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Realizado em um patrimônio mundial da humanidade, o festival promove o diálogo entre arte, povos tradicionais e os desafios urgentes da crise climática.
A primeira capital do estado de Goiás, cidade conhecida como Goiás Velho, é um patrimônio histórico e cultural da humanidade, que possui sua arquitetura antiga preservada e uma beleza natural. Ela foi ocupada no contexto da expansão colonial do território, por bandeirantes que procuravam por ouro. Hoje, o pacato município é ocupado por milhares de turistas todos os anos, que procuram por conhecimento histórico e experiências culturais. Entre os diversos eventos marcantes que acontecem todos os anos na cidade, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) é um evento que reúne artistas nacionais e internacionais para mostrar e premiar produções audiovisuais que tratam sobre questões ambientais.
Neste ano, a 26ª edição aconteceu entre os dias 10 e 15 de junho, contando com participações especiais de Ailton Krenak e Matra Kalunga. O festival elabora debates e rodas de conversa sobre as crises climáticas e a valorização de comunidades tradicionais, além da exibição de centenas de filmes e quatro mostras competitivas. A programação, que é gratuita, também promove shows de cantores regionais e grandes nomes da música brasileira, como os Paralamas do Sucesso, Mart’nália e Zeca Baleiro. É um evento que marca a população da cidade de Goiás e de muitos outros que vêm de fora para prestigiar os filmes e a beleza do município.

O Papel do FICA na Memória Viva de Goiás
O festival é realizado anualmente desde 1999. Ele foi o primeiro festival de cinema do Brasil e um dos maiores do mundo. Localizado em uma cidade histórica, o evento discute as relações entre o meio ambiente e comunidades tradicionais. A cidade de Goiás possui uma arquitetura histórica que não pode ser modificada. Segundo a superintendente de fomento e gestão cultural da Secretaria de Cultura (Secult) Goiás, Raissa Coutinho, a estrutura do evento, que é montada todos os anos, deve respeitar essa arquitetura da cidade e se adaptar a seu formato.
“Tudo que acontece na cidade de Goiás precisa respeitar uma cidade de quase 300 anos que é patrimônio mundial pelo UNESCO, há quase 30 anos. Então, a gente respeita todas as questões patrimoniais, inclusive na montagem das estruturas. Nada é montado sem ser autorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Então, a gente dialoga o tempo todo com a cidade, com a prefeitura, com os órgãos de controle, como o caso do IPHAN”, declara.
O evento conta com demonstrações de filmes e vídeos que variam entre categorias de temática ambiental, cinema goiano, produções na Cidade de Goiás e cinema de povos tradicionais. Além disso, também acontecem rodas de conversa e debates. Com o passar dos anos, atrações musicais também passaram a ser incluídas na programação. Este ano acontece a 26ª edição, que conta com a presença de fóruns ambientais e o fórum ambiental infantil, criado no ano passado. Segundo Raissa Coutinho, este último fórum é importante para dar voz às crianças de Goiás.
“As crianças que nasceram na mesma época em que o FICA começou, hoje já têm 26 anos. Isso é muito significativo. No ano passado, quando o festival completou 25 anos, a gente refletiu sobre essa trajetória e decidiu trazer as crianças de hoje para o microfone, para participarem também”, afirma a superintendente.
O festival conta com uma rica programação que visa falar não só sobre meio ambiente, mas também sobre comunidades e povos tradicionais.
“Hoje a gente fala do cinema ambiental e de várias áreas dentro do cinema ambiental, mas a gente fala também de questões de comunidades e questões sociais. É a hora que se coloca na mesa tudo isso. É um festival muito amplo”, conta Raissa Coutinho.
O FICA dá espaço para diversas comunidades tradicionais, como povos indígenas e quilombolas. A Tenda Multiétnica, presente no evento, é o lugar dedicado a toda essa experiência cultural e compartilhamento de saberes. Com palestras, rodas de conversa, apresentações e workshops, a tenda traz muito dos costumes de cada povo tradicional. Marta Kalunga, liderança quilombola e cineasta, diz que, ao exibir filmes com produções dessas comunidades, o festival ajuda na valorização dos costumes e a mostrar tudo isso ao público.
“O cinema leva conhecimento e faz isso de uma forma rápida. Ele ajuda a expandir e divulgar nossa cultura. Enquanto nós vamos passando essas tradições de geração em geração, o cinema consegue mostrar para muito mais pessoas, de maneira mais direta e acessível, o que realmente é nosso”, afirma Marta Kalunga.
Todos os anos, o FICA é um evento muito esperado por toda a comunidade vila-boense e pelos turistas. A superintendente da Secult Goiás explica que, antigamente, só existia cinema na cidade de Goiás durante a época do FICA, então a população esperava por esta oportunidade rara de assistir aos filmes do festival. Hoje, por mais que o cenário tenha mudado, as expectativas continuam sendo as mesmas.
“O festival, ele ainda está no momento mais maduro dele, mas ele ainda tem muito campo pela frente. Sempre tem públicos novos, as pessoas se renovam no FICA”, declara Raissa.
