- Magreza extrema volta a ser tendência dentro e fora das passarelas - 16 de dezembro de 2025
- Fim da obrigatoriedade das autoescolas: proposta do governo se mostra polêmica e preocupa especialistas - 28 de novembro de 2025
- Prefeitura de Goiânia planeja concessão de parques à iniciativa privada - 4 de novembro de 2025
Foto em destaque: Natália Elmor
Amanda Chang é DJ e produtora musical, natural de Juiz de Fora, Minas Gerais. Com uma carreira sólida desde 2009, já se apresentou em grandes festivais e clubes, como o Rock in Rio (Brasil e Lisboa) e a Modular Society Berlin, além de realizar performances imersivas em museus e ruínas históricas. Seu trabalho mistura diferentes estilos de música eletrônica e é marcado pelo uso de sintetizadores modulares.
Em 2022, estreou uma nova assinatura artística, Chang Rodrigues. Com mestrado em música, desenvolveu pesquisas sobre performances imersivas que exploram a espacialidade como elemento central da experiência sonora. Além disso, Amanda é co-fundadora do projeto CANAL, festa independente que celebra a música eletrônica em espaços públicos de Juiz de Fora.
Atualmente, vive em Berlim, onde segue produzindo, se apresentando e compartilhando conhecimento em workshops de música eletrônica. Em entrevista ao Lab Notícias, Chang Rodrigues reflete sobre sua carreira, inspirações e conexão com o som.

Qual é o papel da música na sua vida? O que ela representa pra você?
A música rege minha vida. Ela é a ferramenta que eu escolhi para viver e compartilhar.
Em 2016, você inaugurou uma nova fase e mergulhou de cabeça no universo dos sintetizadores, trazendo uma abordagem até então inédita ao seu trabalho. O que você acha que impulsionou essa mudança?
Em 2016, eu vivia uma mudança pessoal importante: após o fim de um casamento de oito anos, precisei tomar decisões profissionais que me permitissem seguir com independência. Eu já tinha experiência em diferentes áreas da noite — como diretora de performance, produtora de festas e RP —, mas percebi que a música era o que realmente me movia.
Trabalhar como DJ não era algo que eu esperava, mas quando ocorreu essa mudança significativa na minha vida pessoal, decidi me aprofundar no mundo da música. Eu sabia que seria um caminho longo, quase como recomeçar do zero. Optei por algo mais artístico e profundo, e passei a buscar compreender a música eletrônica em sua origem. Sempre fui muito curiosa: queria saber de onde surgiu a música eletrônica, qual era a sua história e como ela se conectava à história da música e da própria humanidade.
Nesse período de quase dez anos, mergulhei no universo dos sintetizadores modulares e me dediquei intensamente. Continuo estudando até hoje, porque tenho uma personalidade inquieta: gosto de evoluir, aprender sempre. Se algo fica estagnado, não funciona para mim. Preciso de possibilidades infinitas de criação, e sinto que essa escolha está completamente alinhada com meu espírito, minha personalidade e minha curiosidade.
Um outro marco importante foi a decisão de me mudar para Berlim, capital mundial da música eletrônica, onde há diversidade e artistas de todas as partes do mundo. Eu sabia que esse momento chegaria mais cedo ou mais tarde, e hoje estou muito feliz de viver isso. Me sinto com bagagem e pronta para compartilhar o máximo possível, seja por meio das redes sociais ou de outras plataformas.
Claro, às vezes as coisas parecem demoradas, e nem sempre temos paciência para curtir o processo. Mas aprendi a respeitar meu ritmo, nem sempre consigo fazer tudo que gostaria, mas sigo caminhando um pouco a cada dia.
Como você acha que esse aprofundamento nessa nova linha artística mudou a sua perspectiva em relação ao som?
Mudou completamente. Essa escolha de seguir por um caminho mais artístico me conectou com o que eu realmente sinto, algo muito profundo que jamais imaginei conseguir expressar. O primeiro projeto que lancei nesse sentido foi Ruínas, que marcou minha nova assinatura artística, Chang Rodrigues. Esse projeto simboliza exatamente essa fase e a forma como passei a me relacionar com o som.
Para mim, o som está diretamente ligado ao instrumento — no caso, o sintetizador —, que oferece infinitas possibilidades sonoras e amplia a criação muito além do que se pode imaginar. Em Ruínas, busquei traduzir as sensações que uma ruína desperta. Coletei percepções da minha audiência sobre o que uma ruína representa: desconstrução, abandono, amor, natureza, paz, morte. Transformei essas ideias em sons, que não seguem a lógica tradicional da música com notas, mas se apresentam de forma abstrata.
O resultado foi um material audiovisual em parceria com dois diretores, no qual desenvolvi três peças de música eletrônica orgânica, conceito que também explorei no meu mestrado. Hoje, vejo o som como um organismo vivo, com movimento e vida, e isso mudou totalmente minha forma de criar e me relacionar com a música.

Sua pesquisa de mestrado foi voltada para a espacialidade sonora. Você também já citou que analisa o som como uma presença física e espacial. Qual seria essa relação entre o som e o espaço?
Eu enxergo o espaço como mais um parâmetro musical, assim como as notas, a harmonia, o ritmo, o pulso e a intensidade. Da mesma forma que esses elementos estruturam uma música, o espaço pode ser usado para dar vida aos personagens sonoros.
No meu trabalho, cada elemento sonoro pode nascer de um ruído ou de diferentes formas de onda de um sintetizador. A partir dessas fontes, vou modulando e criando sons que se transformam em personagens dentro da composição. No meu mestrado, por exemplo, trabalhei uma peça do projeto Ruínas em que associei um ruído ao personagem Oxum. Dei movimento a esse som, fazendo com que ele se deslocasse e percorresse trajetórias circulares entre caixas de som. Essa experiência me permitiu explorar o espaço como algo vivo, quase espiritual, capaz de transmitir sensações de intuição e vibração.
Essa abordagem me abriu muitas possibilidades criativas, especialmente ao integrar som, espiritualidade e vivências pessoais. Gosto de pensar que minha música deixa rastros e compartilha algo maior do que apenas notas, que ela compartilha estados vibracionais. O desafio é tornar isso acessível, comunicar de forma que as pessoas consigam sentir e se conectar.
Hoje, busco equilibrar essa pesquisa artística com a realidade prática de viver de música. Já tive mais visibilidade tocando faixas mais acessíveis, mas decidi seguir por um caminho mais autoral, que em Berlim encontrou público e comunidade. Ainda assim, é um desafio conciliar criação e sobrevivência. Por isso, além de me apresentar, também dou workshops e compartilho conhecimento, porque acredito que quanto mais dividimos o que sabemos, mais fortalecemos outros artistas. No fim, todos somos criadores, e encorajar esse processo nos ajuda a ser mais verdadeiros com quem somos.
As suas performances exploram a relação entre ancestralidade e natureza. Como esse diálogo se manifesta no seu processo criativo?
Para mim, a ancestralidade chegou muito pelos rituais — principalmente da Umbanda, da espiritualidade e da minha família. Ela está ligada ao ato de honrar quem veio antes de nós. Muitas vezes não fazemos ideia do quanto foi necessário em gerações passadas para que pudéssemos estar aqui hoje.
Eu vejo a ancestralidade como uma inspiração constante, um respeito por tudo o que nos antecedeu. Quando percebo elementos ancestrais que me chamam atenção — sejam objetos, rituais, livros ou a própria natureza — tudo isso desperta minha criatividade. A ancestralidade, para mim, se manifesta nesse diálogo com a natureza, no respeito e na inspiração que ela traz para o meu processo artístico.
A sua jornada artística foi marcada por ciclos e transformações, algo que também se reflete justamente no seu projeto Ruínas, como você já comentou aqui. Você diria que a sua arte acompanha não apenas o seu desenvolvimento profissional, mas também traduz aspectos do seu percurso pessoal?
Com certeza. Para mim, essa jornada é muito pessoal. Existem artistas que vivem a arte ao seu modo, e eu me vejo nessa categoria. O que eu produzo reflete diretamente o que estou vivendo no momento; meu trabalho e minha vida pessoal estão muito ligados, e eu não separo um do outro.
Como co-fundadora do projeto CANAL, que leva música eletrônica para espaços públicos em Juiz de Fora, como você vê o impacto social de tornar esse estilo musical mais acessível?
Ser co-fundadora do CANAL é muito gratificante para mim, porque a ideia é levar música eletrônica para os espaços públicos. Muitas vezes, a música eletrônica é vista como algo elitizado, presente apenas em clubes ou acessível para quem viaja. No nosso projeto, ao levar a música para a rua, qualquer pessoa é bem-vinda.
Já realizamos cinco ou seis edições, e neste ano conseguimos aprovação em um edital, o que permitirá remunerar os artistas e valorizar todo o coletivo. Não fazemos nada sozinhos, e é muito gratificante oferecer música eletrônica de ponta para todos, seja em apresentações ao vivo, com sintetizadores ou DJs, explorando diferentes formatos.
