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O telejornalismo – prática profissional jornalística aplicada à televisão – é um ramo muito amplo, importante no Brasil inteiro e umas das principais expressões nascentes do segmento. Em nosso estado essa relevância não poderia ser diferente, dadas as grandes histórias do telejornalismo goiano ao longo dos anos, desde seu surgimento nos anos 50.

Lucílio Macedo, hoje repórter e apresentador do Jornal do Meio Dia pela TV Serra Dourada, foi convidado para nos contar um pouco mais sobre sua trajetória na área e sobre suas experiências e vivências em mais de duas décadas no jornalismo. Ademais, ele compartilhou um pouco da rotina do telejornalismo, bem como revelou os principais desafios, lados bons e ruins que podem ser encontrados no cotidiano de quem está inserido nessa profissão.

Foto: Instagram/Lucílio Macedo

O início de tudo

LN: Primeiro, queremos conhecê-lo um pouco mais. Lucílio, como foi a escolha do jornalismo para você? Como o telejornalismo surgiu na sua vida?

Lucílio Macedo: O telejornalismo surgiu na minha vida por acaso. Eu costumo dizer que o telejornalismo me puxou, eu nunca fui atrás de ser jornalista. Em televisão eu quis trabalhar com entretenimento e essa minha jornada começou em 2002, quando eu me cerquei de pessoas e tínhamos projetos em comum e nós buscamos primeiro via terceirizado. E o que é isso? A gente alugaria um espaço na TV e faria um programa. Esse projeto não deu certo mas nós acabamos conseguindo entrar em um projeto de uma outra pessoa e começamos essa jornada em 2003 num programa de entretenimento. Esse programa durou um ano e eu sempre conciliei esse trabalho com publicidade, eu era garoto-propaganda para diversas marcas no Brasil inteiro.

No ano de 2005 eu consegui enfim meu primeiro contrato com a TV Goiânia Band para fazer um programa que eu queria de entretenimento e nesse programa eu fazia produção, reportagem e cobria grandes eventos e bandas, quando elas vinham aqui para Goiânia. Só que esse projeto acabou, mas eu continuei ainda na Band para tocar um projeto publicitário de informes. Sempre fui “flertado” pela equipe do jornalismo lá que via minhas reportagens na área do entretenimento que era jornalismo já, mas era um jornalismo voltado para evento e me queriam na área policial, na área de cidades e eu sempre fugia disso. Como o programa saiu do ar, eu topei fazer algumas reportagens e o meu erro foi esse: ter topado, porque eu comecei a não conseguir mais sair do jornalismo desde então [risos].

Um sonho construído através do tempo

LN: Há quanto tempo você trabalha nesse ramo? Atuar no campo do telejornalismo sempre foi seu objetivo?

Bom, no ramo de televisão eu tenho 21 anos e telejornalismo eu acho que a minha resposta anterior já responde. Não era meu objetivo, o meu objetivo era o entretenimento, mas as coisas aconteceram e como meu sonho sempre foi ser apresentador, eu entrei no telejornalismo sonhando em ser apresentador de telejornal. No entanto eu me apaixonei pela profissão dentro dela, eu não tinha uma admiração e uma busca pelo telejornalismo antes de entrar. Dentro do telejornalismo eu adquiri essa paixão, essa vontade de crescer dentro do jornalismo e fazer jornalismo. Foi aprendendo dentro da coisa, eu não sonhei essa coisa antes.

Foto: Instagram/Lucílio Macedo

LN: Quais os principais e maiores desafios ao apresentar um telejornal na sua opinião, experiência e vivência?

Essa é uma pergunta muito aberta, muito abrangente. Eu acho que não existe uma resposta definitiva para essa pergunta, eu acho que é muito particular. Para mim, o maior desafio de apresentar um telejornal ao vivo é você lidar com autoridades importantes em entrevistas, de pessoas que exerçam importância e influência na sociedade. Eu acho que o maior desafio para mim é isso: é poder entrevistar essas pessoas respeitando o telespectador, porque o que nós vemos muitas vezes no jornalismo (e não me refiro a Goiás, me refiro ao Brasil), é que existe uma submissão muito grande ao entrevistar essas autoridades. E não estou falando de faltar ao respeito, nós temos que respeitar qualquer pessoa que apareça e que seja entrevistado por nós no estúdio ou fora dele, mas nós não podemos ser submissos a ninguém.

