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O mercado editorial tem sofrido uma queda de faturamento nos últimos anos e enfrentado mudanças, tanto na forma pela qual o livro é vendido, quanto na forma com que os leitores consomem esses produtos. Embora tenha ocorrido um aumento de faturamento no mercado editorial em 8,33% em 2022, o setor encolheu 39% de 2006 a 2021, segundo dados da Nielsen.

Mudanças como o consumo de e-books, ou seja, livros digitais lidos online através de aparelhos como o Kindle, fazem com que a forma que leitores acessam as obras seja diferente de comprar nas tradicionais livrarias. Com a pandemia, a forma de comprar livros também mudou bastante, com a ascensão dos comércios virtuais.

Para falar mais sobre, trouxemos o Secretário de Comunicação da SECOM e professor da Universidade Federal de Goiás, Salvio Juliano Peixoto Farias, graduado em Comunicação Social/Jornalismo e mestre em Arte e Cultura Visual com experiência em organização gráfica e editorial.

Professor Salvio Juliano Peixoto Farias sorrindo.
Professor Salvio Juliano Peixoto Farias. Foto: SECOM

Lab Notícias: Como funciona o mercado editorial no Brasil?

Dr. Salvio Juliano Peixoto Farias: O mercado de livros é mantido por grandes editoras que de certa forma dominam o mercado e pequenas editoras independentes que vivem um pouco fora desse grande circuito comercial. As editoras independentes sobrevivem fazendo feiras e promovendo eventos paralelos. Mas apesar de que se esperava que o livro e o papel desaparecessem, eles continuam sendo produzidos e sendo muito vendidos. É óbvio que a questão da qualidade do que se lê é outra coisa: se vende muitos livros não necessariamente tão sofisticados, como livros de autoajuda, grandes publicações dos Estados Unidos ou livros que inspiraram filmes e séries, mas o mercado continua firme e forte.

Ultimamente houve uma queda no mercado editorial, quais são os fatores que motivaram essa queda?

Se a gente está falando de livros, no século 19, por exemplo, quando houve o romantismo no Brasil, a grande maneira de entretenimento naquela época era a literatura, era um livro para quem podia comprar porque sabia ler. Para as classes mais abastadas, o livro era o grande suporte de entretenimento. Hoje em dia, a gente tem a televisão e o cinema que está nas nossas casas, a gente tem a internet, então assim há uma concorrência com a nossa atenção muito grande. Claro que ainda se lê muito, mas os livros precisam disputar espaço com outras mídias. A literatura pede uma certa concentração e isso nem sempre é favorável para o livro.

Como a cultura digital, com os audiobooks (livros em áudio) e os e-books (livros digitais), mudou o setor editorial?

A cultura digital tem uma oferta muito grande de outras mídias e ela traz novas vertentes de comunicação e o livro, de certa forma, passou por essas transformações, sejam e-books ou livros que tenham links com vídeos ou ilustrações que se movimentam, uma série de outros fatores multi-plataformas. De certa forma, isso vem junto com as novas mídias, as novas tecnologias que nem são tão novas assim, né? Já estão aí há 30 anos no nosso cotidiano. Mas acho que o maior concorrente do livro impresso não é o próprio livro e-book ou outras formas, são as outras formas de entretenimento, como as redes sociais. Elas ocupam o nosso tempo, então o tempo que usaríamos lendo, que antes era uma maneira de entretenimento e de fuga, agora se usa em um game ou nas redes sociais.

Em relação às redes sociais, também existem nichos como o BookTok, que influenciam muito até mesmo o próprio consumo de livros com as suas indicações. Teria como falar um pouco sobre?

Embora não siga nenhum grande divulgador de livros, vejo que existe, por exemplo, a TAG, que é um clube de leitura e de assinatura. Não tenho dados sobre os números deles, mas como já existe no mercado há pelo menos cinco anos, vejo que esse setor existe e se dá bem. Funciona, mas são públicos menores. Não é como era nos anos 60 e 70, quando jornais faziam suplementos literários e as pessoas os pegavam, discutiam e debatiam e era fonte de muitas conversas. Mais uma vez questiono que tipo de leitura nós estamos tendo, embora exista muita coisa: o Nobel e o Pulitzer continuam premiando literatura e temos o Prêmio Jabuti aqui no Brasil. Mas o que as pessoas realmente querem ler?