Raissa Coutinho também afirma que, nos palcos do FICA, já passaram grandes nomes de artistas nacionais. Ela diz que “é difícil a gente achar um grande artista que não tenha passado pelo FICA. E esses que não passaram, quando passam, eles ficam encantados porque vêem a força, o tamanho do festival, e a relevância de se tratar de questões ambientais, de se discutir questões ambientais tão relevantes”
Além disso, o festival internacional é um grande impulsionador do comércio local, gerando um vasto desenvolvimento para o município. De acordo com a superintendente da secretaria de cultura do estado, no ano passado, foram investidos aproximadamente 5 milhões de reais, e a cada 1 real investido, voltaram 3. Um movimento de R$15 milhões durante os dias do festival. Neste ano, o investimento foi ainda maior, com 6,1 milhões de reais sendo dedicados à realização do evento.
Comércio Local Ganha Fôlego com o Festival
Moradores locais se preparam todos os anos para presenciar o evento que dura 5 dias. Vendedores abastecem seus estoques e funcionários trabalham longas jornadas, tudo para atender aos vários turistas que visitam a cidade nesta época do ano. Segundo o morador local e vendedor de sorvetes na praça do Coreto, Guimercino Barbosa, o FICA, além de ajudar na divulgação de uma cidade histórica, também traz uma grande variedade de clientes novos, impulsionando o comércio local.
“O FICA veio para a nossa cidade e se tornou uma oportunidade para os moradores. Além de divulgar bem a nossa cidade, uma cidade turística, dá a oportunidade de complementar as vendas das famílias locais. Então, os turistas aqui fazem muita diferença”, diz o vendedor local.
Guimercino Barbosa está no comércio desde o início do FICA. Ele explica que, nas primeiras edições do festival, o impacto era ainda maior. “O 5° festival a gente tem registrado até hoje como um dos melhores que teve aqui na cidade.” No 26°, o movimento diminuiu, mas ainda foi positivo. O vendedor de sorvetes diz que “as pessoas vêm não só para participar do festival, elas vêm também para gastar, para movimentar a economia de Goiás.”
A vendedora de uma loja de artesanatos e doces, Maria Alexandrina, também reconhece que as edições iniciais do festival tiveram mais impacto para os comerciantes, “os primeiros eram bem melhores para a venda, depois foi diminuindo.” Mesmo assim, os comerciantes ainda trabalham horas dobradas durante essa época, para conseguir atender todos os turistas. “A gente contrata mais funcionários para ficar durante o festival”, afirma Maria Alexandrina. E Guimercino Barbosa também diz que é preciso produzir de quatro a cinco vezes mais sorvete e ficar aberto até 2 horas da manhã para atender a demanda.
Os vendedores reconhecem que o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental possui grande importância cultural e local, não só para o comércio, mas também como instrumento educativo que discute sobre questões ambientais urgentes e a valorização dos povos.
“O festival educa as pessoas. Torna elas mais conscientes. A questão do meio ambiente e de tudo. As pessoas entendem que nós precisamos mudar as atitudes. Precisamos ter mais compaixão com a natureza”, declara Gumercindo Barbosa, morador local e vendedor de sorvete.
Festival ambiental em contradições locais
Apesar de ser um festival muito importante para a cultura de Goiás e de todo o país, o FICA ainda precisa percorrer um longo caminho para garantir que todas essas discussões sejam ouvidas. A cidade de Goiás, apesar de possuir uma beleza histórica, apresenta algumas contradições quando se trata em receber uma diversidade de pessoas. No centro – que é onde ocorre a maior parte das atividades do festival – as ruas e calçadas são de pedra, o que dificulta a locomoção. A líder quilombola Marta Kalunga destaca que a estrutura do centro da cidade pode impossibilitar o acesso de pessoas que apresentam restrições locomotoras, como cadeirantes.
“Nesta cidade falta uma rampa. As pessoas mais velhas, da terceira idade, por exemplo, teriam muita dificuldade para andar aqui. Tem que ter uma calçada limitada para essas pessoas, para cadeirantes também. E aqui não tem nada disso. Então eu acredito que falta pouca coisa, mas tem que prestar mais atenção”
Outra questão é a estrutura trazida para o festival em si. Gumercindo Barbosa, que acompanha o FICA desde suas primeiras edições, destaca a falha na estrutura e na organização do evento. “Poderia ter mais um pouquinho de organização. Só mais um pouco, para ficar uma coisa bem boa. Porque, às vezes, os turistas reclamam um pouco dessa questão do banheiro. Estrutura mesmo, o pessoal reclama um pouco. Então, assim, eu acho que deveria melhorar um pouco a estrutura”, afirma o morador local da cidade de Goiás.
Além da estrutura, a organização do festival, em relação aos horários, segundo Marta Kalunga, também poderia melhorar. A cineasta discute sobre o fato de a programação colocar vários filmes para passar ao mesmo tempo e em locais diferentes. Ainda de acordo com Marta, as sessões de filmes indígenas e quilombolas deveriam possuir exibição aberta na Tenda Multiétnica, para facilitar o acesso e a visibilidade das pessoas.
