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O Professor Doutor em Jornalismo Juarez Ferraz de Maia possui uma trajetória de 35 anos como servidor da Universidade Federal de Goiás. Juarez nasceu na cidade de Itaberaí, interior de Goiás, em 1947. Na década de 60 mudou para a capital do estado, Goiânia, foi estudante da universidade e participou do movimento estudantil no período da Ditadura Militar no Brasil. O Professor foi preso pelos militares e expulso do Brasil em 1971, exilou-se no Chile e iniciou o curso de Ciências Sociais e Jornalismo.
Com o golpe militar do Chile em 1973, no governo Pinochet, Juarez foi expulso também do país e se exilou no México. Após um período no país, o professor mudou para a Bélgica e ingressou e concluiu o curso de Jornalismo. Com a Independência de Moçambique, o professor mudou-se para o país, onde residiu durante uma década. Em 1987 voltou para o Brasil e, através de um concurso, ingressou na UFG como professor.
Início da vida acadêmica
LabNotícias: Professor, como foi a sua vida acadêmica como discente nos cursos de comunicação que fez no Chile e na Bélgica?
Dr. Juarez: O Chile foi um período muito transitório porque na verdade eu fiquei na universidade quase três anos saindo do Brasil na ditadura militar, então foi um período de respirar tranquilamente, o Chile passava por uma revolução democrática, uma experiência que intentava fazer aquilo que o Lula faz hoje no Brasil. Mas durou pouco tempo, de 1971 a 1973 quando eu fui pro Chile. Na universidade se tinha uma ampla discussão sobre a América Latina, mas a coisa mais importante que eu tenho a dizer que durante o meu período de vida no Chile eu descobri uma coisa: eu era latino-americano. Até então eu era brasileiro e a nossa formação era toda voltada para Europa, ou então era voltado para França, Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Essa formação política e cultural foi muito importante na minha vida. Não é como hoje que tem a internet, a televisão, você tem acesso a qualquer parte do mundo, naquela época era muito difícil tudo isso, as ligações eram difíceis, tudo se fazia por carta. Lá descobri a música latino-americana, uma comunidade latinoamericana muito grande no Chile.
Na Bélgica foi diferente porque eu saí do golpe militar do Brasil, depois da militância, depois do Chile teve um golpe militar, então fui obrigado a abandonar o Chile, fui para o México e do México fui pra Bélgica, e na Bélgica foi um período de respirar, pra sentar, fazer com que o mundo girasse de novo na cabeça porque tudo estava desorganizado. Brasil, clandestinidade, o Chile com aquele golpe de estado violento, que violentou o mundo, violentou a gente e de repente uma vida que estava sendo construída no Chile desapareceu em 24 horas por causa do Golpe de Estado, então eu recebi a passagem, o visto para o México através da Embaixada do México onde eu me exilei.
Tem outro mundo chamado Europa; que não tinha golpe militar, não tinha militares, não tinha ditadura. Entrei na universidade e ganhei uma bolsa de estudo. Vivia uma vida calma, tranquila. A Bélgica foi o tempo que eu tive de ver o mundo com outra cabeça, de repente era tudo perto e você conhecia a Europa. E as pessoas, os trabalhadores viviam bem, ganhavam bem, eu recebi na Bélgica um cartão de Saúde, a qualquer momento eu podia ir no médico, tinha garantia de saúde. Descobri que você podia dentro do próprio capitalismo ter uma condição boa de vida e tudo isso como os trabalhadores da Bélgica que ganhavam muito bem. Tinham saúde gratuita, tinham educação pública, transporte público, segurança pública. A descoberta de outro mundo, que estava mais avançado e se tinham aquelas garantias públicas.
E ao descobrir esse mundo diferente a gente pensa “puxa vida a gente na América Latina, na América do Sul, está na ditadura militar onde o salário mínimo é uma desgraça, é realmente uma tristeza, uma pobreza enorme”, naquela época a pobreza era muito maior do que hoje, a situação era muito pior.
