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A plataforma de streaming Netflix teve um crescimento tímido de 2011 para 2012, indo de 21,5 milhões de assinantes para 25 milhões, de acordo com dados da própria empresa que foram compilados pelo site de informação da indústria de aplicativos Business of Apps. Entretanto, a comparação do terceiro quadrimestre de 2012 ao de 2013 é estrondosa: mais de 10 milhões de novas pessoas adquiriram o serviço. Esse crescimento se deu principalmente pelo lançamento de séries originais pela Netflix: os sucessos House of Cards e Orange is the New Black.

Até meados da década de 2010, a Netflix reinava como a plataforma de streaming com o maior número de assinantes, no Brasil e no mundo. O inovador site prendia os assinantes com sua biblioteca de filmes e séries a um clique de distância, com o diferencial de produzir seu próprio conteúdo original.

A Guerra dos Streamings

Em 2022, a Netflix fechou o ano com 220 milhões de assinantes no mundo inteiro, mas agora com um diferencial: ela não domina mais solitariamente o mundo dos streamings de conteúdo audiovisual. Vendo a oportunidade lançada pela gigante da indústria, várias outras empresas também investiram nesse novo mercado.

A Amazon Prime Video, que atualmente carrega o título de segundo maior serviço no mundo, surgiu em 2016 com o atrativo de possuir preços populares. Estúdios com grandes títulos, como a Disney e a Warner Bros., também lançaram suas próprias plataformas. No cenário nacional, a Globo criou sua plataforma e hoje tem 30 milhões de usuários, pagos ou não, utilizando-a, tendo ultrapassado a gigante Netflix, segundo dados da Kantar Ibope Media divulgados pela Bloomberg Media.

Com tantas outras opções sendo criadas, o consumidor fica cada vez mais indeciso ao decidir qual serviço assinar. Para ter acesso aos principais streamings que fornecem conteúdo audiovisual, com os planos mais básicos, o consumidor deve pagar:

  • Netflix: R$ 18,90 por mês (serviço de 1 tela com anúncios);
  • Prime Video: R$ 9,92 por mês (plano anual);
  • HBO Max: R$ 19,99 por mês (plano anual);
  • Globoplay: R$ 14,90 por mês (plano anual);
  • Combo Disney+, Star+ e Lionsgate+: R$59,90 por mês (plano mensal com os três serviços);
  • Apple TV+: R$ 14,90 por mês;
  • Paramount+ R$ 19,90 por mês;
  • MUBI: R$ 29,90 por mês;
  • Para ter acesso a todos eles, o valor total que deveria ser desembolsado é de R$ 188,31.

Cada um deles tem a sua própria vantagem, seja um serviço extra, como é o caso do Prime Video que acompanha frete grátis nas compras da Amazon, ou um catálogo de filmes e séries populares entre o grande público, que é o caso do Disney+.

Quem perde é o público

Embora tenha uma enorme possibilidade de assinatura, o público encontra outro desafio: o que assinar. Um cidadão médio que ganha o salário mínimo de R$ 1.320, que tem que gastar com despesas básicas mensais, raramente conseguirá adquirir todos os principais serviços de streaming para consumir em seu tempo livre. Geralmente, o que fica acessível é escolher entre uma das plataformas, mas as animações de sua infância estão no Disney+, as séries mais comentadas estão na Netflix, grandes títulos do cinema saem direto para o HBO Max e os outros também têm a sua qualidade.

Sem ter como pagar um serviço oficial, muitas pessoas recorrem à pirataria. Segundo relatório divulgado pela Variety, uma das maiores revistas dos Estados Unidos, houve um aumento de 13% na pirataria de cópias e reproduções de filmes no mundo em 2022, sendo que 57% do conteúdo pirata acessado ocorria em sites de streamings não licenciados.

A saída de conteúdo dos serviços de streaming

O site ReelGood, que junta em um só lugar todos os serviços de streaming para que os usuários possam saber o que está presente em cada plataforma, possui uma ferramenta para negócios, o Reelgood Catalog Insights. Com acesso a demo dessa ferramenta, o Lab Notícias pôde verificar a base de dados sobre os serviços de streaming no território dos Estados Unidos, que é colocado a disposição no site de visualização de gráficos Amazon Quicksight.

Em comparação a julho de 2022, a Netflix passou de uma taxa de remoção de catálogo de 0,1% para 3,5% em junho do ano seguinte. O que explica a remoção de filmes e séries é que os detentores dos direitos dessas obras fazem um contrato de exibição, para que os streamings possam exibi-las por certo período. Ao fim dele, a empresa decide se renova ou não aquele contrato, ficando disponíveis aqueles conteúdos considerados mais chamativos e lucrativos, que darão retorno.

Entre os gêneros com mais adições nas plataformas Prime Video e Paramount+ estão no pódio, respectivamente: drama, comédia e ação e aventura.

