Durante a década de 1950, o biólogo Ludwig von Bertalanffy desenvolveu uma teoria baseada na anatomia para explicar o processo comunicacional da sociedade, usando dos sistemas presentes no corpo humano para explicar a ideia. Ele associava a comunicação a um processo sistêmico, em que diversas microestruturas formam uma estrutura principal que precisa ser alimentada para fazer todo o ciclo de comunicação de uma informação, tal qual o corpo humana precisa de todos os sistemas em bom funcionamento para manter a boa saúde do organismo.
Diante disso, a “teoria dos sistemas” ganhou força entre os intelectuais da comunicação, que eventualmente foram aprofundando os estudos para cada era da informação em que o mundo entrava. Atualmente, vive-se na era da internet, dos sistemas digitais, inteligências artificias e redes sociais. Tudo é entregue em tempo real para os usuários, que simplesmente não possuem um tempo amplo para processarem a informação que receberam, pois logo em seguida, em um movimento de “rolar a tela” de um aparelho eletrônico, eles são recepcionados com mais uma nova informação. Além disso, ainda tem se a disseminação de mentiras em alta frequência, o que ainda causa mais confusão na cabeça dos usuários.
Tendo em vista que em sua criação a teoria sistêmica contava com o tempo de digestão da informação, os princípios dessa teoria, como entrada, processamento, saída e retroalimentação têm sido colocados em risco por conta da rapidez em que os dados chegam aos usuários, o que atrapalha o acontecimento do ciclo completo da informação. E a pergunta que fica é: como adaptar os sistemas comunicacionais da informação para um mundo que tem recebido tantas informações no mesmo minuto?
Analisando a situação por um prisma amplo, é possível compreender que a disseminação da internet não era pensada como algo acelerado e afobado por seus criadores. No documentário “O dilema das redes”, de 2020, os especialistas em tecnologia que trabalharam na criação das redes sociais expõem como a situação chegou a esse nível. Iniciando como um mero projeto de programas para integralizar a socialização virtual e inofensiva a população, aplicativos como o Facebook ganharam tração e força com a alta quantidade de usuários.
Buscando faturar com esses usuários, Mark Zuckerberg, criador da rede social e seu algoritmo, começa a planejar táticas para aumentar o seu lucro e nisso, o app passou a possuir uma grande demanda de anúncios, presença de perfis artificiais e impulsionamento de perfis que divulgavam mentiras, pois o sensacionalismo “gerava clicks” e esses clicks geravam dinheiro para a Meta, empresa responsável pelo Facebook, pois a grande quantidade de usuários transformava os centavos em milhões de dólares. Com isso, os parâmetros criados pela teoria sistêmica começaram a ir por água abaixo, pois a informação deixava de ser processada e chegava às grandes massas, que entorpecidas pelo inacabável fluxo de dados e vencidas pelo cansaço mental perdiam a autonomia de criticar o que veem, realizando o importante processo de retroalimentação, que é devolver em forma de feedback uma resposta para a plataforma do dado que processou.
Diante do problema, é possível retornar a teoria e chegar à Nobert Wiener, que criou a ideia de Cibernética a partir do conceito de Bertalanffy, visando a necessidade de um controle das plataformas condutoras da informação, para que elas não prejudiquem os sistemas que trabalham com a recepção de todos os dados para a população. O autor trabalha com a ideia de que existem três subsistemas que juntos trabalham para essa transmissão informacional e qualquer problema que aconteça no tráfego está ligado em alguma falha em suas estruturações, são eles: subsistema político, técnico e sociotécnico.
No subsistema político, entende-se que a falha está na criação de políticas de proteção e verificação das informações. Por ser algo recente, ainda não existem políticas tecnológicas tão bem estruturadas que garantam essa proteção, porém elas não são nulas. No Brasil, existe um projeto de lei que busca punir aqueles responsáveis pela disseminação de notícias fraudulentas e empresas de tecnologia que auxiliam na fácil distribuição delas. Apesar de ter sido arquivado, isso demonstra a importância do debate e da população em prestar atenção no interesse de órgãos políticos em dificultar o bom funcionamento da cibernética e da teoria sistêmica.
No subsistema técnico, a falha está mais ligada a transição de softwares e programas de buscas, na transição de links no formato HTML para algum software. Uma vez que os usuários querem ter acesso ao que está sendo divulgado por meio de uma postagem e não conseguem por conta da transição mal feita entre dados das redes sociais para outros sites da internet que são acessados pela promoção via rede social.
No subsistema sociotécnico, o maior problema é a dificuldade de explicar para usuários mais leigos os erros que acontecem nas redes sociais quanto o transporte de mensagens que se convertem em informações. Ademais, a diminuição da capacidade crítica dos usuários, uma vez que muitas pessoas ainda entendem a internet como um espaço mágico em que os problemas serão resolvidos de forma “mirabolante”, e não por meio de sistemas bem estruturados e interligados uns aos outros. Isso parece ser proposital em certo ponto, pois como dito antes, na internet e pros donos de grandes empresas de tecnologia e comunicação, a quantidade de clicks vale mais do que a compreensão das pessoas no que estão clicando, assim quebrando a retroalimentação, que acaba sendo vista como desnecessária para os usuários já viciados em apenas clicar e rolar as telas sem compreender o que veem.
A partir da compreensão da teoria sistêmica, da cibernética, dos subsistemas que a informação percorre e da alta frequência de dados informacionais direcionados aos usuários que dificultam o funcionamento da cadeia de sistemas criados, é possível perceber que com o sucesso das redes sociais, advindas das “bigtechs”, a cibernética está sendo comandada pessoas que estão mais preocupadas em lucrarem com suas plataformas e dificultarem o ciclo montado de distribuição comunicacional da informação. No fim, isso mostra a contradição de intelectuais que beberam da fonte teórica criada por Ludwig von Bertalanffy e não parece ser tão promissor, pois uma vez que uma sequência estruturada é enfraquecida quem mais sofre com ela é a população e quando não haver mais um ponto de retorno, aqueles que se preocuparam apenas em lucrar terão que dar ouvidos aos especialistas que buscam adaptar os sistemas ao modelo atual mais popular de recebimento de informações.
REFERÊNCIAS
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