A Bélgica foi um momento de descobrir que havia dentro da própria sociedade condições de você melhorar a capacidade das pessoas viverem bem dentro de uma democracia. O partido não era partido único, pluripartidário, uma democracia onde havia debate, e na universidade havia um debate enorme sobre o mundo.
E dentro da Universidade de Bruxelas foi muito importante porque eu estudei jornalismo, mas eu peguei muitas disciplinas na área de direito internacional, disciplinas complementares e gostei do assunto, por isso que eu sempre fui ligado muito à disciplina de jornalismo internacional. A Bélgica foi um momento de terminar o curso, ter uma bolsa de estudo, ir para a Universidade, sair às 8 horas da manhã e chegar em casa às 6 da tarde só para estudar, você não tinha que trabalhar, tinha tudo na universidade. Foi um momento que intelectualmente eu cresci muito, conheci uma realidade política da América do Sul, fiquei conhecendo uma realidade política da Europa e intelectualmente eu fui descobrindo outros autores, com outros pensamentos que me deram uma grandeza muito vasta do mundo e que eu podia sobreviver de viver como cidadão dignamente.
A Europa foi um momento de paz, de muita tranquilidade. Mas como sempre o ser humano nunca está contente com o que tem, eu pensei em não ficar mais na Europa, porque era muito frio, muita angústia, as pessoas eram muito tristes. Trabalhei depois que terminei o curso, um ano como correspondente principalmente para os jornais da América Latina. E aí resolvi ir embora para Moçambique para trabalhar em um grande projeto. Então a Europa foi um momento de conhecimento, de paz, e tranquilidade como ser humano.
Criação de projetos na Universidade
LabNotícias: Dos inúmeros projetos extracurriculares e acadêmicos que o senhor fundou e participou da criação, quais hoje o senhor vê como essenciais e necessários para a universidade?
Dr. Juarez: Nesses 35 anos eu participei de vários projetos do corpo docente da universidade, mas um foi muito importante na época, que foi a criação do Jornal da UFG, em 1989. Hoje já não tem tanta importância por causa da internet, por causa da televisão, mas na época era o jornal que circulava entre os professores, entre os acadêmicos. Esse projeto segue até hoje. E depois dentro do sindicato fundei o jornal do professor, no Sindicato dos Professores, também está lá até hoje funcionando. E dentro do curso do jornalismo, nós tivemos uma participação muito grande na criação de um livro, porque o curso de jornalismo ele era muito disperso do ponto de vista do pensamento.
Um professor dava uma disciplina, outro dava outra disciplina mas isso não se juntava em nenhum lugar então eu tive a ideia, como coordenador do curso na época de criar uma publicação anual sobre o trabalho dos professores do curso de Jornalismo. Então todo professor publicava anualmente um trabalho que ele antes tinha que mandar para São Paulo, para Minas Gerais, mas não, ele publicava aqui dentro da Universidade, e todo ano publicamos mais um volume na coletânea, e esse ano faz 10 anos da coletânea do curso. Inclusive, a Capes reconheceu o livro.
Ditadura e militância política
LabNotícias: O senhor foi um militante do movimento estudantil em um período de extrema repressão e censura do governo militar. Como foi esse período no movimento? Quais ações vocês buscaram com movimento e como essa censura foi imposta a vocês?
A censura era geral, não se podia fazer reunião, não se podia criticar o governo, não se podia ser “contra” nada. As pessoas hoje não tem ideia do que foi uma ditadura. Na sala de aula, por exemplo, sempre tinha uma pessoa que era do Serviço Nacional de informação, você não sabia quem era, era um estudante, que estava ali para te vigiar Era um colega do seu lado. Você não sabia, então você não podia discutir. O professor não podia dar opinião dele sobre política nacional, porque era absolutamente proibido, os jornais não publicavam nada contra o poder ou faziam crítica alguma ação do governo porque tinha a censura prévia, antes de publicar o jornal do dia, tinha um censor dentro do jornal que lia e aprovava as matérias.