Enquanto há, sim, um número grande de adições no catálogo, também tem o apagamento de conteúdo original. Antes um diferencial, agora os filmes e séries originais estarão sendo retirados permanentemente. Isso ocorre para cortar gastos, já que ao retirar essas obras não terão que pagar as taxas que seriam encaminhadas para a equipe que produziu a série ou filme, que são chamadas de residuals.

Em maio de 2023, o Disney+ anunciou que retiraria do catálogo algumas de suas obras originais. Entre elas estava Willow, uma série de fantasia do mesmo universo do filme homólogo de 1988. Em seu Twitter, um dos roteiristas da série expressou indignação:

Tradução: “Eles nos deram seis meses. Esse negócio se tornou cruel. Antes que você diga isenção de impostos: esses programas já foram lançados e, portanto, não podem ser tirados da isenção. E no caso de Willow, eles [Disney] são os donos da propriedade. A única conclusão é que isso é para evitar o pagamento de residuals. Durante uma greve [dos roteiristas].”


As palavras de um amante da sétima arte

Para falar mais sobre, trouxemos o graduando em História na Universidade Estadual do Ceará (UECE), Carlos Rian de Freitas Nunes Oliveira, dono da página Hulk Cinéfilo, que faz divulgação de filmes de fora do circuito de grandes estúdios, principalmente para o público mais jovem.

Lab Notícias: Você faz um trabalho bem interessante em divulgar filmes e diretores menos conhecidos, principalmente para o público mais jovem, através das suas postagens. Como você enxerga os filmes disponíveis em catálogos de serviços de streaming e a retirada de obras mais antigas?

Rian: Acredito que os streamings são mais uma forma do mercado moldar o gosto do público, algo que já acontece na distribuição dos filmes pras salas de cinema. Mas no streaming, isso fica mais evidente com o uso de algoritmos que mapeiam o que é tendência e buscam eliminar o que não está dando o retorno esperado pro serviço. Além disso, o streaming surgiu com a promessa de que o público enfim teria um poder de escolha que não possuía na TV. Porém, mesmo sua escolha do que assistir é condicionada pelo que o streaming quer que esteja no catálogo e o que é ofertado.

Se você abrir a Netflix hoje, é difícil encontrar um conteúdo que não seja original do serviço na página inicial, o streaming bombardeia pro assinante o que é de seu interesse. Nesse contexto, os filmes antigos não se encaixam nos interesses dos streamings, pois não trazem o retorno financeiro que a série do momento pode trazer. Dessa forma, ficam escondidos no catálogo do serviço (isso quando estão disponíveis). Recentemente, a HBO Max retirou uma grande parte do seu acervo de clássicos da Warner de seu serviço, mostrando que mesmo uma empresa que possui uma história tão rica em Hollywood não tem interesse em manter e difundir sua história. Como instigar o interesse do público em filmes antigos se esses não são ofertados? O mesmo vale pra cinema brasileiro.

Você acha que serviços de streaming como o Mubi suprem essa demanda?

A MUBI com certeza tem um ótimo catálogo para quem busca filmes clássicos e diferentes, mas eu ainda acho que as pessoas não podem reduzir o que vão ver a partir do que está disponível em streamings. É comum eu recomendar filmes no perfil e as pessoas perguntarem em qual streaming está disponível, muita gente deixa de ver se não está em nenhum serviço. Nesse sentido, eu concordo com o Werner Herzog quando ele diz que a pirataria é a maior forma de distribuição do mundo. Com o streaming, a maioria das pessoas acabam vendo apenas o que está disponível oficialmente, por comodidade mesmo. Pra mim, isso é um problema.

Alguns filmes estão disponíveis gratuitamente em meios como o Internet Archive, YouTube e Vimeo. Esses meios facilitam o acesso a filmes mais nichados de certa forma?

Com certeza! Por exemplo, muitos clássicos do cinema brasileiro estão disponíveis no Youtube, mas percebo que às vezes as pessoas não sabem disso. Já aconteceu várias vezes de pessoas me perguntarem onde estava disponível filme X e uma rápida pesquisa no Youtube tiraria essa dúvida.

Como que essa forma de disponibilidade moldada pelos serviços de streaming podem refletir no futuro da indústria do cinema e na forma em que consumimos os filmes?

Acho que os efeitos já podem ser percebidos, como filmes e séries sendo produzidas a partir de análises de algoritmo. De certa forma, é algo que sempre aconteceu na indústria cultural, mas o algoritmo potencializa esse fenômeno. Além da questão da padronização das produções, muitos trabalhadores do setor acabam perdendo espaço na indústria. A última temporada de Barry comenta isso de forma interessante. Se me permite indicar pessoas que falam muito bem sobre essas questões, indico os trabalhos da pesquisadora Marina Rodrigues e do professor Philippe Leão.

2 thoughts on “Serviços de streaming: Placebo para o acesso à cultura?”

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