FICA 2025: As Vozes e Narrativas em Competição
O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental conta com 4 mostras competitivas, cada uma delas com uma grande quantidade de filmes, seja de longa ou curta metragem.
A Mostra Internacional Washington Novaes é dedicada à exibição e avaliação de filmes sem restrição de país ou tempo, e com temáticas ambientais. Nela, estão presentes os longas metragens: O silêncio das Ostras; Terra Encantada – O Diabo Velho; Nós vivemos aqui; Isto é tudo nosso; Mãos à Terra; Tijolo por Tijolo. E os curta metragens: Encontro das Águas; Entre as Cinzas; Cavaram uma cova no meu coração; A Nave Que Nunca Pousa; O Último Varredor; Marés da Noite; Travessia e Lichens are the Way.
Entre os prêmios dedicados a esta categoria, estão: Melhor longa‑metragem – Prêmio Cora Coralina (R$ 35.000); Melhor curta/média – Prêmio Acari Passos (R$ 15.000); Melhor direção – Prêmio Carmo Bernardes (R$ 10.000); Melhor filme goiano (na mostra internacional) – Prêmio João Bennio (R$ 20.000); Escolha da imprensa – Prêmio José Petrillo (R$ 10.000); Escolha do público – Prêmio Luiz Gonzaga Soares (R$ 10.000); Escolha do júri jovem – Prêmio Jesco Von Putkammer (R$ 10 000).
Na categoria de cinema Goiano competiram os filmes produzidos no estado de Goiás de qualquer tamanho, gênero e temática. Os longas metragens são: Goiânia Rock City; Mambembe e Planta de Raiz Profunda. Os curta metragens: Jamming – O ano em que Junior Marvin morou em Goiânia; Rocha, substantivo feminino; A mulher esqueleto; Entressonho; Fidèle; Tingui. Suas premiações são: Melhor longa (R$ 11.000); Melhor curta (R$ 8.000); Direção – longa e curta – (R$ 8 000 / R$ 7.000); Fotografia, roteiro, edição, atuação, som, trilha, direção de arte (R$ 6.000 cada).
A mostra Becos da Minha Terra é dedicada a curta metragens (até 30 minutos) produzidos por vila-boenses, na cidade de Goiás. As obras que competem nessa categoria são: Acorda, João; Atitudinal; Debaixo do Pé de Pequi; Gambá; Lockdown; Lusco-Fusco; Para Carlos; Rap Doc; Sol Noturno; Tom de Ameaça. As premiações dessa mestra são: Melhor filme e melhor direção (R$ 5.000 cada) e melhor edição, som e roteiro (R$3.000 cada).
Também existe a mostra Cinema Indígena e Povos Tradicionais, que são filmes produzidos ou dirigidos por pessoas indígenas ou comunidades tradicionais. Os longa metragens são: Originárias; Bye Bye Amazônia e Aldeia Multiétnica. Já os curta metragens são: Sukande Kasáká (Terra Doente); Djaexá Porãa – Um olhar para o Futuro; Momat – Ritual da Tucandeira na Comunidade Waikiru em Manaus/Amazonas; ADOBE: habilidades tradicionais da construção Kalunga; Aguyjevete Avaxi’i; Minha câmera é minha flecha. Suas premiações são: Melhor longa‑metragem (R$10.000) e Melhor curta‑metragem (R$5.000).
Além das 4 mostras competitivas, existem também mostras não competitivas e sessões especiais paralelas. Como por exemplo o FICA Animado, que é uma mostra principalmente composta por animações infantis, com abordagens mais leves e otimistas sobre o meio ambiente, com o objetivo pedagógico de conscientizar o público infantojuvenil.

Os Vencedores do FICA 2025
A 26a edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental encerrou no dia 15 de junho, domingo, com a cerimônia de premiação e o show da banda Os Paralamas do Sucesso. Segundo o site oficial do Governo de Goiás, o festival distribuiu R$220 mil em prêmios que variam entre R$5 e R$35 mil, distribuídos entre filmes de todas as quatro mostras. Pelo botão abaixo, será possível visualizar a lista de filmes premiados da edição de 2025.
O FICA 2025 foi um evento que marcou muitos com a importância de se preservar o meio ambiente e a cultura daqueles que cuidam dele. De acordo com a superintendente da Secult Goiás, é graças ao festival que as discussões sobre crises ambientais tomaram espaço na cidade de Goiás.
“Goiás não era uma cidade com uma discussão ambiental tão forte. Hoje, está no topo desse debate, muito por conta das três universidades públicas presentes aqui – a UFG, o IFG e a UEG. Professores e alunos estão extremamente envolvidos, tanto com o festival quanto com as questões ambientais. Acredito que o nível de diálogo sobre meio ambiente na cidade é muito alto, graças ao espaço que o audiovisual e o cinema ambiental abriram para essas discussões”, afirma Raissa Coutinho.