Eu tenho uma coisa muito forte em mim e classifico como uma característica coletiva minha, de não me curvar perante nenhuma autoridade em respeito ao telespectador. Porque naquele momento em que a autoridade está lá, o telespectador que paga o salário dessa galera espera é que eles respondam de alguma forma o que eles gostariam de perguntar. Então não tem que ter submissão, porque quem são os verdadeiros patrões dessas autoridades? É o povo. Tem uma parcela da imprensa que trata a autoridade como se fosse artista. Autoridade trabalha para nós cidadãos e eles devem responder aos nossos anseios.

Agora eu como patrão da autoridade, tenho que respeitar essa autoridade e eu evidentemente não posso tripudiar em cima dela, mas não ser submisso. Então eu acho que o maior desafio é você poder fazer uma entrevista coerente, dura, mas com respeito. Porque não dá para você ficar passando a mão na cabeça enquanto lá fora o mundo está pegando fogo. Esse para mim é o maior desafio: é de fazer uma entrevista bonita no sentido de cumprir o objetivo dela quando você tem uma autoridade na sua frente.

Respeito, mas respeito com responsabilidade, com coerência para você entregar ao telespectador o que ele precisa: uma resposta que vire amanhã ou o mais rápido possível, prática social (seja na segurança, seja na infraestrutura, seja na saúde ou qualquer que seja).

LN: Conte-nos um pouco de como é a rotina de trabalho de um apresentador. Sei que é um pouco cruel fazer essa pergunta e te fazer escolher entre apresentar ou ser repórter, mas qual deles você prefere?

Para mim não é crueldade nenhuma, eu sempre preferi ser apresentador de televisão, adoro fazer reportagem, eu faço uma reportagem todos os dias no Jornal Serra Dourada eu sou um dos poucos apresentadores que continuam fazendo. Nós temos nossos canais de comunicação e vamos fazendo a checagem durante 24 horas do que está acontecendo em Goiás de mais importante, do que está acontecendo no Brasil e no mundo que influencia Goiás. Essas informações são checadas o tempo todo, mas de uma maneira tranquila, não é tão frenético assim.

A gente evidentemente tem que ler todos os dias sobre diversos assuntos, para não sermos pegos de surpresa. Claro que a gente não tem como entender de turbina de avião e nem de nanoengenharia, mas nós temos que ter um conhecimento superficial de tudo. Evidentemente de coisas que a gente lide mais no dia a dia, aprofundar nos temas porque aí a gente não é pego de surpresa naturalmente. Por exemplo, termos jurídicos, termos policiais, termos que as pessoas usem nos bairros, dos nossos telespectadores, a gente tem esse canal de comunicação. Então 11hr temos o espelho fechado e eu sei de todos os assuntos e notícias ao vivo que vão acontecer, mas ao vivo tudo pode acontecer, tudo pode mudar e a gente lida com improvisos também [quando surge alguma notícia urgente de última hora].

LN: Qual sua parte favorita de gravar o jornal? Você tem algum bloco ou quadro preferido?

Não tem um quadro ou um bloco que eu goste mais, eu gosto da coisa toda acontecendo em harmonia. Você ver que colocou algo no ar relevante, que você prestou um serviço de informação de importante, de você colocar às vezes um apelo no ar de uma família que precisa de ajuda e você ver a resposta através das doações chegando para essa família. Algumas pessoas podem chamar isso de sensacionalismo, outras de assistencialismo… eu chamo de responsabilidade social.

Foto: Instagram/Lucílio Macedo

LN: O que você considera bom ou ruim no exercício dessa profissão?

O ruim é a rotina, porque a rotina entorpece a gente. Uma coisa que o jornalista tem que tomar cuidado e não deixar que isso vire algo definitivo é a desvalorização da profissão. Eu estou falando de Brasil e de mundo, porque o jornalista é desvalorizado financeiramente no mundo inteiro. Cabe a nós mudarmos isso, cada um na sua função e isso é possível, buscar ser valorizado. Isso vai muito da pessoa encarar realidades e buscar trabalhar com mais excelência para conseguir galgar as melhores posições do jornalismo.

O lado bom é que a profissão do jornalista vai te proporcionar um vasto conhecimento, proporcionar visitar lugares que ninguém tem acesso, conversar com autoridades que ninguém tem acesso. Mas no sentido de não ficar ali ludibriado, no sentido de adquirir conhecimento, de adquirir igualdade junto àquelas pessoas e àqueles lugares que você vai estar em contato para você crescer como pessoa, como cidadão e ter, claro, condições de fazer as mudanças sociais.

O lado bom é isso: a gente pode mudar uma realidade, a gente tem essa responsabilidade de mudar realidades, de melhorar essa sociedade que a gente está vivendo e a gente consegue isso sim com um bom jornalismo de vez em quando.

Dicas e conselhos para futuros jornalistas

LN: Quais os desafios você acha que um futuro profissional jornalista como nós em formação pode encontrar atuando na televisão?

São vários desafios. O primeiro: desmistificar essa coisa de que a televisão vai acabar. Se ela se enfraquece, pode acontecer, a rede social também se enfraquece de tempos em tempos e vivemos uma crise de credibilidade em geral. Agora, o profissional tem que segurar a audiência da televisão e isso vem muito com a integração da TV com a rede social e a rede social com a TV. Não é tão simples quanto parece, mas segurar a audiência com o profissionalismo e o jornalismo profissional que tem que ter a checagem, a correção da informação.

A televisão está bem. A nossa televisão local está bem e nós temos picos de audiência muito grandes em horários determinados da parte da manhã, na hora do almoço e a noite no jornalismo local. Tem muita coisa a ser feita sim, fiquem tranquilos, mas não fiquem tão tranquilos [risos]. Tem que trabalhar muito porque é um desafio diário, nós somos cobrados para ter audiência.

LN: E para finalizar, existe um perfil para trabalhar nessa área que é tão concorrida e buscada em Goiás?

Eu vou te responder de uma maneira bem simples como minha tia Zilda sempre falava para mim uma máxima da psicologia, ela falava assim: “o pensamento gera o sentimento, que gera o comportamento”. O perfil é você querer. Você quer trabalhar nessa área? Vai estudar, vai fazer faculdade que você vai conseguir! Se você quer muito alguma coisa, cuidado, ela pode acontecer.

Foto em destaque: Instagram/Lucílio Macedo

One thought on “Rotina no telejornalismo goianiense: jornalista Lucílio Macedo compartilha sua vivência e o dia-a-dia da profissão”
  1. […] Victor, o primeiro é o reconhecimento, sabe? O reconhecimento da profissão como um todo. Essa reconhecimento que eu falo é da sociedade. O primeiro desafio é esse, é reforçar perante a sociedade a importância do jornalismo porque, embora o jornalismo seja muito essencial, ele ainda não é valorizado. Valorizado no sentido em que as pessoas não entendem a importância dele. Por quê? Porque a gente trabalha com informação e o acesso à informação é um dos mecanismos da cidadania. Então, nós jornalistas, a gente contribui com o ser cidadão de cada um, do indivíduo. Você estar mais informado, você é um cidadão melhor. Então, a gente precisa ser mais valorizado em relação à sociedade. Os desafios da rotina, né? Que são trabalhar sábado, domingo, trabalhar feriado. Geralmente, a gente brinca que a gente tem hora para entrar, quem trabalha em redação, assim como eu, e não tem hora para sair. Então são essas pequenas rotinas que se transformam em desafios. […]

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