Tempo de leitura: 10 min

O termo “nem-nem” é bastante popular no Brasil para adjetivar indivíduos que não estudam nem trabalham. Originado de expressão semelhante em espanhol (“ni-ni: ni estudan, ni trabajan”), o conceito é conhecido em toda a América Latina por sua carga ofensiva para todos que por ele são classificados.

Abrangendo jovens entre 18 e 24 anos, a denominada “geração nem-nem” tornou-se objeto de estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O relatório Education at a Glance, de 2022, apontou que, de um total de 37 países analisados – 34 membros da OCDE, além do Brasil, da África do Sul e da Argentina -, o Brasil é o segundo com a maior incidência de “jovens nem-nem”, ficando atrás somente da África do Sul.

A respeito do cenário regional, o Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos divulgou, também em 2022, que vem acontecendo uma queda no número de jovens em transição para o mercado de trabalho (termo preferível diante dos estereótipos) no Estado de Goiás. Contrariando o cenário nacional, com 20,9%, cerca de 18,3% dos jovens goianos entre 15 e 29 anos não possuem vínculo com nenhuma instituição de ensino e não estão registrados como trabalhadores formais.

Para entender mais a respeito dos motivos para que esse fenômeno se torne tão amplamente discutido em dias atuais, o LabNotícias (LN) entrevistou Adelayde Morais, psicóloga escolar e clínica que trabalha com crianças, adolescentes e adultos há cerca 20 anos.

Adelayde Morais possui uma empresa de assessoria e psicologia escolar, e trabalha com palestras, formação de professores e desenvolvimento de pessoas (Foto: Adelayde Morais/Arquivo pessoal)

Letícia Lourencetti (LN): No ano de 2022, o Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (IMB) realizou uma pesquisa a respeito de jovens que não estudam nem trabalham no Estado de Goiás, conhecidos popularmente como “nem-nem”. Os dados divulgados apontam que, ao contrário dos índices a nível nacional, houve uma queda no número de jovens entre 15 e 29 anos que não ingressaram no mercado de trabalho e nem possuem nenhum vínculo acadêmico com alguma instituição de ensino básico ou superior em Goiás. Então, na sua opinião, quais fatores contribuem para a existência desse grupo atualmente, mesmo que com menos indivíduos? É uma escolha ou existem outros fatores que influenciam?

Adelayde Morais: Posso citar a mudança no mercado de trabalho e as exigências feitas por ele. Essa geração precisa ter um outro tipo de habilidade, mais específica, para ingressar em um emprego. Em contrapartida, é uma geração que é um pouco mais empobrecida na questão do desenvolvimento dessas habilidades e, pode-se observar, até mesmo um pouco mais acomodada. Talvez pela forma de ser educada, pela forma de ser vista e recebida na família, essas pessoas podem ter a autoestima muito elevada e entendem que não precisam correr atrás dessas habilidades. E aí, quando chegam ao mercado de trabalho, elas veem ser exigida a inteligência emocional e essas habilidades de criatividade que não foram desenvolvidas. A partir daí vem a frustração, a ineficiência em lidar com autoridades, pouco desenvolvimento da relação interpessoal e, de fato, um empobrecimento das habilidades sociais no geral. O mercado de trabalho formal exige essas características e isso gera uma contradição nessa geração, eles muitas vezes não conseguem se manter no mercado. Então, o avanço das tecnologias, um mercado de trabalho mais refinado, mais exigente e mais concorrido demanda profissionais mais habilidosos, e eles, com esse perfil mais acomodado, sofrem com o esse impacto. Por isso tem dificuldades em se manter.

Em contrapartida, muitos deles se mostram muito resilientes e independentes, por isso estamos vendo esse boom de empreendedorismo, dessa visão empreendedora e inovadora que a juventude possui. E essa pode ser também uma das razões para essa redução dos índices, já que [os registros de quem trabalha por conta própria, sem carteira assinada] não são colocados no mercado de trabalho formal.

LN: Você mencionou a respeito da aprendizado de habilidades exigidas no mercado de trabalho. Sobre isso, no período anterior a essa fase de transição, durante o tempo de escolaridade básica, como está sendo essa questão educacional? Esse jovem vem recebendo apoio na escola?

Adelayde Morais: A gente tem passado por grandes transformações na educação. Acabamos de passar pelo momento da pandemia com um modelo de mudança forçada, por exemplo. Nós precisamos modificar muitos conteúdos, muitas formas de ensino no nosso modelo de educação tradicional. Porém, essa parada que a gente teve na pandemia fez com que alguns jovens, ao migrar para os modelos online, se acomodassem. E isso porque ficavam na sala de aula [online] com a câmera desligada, tinham fontes de pesquisa com o acesso muito mais fácil e não precisavam correr tanto atrás já que a sala de aula estava dentro de casa. Eles perderam muito em sua formação, perderam o propósito e isso desestimulou muito esses jovens. Então, a gente percebe como sendo consequência da pandemia, o próprio ensino está tendo que correr atrás, trazer novas estruturas de ensino que compensem o período da pandemia também. Toda a necessidade da estrutura da educação que já tinha que acompanhar a modernidade, ainda teve esse período de isolamento na pandemia. É preciso reestruturar. A educação precisa acompanhar a modernização da sociedade. Aos poucos conseguimos perceber essas mudanças acontecendo, como essas novas propostas para o ensino médio, por exemplo. Mas toda essa reestruturação demora muito para acontecer, então as gerações acabam sendo comprometidas por conta disso.

