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Diretor da Faculdade de Farmácia comenta sobre a proposta da criação de nova graduação na Universidade Federal de Goiás
Em 2021, foi proposto pelo Instituto de Química a criação do curso de bacharelado em engenharia farmacêutica; entre as justificativas para a sua implementação estão a de atender demandas da indústria farmacêutica e cosmética, capacitação de profissionais para a produção em larga escala e a inovação acadêmica e pioneirismo, visto que nenhuma outra universidade apresentou proposta semelhante.
A proposta tramita desde 2021 na câmara de graduação e teve a decisão adiada após mobilização da comunidade farmacêutica. Na reunião realizada na última segunda-feira (08), foi aprovada a criação de uma comissão sem vínculo com nenhum dos dois cursos envolvidos, para reavaliar a proposta. Instituições como o Conselho Regional de Farmácia de Goiás (CRF-GO), a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar) e o Sindicato dos Farmacêuticos de Goiás (Sinfar-GO) repudiaram a iniciativa.

Devido a isso, convidamos o professor Luiz Carlos da Cunha, diretor da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Goiás (UFG), graduado em Farmácia pela UFG (1989), mestre em Fármacos e Medicamentos: Química e Biologia (1993), doutor em Fármacos e Medicamentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de São Paulo (1998) e membro da Sociedade Brasileira de Toxicologia.
Para começarmos, poderia nos contar um pouco sobre a sua formação acadêmica e experiência profissional na área farmacêutica?
Eu sou o professor Luiz Carlos da Cunha. Estou na Faculdade de Farmácia como professor desde 1991. Fiz graduação em farmácia aqui na própria universidade. Fiz o mestrado na USP de Ribeirão Preto, doutorado na USP de São Paulo. E, depois, o restante da minha vida foi basicamente aqui em Goiânia, como professor e participante de várias atividades, como coordenador de laboratório de pesquisa, orientação de alunos de graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado e especialização.
Ajudei também a fundar, junto com os professores, o primeiro Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas. E, depois, com o passar do tempo, a Faculdade de Farmácia chegou a ter quatro programas de pós-graduação, sendo dois deles doutorado. Fui coordenador do Programa de Pós-Graduação e, desde agosto de 2022, estou como diretor da Faculdade de Farmácia da UFG, que este ano está completando 80 anos de existência.
Recentemente, voltou à pauta a proposta de criação do curso de Engenharia Farmacêutica na UFG. Como farmacêutico, você acredita que há necessidade de uma graduação específica nessa área? E, na sua opinião, a criação desse curso representaria uma evolução natural da profissão farmacêutica ou uma fragmentação desnecessária?
Boa pergunta, Kauan. Desde setembro de 2021, antes de eu assumir a diretoria, era a professora Thelma e o professor Ricardo Marredo, que eram os diretores; eu já estava participando da discussão da proposta. A Faculdade de Farmácia, em fevereiro de 2022, emitiu um documento contrário à nossa participação e à criação do curso de engenharia farmacêutica, nos moldes em que ele foi colocado no projeto original.
E nós nos posicionamos de forma contrária, inclusive com o apoio do Conselho Federal de Farmácia, na época, com um parecer muito bem elaborado, colocando todos os motivos, o porquê, um conselho profissional e o porquê uma faculdade de farmácia, que nem a nossa, são contrários ou foram contrários à criação do curso e também à participação nele.
Depois, esses documentos foram enfatizados e aprimorados com outros documentos, com novas decisões do nosso Conselho Diretor. Em todas as decisões, nós nos posicionamos de forma contrária à criação do curso, porque, no nosso entendimento e no entendimento do Conselho Federal de Farmácia, e agora mais recentemente de todos os conselhos regionais de farmácia, de sindicatos, de farmacêuticos, da Federação Nacional de Farmacêuticos, do Sindicato das Indústrias do Estado de Goiás e do próprio Conselho Federal de Farmácia, a gente entende que a criação do curso de engenharia farmacêutica busca apreender, para essa nova profissão, aquilo que é o coração da profissão farmacêutica e que é o mais substancial da profissão farmacêutica na área de produção de medicamentos.
Deste modo, nós entendemos que haverá uma fragmentação, como você citou, desnecessária, e nós enfatizamos isso nos nossos pronunciamentos e nos nossos documentos: uma fragmentação desnecessária para o curso de farmácia, e o próprio curso de engenharia farmacêutica criado; vai nascer um curso capenga, porque nem é farmácia e nem é uma engenharia completa; é um misto, é um Frankenstein que mistura duas áreas que até podem algum dia ter alguma conciliação, mas que, por enquanto, não existe como previsão legal, não existe como profissão.
Nós já temos um profissional no país, o qual atende completamente às necessidades da indústria, na fabricação de medicamentos. Lembro que o Brasil possui cerca de 900 faculdades de Farmácia e que boa parte das faculdades já forma este profissional que faz o que a indústria precisa, isso amparado por várias leis que vêm desde a década de 1960, então não é uma atividade recente.
Então, todo esse movimento que aconteceu na universidade e envolvendo, inclusive, a participação da sociedade civil, através dos órgãos de representação, foi um movimento legítimo, em defesa do que a gente entende como sendo aquilo que existe de mais vital na profissão farmacêutica. Eu diria, para dar um exemplo, você que é da área de comunicação, vamos falar assim: a partir de hoje, nós vamos criar um curso de graduação em jornalismo investigativo, sei lá, jornalismo literário ou jornalismo de opinião. Então, eu sei que você está me entendendo o que quero dizer.
Nós sentimos da mesma forma. Até comentei lá na reunião da câmara de graduação, nós sabemos o que é essa profissão, o que ela faz e até onde ela pode ir; o que a gente tem direito de conquistar, o que a gente tem para evoluir. Nós sabemos que precisamos melhorar, evoluir, mas não precisamos deixar que uma profissão nova criada por uma instituição pública, que é a Universidade Federal de Goiás, utilizando recursos públicos, faça mau uso desses recursos; ao invés de melhorar, aprimorar aquilo que já existe, criar uma coisa nova que vai atrapalhar o próprio curso de engenharia química, o curso de engenharia de produção e vai atrapalhar o curso de farmácia.
Nós não sabemos direito para que rumo esses profissionais, uma vez formados, irão tomar; se vão ter espaço no mercado. Então, a gente tem uma série de questionamentos em torno desse assunto, e são bem profundos, o que acabou resultando, por enquanto, no adiamento da decisão na Câmara de Graduação.
Você falou que, em algum momento, seria entrelaçado, talvez futuramente, o curso de farmácia e o curso de engenharia, mas como? E por que essa proposta saiu do Instituto de Química e não do Instituto de Engenharia ou da própria farmácia?
Bom, vou falar por nós, em princípio. A primeira pergunta é sobre entrelaçamento. Para o trabalho em uma indústria, é necessário que nós tenhamos vários profissionais, e isso inclui profissionais na área administrativa, financeira, contábil, gestão de pessoal; inclui todo o staff técnico, corpo técnico, e isso inclui, aí, farmacêuticos, químicos, engenheiros, os mais variados: engenheiro civil, engenheiro eletricista, engenheiro mecânico, engenheiro de computação.
Então, a engenharia está presente. Assim como tem a participação dos biólogos, às vezes de médicos veterinários, eu falei dos químicos: químicos já estão inseridos na indústria, são excelentes profissionais. Desde o início, a gente enfatiza, inclusive, que nós não temos uma rixa com o Instituto de Química, que é um assunto institucional. Interação com as funções, nós já fazemos; o que nós não precisamos é que se crie uma nova profissão para fazer aquilo que nós já damos conta de fazer muito bem.
A indústria já nos aceita, já nos recebe, já nos legitima. A nossa legislação brasileira, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, já legitima o farmacêutico, o profissional responsável por todas as etapas da cadeia de produção de medicamentos. E essa questão do porquê que não nasceu nem no curso de farmácia nem no de engenharia, é porque o Instituto de Química tomou iniciativa por conta de um edital interno da Universidade Federal de Goiás, UFG Pro Pessoas para distribuição de 10 vagas docentes, e as unidades que poderiam apresentar projetos, a Química apresentou esse projeto, e ele acabou sendo um dos contemplados. Não nasceu na Faculdade de Farmácia justamente porque a Faculdade de Farmácia entende que nós não devemos criar um curso que vai tirar a parte mais nobre da profissão farmacêutica.
Nós já temos essa área de tecnologia farmacêutica, de fabricação, de garantia da qualidade, de boas práticas de fabricação de medicamentos, já inserida na nossa alma farmacêutica; faz parte da nossa vida, faz parte da nossa matriz curricular, nosso PPC, nas diretrizes curriculares nacionais. Então, nós não temos por que criar outro curso para concorrer com algo que já é nosso. Isso é bem claro, e acho que é fácil de entender, mesmo não sendo da área técnica.
No documento elaborado pelo Instituto de Química, tem a seguinte comparação: dizendo que a engenharia farmacêutica seria para a farmácia o que a engenharia química é para a química. Essa comparação é feita devido ao fato de que o químico trabalha mais no nível científico e laboratorial, investigando e entendendo fenômenos químicos, e o engenheiro químico trabalha mais no nível aplicado e industrial, projetando e controlando processos que usam esses fenômenos para gerar produtos em grande escala. Você acredita que essa comparação é válida?
Eu acho que cada um pode fazer a comparação que lhe couber, que achar conveniente. Na química, nós temos bacharelado e licenciatura. A química é uma das ciências básicas, digamos assim, como a matemática, ciências biológicas, a física; tanto que surgiram os institutos, os institutos surgiram para dar conta da parte básica. Com o passar do tempo, eles começaram também a querer ir para um lado mais aplicado. Aí, começaram a criar outros cursos.
Então, eles podem fazer a comparação, mas, quando você inclui palavras assim, o engenheiro farmacêutico vai trabalhar com processos. Se você for procurar no dicionário o significado da palavra “processo”, processo é quase tudo. E o importante, lá atrás, quando fizeram o projeto, é que eles usaram, nitidamente, colocaram que era um nicho na área farmacêutica: a fabricação de medicamentos, a tecnologia farmacêutica. E, depois, ao passar do tempo, o projeto pedagógico do curso foi sendo adequado até para suprimir um palavreado que fosse muito mais farmacêutico e que, portanto, seria mais contestável. Mas, mesmo assim, quando nós fizemos uma análise da matriz curricular do PPC e nós destacamos isso em documento nos processos que estão correndo na universidade, o quanto a proposta desse curso invade áreas que são privativas da farmacêutica.
Então, como destacou um colega nosso, o professor Bruno Neves: “fazendo a leitura crítica do PPC, a proposta do curso, lemos a proposição; entretanto, vamos enxergar qual é a intenção. A intenção da proposta do curso de engenharia farmacêutica, no nosso entendimento, é usufruir e pegar para si uma boa parte, ou futuramente, em 10 anos, 20, 30 anos que muita gente às vezes não quer enxergar por longe aquilo que é mais característico da profissão farmacêutica na indústria do medicamento, tá?” Então, essa comparação, para a gente, fica meio sem sentido diante do que a gente enxerga, como sempre, aquilo que é privativo da nossa profissão.
Ainda falando do documento, tem o seguinte trecho: “A iniciativa inova ainda ao identificar um nicho do mercado industrial tipicamente ocupado por profissionais das Ciências Farmacêuticas, cuja formação ao longo dos anos não tem sido orientada ao desenvolvimento de processos em escala.” Você concorda com essa colocação? Por quê?
Olha, eu não concordo com uma crítica direta à ineficiência das faculdades de farmácia do Brasil inteiro; eu acho que é um equívoco, porque eles estão enxergando esse nicho, tanto que eu adiantei, né? É típico das ciências farmacêuticas, se é típico de ciências farmacêuticas, não deveriam nem pleitear entrar nessa seara, porque já têm, em certo modo, profissionais capacitados e em processos de transformação. Tudo na vida muda, e as profissões e os cursos também; tanto que, frequentemente, nós temos novas diretrizes curriculares, nós temos alterações de PPC e, às vezes, dentro, por conta da universidade, opressões externas, motivos externos, a gente tem necessidade de se mexer, modificar e melhorar. E é o que nós procuramos fazer, não só aqui, mas no Brasil todo: as faculdades de farmácia, algumas mais ou outras menos, especialmente as públicas, se dedicam a determinados setores com mais intensidade. Então, o setor industrial: muitíssimas faculdades de farmácia se dedicam e se aprimoram continuamente, e é o que a gente tem feito aqui na nossa universidade.
Então, colocar dessa forma já está colocando, em certo modo, o que eu acabei de falar para você, mostrando a intenção. Qual é a intenção? A intenção é se apropriar de uma área, tipicamente, das ciências farmacêuticas. Pronto. Então, eles mesmos, nesse documento que eu li, claro, a gente tem, por isso que é uma das nossas críticas, colocam, já de forma bem clara para todo mundo que quiser entender, qual é a intenção.
Na proposta também fala que a criação desse curso vai ampliar a relevância da universidade, no caso da UFG, apresentando no mercado um novo perfil profissional, capacitado essencialmente ao desenvolvimento de processos produtivos na cadeia industrial. Eles sempre estão dando ênfase na produção em escala e produção industrial. Então, tendo em vista que nenhuma outra universidade apresentou proposta parecida, você acredita que essa possível criação de graduação realmente ampliaria a relevância da UFG?