Grandes jornais que tinham força no Brasil, por exemplo, “O Estado de São Paulo”, “A Folha de São Paulo”, ou “O Globo”, por exemplo, muitas vezes no lugar das matérias que foram censuradas, eles publicavam receitas de bolo. Aí todo mundo sabia que ali naquele lugar da receita de bolo tinha uma matéria que tinha sido censurada, e era muito engraçado porque se você fizer pesquisas da época você vai rir, né? Porque de repente muda de notícia e vem meia página de receita de bolo, dez receitas de bolo.
Dentro dos jornais, rádios e televisões havia a censura prévia, ou seja, o que você escrevia ia pra um censor. Ele dizia que você tem que mudar a informação, aí você tinha que mudar. Muitos jornalistas que estavam dentro das redações lutavam, escreviam contra a censura, mas isso não saía nos jornais, e esses jornalistas também iam presos, automaticamente iam responder um inquérito policial militar. Você não podia fazer reunião, você não podia fazer debate na universidade, você não podia ter encontros que eram considerados subversivos.
Aí os estudantes se revoltaram na época, 1967, 1968 e começaram a fazer manifestações públicas e essas manifestações públicas eram violentamente reprimidas, mas os estudantes faziam. Aliás, nós fazíamos manifestações. Eu fiz várias manifestações, em 1967, fui preso nessa ocasião, depois em 1968 veio a grande explosão nacional, o Brasil explodiu, principalmente no meio acadêmico, intelectual, teatros, jornais, e aí começaram as manifestações públicas, e culminou com uma grande manifestação no Rio de Janeiro que tinha na época, na ditadura militar, uma manifestação com 100 mil pessoas.
Em Goiânia houve várias manifestações, morreram vários estudantes e houve uma manifestações de setembro de 68, que foi muito reprimida e durou 14 horas a manifestação e repressão; bombas, por exemplo a catedral onde nos refugiamos na época a polícia invadiu a Catedral Metropolitana de Goiânia, o padre foi preso, levaram dois companheiros nossos, dois estudantes; um levou um tiro na perna, o outro levou um tiro nas costas. E era assim, você convivia com isso diariamente. Você estava vivo hoje mas não sabia se estaria amanhã.
Os estudantes eram presos e dentre eles morreram vários na tortura, em Goiânia e no Brasil inteiro. Até que aconteceu no Rio de Janeiro uma manifestação e mataram o estudante Edson e a morte dele teve uma repercussão nacional muito grande e o Brasil explodiu dessa época. Houve manifestações gerais e muitas prisões, e você vê por exemplo hoje artistas conhecidos do Brasil, Caetano Veloso, Gilberto Gil, ficaram tempos na prisão, as músicas do Chico Buarque de Holanda eram praticamente todas censuradas. E aí você vai ver, prisão de artistas, de intelectuais, de trabalhadores, assassinato. Então os movimentos eram de rua, de rebelião, e a rebelião tinha um preço, você pagava com suas próprias costas através de porrada ou prisão. E nesse sentido, muitos estudantes foram presos comigo naquela época.
Progresso da Universidade
LabNotícias: Você acredita que a faculdade tenha progredido nesses 35 anos lecionando?
Dr. Juarez: O progresso é visível, naquela época você trabalhava com máquinas, datilografia, hoje se trabalha com computador, tem máquina pra filmar, mesmo que for máquina de fotografia você faz a fotografia como foto e como filme, na mesma máquina. Não se tem mais laboratório para revelar as imagens, tudo era preto e branco. Evoluiu tecnicamente de uma maneira extraordinária. No ponto de vista do conteúdo também evoluiu muito, hoje a faculdade tem mestrado, doutorado. Isso fez com que a Faculdade de Informação e Comunicação tivesse uma base teórica consolidada. O mestrado e o doutorado e o mestrado aqui tem 10, 15 anos e evoluiu. Tem uma coisa interessante que, se você for em Brasília, por exemplo, grande parte dos jornalistas são formados aqui na UFG, e também na Folha de São Paulo, no Rio de Janeiro, na Globo.