LN: Trazendo um pouco essa questão do convívio online, principalmente das redes sociais, muitos desses jovens tendam a se autodiagnosticar com transtornos psicológicos [baseando-se em relatos de outros usuários, que não são especialistas]. Isso tem causado até mesmo um fenômeno de “popularização” de transtornos. Você percebe, nesse sentido, alguma mudança nesse público? E, se for o caso, esse fenômeno dos transtornos psicológicos e redes sociais influencia nessa chamada “geração nem-nem”?

Adelayde Morais: Claro! A observação de transtornos cresceu significativamente. A entrada de uma pessoa no mercado de trabalho e o processo de aprendizagem dela, se ela não foi diagnosticada, não foi bem amparada, não houve o desenvolvimento das habilidades necessárias, ela vai enfrentar problemas no mercado de trabalho e também na permanência nesse emprego. Por exemplo, uma pessoa com TDAH [Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade] tem dificuldade de concentração, organização e planejamento. Então ela provavelmente vai ter dificuldade em se manter em um ambiente de trabalho, porque é mais forte a cobrança dessa produtividade. Todas essas ferramentas serão necessárias no mercado de trabalho, então ela vai deixar a desejar. Se ela não for estruturada, acolhida, acompanhada e não tem o desenvolvimento dessas habilidades, isso vai comprometer não só na entrada, mas na permanência no mercado de trabalho.

O excesso de informações [das redes sociais] às vezes atrapalha, mas também pode servir como alerta. Se a pessoa percebe que tem alguma característica desse transtorno e souber utilizar essa fonte de informação ao seu favor, ela vai se perceber e entender que precisa de ajuda naquele momento, e não vai guardar a informação para si, achando que consegue resolver aquilo ali sozinha. Então, se ela souber usar aquilo a favor, ela vai melhorar e vai conseguir uma melhor qualidade de vida. A informação pode ajudar muito como também pode atrapalhar, como você falou. Com o autodiagnóstico, a pessoa acha que consegue resolver aquilo ali sozinha e aí acaba atrapalhando também. Dessa forma pode demorar muito mais tempo para ela se conduzir e, consequentemente, entrar no mercado de trabalho como deveria. Além dos transtornos comportamentais, ainda tem o emocionais, é o que a gente pode falar, por exemplo, da depressão e da ansiedade. Essas questões também podem significativamente atrapalhar a permanência e a entrada no mercado de trabalho de qualquer pessoa, não só desses jovens. Uma pessoa extremamente ansiosa e com depressão, vai ter dificuldade em se inserir e permanecer em qualquer ambiente de trabalho.

LN: Aprofundando no amparo a esse jovens, como essa rede de apoio familiar influencia na mudança ou na permanência nesse cenário onde jovens não estudam e nem trabalham?

Adelayde Morais: A rede é todo um processo. A construção de como será esse jovem começa lá na infância. Como que ele é recebido, como é estimulado e recebe a criatividade, a autonomia, como todo o desenvolvimento das habilidades sociais dele é construído dentro do ambiente familiar. Então, o jovem-adulto que ele se torna faz parte da dinâmica familiar também. Toda essa rede de apoio conhecida vem sendo construída desde a infância. Quando ele chega na vida adulta e aí o pai e a mãe vão impor “agora você vai para o mercado de trabalho”, isso deveria ser construído desde a infância. Toda vez que você incentiva o seu filho, incentiva o seu adolescente a construir algo e fazer algo por ele de forma autônoma, você está incentivando esse jovem na sua iniciação em um emprego, futuramente.

LN: A respeito dessa queda nos índices de “nem-nem” no Estado de Goiás, você observa que existe alguma atitude correta que vem sendo tomada para a mudança desse cenário no Estado?

Adelayde Morais: Consigo ver a questão da educação mesmo. Escolas mais voltadas para o processo emocional, para o incentivo ao empreendedorismo, ao pensamento criativo. Também uma estrutura de relação, estrutura familiar. Uma cultura que incentive um ser mais ativo, um ser mais pensante, mais autônomo. Aí sim, a gente consegue uma sociedade que incentive a busca do primeiro emprego, a busca de outras oportunidades para esses jovens. Até mesmo um professor que incentiva. Então, para mim, existem três pontos: a família, a escola e a sociedade. São esses três pontos que fazem com que os jovens consigam ingressar e permanecer no mercado de trabalho.

LN: Qual seria o caminho daqui para frente? Quais medidas devem continuar sendo tomadas para que esses jovens consigam seguir tanto na vida acadêmica, quanto no mercado de trabalho com mais tranquilidade?

Adelayde Morais: As empresas podem incentivar esses jovens a ter mais qualificação, um salário mais compatível e com condições mais adequadas. E que esses jovens consigam entender que o caminho é esse. Não apenas ter esse vislumbre na vida de outras pessoas, mas em si mesmo. Que o jovem possa se perceber nas suas capacidades e, como eu falei, como um ser pensante, um ser interativo. Que ele consiga se reinventar, porque isso também é maravilhoso, esse crescimento pessoal que faz, também, com que ele seja um bom profissional.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *