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Como o mercado de créditos de carbono virou disputa estratégica entre grandes empresas e se consolidou como nova fronteira financeira do Brasil

O carbono armazenado na mata amazônica deixou de ser apenas um dado climático e passou a valer muito dinheiro. Com a sanção da nova lei de regulação do mercado de carbono e investimentos crescentes de gigantes do sistema financeiro e da energia, a floresta brasileira se tornou peça-chave de um tabuleiro global de especulação verde. A disputa pelos créditos de carbono (títulos que equivalem a toneladas de CO₂ evitadas) transformou-se numa nova corrida econômica: empresas compram, bancos certificam, investidores apostam, comunidades aguardam resultados. O prêmio: bilhões de reais e o poder sobre quem preserva a floresta.
Perguntado sobre uma oportunidade concreta de desenvolvimento sustentável com o avanço do mercado de carbono no Brasil, o economista e doutor em Ciências Ambientais, Cleidinaldo de Jesus ressalta:
“O mercado de carbono pode mudar a economia da Amazônia ao gerar lucro pela preservação, mas sem governança, transparência e participação local, vira especulação, não conservação. A floresta pode valer bilhões, mas isso precisa chegar ao território e às comunidades, ou apenas trocamos a exploração física por financeira.”
O que são créditos de carbono e por que importam
- O que são: Um crédito de carbono representa uma tonelada de CO₂ que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera, geralmente através da preservação florestal, reflorestamento ou manejo sustentável.
- Como funciona: Em tese, empresas que poluem podem compensar seu impacto comprando créditos emitidos por projetos de conservação.
- Para que serve: A floresta deixa de ser vista como “terra de exploração” e passa a ser “capital natural”: ativo tangível-numérico.
No Brasil, a aprovação da Lei 15.042/2024 instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), abrindo caminho para regulamentar e dar escala a esse mercado até 2030, segundo o cronograma.
Com isso, cresce o apelo econômico de ativos antes ignorados e a pressão para tornar o Brasil protagonista de uma economia global que precifica carbono.
A corrida pelo carbono: bancos, empresas e o “boom” financeiro
A nova fase desse mercado está sendo impulsionada por jogadores de peso. Em novembro de 2025, na COP30 em Belém, foi anunciada a criação da Ecora, a certificadora nacional de créditos de carbono, resultado da parceria entre BNDES, Bradesco e o fundo EcoGreen. A consultoria americana Aecom será responsável pela assessoria técnica.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, disse que o banco quer fortalecer o setor no Brasil e garantir competitividade internacional:
“Esse projeto vai democratizar e estabelecer o diálogo com a nova legislação para o mercado regulado”
Segundo o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha,
“O Brasil possui posição privilegiada no mercado de carbono, com biomas diversos e alcance nacional, algo que nenhuma certificadora internacional conhece tão bem”.
A certificadora pretende preencher uma lacuna: dar credibilidade, rastreabilidade e governança aos créditos emitidos no Brasil, reduzindo dependência de normas estrangeiras e tornando o ativo carbono comparável a commodities tradicionais.
Para investidores, o potencial já é grande: um estudo da PwC Brasil aponta que o país poderia gerar até 370 milhões de toneladas de créditos de carbono até 2030, mais de nove vezes o que se estima ser a demanda interna.
Dado o volume potencial, muitos fundos e empresas já se movimentam: a Petrobras, por exemplo, fechou acordo com o BNDES para comprar créditos via restauração florestal na Amazônia, cerca de R$ 450 milhões na primeira fase, com expectativa de replantar 15 mil hectares.
Para essas corporações, o crédito de carbono funciona quase como uma “ação verde”: pode ser comprado, vendido, registrado nos balanços ESG, servir de lastro para financiamento sustentável, ou simplesmente para compensar emissões, transformando preservação em capital.
Nem tudo são flores: integridade contestada e “carvão sujo”
Apesar do empurrão financeiro e institucional, o mercado de carbono brasileiro convive com graves acusações de fragilidade estrutural. Uma investigação recente da InfoAmazonia revela que 61% de todo crédito de carbono vendido da Amazônia está sobreposto a áreas com concessões minerárias , ou seja, florestas que, em tese, deveriam estar preservadas podem estar destinadas à extração de minérios.
O levantamento aponta 114 projetos REDD+ mapeados no Brasil; desses, 73 têm sobreposição total ou parcial com áreas minerárias. Dentre eles, 31 já comercializaram créditos. A soma atinge 40,1 milhões de toneladas de CO₂ vendidas, uma quantidade considerada ambientalmente “comprometida”.
Em muitos casos, há ainda autorização de pesquisa, pedidos de lavra ou concessões ativas mesmo após a certificação. Isso fragiliza a “adicionalidade” e a “permanência”, dois critérios básicos para garantir que o crédito represente uma redução real e duradoura de emissões.
Logo, mesmo com mercado em expansão e certificadora nacional em perspectiva, persistem dúvidas: até que ponto os créditos vendidos são legítimos? Quanto desse carbono é “embalagem verde” e quanto é real proteção climática e ambiental?
Impactos socioambientais e dilemas territoriais
O potencial econômico enorme do carbono também atravessa territórios e comunidades tradicionais. Se por um lado a preservação pode gerar renda, empregos e investimentos verdes, por outro há risco de transformar florestas e áreas naturais em mercadoria negociável, com violações de direitos territoriais, decisões de uso do solo e conflitos socioambientais.
No contexto dos projetos REDD+ comercializados, muitos casos de sobreposição com concessões minerárias ocorrem em terras indígenas ou áreas sensíveis da Amazônia. A coexistência entre proteção florestal e autorização de mineração é considerada por especialistas uma contradição irreconciliável: “não se preserva e se minera ao mesmo tempo”, como afirma a pesquisadora Marcela Vecchione Gonçalves, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Essa dualidade tende a colocar comunidades tradicionais em posição vulnerável : sujeitas a pressões externas, contratos complexos e promessas de compensação que podem não se concretizar a longo prazo.
Além disso, a mercantilização do carbono tende a abrir espaço para intermediários (fundos, certificadoras, consultorias) que nem sempre garantem transparência ou participação local equitativa. A floresta vira “ativo financeiro”, e quem detém a documentação e o capital domina o processo.
O futuro do mercado: Com governança há um potencial gigantesco
O cenário econômico para o mercado de carbono no Brasil é ambicioso. Com o SBCE em vigor e iniciativas de certificação nacional como a Ecora, o país se coloca como uma das principais capitais da chamada economia verde. A estimativa da PwC (de até 370 milhões de toneladas de créditos emitidos até 2030) mostra o alcance do que está por vir.
Mas o crescimento dependerá de credibilidade, transparência e condução certeira: critérios de certificação claros, fiscalização efetiva, rastreabilidade geoespacial, envolvimento real de comunidades, respeito aos direitos ambientais e territoriais. Sem isso, o mercado corre o risco de deslizar para especulação desenfreada, greenwashing e colapso reputacional, o oposto da ambição de sustentabilidade.
Para investidores e empresas, a aposta é de longo prazo: crédito de carbono pode tornar-se um ativo tão estratégico quanto minério, petróleo ou grãos agrícolas, com liquidez, valorização real e importância geopolítica. Para a floresta, no entanto, o desafio será preservar mais do que vender.
