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Nos últimos anos o Brasil tem sido uma das nações escolhidas pelos imigrantes para residir. O país tem recebido de diversos lugares do mundo pessoas que deixam suas famílias em busca de oportunidades melhores, sendo por empregos, moradias, asilo político, dentre outras questões. É válido ressaltar que em meio a tantos sonhos, também há muitas dificuldades.
De acordo com o Secretário Nacional de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), Jean Keiji Uema, o Brasil tem avançado em muitos aspectos no tema após a aprovação da Lei de Migrações, mas é preciso regulamentar a política pública. “O governo brasileiro, cada vez mais, quer garantir a transparência ativa. A facilitação do acesso aos dados vai ajudar a construir uma política pública de migrações, de refúgio e de apatridia baseada em evidências”, disse em entrevista para o Portal Gov.br
Nesta entrevista, a convidada, é a docente, tradutora particular e coordenadora educacional Milagros Rendón que falou sobre as experiências, dificuldades e oportunidades em ser imigrante no país.
GM: Ao falarmos do processo de imigração, percebemos e abordamos muitas questões. Quando você decidiu sair do seu país de origem e vir residir no Brasil, já tinha tudo preparado ou foi algo “surpresa”?
Milagros: Então, eu tive uma oportunidade de conhecer uma família que morava aqui, que é a da minha sogra, ela é daqui há muito tempo. Falava muito do Brasil, quando a gente decidiu vir morar, nós tivemos a facilidade de sermos recebidos pelo meu cunhado, acho que cada caso é um caso, no meu é que eu tinha parentes dele. Nós ficamos hospedados na casa do meu cunhado quase seis meses, porque uma das dificuldades é que não conseguimos de imediato a documentação e mesmo que você receba um protocolo, para poder fazer as suas coisas, ele demora, leva um tempo para ter tudo registrado na Polícia Federal.
Mas como o meu ex-marido tinha familiares, resolvemos vir, não foi nada de “surpresa”. A gente tinha uma pessoa que iria nos receber, eu estava grávida da minha segunda filha, já tinha uma de dois anos e meio, éramos novos, trabalhávamos, era concursada, meu ex trabalhava em uma empresa e ele era economista. Porém, deixamos o Peru mais por querer conhecer outras culturas e a terra da minha sogra, foi uma decisão para ter um conhecimento geral de outros países.
GM: Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), os imigrantes ocupam mais postos de trabalho no mercado brasileiro, em 2011 foram 62.423 e em 2020, 181.358, sendo 190% a mais comparado ao outro ano. Você acha que esse número é válido? Crê que o mercado de trabalho tem aberto mais vagas e dado mais oportunidades?
Milagros: Acho que sim porque tudo está crescendo mais, e mesmo que antigamente pensássemos que poderia haver mais oportunidades, o mercado de trabalho está crescendo sempre. Os estrangeiros têm mais dificuldades na questão de serem recebidos e de pegar seus documentos por causa da quantidade de imigrantes, no meu caso, quando vim, recebi rápido a documentação para legalizar, como disse, já estava grávida, minha filha nasceu aqui. Então eles já nos deram o protocolo e fizemos solicitação por ter uma criança brasileira (reunificação familiar), depois de seis meses que recebi minha carteira de identidade, tive que trocá-la durante dez anos até pegar a definitiva, agora não precisa mais. Quando eu ia na Polícia Federal, tinha pouca gente, éramos muito bem atendidos, havia café e coisas assim. Com o tempo venho percebendo que com a quantidade de pessoas, hoje em dia tem que fazer fila lá fora para conseguir agendar um horário, mesmo sendo mais pela internet, por isso realmente a dificuldade para ter acesso ficou maior. Porém, creio que as oportunidades de trabalho também aumentam, porque cresceram em todas as partes, em todas as áreas e se a pessoa quer trabalhar, ela consegue sim, tem vagas de empregos em todos os lugares do Brasil.
GM: Há quanto tempo você é docente no Brasil? Como foi o processo?
