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Deslocado à força, sem casa, sem abrigo e dependendo de doações para sobreviver, o gazense Mohammed Osama Hamad descreve em primeira pessoa a experiência cotidiana de viver sob bombardeios na Faixa de Gaza. A entrevista foi realizada em outubro sob difíceis condições de contato, com a comunicação sendo frequentemente interrompida em decorrência da difícil situação do entrevistado em um cenário de guerra. O relato não trata apenas de episódios isolados de violência, mas revela os efeitos cumulativos de anos de ocupação, restrições e medo constante, expondo o impacto humano de decisões militares e políticas que, à distância, costumam ser reduzidas a números, mapas e discursos diplomáticos.

Mohammed Osama Hamad no norte de Gaza. Outubro de 2025

  1. Você pode descrever como perdeu sua casa e se houve algum aviso prévio antes do ataque? Qual é a sua situação atual e a de sua família?

Primeiramente, não fomos avisados diretamente. A cidade inteira foi avisada tarde da noite, por volta das duas da manhã. Saímos de nossa casa de coração partido. Aquela casa guardava tantas memórias e histórias para nós. Infelizmente, disseram para irmos embora. Tivemos que fugir apenas com a roupa do corpo por causa dos intensos bombardeios.

Fomos para um lugar que era considerado um pouco seguro, mas acabamos dormindo na rua à noite, meus irmãos, que são crianças, estavam conosco. Depois disso, ficamos em uma escola por alguns dias, mas, infelizmente, a escola foi bombardeada, e meu pai ficou ferido na cabeça. A vida estava extremamente difícil. Vivemos os dias mais difíceis de nossas vidas.

Depois nos mudamos para áreas que supostamente seriam mais seguras, mas que continuavam sendo fortemente bombardeadas. Sofremos muito. Vivi em uma tenda por um longo tempo, era insuportável no calor do verão e congelante no inverno. A tenda não nos protegia.

Mais tarde, durante um cessar-fogo temporário, voltamos para ver o que restava de nossa única esperança, nossa casa, apenas para encontrá-la completamente destruída. Todo o nosso esforço e sonhos desapareceram.

Então a guerra recomeçou, e fomos deslocados novamente da mesma área, da mesma forma, mais uma vez. E novamente fomos para o refúgio anterior, do norte de Gaza para o sul. Atualmente, a situação da minha família é extremamente ruim. Perdemos tudo. Não temos nem mesmo uma tenda ou um lugar para ficar. Estou dormindo na rua há mais de uma semana agora, esperando que alguém ajude para que meus irmãos ao menos tenham uma chance de viver.

  1. Sobre essa situação, como você e sua família estão conseguindo obter comida e água diariamente? Existem cenas de longas filas, ajuda humanitária, ou vocês dependem de vizinhos e redes informais?

Atualmente, estou deslocado e infelizmente vivendo na rua devido à falta de abrigos ou tendas disponíveis. Não tenho uma tenda e não posso pagar para comprar ou alugar um lugar para ficar. Todos os dias, dependo de doações de pessoas de bom coração para conseguir comida, agradeço a elas do fundo do meu coração. Se não houver doações, minha família e eu não comemos. Essa é a dura realidade.

Quanto à água, só recebemos pequenas quantidades carregadas. Infelizmente, as filas são muito longas, e às vezes ficamos dias sem beber água. Há momentos raros em que conseguimos encher baldes de água, mas muitas vezes não conseguimos.

Sobrevivo apenas de doações. Não recebo nenhum outro tipo de apoio de mais ninguém.

  1. Qual é a situação de acesso a serviços básicos como eletricidade, hospitais, alimentos e escolas no momento?

Infelizmente, a eletricidade não voltou para toda a Faixa de Gaza desde o início da guerra. Todas as empresas e prédios que ajudavam a gerar ou distribuir eletricidade foram destruídos. Também bombardearam todas as escolas e a maioria dos hospitais, tornando a situação extremamente difícil.

Não há escolas funcionando, quase todas foram alvo de ataques, e a maioria agora está cheia de pessoas deslocadas. Quanto aos hospitais, apenas alguns ainda operam. Muitos pacientes morrem todos os dias devido à falta de recursos médicos. A situação é realmente catastrófica.

  1. Com inúmeras pessoas feridas nos ataques israelenses e a situação perigosa vivida pela população, qual é a disponibilidade de médicos, remédios e locais para tratar os afetados?

Infelizmente, o número de feridos é extremamente alto em comparação ao número de médicos. Cada médico tem que tratar mais de 10 casos ao mesmo tempo. A maioria dos médicos foi morta pela ocupação, e a situação é realmente catastrófica.

