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Com R$ 15,6 milhões em investimento e entrega prevista em três fases até outubro de 2026, o projeto visa transformar um “morro abandonado” em parque urbano.

No dia 10 de junho de 2026, o Governo de Goiás realizou sessão pública de licitação para a execução das obras de urbanização do futuro Parque Serrinha, na região sul de Goiânia. O processo era esperado há muito tempo: a área passou por desapropriações judiciais que começaram no início dos anos 2000, e só em 2024 o morro foi completamente desocupado. A licitação, publicada pela Secretaria-Geral de Governo (SGG) em maio, prevê um investimento de R$ 15 milhoês para transformar mais de 11 hectares em um parque público.
O morro que sempre esteve em meio a um dos bairros mais valorizados da capital goiana, o Setor Serrinha, viu a região crescer cercada de condomínios e edifícios, enquanto o poder público discutia o que fazer com um dos pontos mais altos da cidade. O resultado foi décadas de abandono, descarte irregular de lixo, com ocupações indevidas e ao menos um incêndio de grandes proporções. O projeto que agora começa a sair do papel promete mudar essa situação.
O cronograma do projeto foi dividido em três etapas. Na primeira, com entrega prevista para março de 2026, estava a retirada das antigas torres metálicas da área, implantação de cercamento, construção de pista de caminhada e instalação de iluminação e segurança. A segunda fase, até junho, incluia playgrounds, espaço pet, praças, quiosques e um concurso cultural para a torre de concreto que marca o ponto mais alto do morro. A terceira etapa, prevista para outubro, é a mais ambiciosa prevendo mirantes, trilhas, áreas devidamente organizadas para contemplação e a inauguração do Museu do Cerrado. As datas próximas, no entanto, assustam, cerca de três meses para a entrega final, estamos em junho, e as imagens de drone mostram que a obra ainda tem muito para avançar:

Em paralelo às obras, também está no planejamento um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD). A empresa Ecovel Ltda., contratada por R$ 234 mil, realizará o plantio de cerca de 5 mil mudas de espécies nativas do Cerrado em 4,3 hectares, com acompanhamento previsto por três anos até 2030. O projeto foi de responsabilidade da Opus Incorporadora, empresa com empreendimentos imobiliários na região do parque.
O que o morro representa
Para a professora doutora Karla Farias, geógrafa com pesquisas voltadas à avaliação e monitoramento de impactos ambientais em diferentes áreas, o morro da Serrinha é muito mais do que uma área verde dentro da cidade:
“A cobertura vegetal e as características geomorfológicas contribuem para a infiltração da água da chuva, a redução do escoamento superficial e o controle de processos erosivos. Em um contexto de crescente impermeabilização do solo urbano, a manutenção dessas áreas naturais torna-se estratégica para minimizar problemas como enxurradas e alagamentos.”
Ela também lembra que o morro tem valor histórico. O Serrinha é reconhecido como um dos pontos de observação utilizados na escolha do sítio onde a capital goiana seria implantada, no fim da década de 1930. Nesse sentido, preservar o local, segundo a pesquisadora, ajuda a conservar parte da memória histórica da cidade.
Karla reforça ainda que os parques urbanos, para além do Serrinha, são essenciais não apenas para o lazer, pois eles funcionam, igualmente, como instrumentos de planejamento territorial, prestando o que ela chama de serviços ecossistêmicos: regulação climática, controle hídrico, conservação da biodiversidade e fortalecimento da identidade das comunidades com o território onde vivem.
A revitalização, porém, acontece em um contexto que coloca em tensão o próprio projeto. Conforme as imagens retiradas no entorno do Serrinha, a verticalização segue crescendo, com prédios de múltiplos andares construídos na região nos últimos anos, e a tendência, segundo o mercado, é de intensificação:

Segundo a arquiteta e urbanista Maria Ester, esse padrão tem explicação:
“Para pensar a expansão urbana de Goiânia, é preciso entender que ela está totalmente relacionada ao capital imobiliário. Quem organiza e mobiliza os recursos que definem a ocupação territorial não é o plano diretor nem o prefeito. É o capital imobiliário.” Ela não condena os edifícios em si, mas onde e como estão sendo colocados são questões a serem pensadas: “Se você coloca uma sequência de prédios de 40 andares, formando uma parede de concreto que reflete calor e ocupa espaços que poderiam receber árvores e áreas verdes, o impacto é negativo”, diz ela.
O problema pode acabar ainda mais amplo. A arquiteta Maria Ester aponta, na sua visão, que todo esse processo pode resultar num número maior de pessoas nas ruas, mas não de forma sustentável, porque o número de carros também é crescente na capital: “Você não tem adensamento de pessoas, tem adensamento de carros. Muitas vezes são dois carros para cada morador.” em espaços nobres, cercados por parques privilegiados pela região.
A geógrafa Karla Farias aponta na mesma direção ao identificar a especulação imobiliária e a inércia institucional como um dos maiores desafios para conservação do Serrinha com o passar dos anos: “O sucesso [ de planos como esse] depende de um planejamento baseado em critérios ambientais, participação da comunidade e adoção de soluções sustentáveis que permitam o uso público sem comprometer as funções ecológicas da área”, afirma.
Como as pessoas vão chegar até lá
Uma pergunta que o projeto ainda não responde com clareza é a de como a população acessará o parque, sobretudo na perspectiva de quem depende do transporte coletivo, afinal o parque não é só para quem mora no entorno, ou pelo menos não deveria ser. Maria Ester, revela que esse é um sintoma de uma visão mais ampla sobre mobilidade urbana em Goiânia, segundo ela a preocupação principal das mudanças no transporte atualmente na cidade não deveria ser somente a qualidade ou velocidade do transporte, indo além, ela critica o próprio conceito de mobilidade aplicado na capital:
“Só se usa o termo mobilidade para se referir ao carro. Não se fala de calçadas, de uma cidade para crianças, para idosos. Não existe essa perspectiva.”
Avançando sobre o projeto de revitalização, o Morro da Serrinha esteve negligenciado por décadas, como é sabido, no entanto agora começa um avanço real para uma área que a cidade há muito deveria ter cuidado. Mas tanto a arquiteta Maria Ester quanto a geógrafa Karla Farias colocam em cheque o que acontece ao redor das obras. O parque pode ser construído. A dúvida é se a cidade ao redor, com sua lógica imobiliária, trânsito e falta de infraestrutura, vai permitir que ele cumpra o papel para o qual está sendo criado:
“O objetivo deve ser transformar o parque em um espaço de convivência e lazer que também atue como elemento de conservação da natureza e de fortalecimento da sustentabilidade urbana.” Karla Farias, geógrafa e pesquisadora na UFG.
