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Atualmente um tema que tem dominado a sociedade é o advento das redes sociais. Dificilmente é possível encontrar alguém que não possui redes sociais ou qualquer contato com tecnologias que conectam pessoas as outras e ao mundo que as cercam. Isso ocorre porque para se manter atualizado hoje em dia, é necessário estar conectado às redes, maior fonte de informação e conexão entre as pessoas das últimas décadas.
Com a popularização das redes sociais, surgiram os chamados “influencers”, ou seja, influenciadores digitais, pessoas que compartilham experiências, opiniões e conteúdos nas redes. Consequentemente, surge um questionamento, a estética perfeita mostrada na internet é um retrato da realidade?

A história das redes
SixDegrexx
Primeira rede social, trazendo a proposta de pessoas desconhecidas se conectarem.
Friendster
Do mesmo gênero do Facebook e Orkut, ela foi uma das pioneiras e inspiradoras para as próximas redes sociais.
Myspace
Rede em que era possível ter uma rede interativa de amigos, perfis pessoais, blogs, grupos, fotos, músicas e vídeos enviados por usuários.
LinkdedIn
Rede social de negócios para criar relacionamento profissionais, contratar, buscar empregos, fazer networking, etc.
Orkut
Nela era possível criar perfis, fazer parte de grupo, trocar mensagens, deixar recados e muito mais.
A rede social é versátil e abrangente, com muitas funcionalidades no mesmo lugar. Por meio dela é possíve gerar negócios, conhecer pessoas, relacionar-se com amigos e família, informar-se, dentre outros.
Youtube
Seu foco principal é compartilhar conteúdo musical, mas ainda sim é possível conversar com as pessoas e criar perfis.
Pode ser considerado como um diário para algumas pessoas, pois é possível publicar textos, fotos e vídeos a todo momento e diariamente.
É uma rede social de mensagens instantâneas mais popular entre os brasileiros, também permite fazer ligações de voz, ligações de vídeo e enviar arquivos, como áudios, imagens, vídeos, docs, etc.
É uma das redes sociais mais usadas do mundo, que permite o compartilhamento de fotos e vídeos entre seus usuários, além de fornecer filtros digitais para aplicar nos conteúdos e compartilhá-los em uma variedade de serviços de redes sociais.
SnapChat
É uma rede social de mensagens instantâneas, além de oferecer vários filtros para utilizar em fotos e vídeos.
SnapChat
É uma rede social de mensagens instantâneas, além de oferecer vários filtros para utilizar em fotos e vídeos.
TikTok
Uma das plataformas mais utilizadas atualmente. A rede tem como principal ferramenta a gravação e publicação de vídeos de 15 a 60 segundos. Além disso, os usuários podem seguir uns aos outros, curtir, compartilhar e comentar as publicações.
Redes como refúgio social
Após o surgimento das redes sociais, houve uma popularização dessa tecnologia. De acordo com pesquisas feitas pela We Are Social e Comscore, em Janeiro de 2024 o Brasil registrou cerca de 144 milhões de usuários ativos, representando 66,3% da população total. Também foi mostrado que os brasileiros dedicam, em média, 9 horas e 13 minutos diários às redes sociais, colocando o país como o terceiro maior consumidor mundial.

Com esse alcance da internet, não apenas nacional, mas mundial, surgiram os “digital influencers”, pessoas que gravam conteúdos de diversos tipos para as redes sociais, na maioria das vezes mostrando uma vida utópica. Assim, essa situação acarretou alguns problemas, dentre eles o apagamento da realidade.
Os influenciadores estão sempre mostrando um estilo de vida dos sonhos, cercada de luxo, corpo perfeito, viagens, carros e casas deslumbrantes, deixando transparecer apenas alegria em seus conteúdos. Isso ocorre porque esse conteúdo atrai grande parte do público, que busca uma fuga de sua realidade através do acompanhamento dessa performance nas redes.
A princípio a internet era utilizada para aproximar as pessoas, mas atualmente ela têm se tornado um grande fator para o isolamento social. Pesquisadores do Instituto Stanford para o Estudo Quantitativo da Sociedade (SIQSS), realizaram estudos acerca das pessoas que passam grande parte do tempo em frente às telas, entrevistando 4.113 adultos. O resultado é que 36% que usavam a internet cinco horas ou mais por semana relataram mudanças significativas, notaram um distanciamento da sua realidade. O professor Norman Nie, diretor do SIQSS, relata:
A internet pode ser a tecnologia de isolamento definitiva, reduzindo ainda mais nossa participação em comunidades, ainda mais do que os automóveis e a televisão fizeram antes dela.
Assim, é possível concluir que a maioria das pessoas que entram nas redes sociais, buscam um refúgio de sua realidade, buscando por uma vida perfeita, diferente das dificuldades do dia a dia. Mas nem sempre o que é mostrado nas redes é o que está acontecendo de fato.
A realidade das redes
Por trás de fotos impecáveis, vídeos cuidadosamente editados e rotinas aparentemente perfeitas, existe uma realidade que raramente aparece nos feeds das redes sociais. A ascensão da profissão de influenciador digital transformou a vida cotidiana em conteúdo, mas também criou uma pressão constante para transmitir sucesso, felicidade e estabilidade — mesmo quando esses elementos não estão presentes.
