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Estudos apontam que cerca de 20% das mulheres gestantes sofrem com a depressão pós-parto no puerpério, cerca de 7.8% delas apresentam ideação suicida. Das gestantes diagnosticadas com outros transtornos antes da gestação, esse número sobe para 61%, esses dados nos fazem refletir sobre a importância do cuidado com a saúde mental materna.

Andreia Reis Bueno Martins, psicóloga formada pela PUC em 2015, pós-graduada em Psicologia Perinatal e Obstétrica, realiza atendimentos a tentantes [mulheres que estão tentando engravidar], gestantes, parturientes e puérperas desde 2020, nos conta um pouco mais sobre o assunto.

Bruna: Gostaria de começar perguntando um pouco mais sobre você, seu trabalho e quem você atende.

Andreia: Sou Andreia, tenho 42 anos, formei pela PUC em 2015, entrei na área da psicologia pré-natal e obstétrica em 2019 [deu início a especialização], e comecei a atuar em 2020, então já tem 4 anos. É uma área que eu gosto muito e eu comecei a perceber isso nas minhas gestações, vivendo as gestações. Todo o processo, as expectativas, nas depressões que também tive, na verdade, eu percebi que tive uma depressão nas aulas, fiquei: “meu Deus, eu passei por isso!”.

Justamente, pela minha história de vida, indo até além, desde as percepções que tenho do meu parto, da minha mãe grávida de mim, né, que algumas pessoas têm algumas percepções, ou impressões, que é o meu caso, eu tenho algumas impressões desse lugar lá atrás, até hoje, com a minha maternidade.

A minha história de vida me trouxe para estar com essas mulheres, para acompanhar as tentantes, gestantes, os partos e os pós-partos. Gosto de dizer que é o que Deus queria para mim.

B: Dentro dessas experiências na maternidade teve alguma que te marcou mais?

A: A gestação da Maria Lúcia [sua quarta gestação, mais recente]. São jeitos diferentes [uma gestação para a outra], eu tive depressão pós-parto na do Walter [sua terceira gestação], mas eu não tinha noção na época, só fui ter noção nas aulas da pós-graduação. E no caso da Maria Lúcia, eu entrei na pós-graduação grávida de 4 meses, mas foi um processo bem difícil.

Eu não estava planejando a Maria Lúcia, ela veio de surpresa, então foi difícil de entender que tinha um ser ali, que ia me desviar do que eu planejava, então, até eu aceitar, teve um processo.

Na gestação ela foi a mais difícil, mas no pós-parto o do Walter foi mais difícil.

B: Nas redes sociais, e na maioria dos estudos, o assunto com maior destaque é a depressão pós-parto, que chega a atingir 20% das mulheres no puerpério, sendo considerado, portanto, o mais comum. Quais são as outras condições que podem afetar as mães durante esse período?

A: São inúmeras.

Se a mulher já tem uma condição de depressão, por outros motivos e ela engravida, já é um fator para ela continuar com essa depressão no pós-nascimento.

Hoje também existe o Baby Blues, quer dizer, ele já existia, mas com o tempo vamos identificando e dando nomes. O baby blues é um momento de 15 a 20 dias, pós-parto, onde não falamos de depressão, não é depressão. É uma tristeza mais acentuada, mas que nesse período de até 20 dias ela cessa. Passando disso, e perdurando e aumentando a intensidade dessa tristeza, aí sim, já vamos encaminhando e tomando os cuidados, porque sim, já está se tornando uma depressão pós-parto.

B: E outros transtornos? Como a ansiedade?

A: Sim! A ansiedade é o medo do futuro. Algo assim “o que vai acontecer comigo amanhã?”, a pessoa já fica agoniada, sofrendo por algo que ainda vai vir. E a pessoa pode sofrer pelos dois, tanto pela depressão, quanto pela ansiedade.

B: Segundo algumas pesquisas, uma das possíveis condições é o transtorno pós-traumático. Como ele ocorre? E qual seria a causa mais provável de trauma?

A: Um dos que mais acontece é no parto mesmo. Às vezes por a mulher desejar um tipo de parto [e no final não acontecesse como ela queria], e geralmente quando acontece isso é quando ela deseja o parto normal, e por algum motivo não é possível, às vezes até mesmo por condição de vida dela e do bebê, é necessário a cesárea. Muitas ficam muito triste e até com depressão por esse motivo.

Geralmente a mulher que deseja cesárea e por algum motivo tem um parto normal, a gente fala que ela é parideira, ela não fica triste, não fica se sentindo menos mulher.

Mas a mulher que deseja o parto normal e vai para a cesárea, é o contrário. Ela se sente menos capaz, menos mulher, “não dei conta”. Muitas não conseguem olhar pela condição “nossa, meu filho estava em sofrimento fetal, era necessária essa cesárea de emergência. Eu estava em sofrimento aqui, porque eu estou com uma pré-eclâmpsia e se eu não tirar esse bebê urgente, eu posso morrer, ou meu bebê pode morrer”, entendeu?

Às vezes elas não conseguem ressignificar isso, por isso, é tão importante fazer o pré-natal psicológico. Talvez se desde antes dela engravidar, ou, pelo menos, quando se descobre que está grávida, faça!

Que então conseguimos trabalhar a possibilidade dos dois partos, das duas vias do que é possível. Hoje, conseguimos até fazer a visualização de parto, onde a gente traz a mulher para o consultório, se for possível, ou online, e fazemos essa visualização: Com ela sentada, de olhos fechados, vamos narrando a cena do parto. Para ela ir se projetando naquele dia. Fazemos a visualização do parto vaginal e a dessensibilização da cesárea.

E outra situação que deixa a mulher com um transtorno pós-traumático é a violência obstétrica, porque ainda há situações em que, infelizmente, a mulher está lá em trabalho de parto, e esse trabalho de parto tem mulher que demora 30 minutos, tem mulher que demora 2 ou 3 dias, e às vezes ela está lá gritando porque está doendo, e o médico tem a infeliz capacidade de dizer: “Na hora de fazer você não gritou”.

E isso é só uma das coisas que a gente escuta.

B: Além da violência verbal, existe a violência obstétrica física, como por exemplo, o uso do pique. Qual delas influencia mais o surgimento do transtorno?

A: Tudo depende, porque a episiotomia [pique] não é mais usado, então sim, é uma violência porque não é necessário. Então tudo depende da estrutura dessa mulher, as vezes ela não sofre uma violência verbal, que gera uma emoção, mas fazem a episiotomia.

B: Você acha que todas as mulheres que estão gestantes deveriam fazer esse acompanhamento psicológico ou apenas aquelas que no pré-natal tradicional foi identificado uma predisposição?

A: Todas. A fim de evitar mesmo.

 São todas que vão ter? Claro que não.

E são todas as gestações que você vai ter? Não.

Na da Maria Eduarda [segunda gestação] eu não tive nada. Na do Walter foi a gestação mais tranquila, e tive depressão pós-parto. Da Maria Lúcia, a gestação foi difícil, mas o pós foi tranquilo. Há uma variação muito grande.

O ideal seria que, “estou grávida”, vamos procurar [atendimento psicológico], vamos identificar se existe alguma coisa, se existir vamos cuidar.

B: No início da conversa, falamos sobre quem tem as tendências a depressão pós-parto, e foi dito que mulheres que já sofrem com a depressão, que ela tem uma maior chance. Outros transtornos como transtorno bipolar e a esquizofrenia, também tem essa mesma predisposição?

A: Sim. Qualquer tipo de transtorno.

B: E existe alguma contraindicação à gestação para essas mulheres?

A: Que eu tenha ouvido falar, até hoje não. Ainda não vi nenhum estudo sobre o assunto, e hoje em dia ,como existe medicação, existe tratamento, para todos, ou, praticamente todos que falamos: bipolar, borderline, esquizofrenia. Então, se essa mulher é acompanhada, tanto com o psiquiatra com medicação, quanto com o acompanhamento psicológico, com uma rede de apoio familiar, é possível [a gestação] sim.

B: Então seria importante uma indicação do profissional que está acompanhando essa mulher, para falar se ela está pronta ou não para essa gestação, ou preparar ela para essa gestação?

A: Seria legal, mas e a mulher que não tem esse acompanhamento e que já chega grávida?

Ela está lá vivendo, tem o acompanhamento psiquiátrico, mas às vezes não tem o acompanhamento psicológico, e vive sua vida como casada e engravida, eai?

B: Como psicóloga, existe alguma condição ou situação em que o aborto, poderia ser considerado necessário ou como possível tratamento?

A: Cabe a ela decidir.

Estava, inclusive, vendo a reportagem, na verdade, era um áudio, de uma atleta paraolímpica [Mônica Santos] que queria muito engravidar, e com pouco tempo de gestação, ela não estava sentindo as pernas, por uma condição que poderia deixá-la tetraplégica, e ela poderia interromper a gestação para evitar, mas ela optou por ter o bebê, e hoje a filha dela tem 22 anos [13 anos], e ela é uma excelente atleta paraolímpica.

Temos outras mães que têm bebês que, infelizmente, tem uma má formação, que são até incompatíveis com a vida, uma delas a síndrome de patau, que se a criança pudesse passar o resto da vida no útero ela ficaria viva lá, mas assim que nasce ela dura algum tempo, algumas ficam por algumas horas, outras chegam a dois dias, se muito. Essa síndrome consegue ser identificada na gestação e mesmo assim a mãe opta por não tirar.

São escolhas.

Para mim, nenhum caso justifica.

B: Mesmo quando temos casos de abuso sexual de crianças, ou mulheres que estão no aspecto autista severo, ou que tenham alguma deficiência intelectual severa, e optam por fazer o aborto, é a melhor decisão? Ou elas poderiam levar essa gestação até o final? E quais são os problemas que essas mulheres podem enfrentar?

A: Se ela tem uma condição severa, ela talvez nem consiga ter esse pensamento, de ter que tirar, esse raciocínio de “o melhor para mim é tirar” ou “o melhor para mim é ter “, ela não tem essa condição de definir e de decidir. Talvez, outra pessoa tenha que fazer isso por ela.

Mas o trauma já está instalado. Ela foi violentada.

E ai, o profissional que atende esse tipo de mulher, uma mulher especial, vai tentar da melhor forma possível amenizar.

Mas uma autista como você citou, de grau severo, nem se faz terapia. Se faz terapia TO [terapia ocupacional], outras coisas, mas não se faz terapia verbal, porque ela não vai conseguir se expressar, ela não fala.

Então, talvez seja a família, os pais, para decidir o que é melhor ali para aquela mulher. E se de qualquer forma, os responsáveis optarem por manter a gestação, o maior trauma já foi instalado, que é o abuso, a violência, e ela pode ao final da gestação, colocar a criança para a adoção.

É uma vida que está ali, independente de qualquer coisa, é uma vida.

B: Se torna cada vez mais comum, que homens trans, pessoas que foram designadas no nascimento ao sexo feminino, mas que transitaram para o masculino, optarem por gerar. Mas quando falamos em gestação, falamos muito sobre ser mulher, esse conflito de conceito e identidade pode gerar algum transtorno, ou esse indivíduo poderia ter alguma dificuldade em entender e passar por esse processo?

A: Ainda não faz parte da minha prática essas questões de mudança de gênero, mas eu acredito que quando um homem trans opta por fazer essa mudança, e em algum momento ele encontra uma pessoa, e querem aumentar essa família, e ele que se identifica como homem, e passa pela transição, se às vezes tirar até o seio, se veste como homem, faz o uso de hormônios, mas ainda não passou pela cirurgia de redesignação de gênero, ou seja, ainda tem o órgão reprodutor feminino, e naquele momento, e eu posso estar enganada, mas naquele momento onde eles vão aumentar a família é que ele escolhe engravidar, aquele ser humano está acessando a feminilidade dele.

Mas não faz parte do meu foco de estudo.

B: Quais são os principais riscos e consequências, desses transtornos, desses sofrimentos mentais, para a mãe e o bebê?

A: São inúmeros.

Desde um cuidado excessivo, a mãe acredita que só ela consegue cuidar, mais ninguém cuida tão bem quanto ela, e ela não permite que ninguém acesse esse bebê. E quando eu falo ninguém é o pai, a mãe dela, essa rede de apoio em que, teoricamente, ela confia.

E vamos até os extremos, que nesse primeiro ela está cuidando, mas existe a questão de ela colocar em risco a vida do filho, por exemplo, no banho, “eu vou afogar esse bebê”, vem esses pensamentos, os transtornos causam isso. A depressão causa isso, e o estágio pior que a gente fala dentro da psicologia é a psicose puerperal, onde a mulher tem vários pensamentos assim.

Quando eu falei da gestação do Walter Filho, eu tinha pensamentos ruins a respeito dele. Inclusive, eu compartilhei isso tem pouquíssimo tempo para minha mãe, falei isso em prantos para ela. Eu tinha medo de jogar ele na parede.

Era um pensamento que eu tinha, e eu ficava relutando, “Senhor, não me deixa fazer isso, não me deixa jogar meu filho na parede”. Ficava relutando com aquele pensamento o tempo todo.

B: É como se fosse um pensamento intrusivo?

A: Sim, mas eu sempre pergunto para minhas pacientes: “Alguém consegue inibir um pensamento de vir à nossa mente?” Não, ninguém.

Mas o que eu faço com ele, aí sim, eu tenho uma opção.

Se eu tenho um transtorno, nem sempre eu vou conseguir.

 Mas, por exemplo, quando eu estou em uma depressão, e eu consigo ali tentar mudar, eu saio daquele foco, eu saio daquele pensamento. E era isso que eu fazia, desfocava, saía do ambiente às vezes.

Mas é isso que acontece com as mulheres, de colocar a vida do filho em risco. E vemos muitas mortes, e muitas vezes, a mãe vai junto.

Acho que tem, 2 ou 3 anos, que uma militar foi para a casa da mãe com o filho e se jogou da sacada com o bebê, tirou a vida dos dois. Então, o que será que essa mulher estava passando?

B: Durante a pesquisa para a entrevista, descobrimos que cerca de 8% das mulheres com depressão pós-parto, e 61% das mulheres que têm outros transtornos, tem ideação suicida, quais são os sinais a que as famílias têm que ficar atentas?

A: Primeiro, a tristeza. Esse isolamento que a mulher vai tendo. E ela vai dando os sinais, ela vai falando algumas coisas, “ah eu gostaria de sumir”, “eu gostaria de dormir e nunca mais acordar”, “ah eu vou sumir dessa casa e não vou voltar nunca mais”, são sinais que a mulher verbaliza, aos quais a família deve estar atenta.

É principalmente na fala e na tristeza, nesse recolhimento. E às vezes a própria tentativa de alguma coisa.

B: A maioria das notícias, sobre o suicídio no puerpério, o suicídio materno, a mulher leva o bebê com ela. Qual seria o motivo? Talvez uma ideia de que o bebê não vai sobreviver sem ela?

A: Eu não tenho dados de pesquisa sobre isso, porque é algo que me impacta muito, e o que a gente tenta fazer é se respeitar. E esse tipo de coisa me impacta muito, lógico que eu deveria ter um acesso maior, e eu acho que isso é individual.

Mas talvez sim, “quem vai cuidar?”, pode ser sim um dos motivos, “quem vai cuidar do meu filho?”, e às vezes a mulher realmente nem tem quem cuidar, não tem o pai da criança presente ou rede de apoio, familiares.

Ou se tem, ela não entende dessa forma, é muito mais a doença que está ali instaurada, que ela não racionaliza tanto, se ela chega no ato de tirar a própria vida “a do filho é a de menos”.

B: A imagem do pai, como ele pode ajudar ou influenciar o surgimento de um transtorno?

A: Nunca vi pesquisa de um pai proporcionar, fazer a mulher ter algum transtorno. Muito pelo contrário, e até brincamos muito com os pais nas maternidades, fazendo esse acompanhamento com as gestantes, pai não é rede de apoio, pai é participação mesmo, é uma “obrigação” dele mesmo ali de ser. Rede de apoio é a mãe, a sogra, os tios ou até mesmo uma rede de apoio paga, mas o pai não.

O pai, enquanto a mãe está ali amamentando, ele vai lá e pega uma água para ela, penteia o cabelo dela, são gestos pequenos, mas para aquela mulher que está vivendo aquele momento e não tem tempo e nem como pegar uma água para ela beber, isso é extremamente fundamental.

E o pai sendo esse homem participativo, fazendo a função dele, faz com que a mulher não entre nesse lugar e se entra, ele consegue conduzir nessa ajuda com o bebê. Porque ter um bebê é muito bom, mas não é fácil.

B: Então podemos dizer que quando um pai não cumpre com esse papel, a mulher tem uma maior chance de desenvolver algum transtorno?

A: Não necessariamente. De um modo geral, quando falamos sobre esse pai participativo é no momento em que ele volta para casa, quando está com ela. Porque a maioria dos homens trabalha fora de casa, no mínimo 8 ou 9 horas por dia, essa mulher vai estar sozinha, ou com outros filhos. Então o participar ou não participar não é indicativo para que essa mulher tenha um transtorno.

B: Além da rede de apoio, qual é o papel da sociedade em geral, com essa mulher, com essa mãe, que está passando por esse período?

A: Acho que a palavra mágica é o acolher.

Tem muitos que fazem isso, claro. Mas, hoje, a sociedade, e vou utilizar uma palavra bem específica: as redes sociais, é muito difícil.

Então, às vezes, é melhor essa mulher não acompanhar ninguém na rede social, e viver a vida dela e o instinto dela materno, porque às vezes você se comparar, e querer ser igual uma artista, famosa, rica, que tem quatro babás, cozinheira, lavadeira, passadeira, que arruma a casa dela, e ai ela vai e tira uma foto dando banho no filho dela, e pode nem terminar de dar o banho, é muito fácil.

Mas aquela mãe que tem que acordar cedo, levar o outro filho mais velho para a escola, tem que fazer o almoço, arrumar a casa, e fazer tudo, cuidar desse bebê e cuidar dela.

Então, há um romantismo muito grande, que muitas mulheres colocam na maternidade, e que no dia-a-dia para essa mulher que não tem essa rede de apoio, não é assim.

Ela não se sente acolhida pela sociedade, ela não se sente acolhida pelas mídias sociais, porque quando ela olha para a casa dela, quando ela olha para ela, não é aquilo que ela vive.

Mas a gente sabe que muitas artistas vivem desse jeito, e também temos visto que muitas delas têm conseguido falar que “opa, maternidade não é tudo isso não”. Elas falam assim “eu gosto de ser mãe, eu não gosto de exercer os papéis que as vezes são necessários ali na maternidade”.

B: Em novembro de 2023, foi sancionada a lei, nº14.721, que prevê que gestantes, parturientes e puérperas, após avaliação de profissional da saúde, com encaminhamento, têm direito a assistência psicológica pelo SUS. Você acha que isso é o suficiente, ou existe a necessidade de o governo fazer mais pela saúde mental dessas mulheres?

A: Sempre há, né? Sempre há. Hoje existe, inclusive, a lei umbiguinho [sancionada em 2022, determina oferta de atendimento psicológico para parturientes durante gestação, parto e puerpério. Todas as unidades da rede básica de saúde do município – onde há acompanhamento gestacional – devem disponibilizar o serviço.], que já foi sancionada, de autoria da minha coordenadora Karla Cerávolo [em parceria com a vereadora Sabrina Garcez], mas sempre há mais o que fazer.

Hoje eu participo da rede umbiguinho, e temos portas abertas, graças a Deus, na maternidade Premium, na rede Materdei, e lá sim, nós temos liberdade para fazer [os atendimentos necessários], mas no SUS nós sabemos que não tem.

Existem algumas unidades que tem um psicólogo perinatal e obstétrico, mas são poucas, que eu não consigo nem te falar quais são, então claro que existe [necessidade de fazer mais].

Porque muitas mulheres tem aquela tendência para ter a depressão pós parto, mas se ela tiver um acolhimento, meia hora, uma hora, antes do parto e tem essa assistência durante o parto, pode ser algo que já vai ser inibido para não acontecer depois. É fundamental que tenha.

B: Algum outro exemplo do que o governo poderia proporcionar para essas mulheres para evitar esses transtornos, ou até mesmo durante eles?

A: Acho que desde quando a mulher descobre que está gestante, não vou nem falar o antes, porque não são todas as mulheres que tem aquele momento de “nossa, estou tentando engravidar”, é mais o “ih nossa, estou grávida”, e às vezes já está quase nascendo. Mas pelo menos quando ela descobre que está grávida, já ter esse cuidado.

Não tem como a gente desintegrar uma mulher, “ah eu tenho que cuidar só da parte física”, não, ela é emoção também. Eu falo que nós somos seres integrados, somos bio-psico-socio-espiritual, mesmo que ela não ela tenha religião, e está tudo bem, mas as que tem faz parte integrada ali, muitas levam o terço até a porta do centro cirúrgico, então não tem como desintegrar só no físico.

Eu ainda não peguei casos assim, mas tenho relato de colegas, que às vezes a paciente está no momento do parto, e ela não consegue por uma trava emocional, e ela precisa, às vezes, de uma permissão da mãe, da mãe dela, para parir o filho.

São muitas situações que a mulher vive, são coisas emocionais, que às vezes ela não consegue, ela tem uma dificuldade muito grande de parir esse bebê, e a gente fala que são os gatilhos, são essas travas emocionais.

B: Me conta um pouco mais sobre a rede umbiguinho.

A: A rede umbiguinho Goiânia, na verdade ela não é só goiana, é nacional, é uma rede com várias psicólogas, que fazem esse atendimento psicológico, e temos esse acesso liberado, como eu disse, na rede Materdei aqui de Goiânia, e que graças a Deus, está se expandindo para outras também.

Esse projeto é idealizado pela psicóloga Karla Cerávolo, e essas psicólogas vão na maternidade, fazendo o acompanhamento de partos, a gente chega e temos um mapa de partos, um mapa cirúrgico da maternidade. Quando é cesárea, a gente chega um tempo antes, faz um acompanhamento com essa gestante que está ali esperando, na sala de espera mesmo, e acompanhamos o parto dela.

Fazemos também a parte de ambulatório. Vamos de quarto em quarto, acompanhando as gestantes e as puérperas, que acabaram de ganhar os bebês, fazendo esse acompanhamento com elas pós-nascimento.

E algumas, dependendo da situação, conseguimos trazê-las para dentro do nosso consultório, se houver a necessidade de ser acompanhada de mais de perto.

Imagem disponibilizada pela entrevistada.

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