Pessoas feridas podem sangrar por uma semana inteira antes de chegar a sua vez de serem atendidas, devido à enorme quantidade de feridos e à falta de recursos médicos. Quanto aos remédios, quase não há nada disponível, apenas analgésicos muito básicos, e mesmo esses acabaram.

Eu mesmo estou muito doente e não encontro nenhum tratamento. Estou sofrendo, e não sou o único, essa é a situação de todos nós, infelizmente. Existem pouquíssimos lugares seguros. Apenas o sul é um pouco mais seguro agora, mas mesmo lá, não podem fazer muito porque está superlotado de pessoas deslocadas e não há médicos suficientes para ajudar.

  1. Na sua visão, qual é o maior impacto psicológico das ações israelenses na vida cotidiana das pessoas em Gaza?

Sou de Gaza, e só de dizer isso significa que vivi coisas que nenhum ser humano deveria experimentar. Cada dia da minha vida é uma batalha entre esperança e medo, entre vida e morte. Desde que abri meus olhos para este mundo, ouvi o som de bombardeios, vi destruição, e vi minha mãe chorar enquanto tentava nos confortar, embora ela mesma estivesse aterrorizada.

Eu não tive uma infância normal. Minha escola foi bombardeada, minha casa foi destruída, meus amigos se foram, e talvez amanhã seja minha vez. Meu maior sonho hoje não é um carro luxuoso ou uma casa grande, apenas uma cama segura e uma noite sem medo. Às vezes, sinto que fui forçado a crescer rápido demais, assumindo responsabilidade por meus irmãos e por minha mãe, enquanto no fundo, eu também preciso de alguém para cuidar de mim.

A guerra não machuca só o corpo, ela mata tudo o que há de belo dentro de você. Você ri menos, sonha menos e pensa mais na morte do que na vida.

Mas apesar de tudo, tento viver. Tento me agarrar à esperança, porque se perdermos isso, perdemos a última coisa que nos faz humanos.

  1. Você nota a presença de atores internacionais como organizações humanitárias, jornalistas ou equipes médicas no seu dia a dia? Ou esse apoio não chega até você?

Honestamente, existe uma diferença quando nossa voz realmente chega aos outros. Algumas organizações são genuinamente honestas e confiáveis, mas infelizmente muitas são golpistas que não entregam nada, apenas ficam com o dinheiro para si. É por isso que não confio facilmente em ninguém. Não ajudo ninguém que pega uma grande quantia; prefiro trabalhar com aqueles que pegam uma porcentagem muito pequena e realmente distribuem a ajuda às pessoas.

  1. Como está funcionando a comunicação dentro da Faixa de Gaza? Você consegue usar a internet e o telefone livremente, ou há cortes frequentes que isolam a população?

É extremamente difícil acessar a internet aqui porque a ocupação destruiu todas as redes para encobrir os crimes que está cometendo contra as pessoas, para que o mundo não veja nada. Eles também cortam o sinal em muitas áreas, especialmente quando estão prestes a realizar uma operação cortam o sinal e a internet para que ninguém veja o que estão fazendo conosco.

Mas apesar de tudo isso, ainda conseguimos algum acesso à internet através de um eSIM. É nossa única maneira de expor a brutalidade da ocupação. Agora no norte, eles estão bombardeando intensamente e repetidamente, e a internet está completamente cortada lá para que o mundo não veja o que está acontecendo.

  1. Você sabe como está sendo regulada a entrada e saída de pessoas da Faixa de Gaza? Há alguma possibilidade de sair do território, ou está completamente bloqueado?

Honestamente, não sei exatamente como as pessoas conseguem entrar em Gaza, mas sei que é possível para alguns saírem, embora muito poucos. Por exemplo, um paciente pode levar alguns membros da família consigo, ou alguém que tenha família no exterior pode sair por reunificação familiar. Esses são os tipos de casos em que é possível sair.

  1. O que você espera do futuro próximo? Há alguma esperança de reconstrução, fim da violência ou maior intervenção internacional?

Francamente, não vejo nada disso, infelizmente, mas é possível que países estrangeiros nos ajudem na reconstrução. A questão do fim da violência é muito clara. Já fazem dois anos desde que crianças ou mulheres morreram ou nada aconteceu. Infelizmente, esperamos que isso pare porque estamos muito cansados, infelizmente. Vejo países estrangeiros intervindo, se Deus quiser, eles podem. Esperamos de Deus que grandes países que começaram a intervir conosco novamente continuem. Isso é algo bom, que pode parar a guerra através deles, se Deus quiser. Também há grandes países que reconheceram a Palestina. Isso também é algo muito positivo. Para nós, esperamos que a guerra e os massacres que acontecem todos os dias, todas as horas ou todos os minutos parem.