Olha, a criação de novos cursos é uma prerrogativa das universidades. Ela pode criar e propor criação de novos cursos. Nos últimos 15 anos, nós tivemos muitos cursos novos criados. Não é proibido propor. Mas essa proposição tem que ter um pé na realidade. Ela tem que ser discutida amplamente, e foi o que nós, a Faculdade de Farmácia e todas as organizações das entidades farmacêuticas, fizemos com essa proposta: fizemos a universidade refletir, pensar, comparar, avaliar e saber o que existe, o que não existe, o que é invasivo e o que não é invasivo. Tudo isso nós provocamos.
Nós podemos, como eu acabei de citar, criar outro tipo de curso de jornalismo. Isso vai ser inovação do ponto de vista do professor Luiz Carlos, que é farmacêutico. Nossa! Jornalismo científico eu adoraria fazer um curso de jornalismo científico, por exemplo. Mas nós sabemos que isso faz parte de uma das atribuições do jornalista. Então, do meu ponto de vista, que sou farmacêutico, o jornalismo científico é um curso de graduação inovador. Então, aquilo que a gente enxerga como inovação depende do observador ou de quem está ouvindo. Se pego um trabalho de ciências farmacêuticas aqui, mostrando como se fabrica um comprimido e mostrando de todas as formas, explicando, desenhando, botando fotos, aí eu posso botar até um videozinho com o equipamento funcionando. E eu pedi para o Kauan, que é estudante de jornalismo, avaliar e falar que aquilo ali é uma coisa nova, inovadora. E, na verdade, todo mundo em farmácia sabe que aquilo já existe há muito tempo. E, se você não for procurar outras fontes na literatura ou outras experiências ou outras instituições para poder comparar, você vai acreditar que é inovação, porque apresentei o negócio de uma forma muito bonita. Isso acontece muito no nosso meio.
Dependendo de quem está avaliando, ele pode considerar aquilo como inovador. E, na verdade, a pessoa não tem a experiência para julgar se aquilo é inovação ou não. Nós entendemos que não existe inovação no curso de engenharia farmacêutica, porque, na prática, quando falam em escala, em processo, nós já fazemos isso. Isso não é inovação, tá bom? Nós vamos usar técnicas estatísticas de controle de qualidade. Beleza, a gente faz isso e a gente pode evoluir, melhorar. Vamos usar inteligência artificial. Todo mundo vai usar inteligência artificial, ou já está usando em algum momento. Então, o inovador só parece inovador às vezes e, nem sempre, ele é o que parece.
Caso essa graduação seja criada, você acredita que o mercado farmacêutico nacional teria espaço para absorver um novo perfil profissional diferenciado do farmacêutico tradicional? E quais seriam os impactos para os atuais estudantes de farmácia e para os já formados?
Olha, uma das essências da proposta da criação do curso de engenharia farmacêutica, mais uma vez ressaltando que a minha participação neste processo, participação da faculdade de farmácia, é institucional, não é pessoal, e nós temos, até agora, um excelente relacionamento com o Instituto de Química, os professores de lá, de muitas décadas, não é só agora. O que nós entendemos é que a proposta deles deveria trazer para a gente esses subsídios. Eles deveriam conversar com a sociedade. E, lá na proposta do que nós lemos, eles não conversaram com a sociedade. Então, por exemplo, eles não conversaram com o patrão, o empregador.
Nós conversamos. Nós conversamos com o sindicato das Indústrias Farmacêuticas do Estado de Goiás. Esse sindicato emitiu uma nota de esclarecimento, junto com repúdio; não me lembro o título correto, por isso que eu tomo a dúvida, mas ela é pública, do SINDIFARGO, é a sigla do nosso sindicato aqui em Goiás, que espalhou para os sindicatos de todo o país, e eles divulgaram essas notas. Então, não foi só uma atividade corporativa. Ah, só os farmacêuticos? Não, nós conversamos com o sindicato patronal. O sindicato patronal fez uma nota esclarecendo que não precisa de mais gente nesse setor, de mais um profissional chamado Engenheiro de alguma coisa, que não sabe direito a que vai servir ainda.
Quem deveria fazer estimativas de mercado, quantas pessoas vão se formar por ano, quem vai absorver, quais vão ser os impactos internos e externos, nós questionamos isso nos nossos documentos: qual vai ser o impacto nas químicas, na engenharia química, na engenharia de produção? Qual vai ser o impacto para a farmácia, para os alunos e para os profissionais farmacêuticos? Como uma profissão, ela não consegue um lugar no mercado de trabalho em pouco tempo. Isso demora 10 anos, 15, 20, 30 anos.
