Tempo de leitura: 7 min

Mesmo sendo mundialmente reconhecido por sua superfície verde, o Brasil apresentou uma redução na área florestal nas últimas duas décadas. Segundo levantamento feito pelo Banco Mundial de Dados, o país registrou a diminuição de aproximadamente 9,9% desta região de 2000 a 2020. A saber, o território, que anteriormente era coberto por 65,9% com a vegetação, passou a ser de 59,4% há três anos. A diferença se torna ainda maior ao ser comparada à 1990, quando a taxa ultrapassava os 70%.

Ainda de acordo com o Banco Mundial de Dados, o Brasil é o segundo no ranking de área florestal do mundo em termos absolutos, com 4.966.196 km² em 2020, ficando atrás somente da Rússia. Assim, considerando a área total coberta por florestas, o valor também sofreu declínio desde 2000, época em que o índice batia a casa dos 5.510.886 km².

Desse modo, os números preocupam, uma vez que podem significar impactos diretos e indiretos à fauna e flora brasileira. A redução da área ocupada pela vegetação natural causada pelo desmatamento, degradação e queimadas pode causar um drástica mudança no ecossistema, afetando diferentes biomas, diminuindo a biodiversidade e isolando certas espécies.

O que é área florestal?

Redução da área florestal do Brasil: impactos aos biomas e ameaça à biodiversidade
Foto: Eco Response

Primeiramente, devemos relembrar sobre o que se trata este importante e rico recurso vegetal. Área florestal se refere às terras que possuem árvores naturais ou plantadas com pelo menos cinco metros in situ, sejam elas produtivas ou não. Ademais, ela exclui povoamentos em sistemas de produção agrícola – em plantações de fruta ou sistemas agroflorestais, por exemplo – e áreas urbanas como parques e jardins.

Além disso, pela definição de floresta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), corresponde à área com mais de 0,5 hectares, possuindo árvores com cobertura de copa superior a 10% ou capazes de alcançar estes parâmetros in situ. Portanto, isso não inclui terras que estão predominantemente sob uso agrícola ou urbano. Por fim, são selecionadas apenas as fitofisionomias florestais e delas, são retiradas as áreas desmatadas. 

De acordo com dados publicados pelo Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF), a partir de bases do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a área de floresta do Brasil cobre quase 500 milhões de hectares. Desse total, 98% correspondem a florestas naturais enquanto apenas 2% são florestas plantadas. Em relação especificamente a florestas tropicais, nossa federação lidera o ranking mundial. Entretanto, o desmatamento nestas áreas cresce proporcionalmente e, infelizmente, também aparece no topo das estatísticas.

Como isso afeta os biomas?

Redução da área florestal do Brasil: impactos aos biomas e ameaça à biodiversidade
Trecho de Mata Atlântica em Minas gerais (Foto: IEF/MG)

Pela vasta extensão territorial e localização favorável no globo, o Brasil é tomado por diversas coberturas vegetais, cujas características variam entre os diferentes biomas que nos conferem. A Amazônia, por exemplo, ocupa mais de 49,6% do território nacional e 5% da superfície terrestre. Por esse motivo ela, que é considerada o ‘pulmão do mundo’, também é muito rica em diversidade biológica.

Apesar de ser coberto em grande parte pela floresta amazônica, o restante do país é cercado por coberturas vegetais variadas, mas igualmente abundantes. A Mata Atlântica possui mais de 13% do território brasileiro, enquanto o Cerrado é o segundo maior bioma do país, com 24% em área natural. Do mesmo modo, a Caatinga, que se estende por 10% do território, Pantanal e Pampas são relevantes, mesmo com uma menor incidência, Todos os números são do Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF).

Em conversa com o Lab Notícias, Lucas Espíndola, geógrafo em atuação no Instituto de Estudos Socioambientais na UFG, falou sobre as visões da área com relação às variações na área florestal brasileira. Assim, ele contou como se dão as distintas trocas entre os biomas e os processos por eles passados.

Na Geografia há uma perspectiva que chamamos de sociedade-natureza, ou seja, de que modo as atividades antrópicas contribuem para alteração dos ambientes “naturais” e como eles produzem novos ambientes. A diminuição dos biomas apresentam diferentes estágios até mesmo pela diferença em seu porte dos seus recursos naturais, principalmente a vegetação. A exemplo, temos os Pampas e a Floresta Amazônica, que estão em contextos bioclimáticos totalmente diferentes e produzem ocupações diferentes.

Apesar dos Pampas apresentarem vegetação aberta e rasteira, portanto, não se constitui de uma Floresta típica, também apresentam relevantes impactos ambientais, que por vezes são pouco compreendidos pelo público em geral. Um deles é o da arenização, que se constitui da diminuição da capacidade de utilização do solo enquanto recurso onde certas propriedades vão sendo perdidas e a areia vai se estabelecendo enquanto recurso.

conta Lucas.

Ademais, o geógrafo explicou como a redução dos biomas podem afetar em diversas outras esferas ambientais, econômicos e, principalmente, sociais. Assim, uma vez deteriorados, atingem diferentes camadas da sociedade,

Nesse sentido, em uma resposta mais ampla, a diminuição dos biomas pode acarretar na deterioração de recursos naturais como o próprio solo, a água, a mobilização de pessoas que se sustentam dos recursos ali existentes e principalmente relativas a populações tradicionalmente estabelecidas, como camponeses, indígenas e quilombolas.

Em outras palavras, pode haver uma diminuição de aspectos culturais e empobrecimento da população que tem o seu sustento a partir da sua relação direta com a terra. Esse é um impacto socioambiental. Nos centros urbanos a diminuição das áreas verdes propicia cada vez mais o fenômeno das “ilhas de calor” pelo aumento do albedo (reflectância) dos materiais e a consequente diminuição da sombra.

conclui.

Além dos impactos ambientais na preservação da biodiversidade

Redução da área florestal do Brasil: impactos aos biomas e ameaça à biodiversidade
Foto: Fabíola Sinimbú/Agência Brasil

Outra consequência direta da redução da área florestal brasileira diz respeito à dificuldade de preservação da biodiversidade. É fato que se torna cada vez mais raro encontrar a pauta de conservação da natureza na lista de prioridades da maioria dos governantes, o que torna ainda mais difícil prezar pela riqueza da diversidade biológica do Brasil.

Ademais, o frequente desmatamento, principalmente na Floresta Amazônica, Mata Atlântica e Cerrado, contribui para a fragmentação do meio ambiente e das áreas ocupadas por certas espécies. Isso pode impactar não só a biodiversidade local, como a população em geral. Logo, Lucas Espíndola explica que a redução das áreas florestais e, consequentemente dos biomas, afeta também a ocorrência de pesquisas em diversas áreas humanas, o que atrasa o progresso do país a nível internacional.

Na perspectiva da biodiversidade, além da redução de comunidades ecológicas que caminham para a sua extinção, a diminuição dos biomas acarretam na diminuição de pesquisas em biotecnologias, que podem estabelecer novos remédios, produtos alimentícios e fármacos. O Brasil tem uma grande potencialidade para produção integrada de novos bens e serviços associados a novos produtos, tendo em vista a sua ampla faixa tropical. É o que o professor Ignacy Sachs chama de “Biocivilização”.

esclarece.

Foto em destaque: Arquivo TG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *