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Ana Júlia Cruz Costa

Todo início de ano marca mudanças ou, pelo menos, expectativas para que estas aconteçam na vida de cada indivíduo. Para a comunidade transgênero no Brasil, isso não é diferente. No mês de janeiro, comemora-se no país o Mês da Visibilidade Trans – Janeiro Lilás – e, dessa forma, muitos são os olhos voltados para as ações tomadas ante a esse público durante o período.

Esta comunidade, por sua vez, busca aproveitar o foco maior dado a ela para fazer suas denúncias, exigir medidas por parte das autoridades para que haja maior segurança nas ruas e aproveita para ganhar espaço para as histórias de vida de quem a compõe.

Embora seja importante ter essa data no calendário nacional, inúmeras são as posturas prometidas que, na prática, não acontecem posteriormente. Por essa razão, o Lab Notícias trouxe o relato de Dan Rodrigues, uma pessoa não-binária* que produz conteúdo para internet e escreve livros com a temática trans. Ao longo da conversa com Dan, fica claro o difícil dia a dia como alguém trans no Brasil e, surpreendentemente, a esperança de que, mesmo com passos lentos, o futuro seja diferente.

Dan Rodrigues, com efeito no rosto, cabelo pintado ao meio (moreno e loiro) e roupa listrada vermelho com branco.
Dan Rodrigues (Foto: Arquivo Pessoal da entrevistada)

* Não-binária: pessoa que entende seu gênero como algo que vai além de simplesmente se identificar como homem ou mulher.


LN: O Dia Nacional da Visibilidade Trans foi comemorado recentemente, no dia 29 de janeiro e esse mês, inclusive, é conhecido por ser o Janeiro Lilás. Qual a razão desta data no nosso calendário?

Dan Rodrigues: Tudo começou lá no dia 29 de Janeiro de 2004, com o lançamento da campanha ‘Travesti e Respeito’. Essa campanha visava conscientizar a população [brasileira] sobre a comunidade trans, ainda mais em geral a comunidade travesti. Inclusive, o slogan dessa campanha era ‘já está na hora dos dois serem vistos juntos: em casa, na boate, na escola, no trabalho, na vida’ e foi uma campanha do governo mesmo. Essa defesa para lançar essa campanha foi tão grande que virou um marco na luta contra a transfobia no nosso país e, aliás, ficou conhecida como o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Logo o mês se tornou o Janeiro Lilás e isso acabou tomando repercussão no país inteiro para além de 2004, perdurando até os dias atuais.

LN: Como uma pessoa trans, qual a sua visão sobre essa data? Entende como importante e, se sim, vê impactos gerados por ela no seu dia a dia e/ou na de outros indivíduos da comunidade trans?

Dan Rodrigues: Eu como pessoa trans vejo que na época aquilo foi muito importante, uma das primeiras vezes que isso foi abordado dessa forma e que, de fato, o governo apresentou algo para proteger a gente [pessoas trans]. Isso acabou tendo impacto até os dias atuais, porque a gente vê que em janeiro tem uma grande comoção, as pessoas realmente começam a consumir mais obras com personagens trans, a gente de fato ver as pessoas se mobilizando para falar mais sobre isso. Inclusive, o próprio aplicativo do TikTok criou uma própria hashtag para o dia, então eu creio que isso cria mudanças e é muito bom ter um mês em que pessoas cisgênero* acabem lembrando um pouco da gente, sabe? Infelizmente, isso costuma ficar só em janeiro, mas eu espero que mude e que nossas pautas e histórias sejam contadas para além de Janeiro.

*Cisgênero: indivíduo que se identifica com o gênero que o foi imposto ao nascer.

LN: Com o destaque um pouco maior direcionado à comunidade trans pelos veículos de comunicação nos últimos anos, situações “polêmicas” tornaram-se ainda mais comuns. Um exemplo disso foi a participação da cantora Linn da Quebrada no Big Brother Brasil 2022, em que ela teve seus pronomes desrespeitados e o uso da palavra travesti questionado. Como você analisa essas situações?

Dan Rodrigues: Por muito tempo a comunidade de trans viveu nas sombras. A gente sempre esteve ali, a gente sempre existiu e lutamos pelos nossos direitos, mas nos últimos anos temos mais visibilidade. Por exemplo, o personagem trans na novela da Globo anos atrás, que gerou discussões na época. A Linn da Quebrada foi um dos exemplos também, né? Quando uma pessoa trans acaba sendo exposta em rede nacional muitas questões aparecem: pessoas que não sabiam aprendem e pessoas mal intencionadas se sentem no direito de opinar.

Eu vejo como uma situação às vezes boa e ruim: essa exposição, esse destaque um pouco maior para a comunidade trans. É legal ver como algumas pessoas que não sabiam de fato aprendem, pessoas até mais velhas, mas me deixa triste em ver como ainda existem muitas pessoas intolerantes a nossa volta, principalmente na internet, né? Eu diria que é uma sensação agridoce, mas, de toda forma, eu gosto de ver essas pautas sendo abordadas e ver cada vez mais pessoas e personagens trans surgindo na mídia em geral.

LN: Em 2021, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) divulgou uma pesquisa na qual 140 mortes de pessoas trans foram contabilizadas. Você acredita que a existência do Janeiro Lilás pode ajudar de alguma forma a mudar esse dado?

