Tempo de leitura: 7 min

O suicídio é uma questão de saúde pública que, apesar de ser cercada por silêncio e estigmas, afeta milhões de pessoas em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas tiram suas próprias vidas anualmente. No Brasil, são registrados cerca de 14 mil casos de suicídio por ano, o que significa que, em média, 38 pessoas morrem por suicídio a cada dia. Enquanto isso, muitas outras enfrentam sozinhas pensamentos de autodestruição.

Diante dessa realidade, o mês de setembro se tornou um período de conscientização e mobilização. Criada em 2015, a campanha Setembro Amarelo busca romper o tabu em torno do suicídio e promover o diálogo, encorajando mais pessoas a procurarem ajuda. Além dos números, estamos falando de vidas: cada estatística representa uma história, uma família e um grupo de pessoas impactadas.

Foto: Fundação gol de letra

Em entrevista ao Lab Notícias, a psicóloga Jhennyfer Rebeca explica os sinais de alerta, a relevância do apoio psicológico e as estratégias para enfrentar o estigma que ainda envolve as questões de saúde mental.

LN Quais são os principais sinais de alerta que podem indicar que alguém está pensando em suicídio?

Jhennyfer Rebeca – Às vezes, os sinais são tão sutis que passam despercebidos. Pode ser aquele olhar distante, uma mudança inesperada no comportamento ou a perda de interesse por coisas que antes traziam tanta alegria. Comentários sobre sentir-se um fardo ou um profundo sentimento de desesperança são sinais de alerta que jamais devemos ignorar. A pessoa pode não dizer com todas as palavras que está pensando em suicídio, mas o silêncio ou gestos podem ser um pedido de socorro disfarçado e é nesses momentos que precisamos estar ainda mais atentos e oferecer apoio.

LN Qual é a importância da rede de apoio, como amigos e familiares, no processo de prevenção ao suicídio, e como eles podem ser treinados para identificar sinais de alerta?

Jhennyfer Rebeca – Amigos e familiares desempenham um papel vital e insubstituível na vida de alguém em crise. São eles que, muitas vezes, estão presentes no dia a dia e podem perceber as primeiras mudanças sutis no comportamento: aquele silêncio prolongado, a falta de energia ou o próprio distanciamento dos familiares e amigos. Esses sinais, embora possam parecer pequenos, são extremamente importantes. Por isso, é essencial capacitá-los a reconhecer os sinais de alerta e a saber como agir.

Oferecer apoio não é apenas sobre estar presente fisicamente, mas também emocionalmente , ser aquele ouvido atento e aquele ombro amigo. Ter conversas abertas e honestas sobre os sentimentos, sem julgamentos, pode oferecer um alívio imediato para quem está sofrendo, pois muitas vezes o simples ato de ser ouvido já é uma forma de cuidado. Além disso, amigos e familiares têm o poder de encorajar a busca por ajuda profissional e mostrar que há uma rede de apoio pronta para acolher, o que pode ser um divisor de águas para quem se sente perdido ou sem esperança. Treiná-los com habilidades práticas de escuta ativa e intervenções de apoio pode, literalmente, salvar vidas.

LNComo as instituições de ensino podem identificar alunos em risco de suicídio, e quais estratégias elas podem implementar para oferecer apoio emocional e encaminhamentos adequados?

Jhennyfer Rebeca – As instituições de ensino vão muito além de serem apenas espaços de aprendizado; elas podem ser um refúgio seguro para muitos jovens. Em um ambiente de ensino, onde os estudantes passam grande parte de seus dias, os educadores e funcionários estão em uma posição única para notar sinais de alerta como queda no desempenho acadêmico, isolamento social ou mudanças abruptas de comportamento. Esses sinais, por mais pequenos que sejam, podem indicar que algo está errado.

Ao implementar programas de suporte emocional, as instituições  podem se transformar em um lugar de acolhimento genuíno, onde os alunos não apenas aprendem, mas também encontram apoio em momentos de vulnerabilidade. Ter alguém que se preocupa, que ouve sem pressa, pode ser a âncora que muitos estudantes precisam para superar desafios pessoais. Além disso, quando esses ambientes adotam uma cultura de cuidado e bem-estar, acabam promovendo um lugar onde os jovens se sentem seguros para expressar suas emoções e buscar ajuda, o que pode fazer uma diferença enorme em suas vidas, prevenindo crises e fortalecendo sua resiliência emocional”.

LNQual é a importância de procurar apoio psicológico em momentos de vulnerabilidade emocional, especialmente quando há sinais de risco de suicídio, e como o acompanhamento profissional pode ajudar a prevenir o agravamento da situação e promover a recuperação da saúde mental?

Jhennyfer Rebeca – Em momentos de fragilidade, buscar ajuda pode ser a luz no fim do túnel. Estudos mostram que o apoio psicológico pode reduzir drasticamente os riscos associados a pensamentos suicidas e crises emocionais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 90% das pessoas que morrem por suicídio sofrem de alguma condição mental, muitas vezes não diagnosticada ou não tratada. Um profissional qualificado pode oferecer um espaço seguro e acolhedor, onde as emoções são validadas e trabalhadas de forma construtiva.

Com a ajuda adequada, é possível desenvolver estratégias eficazes para enfrentar crises, gerenciar sentimentos de desesperança e construir soluções para o problema . A psicoterapia, por exemplo, não só ajuda a reduzir os pensamentos suicidas, mas também restaura a esperança, capacitando o indivíduo com ferramentas práticas para a recuperação. A intervenção precoce pode fazer a diferença, mostrando que, mesmo nos momentos mais sombrios, existe um caminho possível para se sentir melhor e reencontrar o sentido da vida”.

LN Para finalizarmos, segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), houve um aumento de 43% nos casos de suicídio no Brasil entre 2010 e 2019, e um crescimento alarmante de 81% entre adolescentes, além do aumento de 113% na taxa de mortalidade por suicídios entre menores de 14 anos. Como as políticas públicas e intervenções preventivas podem ser mais eficazes para proteger essa população vulnerável e reduzir esses índices preocupantes? A campanha Setembro Amarelo pode mudar a percepção da sociedade em relação à importância de discutir o suicídio e a saúde mental? Você acredita que estamos fazendo progressos na redução do tabu em torno desses temas?

Jhennyfer Rebeca – O aumento alarmante nas taxas de suicídio, especialmente entre os jovens, é extremamente preocupante, é um chamado urgente para ação, alguma medida precisa ser tomada e isso está claro. Políticas eficazes devem se concentrar na educação e no acesso a serviços de apoio, além de promover a conscientização. A campanha Setembro Amarelo é um passo importante, ajudando a desestigmatizar a saúde mental e encorajar conversas tranquilas e abertas.

Sim, estamos fazendo progressos, mas ainda há muito a se fazer para garantir que todos, especialmente os mais vulneráveis, saibam que não estão sozinhos, que há um tratamento eficaz e principalmente que há esperança para um futuro melhor”.

Nota da redação: Se você está enfrentando situações difíceis, busque conversar com alguém de confiança e procure ajuda profissional, o apoio adequado pode fazer toda a diferença em momentos de crise. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, disponível 24 horas por dia, pelo telefone 188. Sua vida é importante e a ajuda está sempre disponível.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *