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Neste entrevista, Ana Canavarro Beneti, pesquisadora e historiadora, professora titular do Instituto da Química da Universidade Federal de Goiás, ressalta que a abolição da escravidão no Brasil não significou, de fato, a liberdade para a população negra, mas atendeu sobretudo a pressões externas. A docente também fala sobre como os fatos históricos demonstram que o racismo foi traçado para apagar a existência das pessoas negras na sociedade Brasileira.

Pode falar seu nome e sua profissão?

Então vamos lá: meu nome é Ana Canavarro Benite, pesquisadora negra e professora titular do Instituto de Química na Universidade de Federal de Goiás.

Como podemos entender a origem da desigualdade racial no Brasil? E quais foram os principais marcos históricos que contribuíram para construção da desigualdade racial?

Ana: O Brasil firma a origem da desigualdade social a partir do processo de colonização da sociedade né, então nós temos uma colonização autorizada pela modernidade que impacta sobretudo as Américas do sul e a África. Temos um país que nasce da exploração de corpos, da invisibilidade, da inteligência desses corpos negros — dentre esses fatores, como que a gente vai imaginar uma igualdade entre raças?

Onde o branco tem mais privilégio da dominação do negro, é assim que a nossa sociedade se instaura de fato, porque o Estado brasileiro, quando legisla, a sua constituição deixou pessoas negras fora das escolas proibindo escravizados de comprar suas terras, então somos um país que constrói a desigualdade racial a partir desses marcadores.

De que forma Abolição da escravidão impactou a inclusão da população negra na sociedade?

Ana: Abolição de escravidão não aconteceu de fato, ela é uma pressão, podemos dizer assim, atendimento a uma pressão política externa de acordos entre Brasil, Inglaterra e a França, os grandes comerciantes de pessoas. E essa abolição larga as pessoas negras principalmente no meu país, sobretudo as escravizadas, jogadas à própria sorte, sem amparo nenhum na legislação brasileira, sem trabalho nenhum e sem formação. Essas pessoas são abandonadas à própria sorte e isso impacta diretamente na trajetória dessas pessoas na sociedade, que estão até hoje lutando para sair da subalternidade por uma estratégia traçada de apagamento das nossas existências.

O que é racismo estrutural e como ele se diferencia de outras formas de racismo? E como esse racismo se manifesta nas instituições, como educação, saúde, mercado de trabalho e sistema de justiça?

Ana: Agora falando do racismo estrutural, o racismo ele transcende o âmbito individual, ele traz o poder como constitutivo das próprias relações raciais. Essa noção faz com que a gente perceba que as formas de racismo nascem dessas estruturas, porque todas as instituições reproduzem essa maneira de se organizar, porque de modo geral a nossa sociedade é racista. Então a nossa sociedade é racista. O que quero dizer com isso é que o racismo é uma estrutura impregnada nas nossas relações , então não é um comportamento.

Então se hoje seu colega de trabalho te trata mal ou faz uma observação, “servicinho de preto”, por exemplo, então a gente não pode reduzir isso a uma dimensão do comportamento, dizendo “hoje foi um dia ruim, por isso a pessoa se comportou dessa forma”, porque não se trata do âmbito do indivíduo, trata-se do projeto do poder para manter o sujeito universal sempre à frente nas estruturas de poder. Então a manifestação desse racismo está na violência enfrentada por pessoas negras pelas estruturas, seja pela polícia, seja no mercado de trabalho, seja nos próprios processos enraizados da historicidade, nas normas e padrões culturais que são frequentemente desvalorizados e também falta de liderança nos espaços de poder. Isso também se reflete no acesso do espaço de serviço às mulheres negras: são as que recebem dose menor de anestesia na hora do parto, se repetem dentro do sistema de justiça, onde as pessoas negras dão maior número de representatividade dentro dos presídios no Brasil, mesmo que essas pessoas não tenham cometido esses crimes. Esse é o sistema do racismo estrutural no nosso país.

Há avanços significativos nas ultimas décadas ou ainda estamos muito distantes de uma sociedade mais justa?

Ana: Sem dúvida nenhuma existem avanços: as políticas de ações afirmativas são avanços significativos, a existência de legislação para a criminalização do racismo, mas é difícil a gente ver um racista na cadeia. A própria constituição Brasileira já dizia no seu artigo 206 que, quando se ensina a história do Brasil, é para falar dos grupos que compõem essa população. Existem motivos de comemoração, mas ainda estão muitos distantes de a gente avançar de fato sobre a erradicação do racismo.

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