- Brasil em Destaque: O Agronegócio como Motor da Economia Nacional - 16 de dezembro de 2025
- Energia solar avança no Brasil: recorde de instalações transforma residências e empresas - 25 de novembro de 2025
- Desemprego, crise e abandono: por que há cada vez mais pessoas vivendo nas ruas de Goiânia - 4 de novembro de 2025
O Brasil ocupa hoje uma posição de destaque no cenário mundial do agronegócio. Reconhecido como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos, fibras e bioenergia, o país transformou sua vocação agrícola em um dos principais pilares da economia nacional. Soja, milho, café, carne bovina, frango, açúcar e etanol são apenas alguns exemplos de produtos que levam o nome do Brasil para dezenas de países, abastecendo mercados e garantindo segurança alimentar em escala global. De acordo com os dados do TradeMap (2024), o Brasil foi o segundo maior exportador mundial de produtos agropecuários em 2023, movimentando cerca de US$ 149,7 bilhões, atrás apenas dos Estados Unidos, com US$ 180,1 bilhões.
Essa trajetória de crescimento não aconteceu por acaso. Ao longo das últimas décadas, o agronegócio brasileiro passou por profundas transformações, impulsionadas por investimentos em pesquisa, modernização tecnológica, expansão territorial planejada e adaptação às exigências do mercado internacional. Hoje, segundo a Confederação Nacional de Agricultura (CNA), esse setor responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do país e por uma parcela significativa das exportações, sendo fundamental para o equilíbrio da balança comercial.

Foto: Thereza Venturoli
Da agricultura tradicional à produção em larga escala
A agricultura brasileira teve início com a colonização portuguesa, no século XVI. Nesse período, o modelo adotado foi o de latifúndios, voltado para a monocultura de exportação. A cana-de-açúcar foi o principal produto agrícola da época, especialmente no Nordeste, onde os engenhos se tornaram a base da economia colonial. A produção era destinada quase exclusivamente ao mercado externo e utilizava mão de obra escravizada, primeiro indígena e, posteriormente, africana.
Esse modelo gerou forte concentração de terras e renda, além de pouca diversidade produtiva. A produção de alimentos para consumo interno era limitada e secundária, o que tornava a colônia dependente de importações em vários momentos. O professor David Maciel, doutor em História pela UFG, especialista na área de História do Brasil, ressalta as diferenças da agricultura do período colonial para os dias de hoje:
A principal diferença é estrutural, a agricultura colonial era produzida de acordo com o modo de produção escravista, essa relação determinava todo o processo de produção. Já nos dias de hoje, temos relações capitalistas, os trabalhadores são assalariados, são livres, não há trabalho compulsório. Além disso, a agricultura escravista é uma forma de produção baseada no trabalho extensivo em detrimento da tecnologia, mas com o aporte tecnológico atual, temos uma redução do número de trabalhadores manuais. Entretanto, alguns elementos daquela época ainda permanecem, como a produção monocultura para a exportação e uma relação destrutiva e predatória com o meio ambiente. Em nome dessa agricultura em larga escala, há pouca preocupação com o equilíbrio ambiental.
A partir das décadas de 1960 e 1970, ocorreu a chamada modernização conservadora. O uso de máquinas, fertilizantes, defensivos agrícolas e novas técnicas de cultivo aumentou significativamente a produtividade. A criação da Embrapa, em 1973, foi decisiva para o desenvolvimento de pesquisas voltadas ao clima tropical. Nesse período, o país expandiu suas fronteiras agrícolas, especialmente para o Centro-Oeste. O Cerrado, antes considerado improdutivo, passou a ser uma das regiões mais importantes da agricultura nacional, destacando-se na produção de grãos como soja e milho.
A partir de 1990, o Brasil consolidou o agronegócio como um setor estratégico da economia. A abertura de mercados, o avanço da globalização e o aumento da demanda mundial por alimentos colocaram o país entre os maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo. O uso intensivo de tecnologia, a agricultura de precisão, a biotecnologia e a integração entre lavoura, pecuária e floresta marcaram essa fase. Ao mesmo tempo, cresceram os debates sobre sustentabilidade, preservação ambiental e responsabilidade social no campo.