A romantização da realidade se iniciou pela busca dos influenciadores por reconhecimento, quanto melhor for sua vida mostrada, mais fama, dinheiro, seguidores e parceiras eles vão conseguir. Então a realidade é modificada para para atender às expectativas do público, que não quer se deparar com uma rotina real com dificuldades financeiras, conflitos pessoais, problemas emocionais e fracassos.
Pesquisas realizadas pela Globo mostram os tipos de influenciadores mais seguido atualmente:

De acordo com a pesquisa humoristas e blogueiros são os tipos de influenciadores mais seguidos nas redes, pois o público procura conteúdo para se distrair, para atrair felicidade. Já os criadores de conteúdo, em busca de reconhecimento, gravam, fotografam, editam e postam o que seus seguidores querem ver – festas, lugares bonitos, viagens, corpos bonitos, etc.
Impactos sobre os influenciadores
As pessoas que se expõem na internet acabam assumindo uma responsabilidade muito grande, tudo o que postam é visto e lembrado, tudo o que fazem pode servir para alavancar sua carreira ou para perder tudo o que construíram. Isso porque o público é quem dá a fama para os influenciadores, ele é quem dita o que viraliza ou não. Então, a exposição na internet acarreta uma responsabilidade de ter que parecer feliz em todos os momentos e de ter uma vida que agrade aos seus seguidores.
A youtuber Vitória di Felice Moraes, conhecida como Viih Tube, no ano de 2021 usou seu perfil no “X”, para fazer um desabafo sobre a pressão nas redes:
Não distribuam ódio gratuito na internet, isso mata as pessoas. […] Não quero ver mais nenhum amigo meu da internet sofrendo com ódio, hate, depressão, ansiedade, síndromes. Como me dói. As pessoas da internet acham que só porque estão escondidos atrás de um celular, não prejudicam vidas, tem muita gente ruim nesse mundo. Cuidem de cada palavra que falam nas suas redes, isso influencia muito na saúde de qualquer um, que triste.
O que ela relata é a realidade de muitos criadores de conteúdo, que sofrem hate – prática de ódio na internet, como comentários negativos ou ofensivos – por muitas vezes não alcançarem a expectativa do público. Essa pressão pode acarretar problemas mentais como depressão, ansiedade e pânico, fazendo com que as pessoas demonstrem uma vida perfeita na frente das telas e ocultem a realidade por medo do julgamento.
Carla Furtado, mestre em psicologia e fundadora do Instituto Feliciência, diz sobre o assunto:
Os influenciadores sofrem de uma competição constante, ficam o tempo inteiro olhando quantas curtidas tiveram, quantos seguidores ganharam ou perderam. Às vezes, [o influenciador] não quer falar sobre um assunto e acaba tendo que falar porque os seguidores estão perguntando, então causa muita ansiedade, tristeza, medo de perder alguma coisa.
Então é possível entender que essa distorção da realidade nas redes ocorre pela pressão que o público coloca sobre os influenciadores, afim de que estes últimos entreguem o que vai agradar os seguidores, que consequentemente irão ajudar no crescimento do conteúdo através de vizualizações e curtidas. Essa relação pode ser vista como uma troca de favores, o famoso entrega um conteúdo desejado e os fãs retribuem com audiência.
Caso Vanessa Lopes
Vanessa Lopes é uma jovem de 24 anos, com mais de 14,2 milhões de seguidores no Instagram e cerca de 32,8 milhões no TikTok. Iniciou sua carreira aos 13 anos, postando vídeos dançando, fazendo com que a influenciadora crescesse principalmente entre os jovens. Atualmente grava vídeos dançando, mostrando sua rotina, os famosos “get ready with me” (arrume-se comigo), entre outros.
Em 2024, foi convidada para participar do programa de TV “Big Brother Brasil”, como integrante do grupo “camarote”, onde ficou por 11 dias. Foi um momento marcante tanto para a influenciadora quanto para quem a acompanhava, pois alguns acontecimentos dentro do programa revelaram indícios de algum transtorno mental por parte da Vanessa.
Durante o programa, que envolve jogo, estratégia e provas, Vanessa começou a criar teorias para além do que estava acontecendo na realidade e gerando momentos de conversas desconexas com os outros participantes. A situação se tornou tão séria, ao ponto de Vanessa começar a suspeitar que as pessoas que estavam com ela na casa eram atores contratados para enganá-la. Em alguns momentos ela cita frases relacionada com a cultura do cancelamento:
No dia 19 de janeiro de 2024, após delírios e teorias irreais, Vanessa Lopes decide apertar o botão de desistência e deixar o programa, gerando um dos momentos mais emocionantes do BBB24:
Vanessa começou muito nova na internet, após crescer nesse meio passar por momentos em que era amada pelo público e também por situações em que sofreu ataques de ódio, desenvolveu ansiedade e crises de pânico por conta de toda pressão estética e psicológica. Seu quadro mental se agravou durante sua participação no BBB, tendo que se afastar por um tempo das redes, enquanto fazia acompanhamento psiquiátrico. Após um tempo desses acontecimentos, Vanessa fala sobre o que viveu em uma entrevista para o Fantástico:
Segundo meu psiquiatra, eu tive um quadro psicótico agudo que é como se a minha mente rompesse com a realidade. É como se eu já não entendesse mais o que é a imaginação da minha cabeça e o que é real. Isso aconteceu pelo estresse, pela falta de sono, pela ansiedade, medo do que estava acontecendo lá fora no programa, medo do que estava acontecendo dentro do programa.
