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Raul Modesto

A indústria do entretenimento é, desde sua popularização nos anos 50, um ramo do entretenimento que está sempre em crescimento exponencial, se tornando cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, mesmo estas não consumindo ativamente todo o conteúdo produzido por essa indústria.

Contudo, atualmente, os maiores fãs das produções de entretenimento de grandes empresas se perguntam o que aconteceu com suas obras favoritas que, cada dia mais, deixam de ser entretenimento e passam a ser apenas tentativas escancaradas de ganhar dinheiro em cima do que um dia foi algo bom.

Nós do Lab Notícias decidimos procurar e catalogar o principal motivo para as principais empresas desse ramo estarem decepcionando em seus últimos lançamentos:

Marvel e seu universo expandido

Em pesquisa realizada pelo Morning Consult, foi descoberto que a parcela de entrevistados que gosta de filmes de super-heróis caiu de 41% para 36% no período de um ano, com a revelação de que os fãs de empresas focadas nesse ramo, como a Marvel, caiu de 87% para 82%.

O motivo para isso se tornou cada vez mais claro conforme a empresa lançava novas produções: há um enorme desgaste para tudo que a Marvel anda fazendo atualmente, principalmente com seu famoso Universo Cinematográfico ou MCU.

Pôster do filme: Vingadores Ultimato, contendo todos os heróis protagonistas do filme olhando para o céu enquanto são abraçados por uma luz roxa e, ao fundo, o vilão da trama, Thanos, espreita.
Pôster de Vingadores: Ultimato / Marvel

Desde o início das produções da Marvel que fazem parte deste universo, a empresa lançou até o momento 42 produções diretamente conectadas ao MCU, sendo a última Invasão Secreta, uma minissérie iniciada no dia 21 de Junho de 2023. Das 42 produções lançadas pela empresa, 19 foram lançadas nos últimos dois anos (2021-2023), sendo este um número bastante assustador quando comparado com a empresa no início do MCU, que produziu seis filmes em um período de quatro anos (2008-2012).

Essa massificação de trabalho, bastante semelhante ao modelo de produção em massa de carros do fordismo, traz consigo um grave problema presente em diversas das obras atuais da Marvel: a precarização do trabalho.

Em matéria publicada pela CNET, é revelado o esgotamento físico e mental pelo qual inúmeros artistas de efeitos visuais passaram durante suas estadias na Marvel. As reclamações sempre transitam entre três pontos:

  • O estúdio teria o costume de pedir que fossem feitas mudanças em cima da hora, exigindo que os artistas refizessem todo o seu trabalho em tempos extremamente curtos;
  • Muita pressão durante o trabalho;
  • Exigência de trabalhar com rapidez, exigindo que os artistas terminassem os efeitos em um tempo limite menor do que o mínimo necessário para se terminar;

Além disso, artistas também reclamavam de receberem pouco por muitas horas de trabalho, além de constantemente sofrerem sem nenhum tipo de apoio. Um artista anônimo ainda acentuou:

Eu tive que confortar pessoas chorando em suas mesas, tarde da noite, somente por causa da pressão envolvida, e frequentemente tinha colegas me ligando tendo ataques de ansiedade.

Tradução do Lab Notícias

Junto a isso, o artista anônimo também afirmou que escutou pessoalmente vários artistas que “evitavam obras da Marvel em seus trabalhos futuros”. As péssimas condições se refletem na aceitação do público frente as novas obras, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, por exemplo, recebeu uma nota 48 de 100 no site do Metacritic, feito para avaliar obras de televisão, séries e outros.

A situação dos artistas de efeitos visuais é somente uma em muitas, visto que também há problemas envolvendo roteiristas, produtores e outros que afetaram os filmes atuais da Marvel. Vale ressaltar que não é só a Marvel que sofre isso, apesar de ser a empresa em que este problema é mais acentuado, casos como estes também foram relatados em empresas como a DC na produção do filme The Flash e a Sony na produção de Homem-Aranha: Através do Aranhaverso.

DC e o desespero por apreço dos fãs

A DC é outra empresa de entretenimento que além de sofrer com a precarização do trabalho, também é alvo de muitas críticas por seu desespero em fazer aquilo que mais agradaria os fãs. Isto é somente um ponto ruim pelas constantes falhas demonstradas pela empresa em suas produções.

Diferente de sua concorrente, Marvel, a DC não conseguiu formar seu próprio universo cinematográfico e constantemente falha sempre que tenta. O caso mais emblemático é toda a problemática em volta do ator Henry Cavill que interpretava o aclamado Superman – sendo este um dos três heróis mais famosos da empresa – e, depois de muitos boatos, saídas e retornos, não interpretará mais o personagem, apesar do apelo dos fãs para manter o ator.

Pôster do filme The Flash / DC

Entretanto, o exemplo mais emblemático do desespero pelo clamor dos fãs e da falha em conseguir este é a mais recente produção do estúdio: The Flash. O filme, assim como diversos filmes da Marvel, também foi denunciado pelas péssimas condições de trabalho de seus artistas visuais e, junto à isso, foi duramente criticado por suas decisões.

No filme, em um dado momento, são utilizados efeitos especiais para trazer de volta atores que interpretaram heróis da DC no passado, incluindo atores falecidos, além do Batman de Michael Keaton, estampado nos pôsteres do filme, que reprisa seu papel como o vigilante mascarado depois de ter atuado em filmes como o herói em 1992.

Com as aparições dos diversos heróis, The Flash se tornou o terceiro filme seguido da DC que continha diversos heróis no mesmo filme, sendo recebido com uma nota de 56 no Metacritic e recebendo duras críticas pelas condições precárias de seus trabalhadores de efeitos visuais que, novamente, foram pressionados até o limite.

Há também, por parte da empresa, uma pressão em cima de seus diretores para que estes construam uma história que possa unir os filmes todos em um só universo, cancelando projetos promissores e quase finalizados, como o filme solo da Batgirl, para financiar filmes de heróis mais chamativos que possam guiar um novo universo unido da empresa.

Disney e a apelação para nostalgia

A gigante das animações, Disney, é mais uma das empresas que adotou a nova visão do Fordismo Cinematográfico. A multibilionária empresa dona do rato mais famoso do mundo foi muito criticada por sua recente política de “live-actions” de filmes de animação antigos.

Pôster do filme live-action do Rei Leão / Disney

Começando com Rei Leão, a empresa passou a lançar uma versão “realista” de quase todas as suas antigas produções, priorizando o lançamento destas recriações ao invés de filmes originais. Apesar disso, a empresa ainda possui uma má fama entre os artistas, sendo citada, na mesma matéria da CNET sobre a Marvel, na qual um dos artistas afirma que:

Até a parente da Marvel, Disney, é mais fácil de lidar com seus filmes live-action.

Tradução do Lab Notícias

Problema de criatividade ou apenas desespero por dinheiro fácil, a nova visão que se instalou na indústria do entretenimento atual não afeta somente o conteúdo de seus filmes como também afeta diretamente seus trabalhadores.

Os filmes, sendo vistos somente como produtos que deveriam gerar lucro, são agora uma justificativa para colocar peso em cima dos trabalhadores que seguem carreira nesse rumo, precarizando sua situação já crítica no mercado e transformando-o em um burro de carga, sem sentimentos e sem descanso, que é somente um meio para levar a empresa ao lucro a custo de sua saúde física e psicológica.

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