Dan Rodrigues: Mesmo eu acreditando que o Janeiro Lilás dê mais espaço para a gente, eu não acho que nesse momento, pelo menos, vá ter alguma mudança de fato no nosso dia a dia. Como eu disse, é algo muito nichado, temporal, então a gente tem essa visibilidade somente em janeiro e, em fevereiro, gente já não é ouvida.

Então, eu creio que por meio de políticas públicas e mais ações como a “Travesti e Respeito”, realizada lá em 2004, só assim que pode de fato acabar com o nível de mortalidade. O Brasil é um dos países que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, então, infelizmente, não acho que o Janeiro Lilás vai mudar isso nesse momento. Mas, sim, eu acho que se for um trabalho gradual, que transceda janeiro, aí sim a gente pode começar a ver mudança no futuro e ter uma sociedade mais politizada e que realmente nos respeite.

LN: Algo que reforça essa posição ainda marginalizada da comunidade trans no Brasil é a falta de acesso a bons empregos, à qualificação profissional e a uma boa renda. Como de costume, algumas empresas e órgãos públicos se aproveitam deste mês comemorativo para se demonstrarem preocupados com essa pauta em suas redes sociais. Partindo da sua vivência como pessoa trans, você acredita que a postura desses perfis vai para além de registros na internet e/ou coletivas de imprensa? Ou, mesmo com a comunidade trans ganhando espaço na mídia neste período, passado isso as dificuldades permanecem sem sequer iniciativas para verdadeiramente mudar a realidade nacional?

Dan Rodrigues: Eu acredito que muita coisa que acontece no mês de Janeiro só fica nele mesmo, assim como reforcei nas outras perguntas. Igual ao que acontece no Mês do Orgulho [junho], muitas empresas se posicionam e postam não por de fato quererem, serem inclusivas, mas sim para receber engajamento e para manter o status de apoiadores. Isso não acontece na prática.

Eu posso dizer pelo nicho literário que vejo muitas editoras se posicionando, inclusive eu vi esse mês editoras dizendo que apoiam pessoas trans e até mostrando os livros trans que têm no catálogo, mas que efetivamente convidam poucos influencers trans para fazerem publis, parcerias, divulgarem seus livros e eu acho que é isso que realmente falta, entendeu? A gente já é marginalizado e apagado pela própria plataforma [TikTok] e as editoras acabam contribuindo com isso. Então, eu acho que, infelizmente, eu como pessoa trans posso dizer que muitas empresas apenas se apropriam do dia, da visibilidade, mas não acabam realmente nos acolhendo como deveriam.

LN: Apesar desses entraves, alguns direitos foram conquistados ao longo dos anos. Em 2013, por exemplo, a cirurgia de redesignação sexual pelo Sistema Único de Saúde foi ampliada para homens e mulheres transexuais. Já em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou crime a homofobia e a transfobia. Um outro caso é o reconhecimento do nome social pela lei, em 2016. Enfim, você acredita que essas tomadas contribuem para uma melhor vivência trans no Brasil? Isso faz você acreditar em um futuro mais diferente e que seja melhor para a comunidade trans aqui no país?

Dan Rodrigues: Eu acredito que muitas dessas conquistas para a comunidade trans vieram de muito luta, de muito suor, sangue e lágrimas de pessoas da comunidade. Eu acredito que essas medidas sim ajudam muitas pessoas trans. Isso é maravilhoso. Inclusive, dando adendo, no Rio de Janeiro, pessoas não-binárias já conseguem colocar a sua identidade de gênero não-binário na identidade e isso já é um avanço incrível e, comparado com outros países, o Brasil tem isso.

Eu acredito que a gente tem que caminhar muito ainda, mas eu também já olho para trás, vejo as coisas que conquistamos e eu fico muito feliz. Acredito que quando a gente fala, quando a gente luta, a gente consegue. Eu consigo acreditar sim em um futuro melhor. Infelizmente, hoje em dia, a gente consegue perceber que algumas coisas estão voltando à tona e parece que preconceitos aparentemente deixados para trás estão voltando, porém eu consigo ver que num futuro conseguiremos conquistar muito mais coisas e direitos que são básicos.

LN: Por fim, você, como escritora de livros com temática LGBTQIA+ e influencer do BookTok*, enxerga de que maneira o seu trabalho para este público? Para além da responsabilidade social por detrás da comunicação por você gerada, de que forma você acha que seus produtos contribuem para uma maior visibilidade da e para a comunidade trans no país?

Dan Rodrigues: Quando eu decidi tornar maior parte dos meus protagonistas pessoas trans, até mesmo antes de eu me descobrir uma pessoa de gênero fluido, eu já havia como essa representatividade era escassa. Então, quando eu comecei a escrever, eu vi que muita gente se espelhava naquilo e se inspiravam nos meus livros para escreverem outras histórias com protagonismo trans. Eu já recebi diversas mensagens de pessoas trans que gostaram muito dos meus livros, que se viram representados ali e que também se sentiram tocados para escrever suas próprias histórias com protagonismo trans.

Eu não acho que meus livros sejam um grande marco para a comunidade trans, mas eu acredito que estou caminhando para que um dia pessoas trans, principalmente os mais novos, consigam se enxergar nas histórias, para que essas pessoas entre nas livrarias e consigam achar um livro meu que tenham essa representatividade de forma fácil, que não tenham que procurar um livro gringo, porque não tem no Brasil. É para isso que eu luto, é para isso que eu escrevo.

*BookTok: segmento do Tiktok com personalidades que comentam sobre obras literárias.

2 thoughts on “Janeiro Lilás: entenda o impacto do Mês Nacional da Visibilidade Trans”

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