O médico Antônio Geraldo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, que acompanhou o caso também expressa sua opinião com base na sua área:
Nós chamamos de quadro psicótico agudo aqueles quadros em que a pessoa vem dentro da característica de um funcionamento normal e repentinamente ela rompe com a realidade e passa a viver uma realidade paralela. Não precisa ter história nenhuma pregressa pra poder fazer esse diagnóstico e o futuro vai depender totalmente do que você faz agora no presente com a presença da doença. O quanto mais cedo você intervém, mais cedo você tem um melhor resultado e um melhor prognóstico.
Vanessa Lopes complementa sua fala dizendo:
Com certeza eu acho que tem relação. Medo do julgamento, medo do que as pessoas vão achar da gente foi o que mais me pegou naquele momento. Tudo que eu já vivenciei com a internet, todas as opiniões e julgamentos que as pessoas tiveram sobre mim, com certeza foram dores minhas que vieram à tona lá dentro, isso eu não tenho dúvida.
O caso da Vanessa Lopes é apenas um dos diversos exemplos que ocorrem nesse meio das redes sociais. A imagem que muitos influenciadores divulgam de uma vida perfeita faz o público pensar que tem o direito de descontar suas frustrações da vida real nesses criadores de conteúdo. Mas há uma realidade por trás das telas, em que essas subcelebridades são prejudicadas mentalmente por pressões vindas de quem as acompanham.
Impactos sobre o público
As redes sociais estão presentes no cotidiano de toda a população e isso acaba afetando de forma negativa a maioria dos usuários. O apagamento da realidade e a ostentação de uma vida perfeita na internet traz uma onda de comparações para pessoas que não vivem essa vida. De acordo com uma pesquisa feita pela ONG inglesa Girlguiding, com mais de mil garotas e jovens, entre 11 e 21 anos, uma em cada três jovens relata que sua maior preocupação online era comparar a sua vida com a de outras pessoas.
Na internet é muito comum os usuários postarem conteúdos, não apenas porque gostaram de uma foto ou vídeo, mas sim em busca de aprovação. Assim, surgem competições, como: “quem tem uma vida melhor?”, e ganha a pessoas que possui mais vizualizações. Por isso o público se compara com muitos influencers, que supostamente tem uma vida atraente e desejável, enquanto a realidade da maior parte da população é composta por problemas.
Além de uma vida perfeita, também há uma pressão de “corpos perfeitos” nas redes sociais, na qual corpos sarados, barrigas definidas e corpos sem marcas são almejados, acarretando em uma comparação entre corpos reais e os corpos montados para as redes. Esse problema se alastrou principalmente após a popularização da IA (Inteligência Artificial), pois muitas pessoas começaram a usufruir dessa tecnologia para modificar imagens e até mesmo seus próprios corpos para atingir um “padrão” estético. A psicóloga Andréa Regina Marques Chamon, conselheira do Conselho Federal de Psicologia e professora da PUC-SP, diz para entrevista no gshow:
A inteligência artificial, ela tende a reproduzir padrões que já são socialmente valorizados e até hipervalorizados. Pele sem marcas, traços simétricos, corpos magros ou hipersexualizados, aparência jovem e frequentemente radicalizada dentro de referências eurocentradas. […] Então, você tem aquele corpo idealizado e o corpo real, e, quando compara o corpo idealizado com o corpo real, as coisas não batem.
São as redes sociais que ditam esses padrões socialmente valorizados citados, e quando uma pessoa com um corpo “real” se depara com esses corpos “idealizados”, ocorre a comparação.
Sendo assim, a estética perfeita das redes afeta não somente os influenciadores, mas também o público que os acompanha, pois vivem em busca de uma realidade utópica e se deparam com um dia a dia comum, ocasionando frustração, ansiedade e depressão. Algumas plataformas tentam tomar medidas para que a internet pare de ser um lugar de comparação e competição e passe a ser uma forma de socialização e entretenimento saudável. O Instagram, por exemplo, decidiu fazer um teste ocultando o número de curtida das postagens durante um tempo, conforme nota da empresa:
Não queremos que as pessoas sintam que estão em uma competição dentro do Instagram e nossa expectativa é entender se uma mudança desse tipo poderia ajudar as pessoas a focar menos nas curtidas e mais em contar suas histórias.

Assim é possível perceber que as próprias plataformas digitais têm o entendimento dos problemas acarretados pela estética perfeita mostrada nas redes, tanto para influenciadores quanto para usuários menores. Interferindo no cotidiano de ambos pela pressão estética, comparação e busca por uma vida que as pessoas aprovem.
