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Sala Eduardo Benfica - Cine Cultura
Sala Eduardo Benfica (Foto: Cine Cultura/Instagram)

Inaugurado em 1989, o Cine Cultura é o principal espaço de exibição de filmes não-comerciais em Goiás. Localizado no Centro Cultural Marietta Telles Machado, na Praça Cívica, em Goiânia, esse cinema tem foco em exibir produções tidas como alternativas e independentes, o que proporciona à pequena sala Eduardo Benfica, que conta com apenas 97 lugares, a fuga do circuito mainstream — o convencional.

Se não fosse o Cine Cultura, os filmes independentes não seriam exibidos em Goiânia, talvez nem em Goiás.

Afirma o mestre em Comunicação, coordenador e programador de filmes do Cine Cultura, Fabrício Cordeiro, de 39 anos. Ao Lab Notícias, o curador comentou sobre a importância social de um cinema cultural, as diferenças do circuito alternativo para o convencional e como a tecnologia e a explosão dos streamings modificaram o cenário do cinema.

O Cine Cultura

Lab Notícias: Como se organiza o gerenciamento interno do Cine Cultura? Como curador, quais as suas funções?

Fabrício Cordeiro: O gerenciamento interno do Cine Cultura basicamente se divide em três organizações, a coordenação, o financeiro e a projeção. Mas também, nós nos misturamos, não é nada muito rígido para não pesar para ninguém. Todos passam por todas as áreas. 

Meu trabalho eu vejo como dividido em duas frentes, uma mais administrativa que é aquele trabalho mais de processo, de papelada, embora hoje a papelada seja maneira de dizer, porque quase tudo é digitalizado. Elaborar processo de licenciamento de filmes, processo de manutenção, elaborar relatórios e outras coisas mais burocráticas. A outra frente é a parte mais legal, a curadoria dos filmes. Nessa, escolho os filmes que vamos exibir, organizo festivais, mostras, algumas sessões especiais e tudo relacionado à exibição.

O Cine Cultura tem um perfil alternativo, então estamos sempre buscando e pesquisando o que tem de interessante para esse nicho. Eu pesquiso e sempre tento assistir os filmes antes para ver o que é mais interessante colocar.

LN: Qual a importância de um cinema cultural, principalmente no cenário goiano? 

Fabrício Cordeiro: Eu gosto de falar que toda sala de cinema é uma tela maior que a vida. O Cine Cultura é importante porque aqui as pessoas podem assistir produções que muito provavelmente não iriam nem saber da existência. É cultura fora da bolha convencional, é a visibilidade do cult, do alternativo. 

Se não fosse o Cine Cultura, os filmes independentes não seriam exibidos em Goiânia, talvez nem em Goiás. Muitas vezes os filmes são exibidos em apenas três salas no país inteiro, às vezes não passam nem em São Paulo e nós tentamos justamente trazer esses filmes para cá [Cine Cultura]. Além disso, temos interesse em mostrar a nossa própria cultura, exibimos os filmes goianos. Esses filmes estão ganhando muito destaque, porque são produções muito boas, mas mesmo assim, não vão para as grandes redes. Então, é muito importante eles estarem aqui. 

LN: O que é exibido no Cine Cultura?

Fabrício Cordeiro: Aqui nós temos um recorte que se chama circuito alternativo. A sala é comercial, pois tem seu público, sua bilheteria, etc. No entanto, a gente não exibe grandes lançamentos de Hollywood e blockbusters. Aqui não vai passar Vingadores, não vai passar o novo filme do Homem-Aranha. Só se algum desses filmes se revelar um clássico ou algo assim. 

O Cine Cultura exibe filmes considerados menores ou independentes. Às vezes a gente tem uma linha tênue, podendo exibir também Tarantino, Thomas Anderson ou James Gray, que são diretores hollywoodianos famosos, mas fogem um pouco do mainstream. Mas no geral, exibimos sobretudo filmes brasileiros, nós temos [no Brasil] muita produção grande e importante, que não tem muita visibilidade nos cinemas de rede, os convencionais, então aqui, nós damos essa visibilidade. 

Tem filmes europeus, asiáticos, de cineastas famosos, menos famosos, curta-metragens, filmes premiados em grandes festivais, filmes não premiados, mas que ganharam algum destaque. Todas essas produções são consideradas “cult”, têm uma pegada alternativa, mais independente, fora das grandes produções convencionais. Os nossos filmes são mais ousados, sem muito apelo comercial, o que acaba dificultando com que eles entrem nos cinemas de redes.