  1. Então, você pode descrever como vê os países estrangeiros tentando intervir nesta guerra?

Ok, obrigado a todos que ficaram ao nosso lado. Primeiro de tudo, reconhecer o Estado livre da Palestina. Isso é algo muito positivo. Ou mencionar a Palestina em qualquer ocasião. Isso dá muita importância ao país. Ou também ajudar trazendo comida ou ajuda. Isso é algo muito bom e muito positivo. Ou se simplesmente deixassem Israel sozinho, seria um país muito fraco, como é agora. Continuará fraco, mas será forte apenas com os países aliados a ele. Esperamos que aqueles que ficaram ao nosso lado façam nossa voz chegar ao mundo.

  1. Sobre a ajuda, como os soldados israelenses se comportam durante a entrega de ajuda humanitária, e como estão tratando civis, incluindo mulheres e crianças?

Infelizmente, eles se comportam de maneiras muito ruins, enviam crianças ou mulheres para buscar comida para seus filhos e, infelizmente, elas são mortas ou baleadas por tanques ou franco-atiradores. Infelizmente, muito poucas voltam vivas. Isso é o que chamam de ajuda, mas é apenas matar civis. Muitas pessoas morreram assim, saem para buscar comida para seus filhos e, infelizmente, a maioria não volta. Infelizmente, 2 milhões para 2000 sacos de farinha como isso será suficiente? Quero dizer, é impossível. Ou bombardeiam, ou disparam projéteis ou balas. Vejo isso como uma ajuda falsa.

  1. Você mencionou ataques físicos de Israel à Palestina desde sua infância. Quanta violência armada e opressiva esteve presente em sua vida antes do início oficial da guerra?

Desde criança, a violência sempre fez parte da minha vida. Mesmo antes da guerra recente, vivíamos sob medo constante de ataques aéreos, drones no céu, soldados nas fronteiras. O som das explosões era algo com que cresci. Eu ia para a escola sem saber se voltaria e encontraria minha casa de pé.

A ocupação não era apenas bombas, estava em tudo. Os postos de controle, as restrições diárias, a ameaça constante. Mesmo brincando na rua quando criança, nos sentíamos vigiados, inseguros. Conheci crianças que perderam seus pais antes mesmo desta guerra começar. Vi jovens sendo presos ou feridos só por falar ou participar de marchas pacíficas.

A violência não foi um momento. Foi um modo de vida. Do mais velho ao mais novo, todos crescemos com o medo como algo normal. O que acontece agora é pior, sim, mas a opressão já estava conosco há anos. Ela nos obrigou a crescer rápido demais.

  1. Você ou sua comunidade recebem ordens diretas de soldados israelenses, como evacuar áreas ou abandonar casas? Como essas ordens são transmitidas?

Sim, recebemos ordens diretas do exército israelense, especialmente durante escaladas ou bombardeios. Essas ordens geralmente chegam por ligações telefônicas, mensagens de voz gravadas ou até panfletos lançados do céu. Às vezes, também usam drones com alto-falantes para dizer às pessoas que evacuem áreas específicas.

A pior parte é o pouco tempo que nos dão. Podem dizer: “Vocês têm 10 minutos para deixar sua casa”, e então o bombardeio começa. As pessoas correm apenas com a roupa do corpo. Não há tempo para levar nada.

É aterrorizante, especialmente para as crianças. E muitas vezes, não há nenhum lugar realmente seguro para ir. Mesmo os lugares para onde dizem que devemos fugir, como escolas ou hospitais, foram alvos. Então, mesmo quando seguimos as ordens, ainda não estamos seguros.

  1. Qual é a mensagem mais urgente que você gostaria que o mundo ouvisse sobre o que você está vivendo hoje em Gaza?

A mensagem mais urgente que quero que o mundo ouça hoje é esta: Somos seres humanos, não apenas números nas notícias.

O que está acontecendo em Gaza não é apenas um “conflito” ou uma “operação militar”. Estamos vivendo um pesadelo constante. Nossas crianças crescem ouvindo bombas em vez de risadas. Nossas mães choram silenciosamente enquanto tentam nos confortar. Nossa juventude vê seus sonhos destruídos antes mesmo de começarem.

Não estamos pedindo o impossível, só queremos viver com dignidade, dormir em paz, estudar, trabalhar e viver nossas vidas como qualquer outro ser humano. Gaza não é apenas uma zona de guerra, está cheia de pessoas que amam, sonham e sofrem.

Imploro ao mundo que ouça nossas vozes sem viés, sem silêncio e sem virar o rosto. Merecemos viver, assim como todos neste planeta. Acordem e sejam nossa voz — não apenas assistam.

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