Tecnologia e inovação no campo
A tecnologia tem desempenhado um papel decisivo no desenvolvimento do meio agrícola brasileiro, sendo um dos principais fatores que explicam a transformação do país em uma potência mundial do agronegócio. Ao longo das últimas décadas, o avanço tecnológico no campo permitiu aumentar a produtividade, reduzir custos, otimizar o uso dos recursos naturais e tornar a produção mais eficiente e competitiva no mercado global. A agrônoma Wanessa Mendanha, formada pela UFG, ressalta essas mudanças que a tecnologia trouxe para o meio do agronegócio:
A tecnologia deu uma virada de chave muito grande dentro do campo. Hoje plantamos com muito mais precisão, perdemos menos e produzimos mais. Hoje há avanços como máquinas modernas, sementes melhoradas, manejos digitais, GPS (Sistema de Posicionamento Global) nos tratores, irrigação inteligente, drones que sobrevoam as lavouras para ajudar a produtividade e reduzir os desperdícios. Além disso, a gente tem investimentos em tecnologia para pesquisas de solo, clima, manejo, o que fez com que a agricultura brasileira conseguisse produzir em regiões onde antes eram consideradas impossíveis.
Além disso, a biotecnologia tem papel central no desenvolvimento de variedades mais resistentes a pragas, doenças e variações climáticas. O uso de dados e inteligência artificial no planejamento das safras também vem ganhando espaço, tornando o campo cada vez mais conectado e eficiente.
Sustentabilidade como desafio e oportunidade
Apesar da força produtiva, o agronegócio brasileiro enfrenta desafios importantes, especialmente no campo ambiental, por carregar desafios estruturais relacionados à sustentabilidade, muitos deles herdados de modelos produtivos do passado. O avanço da fronteira agrícola, o desmatamento ilegal, a degradação do solo e o uso inadequado da água e de insumos químicos geraram impactos ambientais significativos e colocaram o país sob constante escrutínio internacional. Além disso, a dimensão territorial do país e a diversidade de produtores dificultam a fiscalização e a implementação uniforme de práticas sustentáveis. Pequenos produtores, muitas vezes, enfrentam limitações financeiras e técnicas para adotar tecnologias mais limpas, o que amplia as desigualdades no campo.
Por outro lado, a sustentabilidade representa uma grande oportunidade para o agronegócio brasileiro. O país possui vantagens naturais, como abundância de água, biodiversidade e experiência em sistemas tropicais de produção, que podem ser aliadas a tecnologias modernas para criar modelos produtivos sustentáveis e competitivos. Práticas como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta, a recuperação de pastagens degradadas e o uso racional de fertilizantes e defensivos mostram que é possível aumentar a produtividade sem expandir áreas de cultivo. Essas técnicas reduzem emissões de gases de efeito estufa, conservam o solo e melhoram a eficiência do sistema agrícola.
O Brasil conta com uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo, como o Código Florestal, que exige a preservação de áreas de vegetação nativa dentro das propriedades rurais. Embora muitas vezes vista como um obstáculo por parte dos produtores, essa legislação pode se tornar um diferencial competitivo, garantindo rastreabilidade e credibilidade aos produtos brasileiros no mercado internacional. O cumprimento das normas ambientais, aliado a sistemas de certificação e rastreabilidade, fortalece a imagem do agronegócio brasileiro e amplia o acesso a mercados mais exigentes e valorizados.
O futuro do agronegócio brasileiro
Atualmente, no comércio internacional, o Brasil é um dos principais exportadores de diversos produtos. O país ocupa as primeiras posições na exportação de soja, carne bovina, carne de frango, açúcar, café e suco de laranja. Esses produtos abastecem mercados exigentes, como União Europeia, China, Estados Unidos e países do Oriente Médio. A China, em especial, tornou-se o principal parceiro comercial do agronegócio brasileiro, importando grandes volumes de soja e proteínas animais. Essa relação estratégica reforça a importância do Brasil como fornecedor confiável de alimentos em um mundo marcado por instabilidades climáticas, conflitos geopolíticos e crescimento populacional. Wanessa destaca o diferencial do Brasil:
O Brasil tem algumas vantagens naturais e tecnológicas que outros países não tem, temos uma área de cultivo muito grande, um clima muito favorável, investimento em tecnologia de ponta, a possibilidade de ter mais de uma safra por ano. Então, mesmo com os desafios internos que enfrentamos, essa combinação ainda mantêm o Brasil com grande relevância econômica e com uma influência no cenário global.
O futuro do agronegócio brasileiro está ligado ao aumento da demanda mundial por alimentos e à capacidade do país de produzir mais sem expandir áreas de cultivo. A tecnologia será fundamental nesse processo, com o uso crescente de agricultura de precisão, digitalização, automação e biotecnologia para elevar a produtividade e reduzir impactos ambientais.
A sustentabilidade deixará de ser apenas um diferencial e se tornará uma exigência, especialmente diante das mudanças climáticas e das pressões do mercado internacional. Práticas produtivas mais eficientes e responsáveis serão essenciais para garantir competitividade e resiliência. Com planejamento, inovação e responsabilidade ambiental, o Brasil tem potencial para se consolidar como um líder global não apenas em volume de produção, mas em um modelo de agronegócio sustentável e moderno.
