Cine Cultura: a importância do cinema municipal como artefato cultural de Goiânia e da sétima arte

Através da pequena sala de cinema e o seu entorno, é possível ampliar os conteúdos audiovisuais acerca o cinema e prestigiar a cidade de Goiânia a partir de seu emblema cultural e histórico.
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Em julho de 1989, Goiânia ganhava uma pequena sala com 98 assentos – hoje, um deles sendo oferecido à cadeirantes – e um grande telão, onde os enredos e histórias apresentados dentro do cinema não-convencional puderam ganhar destaque e cativar públicos a se abrirem a narrativas que ultrapassam a barreira do que é, atualmente, tradicional e limitado aos produtos audiovisuais pertencentes a monopólios dentro desse mercado.

A Sala Eduardo Benfica, que constitui o Cine Cultura, é um elemento de valor histórico e cultural para a capital goiana, uma vez que faz parte da operação da Unidade da Secretaria de Estado da Cultura, a fim de preservar a história da cidade e seus feitos através do lazer e da arte, como o cinema municipal propõe. Além disso, objetiva difundir obras comerciais de diferentes gêneros, temas, nacionalidades e formatos. Com mostras e eventos sempre sendo realizados, o cinema abre alas para que o conteúdo do cinema contemporâneo fora do mainstream seja apreciado e cative, com afeição, as pessoas que frequentam esse lugar.

Para sua importância ser totalmente compreendida, o Lab Notícias trouxe para enriquecer a reportagem Fabrício Cordeiro, coordenador e programador de filmes do Cine Cultura, com a autoria de suas falas, realizando um profundo debate sobre a relevância do cinema municipal dentro do ambiente urbano e cultural.

Centro Cultural Marieta Telles Machado – Cine Cultura – Goiás/Foto: Cine Goiânia

A seleção de filmes

“O Cine Cultura é uma sala que trabalha com lançamentos comerciais, como um cinema normal – no caso, de perfil alternativo. As sessões aqui se dividem entre sessões comerciais, de lançamento, e especiais que incluem sessões gratuitas, mostras e festivais que, geralmente, mas nem sempre, são gratuitas. Depende de como é feita a negociação com as parcerias ou quem está produzindo determinada amostra. 

As sessões comerciais são feitas a partir de uma negociação com as distribuidoras de filmes que detém os direitos de distribuição. Nós estabelecemos um contato com essas distribuidoras, há um interesse. Eu, no caso, sou o programador dos filmes, né? Quando acho interessante para ser exibido na sala se tem alguns critérios: o primeiro deles, claramente, precisa ser um filme de circuito alternativo. A gente não trabalha com lançamentos blockbusters, de Hollywood, com esses grandes lançamentos. Nosso foco é o cinema alternativo, sobretudo brasileiro, filmes europeus, japoneses, que geralmente não tem tanta chance de entrar no circuito exibidor.

Diante disso, entra também um olhar mais curatorial, de filmes que acho que possam ser interessantes como obra artística. E aí entra uma questão de olhar estético mesmo, ou que possa ser interessante para o circuito exibidor de Goiânia. Um filme que provavelmente não vai ser exibido em nenhuma outra sala aqui. Existe o Cine Lumière, que tem no [Shopping] Banana e em outros lugares, que eles se abrem a alguns filmes mais alternativos, mas nem sempre. Então, eu sempre fico de olho para saber se um filme já está sendo exibido lá para levar ao Cine Cultura, como dar uma opção a mais para a cidade de Goiânia. E, também, às vezes, um filme que eu acho que vai ter uma extrema dificuldade para ser lançado, mesmo no Brasil, porque as salas desse perfil são muito poucas. Alguns filmes vão ser exibidos em duas salas no Brasil, vão ter pouquíssimas exibições. Às vezes eu gosto de utilizar o Cine Cultura para dar uma chance para esses filmes, sempre tentando buscar aí um equilíbrio. 