Nós temos casos de profissões que, agora, depois de 40 anos, estão se estabilizando como relevantes para a sociedade brasileira. Então, é isso tudo que você se trouxe: o impacto deveria ter sido colocado no projeto original e, depois, até no PPC, naquela parte introdutória de contextualizar o curso, para onde ele vai, qual o perfil do egresso e tudo mais. E isso não foi feito. Foi um grande questionamento que nós fizemos. Então, acho que a outra parte deveria também procurar responder a esse questionamento.
Já existem cursos de pós-graduação, como de tecnologia industrial farmacêutica, que aprofundam a formação para a atuação em processos industriais. Qual seria, então, a diferença prática entre essa especialização e o curso de graduação de engenharia farmacêutica?
Desde a primeira conversa que nós tivemos com os professores, com os colegas do Instituto de Química, a primeira proposta que nós fizemos foi: vamos montar um bom curso de especialização envolvendo atividade laboratorial, atividade prática, fazer uma imersão. Depois, nós tivemos outras ideias: vamos montar, sei lá, um mestrado profissionalizante, vamos criar uma linha de pesquisa, até pensamos em residência, um projeto de residência, como na medicina, na área de saúde, residência na área farmacêutica industrial, fazer um convênio com a indústria e colocar profissionais para fazer uma imersão, um estudo profundo dentro de um prazo curto, sei lá, de um ano, por exemplo, de imersão. Aí, teria que conseguir financiamento para esses colegas ou profissionais que vão atuar como residentes, que têm custo. Então, nós fizemos várias propostas e todas elas foram rechaçadas.
Nós sugerimos mudanças de nome e, claro, mudando o nome, teria que mudar o PPC. Nosso objetivo principal é que a área farmacêutica não seja vilipendiada. Vilipêndio se usa normalmente para cadáver, né? Vilipêndio, mas pode ser vilipêndio de coisa viva também — que nós não morremos. Nós estamos fazendo 80 anos com unidade acadêmica; a farmácia no Brasil começou lá em Ouro Preto, em 1838. Em 1838, a Família Real veio para cá em 1808, com João VI. Então, 30 anos depois, tínhamos uma faculdade de farmácia. O curso de farmácia aqui em Goiás foi o primeiro curso na área de saúde, farmácia e odontologia. Então, nós temos uma vida toda lidando com os mais diversos aspectos da nossa profissão. E um dos aspectos mais relevantes é, por lei, competência jurídica e, obviamente, pela capacidade da nossa formação. Aí são as habilidades que a gente adquire.
Nós temos todo direito e condição de continuar a trabalhar nessa área e produzindo medicamentos. Lembrando que nós somos extremamente importantes na produção de medicamentos há muitas décadas. Agora, de uma hora para outra, falar que a partir de agora tudo vai mudar… Nós estamos antenados em relação a medicamentos antigos. A gente chama de formas farmacêuticas: comprimido, um xarope, uma injeção, tá? A gente sabe fazer, a gente sabe fabricar, a gente sabe controlar, a gente sabe distribuir, a gente sabe orientar. E é claro que são áreas diferentes, né? O farmacêutico que produz, ele não vai orientar no balcão da drogaria. Ele não vai orientar o paciente no hospital. Então, são áreas diferentes de atuação. Mas não é uma área restrita. Falar “nós só podemos atender” ou “assim, não podemos fabricar”… Nós estamos na farmácia de manipulação, nós estamos na indústria, nós fabricamos medicamentos.
É a nossa essência. Sem isso, é como tirar o nosso oxigênio. Aí, você vai matar uma profissão que é secular, talvez milenar, citada na Bíblia, o boticário e essas coisas todas. Então, o nosso apelo não é só pela tradição da profissão farmacêutica; é muito mais profundo que isso. Tem a ver com a nossa existência ou não, nos próximos anos, nas próximas décadas. Por isso, esse movimento todo na universidade, fora da universidade, ele aconteceu e continua acontecendo, porque o processo não foi definido. Só na próxima segunda-feira, a Câmara de Graduação deverá definir uma comissão, que vai fazer uma segunda vista, digamos assim, sobre esse processo, e esperamos que, ouvindo as partes interessadas e lendo atentamente as nossas contribuições, as nossas críticas e as nossas contestações, tudo seja considerado.