Eu costumo brincar que aqui pode passar de tudo, desde que esteja dentro da lei. Não estamos preocupados com os lucros, nós exibimos o que os outros cinemas ignoram. 

LN: Justamente quanto aos lucros, como funciona a bilheteria? Por que os pagamentos são apenas em dinheiro?

Fabrício Cordeiro: A nossa bilheteria funciona com pagamentos somente em dinheiro, porque é mais fácil de dividir o que é das distribuidoras e o que é do estado. Varia de distribuidora para distribuidora, de filme para filme, mas em regra geral, metade do que entra aqui [de lucro] vai para distribuidora e metade fica para o estado, essa é a divisão, muito diferente das salas privadas, onde a renda é toda da própria rede.

A gente também quer começar a trabalhar com opções em pix e cartão de crédito, mas é um processo um pouco mais lento e burocrático. Para resolver isso, a Secretaria de Cultura precisa de diálogo com outras unidades, como a Secretaria de Economia. 

Técnica e tecnologia

LN: Como são feitas as projeções? O que mudou na parte técnica ao longo dos anos?

Fabrício Cordeiro: Atualmente, o Cine Cultura utiliza uma realidade tecnológica que favorece bastante o trabalho. É tudo digitalizado, inclusive as projeções, e isso facilita e amplia o leque de produções que nós podemos exibir. Por exemplo, projetar filme em película era muito “trampo”, então, agora somos privilegiados por ter esse trabalho muito mais fácil. Hoje, pedimos um filme para uma pessoa e ela pode enviar o link por e-mail, então em 30 minutos, no máximo 1 hora, já temos um arquivo enorme baixado. Aquele trabalho antigo de tirar o filme de lata, desenrolar e rebobinar o fio na roda tem um charme, não dá para negar. Mas ainda sim, era muita coisa, agora é bem mais fácil. 

Entretanto, a gente também não abandonou o passado 100%. Por exemplo, ainda temos um projetor de 35mm de película, que é uma raridade hoje em dia. Poucas salas no Brasil têm esse tipo em funcionamento. Aqui no Cine Cultura, não utilizamos ele desde 2014, mas isso não invalida sua representação. Além de representar o passado e manter isso vivo, se um dia algum festival de cinema tiver pretensão de exibir um filme em película, essa exibição pode ocorrer aqui no Cine Cultura. 

LN: Há décadas a tecnologia tem alterado a forma como as pessoas consomem conteúdo audiovisual. No entanto, mesmo com todas as mudanças, o cinema ainda se sustenta. Como isso ocorre e como essa prática se destaca, por exemplo, de assistir um filme em casa? 

Fabrício Cordeiro: Ir ao cinema é quase um ritual místico. Tem um texto da Susan Sontag que se chama “A decadência do cinema” e fala justamente sobre isso. Com a popularização da TV, a prática de ir ao cinema foi meio que sendo colocada em cheque, mas ela também traz que o cinema nunca vai morrer, por causa da experiência. Ela usa uma expressão muito bonita, que é “assistir um filme ao lado de estranhos anônimos” e isso realmente define muito bem o que é ir a uma sala de cinema. É uma prática de socialização. 

Agora vou filosofar um pouco, mas é realmente o que acredito. A tela do cinema é, literalmente, maior do que você. O indivíduo ali se torna submisso, você tem que parar e assistir, o cinema manda em você. Parando para pensar também, hoje nós temos tudo sob controle, ou ao menos tentamos controlar tudo, e os streamings facilitam isso, ali escolhemos um filme, inclusive, ficamos muito tempo tentando achar algo para assistir. Um monte de plataformas, catálogos infinitos, pause e play, enfim, tudo isso dá uma impressão de controle. 

O cinema é totalmente o contrário, se você não chegar no horário, você perde a sessão. Não dá para ir ao banheiro ou fazer um lanchinho e pausar o filme. Além disso, você também não escolhe o que vai assistir, tem ali mais ou menos quatro filmes por dia durante uma semana de exibição, e você tem que escolher entre eles, não é uma infinidade de opções igual aos streamings. Isso para mim, é o que diferencia. As pessoas vão continuar indo ao cinema, a experiência é outra e vale a pena. O cinema não vai morrer. 

LN: Inegavelmente, os cinemas de rua estão desaparecendo, as idas ao cinema diminuíram, a televisão e as plataformas de streamings tiveram e tem influência nisso. Como o Cine Cultura é afetado por esse desaparecimento e pela recente explosão dos streamings

Fabrício Cordeiro: É até um pouco engraçado porque o cinema sempre parece estar morrendo. Teve o auge nos anos 40 e 50, em seguida veio a televisão, depois o DVD, agora os streamings, além da pirataria também. Passa sempre essa impressão de estar em crise, mas acredito que, na verdade, fica mais forte, resiste. As grandes bilheterias continuam, o grande cinema industrial soube se adaptar e aqui não foi diferente. Os filmes independentes agora ganharam muito mais destaque justamente a partir dos streamings, muitas pessoas têm conhecido o cult, o cinema alternativo pelas plataformas. Mas o ponto é que as pessoas ainda querem assistir aqui, não é igual assistir em casa e assistir na nossa sala. 

Eu arrisco falar até que os streamings nos ajudam, as pessoas conhecem um filme em uma plataforma e quando exibimos aqui no Cine Cultura, elas vêm assistir. As pessoas vêm pela experiência, muitas vezes já até assistiram os filmes, mas mesmo assim querem ver na telona. 

O Cine Cultura é forte, ele resiste às mudanças e mudar também é bom.

Público

LN: Ingressos para cinemas convencionais são relativamente caros, o que acaba dificultando a ida das pessoas a esses locais. O Cine Cultura apresentar preços bem mais baixos e até mesmo sessões gratuitas é uma forma de atrair o público? Qual a importância desse movimento?

Fabrício Cordeiro: Certamente sim, os ingressos do Cine Cultura atraem o público por serem bem abaixo da média. Nas grandes redes, o ingresso pode chegar a 60 reais e as pessoas ainda lancham e passeiam nos shoppings. Enquanto aqui, temos uma única sala, ela é pequena e modesta, mas ainda sim tem todos os recursos de um cinema por apenas 10 reais. 

Isso é muito importante porque garante acessibilidade. Nem todo mundo conhece o circuito alternativo. Esse valor garante que as pessoas possam chegar até nós. Também temos sessões gratuitas e tudo isso ajuda a quebrar aquele estigma de que o cinema cult é elitizado e fechado em um nicho muito específico. As pessoas têm uma noção errada de que o alternativo é apenas para elites, porque normalmente esses grupos têm níveis mais altos de escolaridade e outros estigmas. Mas continua sendo um estigma, qualquer um pode consumir o cinema alternativo, basta ter acesso e querer conhecer, e aqui nós fazemos isso acontecer.

LN: Como incentivar as pessoas a frequentarem o Cine Cultura?

Fabrício Cordeiro: O incentivo tem que vir de duas frentes: políticas públicas e estímulos interpessoais. As políticas públicas devem ser voltadas para a acessibilidade dos ingressos, para a manutenção do espaço do cinema, para fazer festivais, mostras, incentivar a publicidade. Pode reparar que todos os blockbusters têm uma super publicidade, os estúdios gastam milhões divulgando os filmes, Avatar, Vingadores e outros estão aí mostrando que divulgação pesada é igual a bilheteria pesada. A divulgação e publicidade precisam ser pesadas. Então, isso também é uma alternativa para o cinema cultural. Depende do governo divulgar o Cine Cultura, mostrar para a população que aqui existe e que aqui tem muita cultura. 

Mas também não dá pra jogar tudo no governo, o incentivo tem que vir das próprias pessoas. Eu costumo falar que o boca-a-boca é o jeito que mais atrai pessoas para cá [Cine Cultura]. O estímulo acontece de pessoa para pessoa, alguém que conhece a nossa sala tem que olhar para um amigo em um barzinho, uma cafeteria, em qualquer lugar, e convidar para conhecer o espaço. Quantas bandas e livros a gente conhece por outras pessoas? Dessa mesma forma tem que ocorrer com o cinema cult. As pessoas virão para o Cine Cultura à medida que souberem daqui, esse é o caminho. 

Serviço

Endereço: Centro Cultural Marieta Telles Machado, Praça Doutor Pedro Ludovico Teixeira (Praça Cívica), n. 2. Setor Central, Goiânia, GO. CEP: 74003-010.

Funcionamento: De seg à sex, das 8h às 22h; sáb, dom e feriados, das 14h às 22h.

Ingressos: 10 reais a inteira, 5 reais a meia.

Programação: Consultar site do Cine Cultura.

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