Tempo de leitura: 11 min

Heloisy Rodrigues foi a primeira mulher formada em Inteligência Artificial  na América Latina, pela Universidade  Federal de Goiás. Já foi fundadora de startup, trabalhou dentro de projetos acadêmicos no Centro de Excelência em Inteligência Artificial, é embaixadora da Dove pela Beleza Real na Inteligência Artificial e atualmente trabalha no segmento financeiro.

Nesta entrevista, Heloisy compartilha sua trajetória acadêmica e profissional, desde a escolha inesperada pelo curso até os desafios enfrentados durante a graduação. Ela fala sobre sua experiência como co-fundadora de uma startup, sua atuação em projetos de inovação, no setor financeiro e em iniciativas voltadas à diversidade na tecnologia. Heloisy também reflete sobre o cenário da IA no Brasil, os dilemas éticos, os impactos na educação e as perspectivas para o futuro, destacando sua missão de inspirar e apoiar outras mulheres a ingressarem na área.

ÍSIS: Quando você percebeu que você queria cursar inteligência artificial? Em que momento você pensou que era realmente isso que você queria fazer?

HELOISY: Antes eu nem sabia o que era inteligência artificial, meu ensino médio foi voltado para medicina e eu venho de uma cidade aqui do interior que é referência em saúde. Então, acho que essa pressão por ser médico era muito forte lá. Fiz até um semestre de Odonto na UFG, mas vi que não era o que eu queria. 

Descobri o curso de IA por acaso, numa fala do reitor na formatura da minha irmã em 2020. Minha mãe me lembrou depois, pesquisei sobre mercado de trabalho e vi que era uma profissão em ascensão. Como sempre tive facilidade com exatas, diferente das biológicas, achei que unia oportunidade de mercado e afinidade pessoal. Então, acabou que eu juntei ali um mercado de trabalho que eu queria, e estava em ascensão, com essa tranquilidade ou pelo menos uma facilidade maior no aprendizado. Então decidi tentar, com apoio dos meus pais.

ÍSIS: Qual foi o momento mais marcante ou mais desafiador durante a sua graduação? Porque a gente sabe que Inteligência Artificial não é um curso fácil, que é um curso de exatas, tem muitas dificuldades e era um curso novo, inclusive. Então, qual foi o momento mais marcante ou mais desafiador para você durante a graduação?

 HELOISY: Eu acho que estudar ali é a parte de cálculo. Não cálculo em si, a matéria cálculo, mas a parte de exatas mesmo. Acho que a que eu mais sofri foi álgebra linear. O curso conseguiu condensar um pouco, para que a gente estudasse só o que fosse mais necessário. Tanto que, às vezes, o pessoal olha a nossa grade e fala: “nossa, precisava de mais matérias de matemática” Mas a ideia era: o que é o básico que a pessoa não pode trabalhar com IA sem saber? 

Então, eu peguei cálculo, estatística, álgebra linear, e algumas outras matérias. Às vezes o aluno precisava de algo específico de cálculo 2, mas não fazia sentido estudar toda a matéria. Eles passavam diluído no meio de outras disciplinas, o que era mais saudável. No meio disso, a que eu sofri bastante foi álgebra linear. Foi uma que eu passei quase na risca mesmo. Estudava, estudava, e parecia que não adiantava muito. Mas deu certo, consegui pelo menos.

ÍSIS: Você cofundou a Macall, focada em soluções de IA para Contact Centers. Qual foi o seu maior aprendizado como fundadora? Qual foi uma coisa que você realmente aprendeu por ser co-fundadora disso?

HELOISY: Acho que a própria gestão de como conversar com as pessoas, de como ter essas soft skills na prática. Às vezes a gente fala que hard skills são importantes, mas as soft skills estão no mesmo patamar. Não adianta ser muito bom tecnicamente, mas ninguém te conhece, você não tem articulação. Dentro da Macall, consegui exercitar a parte técnica, porque a gente tinha que criar a solução, mas também chegou o momento de organizar o time, ver o ponto forte de cada um e colocar a pessoa certa para cada função. O maior ganho gerencial foi esse. Outro ganho é a questão de produzir um produto e testá-lo. Inteligência artificial é muita inovação, às vezes você cria algo do zero e precisa validar. Um exemplo foi o copiloto para o atendente de call center: planejamos uma interface que, para ele, não fazia sentido. Só descobrimos isso testando. A partir do momento que fazíamos as coisas, a gente sempre buscava testar para ter essa interação. É onde as startups crescem mais, nesse poder iterativo de consertar e mudar rápido.

 ÍSIS: Você participou do CEIA, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG. Como você acha que o Brasil está acompanhando essas tendências de inteligência artificial? A gente vê muitas criações de  fora do país. Você acha que o Brasil está conseguindo acompanhar bem? 

Eu falo que eu tenho uma visão um pouco clubista, justamente porque eu estou aqui dentro do CEIA, eu tenho essa visão dos impactos e de vários projetos que estão rolando aqui dentro. Mas de maneira geral, a gente está conseguindo, pelo menos, acompanhar. Eu falo que a gente não chega tanto no papel de criar coisas, assim, extremamente impressionantes, que outras pessoas do mundo conseguirão usar, porque falta investimento da parte de infraestrutura. Então, às vezes, tem um pesquisador aqui muito bom, mas ele não tem os recursos computacionais para fazer algo com aquilo que ele tá pesquisando. 

Da mesma forma, aquela questão de fuga de cérebros, justamente porque às vezes tem uma empresa  de fora que está querendo, um pesquisador ou profissional de dentro do Brasil, a barreira regional realmente não acontece. Então, eu falo que, de maneira geral, estamos conseguindo, pelo menos, acompanhar as tendências e adaptá-las para o nosso contexto, porque isso já é um ganho muito grande. Mas, com certeza, daria para a gente ir bem mais longe se tivesse ali um apoio maior do governo e iniciativas em cima disso. 

ÍSIS: Você foi embaixadora da Dove pela Beleza Real na Inteligência Artificial. De que forma você trabalha para garantir a diversidade representada por modelos de IA, por exemplo? 

HELOISY: Dentro da Dove, eu buscava muito uma ideia mais educacional. Participava de eventos, falava de tecnologia e alertava desenvolvedores sobre os perigos dos vieses. Um viés não atinge se, para você, é algo natural. Então, a ideia era sempre mostrar que eles existem nas IAs, principalmente nas generativas de imagem. 

Tecnicamente, temos estratégias para mitigar vieses, mas eles estão presentes nos dados. Não dá para acabar, porque são reflexos da sociedade. Por exemplo: homens consomem imagens de mulheres brancas, magras e loiras. Se não filtramos isso, a IA só vai devolver esse padrão, porque não tem uma equipe diversa, vai ser apenas a visão daquele grupo desenvolvedor sendo passado. Então, a ideia é que cada vez mais a gente consiga ter equipes diversas e diversas cores, diversas raças, diversos gêneros, justamente para a gente conseguir ter essa pluralidade e que a IA fique cada vez menos com esses vieses. 

ÍSIS: Como você acha que vai ser o futuro com a IA? Porque eu acho que muitas pessoas têm essa dúvida, né? Porque atualmente a gente vê videozinhos engraçados, montados, mas como você acha que realmente vai ser o futuro pelos próximos 10 anos, 20 anos?

HELOISY: Essa é uma pergunta difícil, até para quem está dentro da área, porque vem novidade a cada momento e a  população está se habituando: primeiro com videozinhos, depois com o Chat GPT, que popularizou a IA. Acho que o futuro vai aumentar muito a produtividade. A questão é até que ponto isso é saudável. Tarefas repetitivas e manuais vão ser automatizadas, e a sociedade vai se voltar mais para o intelecto. O humano nasceu para pensar, ter senso crítico. A máquina deve ficar com as tarefas mais estressantes. 

No longo prazo, vejo inteligências artificiais conversando entre si. Por exemplo: pedir ao meu assistente para marcar um exame, e ele conversar com outro assistente que faz a marcação. Vai ser parecido com a internet: cada vez mais natural, mas ainda com desigualdade social no acesso. Apostar na educação é essencial. Mostrar para crianças e adolescentes os impactos positivos e abrir espaço para discussões sobre o uso da IA.

ÍSIS: Você acha que o Brasil está preparado para lidar com os dilemas éticos que envolvem a inteligência artificial? 

HELOISY: Essa é uma pergunta difícil, porque a resposta que eu dou não é a que eu queria que fosse. Atualmente, quem está regulando inteligência artificial são políticos que atrelam muito a ideia de IA a fakes, o que não é. Isso é cultural. Se eles regem leis penalizando o desenvolvimento por mau uso, todo o potencial é prejudicado. As pessoas nunca vão entender que a IA pode ajudar em algo básico. 

A educação precisa crescer para que todos tenham visão crítica e não vejam só como uma ferramenta para “videozinho engraçado”. Um exemplo: um comerciante pequeno pode usar IA para criar propaganda ou marketing que não teria dinheiro para pagar. Mas, muitas vezes, a visão é punir a ferramenta pelo mau uso. Gosto do exemplo da faca: ela foi criada para cortar alimentos, mas pode ser usada para matar alguém. Não se pune quem fabrica a faca, e sim quem a usa de forma maléfica. Esse é o pensamento que trago para a IA.

ÍSIS: Você acredita que realmente a IA pode colaborar de verdade para a educação hoje? 

HELOISY: Eu creio que sim, no sentido de a IA conseguir fazer uma personalização muito maior. Então, às vezes, o professor tem uma sala gigante, que é difícil realmente ele conseguir nivelar de acordo com todo mundo. Então, às vezes, vai ter um que é bem mais inteligente e o outro que tem  mais dificuldade. Então, a inteligência artificial pode vir ali para somar, para potencializar quem está mais, acho que avança, quem está mais ligado ali com a matéria, fazer com que ele vá além. Da mesma forma que a IA pode tentar ajudar, tentar resgatar esse aluno que não está conseguindo aprender no fluxo esperado. 

Então, eu falo que é muito sobre saber usar. A gente entra de novo na educação. Como que eu vou ensinar esse meu aluno a usar de uma maneira que não comprometa mesmo o estudo dele? Porque a gente sabe que os alunos querem fazer de uma maneira bem fácil para eles, o que não quer dizer que ele esteja aprendendo. Então, a gente precisa educar primeiro o professor para fazer com que ele consiga ter esse discernimento e depois ele sim conseguir auxiliar os alunos dessa maneira. 

ÍSIS: Com o que você está trabalhando atualmente ligado à IA? Em qual projeto você está trabalhando no momento?

HELOISY:Atualmente, eu estou trabalhando para um banco. Então, acaba que é muito na ideia do financeiro, mas atualmente eu trabalho com o processamento de linguagem natural e a generativa. Então, a gente faz algumas automações ali dentro do contexto da rotina dos trabalhadores, dos colaboradores do banco e também tem as partes de olhar  para o cliente. Então, eu acho que a ideia realmente dos bancos, e é onde eu também me insiro, é nessa questão de trazer o processamento de linguagem natural, de trazer essa análise de voz para o contexto do banco. Então, tentar otimizar cada vez mais, trazer isso para o WhatsApp, tá bem nessa pegada de AI para o financeiro. 

ÍSIS: Heloísy, você foi a primeira mulher formada em inteligência artificial na  América Latina, como você lida com isso e quando você percebeu o peso disso, de ser inspiração para outras meninas que estão entrando nessa área?

 HELOISY: Durante a graduação eu vivia um dia de cada vez, queria me formar. Foi na minha colação de grau que caiu o peso, quando começou a sair nos jornais:  “primeira mulher, única mulher da turma de Inteligência Artificial ”. Percebi que era um marco, porque em 2025 já era para termos mais igualdade de gênero. 

O que mais me deixou feliz foi quando uma caloura disse: “você é minha inspiração”, naquele momento pensei: “meu Deus, eu sou inspiração para alguém”. Fui me apossando desse sentimento. Queria que, quando eu tivesse entrado, houvesse uma referência assim, fica mais fácil trilhar o caminho sabendo que outra mulher já fez e conseguiu. Sinto que é uma responsabilidade. Mas é usar esse destaque a nosso favor: trazer mais mulheres para a área, encorajar e ser rede de apoio dentro da tecnologia e da IA.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *