudio e algumas imagens, algumas dicas, uma coisa escrita que apareceu em árabe, e eu consegui traduzir com a IA. Aí eu já tinha uma versão em árabe e uma versão em português. Depois eu gerei pela IA, a voz de uma menina falando o mesmo poema em português. Assim, eu misturei as duas na peça, no estilo mais livre, em que é mais um envolvimento emocional, e ficou interessante. Então, é um exemplo de como a IA está direto na minha vida como compositor, para mim, é o dia-a-dia. Não sei como não trabalhar com a IA agora. Antes eu sabia fazer de outras maneiras, muito mais custosas. Agora não, as coisas são muito mais rápidas.
E para finalizar, a última pergunta. Considerando toda a riqueza da música brasileira, qual recado o você deixaria ao público sobre a importância de reconhecer e valorizar esse patrimônio cultural?
Eu acho que a primeira coisa é estudar a música brasileira do passado, para entender as raízes do que seria uma música brasileira. Para você entender o passado e poder projetar o futuro. Então, acho que se você pegar isso e desenvolver, você vai descobrir como dialogar com essa música de qualidade.
Então, por exemplo, se você vê um filme do Tarantino, é um cara que fez coisas muito inovadoras, em termos cinematográficos. Ele tem um conhecimento da linguagem cinematográfica, ele estudou muito os filmes antigos. E o tempo todo faz citações dessas referências anteriores, isso reflete na qualidade do Tarantino. Assim como David Lynch, que tem uma formação musical, além de diretor, ele tem muita consciência do sonoro. Ele tem muitas citações, tanto musicais como cinematográficas. Então, isso me chama a atenção e que seria um exemplo para a sua pergunta. Resumindo, você tem que dialogar com a música de qualidade que já foi feita.