Milagros: Tenho mais de vinte anos, acho que vinte e cinco como docente em espanhol. Cheguei ao Brasil em noventa em quatro, já tinha estudado fora, feito graduação superior e estava trabalhando, fiz concurso para o estado no meu país e minha especialidade era com crianças, era diretora de uma escola. Mas por situações particulares nós quisemos viajar para conhecer e se gostássemos, ficaríamos. Comecei como professora, porque na época aqui começou uma procura muito grande por aulas de espanhol. No primeiro ano quando eu cheguei não trabalhei, apenas meu ex-marido trabalhava, ele abriu um negócio. Eu estava por conta das minhas filhas e por isso fiquei mais em casa, já no segundo ano, haviam uns missionários que iriam morar em Cusco, minha terra natal. Eles iriam fazer um trabalho evangelístico e me perguntaram se eu não poderia dar aulas, pensei “tenho no sentido de pedagogia, didática. Mas não de espanhol, mas sempre fui boa aluna… acho que posso” conhecia um professor da língua e pedi apoio, uma orientação e ele me ajudou. Daí dei três meses todos os dias um “intensivo”, foi bom e eles gostaram, viajaram, puderam colocar em prática o que aprenderam. Descobri que gostei, tinha domínio e resolvi fazer alguns cursos, na federal [UFG], na católica [PUC-GO] e depois de um tempo fui para a Espanha, fiz alguns cursos em escolas de línguas, trabalhei assim, as portas começaram a se abrir, fui docente na federal, fiz um concurso e passei.
GM: Nesses anos que está no país, como imigrante, quais foram as suas maiores dificuldades em relação à compra de imóveis, documentação para legalização e contas bancárias. Você acha que a justiça é rápida quando se trata de imigração?
Milagros: Como eu recebi meus documentos “rapidamente” vamos dizer assim, por causa da minha filha, então depois disso também, claro, que as portas de trabalho se abriram mesmo, acho que Deus abriu a porta para começar a trabalhar, as oportunidades se abriram. E comecei a trabalhar e como eu tinha carteira de identidade, então as escolas que trabalhei assinaram minha carteira, não tinha nenhum problema já que havia carteira de identidade, abri meu cpf também. Tudo demorou, não ficou algo tipo, anos sem receber, mas teve o seu tempo certo e quando quis comprar meu apartamento, não tive nenhum problema. Eu já tinha conta bancária, tinha talão de cheque, cartão de crédito, foram me dando. A pessoa que tem parte da documentação, não tem impedimento mais.
Só me lembro uma vez que tentei abrir uma conta no Carrefour para ser cliente e eles negaram, nunca mais tentei. “Eles que perdem”, pensei, e foi a única empresa há muitos e muitos anos. E depois todas as lojas me deram oportunidades: a Renner, a Riachuelo… Para comprar a minha casa, como tinha todos os documentos e contava como tinha uma escola, com o extratos bancários. Eles pediram todos os documentos, pois eu tinha comprovante de endereço, bons extratos bancários, então assim, era bom e por isso comprei meu imóvel, mas esse foi o meu caso. Cada caso é um caso.
GM: Agora falando de recepção, quando você pisou no Brasil, foi bem acolhida? Sair do País onde nasceu e cresceu, é complicado. Mas você veio em busca de oportunidade, certo? Poderia falar um pouco sobre?
Milagros: A minha recepção foi muito boa, os brasileiros são muito acolhedores, a família me recebeu bem e as pessoas na rua quando me comunicava, até foram muito receptivas e nunca senti discriminação, pelo contrário, sempre senti muito interesse da parte delas em saber do meu país, sobre minha cultura. Não foi difícil de me adaptar, como o Brasil e o Peru são países da América Latina e se parecem bastante, certo que tem suas diferenças como na comida, me adaptei bem — por exemplo aqui comia muito feijão, mas eu tive sorte que minha mãe fazia uma vez por semana ou a cada quinze dias lá. Então me familiarizei com a comida brasileira, quando tinha vontade de comer algo peruano, fazia.
Agora a situação econômica, mesmo que as portas se abriram, tive bastante oportunidades pois cheguei em um momento em que estavam dando muito valor aos professores de espanhol e tinham várias escolas de línguas. O Brasil passou por uma fase de muita receptividade, mas agora houve uma queda brusca: colégios que contratavam docentes em espanhol, removeram a língua de suas matrizes, começou a diminuir o interesse. Os governos mudaram, é claro, nesse tempo do ano de noventa e quatro o governo incentivou bastante, ensinou a valorizar a cultura espanhola e tudo que engloba ela. Mesmo porque o Brasil está cercado de países que falam o espanhol, e é importante que os brasileiros saibam, pois somos países muito próximos e podermos aprender uns com os outros.
Depois com os anos, onde a internet entrou e as pessoas já podem aprender sozinhas, teve desinteresse por parte da sociedade, eu senti, meus colegas também sentiram e muitos perderam empregos, daí veio a pandemia, escolas fecharam… A questão econômica de ter um empresa é que são muitos impostos, eu tinha uma escola e lá tínhamos muito trabalho e pouco retorno. Mas é um problema da América Latina, na Europa você pode trabalhar e tem um retorno bom, aqui é bem sofrido. As pessoas que são funcionárias públicas ou escolhem profissões que ganham muito, ganham bem. Mas as pessoas que optam por profissões tão dignas como as outras, não têm a valorização devida, como os professores, recepcionistas, dentre outras.