Basicamente, tem um leque de opções de distribuidoras que a gente trabalha. Acho que hoje em dia a gente trabalha com umas 12 a 15. Muitas vezes, elas entram em contato dizendo que o filme vai ser lançado em tal dia e se a gente tem interesse. Até por uma experiência de circular por festivais, de conhecer a obra de vários diretores, por estar sempre pesquisando, geralmente eu já sei o que quero e o que me interessa na programação, que tipo de filme. E aí eu já entro em contato com as distribuidoras a partir do momento que eu sei que elas vão distribuir tal filme ou que eu sei que já tá previsto numa determinada data. Já entra e falo: ‘olha, eu tenho interesse neste filme. Vamos colocar aqui na sala?’.

As sessões não comerciais, que entram como eventos, mostras, festivais e prestações de lançamento – são sobretudo com parcerias. A gente realizou uma amostra do Werner Herzog [e] uma amostra do cinema francês, com apoio da Aliança Francesa, que foi para o Instituto Goethe. Então, conseguimos algumas parcerias para ter os direitos de exibição para determinados filmes e isso faz com que seja possível realizar mostras temáticas. Acho interessante de se pensar em mostras de determinados cineastas que são grandes, com grandes obras e filmografias, sempre buscando as parcerias que oferecem títulos que me parecem interessantes, muitas vezes filmes clássicos, até como formação de público.

Existe uma licença chamada licença guarda-chuva, que vale por um ano e a gente está prestes a renovar ela esse ano. Ela permite que a gente trabalhe com alguns com filmes clássicos das majors dos grandes estúdios norte-americanos. E aí é possível exibir filmes, por exemplo, do Stanley Kubrick, e dá uma um leque muito grande para se pensar em mostras temáticas, como a gente já realizou mostra de ficção científica, cinema de horror, etc. E como já é tradição há algum tempo, realizar amostra de clássicos no final do ano, entre o Natal e Ano Novo. A seleção segue por aí. 

O Cine Cultura é importante porque ele é a única sala totalmente dedicada ao circuito alternativo na cidade. Se não fosse pelo Cine Cultura, dezenas de filmes brasileiros, europeus, norte-americanos independentes, filmes clássicos que a gente consegue retomar, vários filmes do que a gente considera o circuito alternativo, que é o perfil da sala, não passariam por uma capital de quase dois milhões de habitantes ou mesmo não passariam por Goiás, talvez. Esse é um dos pontos muito importantes do Cine Cultura, esse lugar onde as pessoas só podem encontrar esse tipo de experiência na cidade.”

Stanley Kubrick na direção de seu filme “Dr. Fantástico”, 1964/ Uso de imagem autorizado.

A experiência na sala de rua e a valorização de seu entorno

“É outro ponto falando [sobre] experiência, né? O fato dele não ser uma sala de shopping. Ele é uma sala de rua, embora ele esteja na Praça Cívica – eu acabo chamando ele de cinema de praça. Tem essa distinção entre salas de shopping center e salas de rua e, geralmente, as salas de rua tem esse perfil mais alternativo. A Praça Cívica se tornou muito atrativa, é muito gostoso estar ali. Ela é muito aberta, mas é cercada de árvores. Ela tem um aspecto de bosque que atrai, por exemplo, vários pássaros no fim da tarde, lugar de sombra, lugar para as pessoas ficarem. O Cine Cultura está localizado num lugar emblemático da cidade. Isso é um ponto muito interessante para se ter como uma sala de cinema e para ser frequentado, né?