Ainda assim, eu acho que a evolução não acompanhou a involução dos estudantes, porque os estudantes em épocas anteriores eram muito mais estudiosos do ponto de vista de ser autodidata, fora da universidade liam muito, iam para a biblioteca, discutiam política, discutiam questões culturais e tinham o prazer da leitura, chegavam em sala de aula e discutiam com o professor, não era só o professor passando a matéria no quadro, aquela coisa chata. O professor passava um ponto no quadro e aí vinha uma discussão muito grande.
Hoje não, tem um problema muito sério que, não sei se o ensino secundário não acompanhou essa evolução, tem o problema da ditadura, passou esse período todo com os estudantes tendo que decorar as coisas, não teve a questão do pensamento. Eu acho que não é culpa dos estudantes, é culpa da formação das escolas, da criação das escolas. Nesse sentido, evoluiu tecnicamente, mas, do ponto de vista da aprendizagem os estudantes hoje leem menos, um texto de duas páginas parece que é o fim do mundo. Naquela época você trabalhava com livros, o estudante era mais preparado intelectualmente, ele era autodidata, muitas vezes o estudante formava-se fora da universidade se autoformava e muitas vezes ia para a sala e aula para discutir com o professor aquele assunto. Um grande problema hoje é ter que lidar com problemas que aparentemente não tinha, como a fragilidade emocional que muitos estudantes tem em sala de aula.
Os estudantes leem menos, e quando leem menos, discutem menos e sabem menos. Grande parte dos alunos de outra épocas não eram técnicos, eram intelectuais, eram tão inteligentes quanto um professor que estudava dez, quinze anos para se formar e discutia no mesmo nível do professor. E eu não estou aqui querendo dizer que os estudantes eram melhores ou piores, são circunstâncias diferentes em momentos históricos diferentes.
Aposentadoria
LabNotícias: A respeito do senhor, hoje como professor aposentado o senhor se sente realizado pessoalmente e profissionalmente?
Dr. Juarez: Sim, do ponto de vista profissional a gente se sente realizado porque quando você chega ao final da carreira que você é mandado embora, aos 75 anos você é obrigado. Coisa terrível isso, né? Já vou perder o sorriso dos meninos em sala de aula, as brigas cotidianas que tem em sala de aula, mas fica uma coisa importante no nosso espírito, no nosso coração, que é aquilo que você ganhou dos estudantes durante 35 anos, isso não tem preço, e se eu dei alguma coisa para os estudantes, eu recebi muito mais, que foram sorrisos, alegria, a capacidade da rebeldia do estudante, como eu era rebelde na época de estudante, eu fui rebelde então eu entendia a rebeldia do estudante.
Tem uma frase de um argentino que diz o seguinte “juventude sem rebeldia é velhice precoce”. Então essa coisa que a gente recebe do estudante fica para o resto da vida é muitas das vezes o dia. Tem aquela alegria de encontrar um ex-aluno e saber que aquela pessoa agora é um profissional, trabalha. O prazer e alegria do estudante no coração da gente, essa é a realização de um professor.
LabNotícias: E agora, quais os planos para a aposentadoria?
Dr. Juarez: Primeiro eu tirei um tempo para passear, ir para o interior de Goiás. Ir para a minha cidade e outras do interior, conversar com as pessoas, beber muita cachaça, comer muito frango caipira. Agora eu estou pretendendo ir lá para maio, junho, para Moçambique e ficar lá um tempo na África e continuar com meu projeto na África durante um período lá, não sei quanto tempo e espero depois trabalhar como correspondente em algum jornal estrangeiro alguma coisa assim. A minha cabeça não para, intelectualmente a gente tem que correr atrás.
Caso queira saber um pouco mais da trajetória do professor, confira esse vídeo produzido pela Adufg: https://youtu.be/pPNtQDPZliI

Está de parabéns o Dr. Juarez fez e está fazendo muito pelo mundo inteiro. Força.
Boa noite, bom dia e boa tarde conforme a hora. Sou técnico do ICS em Moçambique, gostaria de ter email do Dr. Juarez, pois estou a fazer uma pesquisa sobre as Radios Comunitarias do ICS e preciso muito ouvir o Dr. Aguardo.