Muitas pessoas consomem os e-books porque consideram mais eco-friendly (sustentável) do que o livro físico. Essa informação procede?

É melhor para o meio ambiente, mas absolutamente tudo prejudica o meio ambiente, então os e-books também causam impactos. As máquinas e os computadores também vão precisar de petróleo, de combustíveis fósseis para produzir o plástico e toda uma série de materiais, como chips, e todo o lixo que esses produtos vão gerar depois. Os livros, por outro lado, ninguém vai lá na Floresta Amazônica destruí-la para fazer papel, essa madeira vai para outros fins, geralmente extraída de lá de forma ilegal.

Para o papel do livro físico, é feita uma plantação de eucaliptos ou de pínus elliottii, para se fazer celulose, elas vão poluir também bastante, porque embora seja plantada para aquele aquela finalidade, são árvores que crescem muito rápido, mas também degradam o solo, não propiciam a existência de uma fauna e flora múltipla. Porém o papel é barato ainda, tem essas especificações, mas mesmo assim danifica o ambiente.

Essa volta de eventos presenciais, como feiras e a própria Bienal do Livro, representam algo positivo para o mercado?

Com certeza. Todas as estratégias de marketing são muito positivas. Até os best-sellers são positivos, como Harry Potter, As Crônicas de Nárnia e outras dessas séries que vendem muito para jovens, e talvez sejam a porta de entrada na literatura e no hábito de leitura. Ler é como fazer atividade física e se alimentar bem, é uma coisa de costume que você vai criando e trazendo para sua vida. Então essas feiras têm muito de marketing nelas, com grandes entrevistas, com cobertura da imprensa, são extremamente importantes.

Também tem as feiras pequenas, como a Excêntrica que acontece em Goiás, que traz editoras independentes e que ocorre fora do circuito comercial, o que é muito importante pra gente ter acesso a produções às vezes mais artesanais, mas também mais artísticas, mais elaboradas. Você tem, por exemplo, livros com gravuras originais na composição, livros costurados à mão, livros que não encontramos em grandes livrarias nem na internet, ou seja, tudo isso é muito importante.

Tem mais alguma feira desse tipo aqui em Goiás?

Eu conheço a Excêntrica, não tô contando essas feiras de shopping center que vendem todos os livros a 10, 15 reais. Acho que ela é bem importante, deve estar na terceira ou quarta edição.

Com as redes sociais, tem havido cada vez mais a questão do analfabetismo funcional. Isso é um empecilho para o mercado em si para atrair pessoas?

Acho que sim, porque a gente funciona muito com o comportamento de manada, então se as pessoas todas estão nos streaming assistindo séries, para se sentir participante de determinados grupos, você também assiste aquela série. Então eu acho que a literatura também é assim. No século XIX, até metade do século XX, a gente tinha grandes clubes de literatura, de bibliófilos, de pessoas que se reuniam para ler e para comentar as produções que elas tinham comprado. Ainda existe, a gente vê um ou outro falando que faz parte do clube de leitura, mas bem menos.

As redes sociais dão uma empobrecida na nossa comunicação, na nossa maneira de contar histórias, na nossa criatividade. Mas não é que as redes sociais fazem isso sozinhas, que elas são malévolas e perniciosas, é que a gente gasta muito do nosso tempo consumindo produtos que são precários e sempre foi assim. É preciso ter um esforço nas escolas para que as pessoas realmente busquem consumir produtos culturais com maior qualidade e com maior profundidade.

Tem mais alguma percepção sobre mercado que você gostaria de fazer?

Acho que embora as livrarias vivam uma crise na atualidade, o mercado continua existindo. O que está em crise é mais o modo de se comercializar os livros, porque apesar de tudo, ainda se produz muito livro e as pessoas leem muito. Ir até a livraria e comprar um livro que talvez esteja caindo em desuso cada vez mais, porque as pessoas têm comprado mais coisas on-line, como na Amazon. A tendência é que talvez haja um misto.

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