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A organização do conhecimento, longe de ser uma atividade puramente técnica e neutra, é um campo atravessado por ideologias, posições políticas e visões de mundo. Sob a ótica da Teoria Crítica, os sistemas de classificação, como a Classificação Decimal de Dewey (CDD), deixam de ser vistos apenas como ferramentas de recuperação para serem compreendidos como dispositivos de poder que ordenam e legitimam discursividades. A CDD, em sua gênese e estrutura, reflete o contexto histórico do século XIX e a mentalidade de seus idealizadores, perpetuando uma visão eurocêntrica e ocidentalizada que marginaliza saberes e identidades que fogem a esse padrão.

/O principal desafio ético e crítico reside no fato de que os sistemas de representação nunca são inocentes. A CDD é frequentemente criticada por ser pautada pelo prisma do WASP (homem, branco, protestante e anglo-saxão). Essa base epistemológica manifesta-se claramente na organização das classes.

Um exemplo significativo encontra-se na classe Religião. O Cristianismo recebe um tratamento exaustivo e privilegiado, enquanto as demais crenças são agrupadas de forma subordinada em categorias como “Religiões não cristãs”. Essa dicotomia reforça a ideia de uma cultura dominante central em oposição à alteridade, vista como anormal ou secundária.

Além do proselitismo religioso, a CDD promove o que pesquisadores denominam de “guetificação” ou encerramento espacial de grupos sociais. Como o sistema é organizado por disciplinas e não por temas, materiais relativos a gênero, raça e orientação sexual encontram-se dispersos ou confinados em subclasses específicas. Consequentemente, isso lhes retira identidade e força representativa.

Por exemplo, o tratamento de temas como a homossexualidade esteve, durante muito tempo, atrelado a termos deturpados ou inadequados, como “perversão sexual” ou “desvios”, refletindo preconceitos da sociedade burguesa incorporados aos instrumentos de classificação.

Nesse contexto, a análise crítica, inspirada em pensadores como Michel Foucault, alerta que classificar é uma escolha do pensamento humano e que as estruturas consideradas “naturais” do conhecimento são, na verdade, construções sociais sustentadas por discursos bem articulados. Assim, os sistemas classificatórios não apenas descrevem a realidade, mas também participam ativamente de sua construção.

Dessa forma, o profissional da informação exerce aquilo que Hope Olson denomina “poder de nomear”. Sob a perspectiva da Teoria Crítica, esse poder deve ser utilizado com responsabilidade ética para denunciar as irregularidades dos sistemas tradicionais e buscar uma garantia cultural que preserve as crenças, os valores e as experiências das minorias.

Para romper com essa hegemonia estruturalista e eurocêntrica, propõe-se uma transição para posturas pós-estruturalistas, como o pensamento rizomático de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Enquanto o modelo arborescente da CDD privilegia a hierarquia, a centralidade e a linearidade, o rizoma permite conexões heterogêneas, múltiplas e imprevisíveis, acolhendo a diversidade e os constantes “devires” da vida social.

Nessa mesma direção, Giorgio Agamben afirma que ser contemporâneo exige fixar o olhar nas “trevas” do próprio tempo, ou seja, naquilo que foi ofuscado pelas luzes da tradição dominante. Para o bibliotecário, isso significa reconhecer os silêncios e exclusões produzidos pelos sistemas classificatórios e criar novas possibilidades de visibilidade para o inédito, o marginalizado e o excluído.

Conclui-se, portanto, que a superação das visões eurocêntricas presentes na CDD exige mais do que ajustes técnicos; requer uma verdadeira mudança de paradigma. O compromisso do profissional deve ser o de atuar como um mediador crítico, promovendo uma ética transcultural de mediação que não sufoque a diversidade em favor de uma universalidade fictícia.

Somente por meio do questionamento dos modelos hegemônicos e da experimentação de novas formas de organizar o conhecimento será possível construir sociedades verdadeiramente democráticas, inclusivas e representativas da pluralidade humana.

Referências

AMORIM, Igor Soares; SALES, Rodrigo de (org.). Ensaios em organização do conhecimento. Florianópolis: UDESC, 2021. 212 p..

PINHO, Fabio Assis. Fundamentos da organização e representação do conhecimento. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2009. 156 p..

PINHO, Fabio Assis; MILANI, Suellen Oliveira. Organização do conhecimento crítica: reflexões sobre representação e homossexualidade. In: AMORIM, Igor Soares; SALES, Rodrigo de (org.). Ensaios em organização do conhecimento. Florianópolis: UDESC, 2021. p. 187-210.

SALES, Rodrigo de. Para uma organização do conhecimento contemporânea: contribuições de Foucault, Agamben, Deleuze e Guattari. In: AMORIM, Igor Soares; SALES, Rodrigo de (org.). Ensaios em organização do conhecimento. Florianópolis: UDESC, 2021. p. 13-40.

GUIMARÃES, José Augusto Chaves; PINHO, Fabio Assis. Desafios da representação do conhecimento: abordagem ética. Informação & Informação, Londrina, v. 12, n. 1, 2007.

A AÇÃO cultural e apropriação da informação sob a perspectiva da teoria crítica. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, [20–].

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