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A imagem do atual presidente Lula com estilhaços no peito estampou a primeira página da edição do dia 19 de janeiro do jornal Folha de S. Paulo. Com a polêmica gerada na internet, a autora da foto, Gabriela Biló, se pronunciou nas redes sociais:
Diante dos inúmeros questionamentos e controvérsias levantados acerca da imagem, conversamos com a professora interina de Fotografia da Universidade Federal de Goiás, Déborah Rodrigues Borges, para um panorama mais técnico e objetivo da problemática. Além disso, distante das críticas, a doutora em Arte e Cultura Visual também aprofunda a discussão sobre o fotojornalismo propriamente dito.

A polêmica da opinião fotojornalística
Lab Notícias: A montagem com a foto de Lula publicada pela Folha de São Paulo pode ser considerada fotojornalismo?
Déborah Borges: O fotojornalismo tem passado por muitas transformações e abrange todas as dimensões do jornalismo, inclusive a opinião. A fotografia mencionada não é uma fotomontagem. A fotomontagem se caracteriza por ser uma espécie de colagem que se utiliza de diferentes fotografias para criar novos significados.
A fotografia de Gabriela Biló é uma dupla exposição, técnica na qual se registra uma fotografia sobre a outra na câmera fotográfica. É como se não rodássemos o filme antes de fazermos uma nova foto na câmera digital. A dupla, ou múltipla exposição já foi utilizada por muitos fotojornalistas, em diferentes ocasiões, para propiciar a construção de sentidos que se adequem à proposta da pauta ou da matéria.
Tem, claramente, um elemento de opinião presente, pois é uma construção deliberada da mensagem que a fotografia poderá transmitir. Os veículos nos quais esse tipo de fotografia tem sido publicada informam os leitores de que não se trata de uma captação única e direta de um fato. Considero essa postura fundamental. Ela coloca o fotojornalismo, nessas ocasiões, num lugar assumidamente opinativo. Não vejo problemas nisso. O fotojornalismo pode, sim, ser opinativo. A múltipla exposição é uma técnica aceita inclusive em prêmios de fotojornalismo, inclusive o World Press Photo.
LN: Até onde uma montagem e/ou colagem pode ser considerada fotojornalismo?
Déborah Borges: Montagem e colagem não são fotojornalismo. Trata-se de algo diferente da múltipla exposição. Esta, sim, como dito anteriormente, é aceita como linguagem fotojornalística.
LN: Existe uma equipe para avaliar a escolha das fotos antes de serem publicadas?
Déborah Borges: Sim, o fotojornalista não escolhe e nem publica o que quer. Esta é uma decisão editorial, que leva em consideração a articulação entre os diferentes elementos que compõem a matéria (textos, fotografias, títulos, manchetes, etc.). A decisão sobre as fotografias que serão publicadas numa matéria passa por diferentes editores.
Diante da lente do Fotojornalismo
LN: O que é considerado fotojornalismo e qual sua importância jornalística?
Déborah Borges: Definir o fotojornalismo tornou-se bastante complexo nos últimos anos. Após a emergência da fotografia digital nas redações, muitas rotinas mudaram. Os fotojornalistas, atualmente, também produzem vídeos, utilizando a mesma câmera com a qual fotografam. Muitas fotografias que vemos nas matérias jornalísticas são, na verdade, frames de vídeos.
Então, uma definição que busque identificar um “produto” específico como Fotojornalismo tem sido cada vez mais difícil. Mas talvez ainda faça sentido a definição de Jorge Pedro Sousa, que diz que “o fotojornalismo é uma atividade singular que usa a fotografia como um veículo de observação, de informação, de análise e de opinião sobre a vida humana e as consequências que ela traz ao planeta”.
Podemos considerar, então, que o fotojornalismo abarca, com a fotografia (que pode vir, inclusive, de um frame de vídeo), todas as dimensões do jornalismo — inclusive a opinião. Sua importância se dá em diferentes dimensões, mas gosto de ressaltar o potencial de síntese da fotografia jornalística. Muitas dessas imagens não contêm uma grande carga informativa, mas possuem enunciações bastante enfáticas sobre determinadas realidades. Por isso, costumam impactar os leitores mais do que a informação textual. Esse interesse despertado pela imagem fotojornalística funciona, já há bastante tempo, como um importante atrativo para as temáticas abordadas no jornalismo.
LN: Como é o trabalho de um fotojornalista e como ele se difere do jornalista convencional?
Déborah Borges: O trabalho do fotojornalista, atualmente, inclui a produção de fotografias e vídeos. Diferentemente dos outros profissionais das redações, os fotojornalistas não costumam trabalhar em editorias especializadas. Cobrem praticamente de tudo. Porém, há diferenças também em relação aos profissionais que atuam em agências jornalísticas, que podem ter uma atuação mais especializada.
Outra diferença significativa é que, ao contrário dos repórteres que escrevem textos, os fotojornalistas não conseguem fazer seu trabalho de dentro da redação. Eles precisam necessariamente ir aos locais onde se dão os fatos e, por isso, também ficam muito mais expostos em situações de tensão e conflito.

[…] “O fotojornalismo pode, sim, ser opinativo”: A fotografia como um ato jornalístico (LabNotícias, 2023) […]