Então, qual é a diferença desse tipo de sala para uma sala de shopping? Você vai ao shopping e vai ao cinema. O cinema é de alguma forma um produto a ser consumido como os demais, você sai do cinema [e fica em frente a praça] de alimentação; você sai depois de duas horas/duas horas e pouco com fome e é levado a uma outra série de imagens consumistas. Você mal tem tempo de pensar sobre o que você acabou de assistir. Numa sala que não é de shopping, você sai de casa, sai de onde tiver de sair para ver um filme, então é uma outra relação. Você não está indo para um universo de regras mais controladas, que não é a realidade e que é o caso do shopping, você não tá indo lá para fazer algo a mais, você tá indo especificamente porque você tem interesse naquela determinada experiência ou naquele filme, né? E ao sair dali, você também não é invadido por outras outras imagens muito agressivas, [como as de publicidade. Você [tem o] circuito cultural, [onde] você sai para a Praça, precisa caminhar um pouco, seja para o ponto de ônibus, seja para voltar para casa a pé ou de bicicleta e pensar sobre o que você acabou de assistir. Geralmente, nessa sala são [apresentados] filmes que podem exigir muito de você, [como] questões existenciais e questões realmente interessantes. 

É o tipo de programação que nós trabalhamos nesse perfil de sala, buscamos uma relação e acaba sendo outra relação com a cidade também. A gente coloca você [para] assistir um filme num lugar e numa localidade que te estimula a pensar sobre isso, sobre questões da vida. Você sair dessa sala e sair, de fato, para a realidade do mundo – e não para uma praça de alimentação que definitivamente não é uma realidade – você tem que lidar com aqueles pensamentos enquanto você tem que voltar para sua realidade, para sua vida. Acho que isso cria uma relação mais profunda com os filmes mais interessantes. Então essa é uma das vantagens. Fora que se você pega uma sessão das 17h ou 16h30, você tem grande chance, dependendo da duração do filme, de sair para um belo pôr do sol que tem ali na Praça Cívica.

Frequentar o Cine Cultura é se aproximar de outros pontos da cidade. O Cine Cultura tá ali do lado do Bosque dos Buritis, então é um ótimo programa de fim de semana, porque o Cine Cultura [está aberto] todos os dias, inclusive fim de semana e feriados. Um bom programa de fim de semana é ir ao Bosque dos Buritis e depois ver um filme, ou vice-versa. [O Cine Cultura] está muito próximo também de outros pontos culturais centrais da cidade, como a Vila Cultural Cora Coralina, o Teatro Goiânia, o Martim Cererê, os três inclusive do Estado. Então, dá para se fazer um circuito de atividades culturais, se tirar um dia ali, um final de semana, enfim. E a pé mesmo, circular por essas unidades culturais e estabelecer, ou continuar desenvolvendo uma relação com Goiânia e com centro de Goiânia. É o que eu acho importante de ocupar, não só as unidades culturais, mas ocupar o espaço entre elas.”

Teatro Goiânia, Goiás/Foto de uso autorizado.

Os desafios enfrentados

“Por mais irônico que seja, eu acho que a principal dificuldade enfrentada pelo Cine Cultura é a localidade dele. Falo irônico, porque eu elogiei bastante, né? A localidade dele me parece ser uma dificuldade da história do Cine Cultura mesmo, porque embora ele esteja bem centralizado, na Praça Cívica que todos conhecem, ele está dentro do Centro Cultural Marieta Teles, que é um centro cultural com outras unidades culturais bem boas, como o Museu da Imagem e Som, a Gibiteca Braille e o Cine Cultura. Só que o fato d[o cinema] estar dentro de um prédio, faz com que ele não tenha a sua programação [exposta]. Os cartazes, ou qualquer sinal de que tem um cinema ali dentro, acaba não sendo exposto para quem passa pela praça

Então, [para] se tocar que tem um cinema ali dentro, primeiro ela tem que entrar no prédio. É claro que hoje as redes sociais facilitaram muito essa divulgação, porque [por meio das] hashtags do Instagram, pessoas indicam umas para as outras, nas redes sociais com a velocidade muito maior [de] compartilhamentos, isso tem ajudado bastante. Eu tive a sorte de entrar no Cine Cultura quando as redes sociais estavam já bem estabelecidas, ou se estabelecendo nesse sentido de divulgação, né? Como o Instagram, por exemplo, que [a divulgação] é a principal ferramenta.” 

O público e a divulgação

“Mas ainda é uma sala a ser descoberta por muitos goianienses, a ser apresentada. Sobretudo, por ser uma sala de perfil alternativo, que historicamente no Brasil, são salas com dificuldades para atrair público, justamente porque vai passar filmes, que tem dificuldade de se publicizar, de chegar ao público, porque não tem tanta salas que exibem, porque não tem tanto dinheiro para fazer propaganda, porque o Brasil [a cena do cinema] é uma sala dominada por blockbusters e grandes salas de shopping. Filmes como Vingadores, ocupando aí 80% das salas. Então isso já é difícil para os filmes, naturalmente de perfil alternativo, e [esse fator monopolista aumenta] essa dificuldade de expor Cine cultura ali mesmo na sua própria localização.

De todo modo, isso acaba sendo um desafio para a gente sempre estar pensando, como driblar esse desafio. Como superar, como criar formas de chegar às pessoas. De alguma forma, [isso] estimula a gente a pensar em métodos de divulgação. Enfim, é um trabalho que também não chega a ser tão diferente das outras das programações, que eu conheço, das salas alternativas [de cinema] que eu conheço ao redor do Brasil, com programadores amigos meus. Acaba sendo um trabalho, que a gente fala, ‘de formiguinha’ mesmo, né?

Então ano após ano, é trazer pessoas novas [para a sala alternativa], ter sempre um contato mais próximo. O Cine Cultura é uma sala pequena, e de alguma forma fornece uma experiência mais íntima, com os filmes e com quem frequenta aquilo lá. Essa é uma outra importância da sala, inclusive, é uma relação menos fria do que sala de shopping, do que as grandes salas dos Multiplex. Então, aos poucos as pessoas vão apresentando o Cine Cultura umas para as outras, trazendo amigos, trazendo namorado, namorada. O público do Cine Cultura é um público muito fiel, muito cativo e que acaba aos poucos, sempre adicionando alguém novo por ali. Nunca será de uma hora para outra, mas quando você tem um trabalho minimamente contínuo, de sala de cinema, isso acaba criando um público. E é importante também, não tirar de vista sempre as novas gerações.

A gente tá conseguindo retomar agora, um uma certa frequência de sessões com escolas, justamente para que se haja um primeiro contato de crianças, de uma galera muito jovem, para já entrar naquele espaço. E mesmo que eles demorem anos, muitos anos, talvez décadas para voltar ali ao Cine Cultura, isso cria uma lembrança dele, de que aquela sala existe, aquele espaço existe, e que em algum momento eles voltem ali, né? Então é criar e apresentar esse espaço para o pessoal mais jovem, e já plantar essa semente de que [o Cine Cultura] existe, que ele é acessível, que ele tá num bom lugar, que você pode ter uma boa experiência ali, assistir bons filmes. É algo a se pensar sempre, né? Então essa é uma dificuldade, talvez que o Cine Cultura tem em todos os seus 30 anos, e que é uma dificuldade que vai acompanhá-lo, sempre em alguma medida, de ser apresentado às pessoas.”

Programação de férias com abertura gratuita para o público no Cine Cultura.

O futuro do Cine Cultura

“O Cine Cultura está prestes a passar por uma reforma, que deve acontecer agora em torno de abril. Então a gente vai ter poltronas renovadas, um novo desenho da sala. A última reforma foi em 2012. [Isso] é o que vai ajudar a atrair as pessoas, deixar a sala mais receptiva. E a gente espera também, que talvez ainda para começar este ano, [ocorra] a digitalização de Cultura para o sistema DCP, que é o mesmo sistema de projeção utilizada de sala de shopping. Isso vai nos dar mais opções de filmes e uma qualidade melhor de som e imagem.”

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